Pensata | Caetano Galindo

Que ironia

A coluna Pensata abre espaço para que autores reflitam sobre um tema sugerido pela equipe do Cândido. Nesta edição, o tradutor Caetano Galindo comenta o ensaio “E unibus pluram: television and U.S. Fiction”, em que o escritor David Foster Wallace critica o uso da ironia na ficção e na publicidade.

Caetano Galindo

David Foster Wallace é associado a certos rótulos. E, como quase sempre, quase todos eles estão quase totalmente errados. Ou ao menos precisam ser devidamente relativizados. Uma das imagens ligadas a ele é a do paladino do combate à ironia, defensor da “sinceridade” contra as perversas hostes dos discursos tortos, que dizem o contrário do que pretendem.

Essa reputação advém especialmente da leitura de um seu ensaio gigantesco que originalmente ocupou mais de quarenta páginas de um número da Review of Contemporary Fiction, lá no longínquo ano da graça de 1993, quando eu estava entrando na faculdade. O texto se chama “E unibus pluram” [1]  e pretende anatomizar a relação de dependência que os Estados Unidos desenvolveram com a televisão, e especialmente com o tipo de ironia que a televisão de entre os anos 1960 e 1980 levou aos seus estágios mais avançados. Metaficção, autoconsciência, sarcasmo constante em relação a “valores” morais e exposição irônica das suas próprias posições (Se ele conhecesse a TV brasileira do período…) … Para Wallace, esse discurso, adotado por toda uma geração de artistas, acabava redundando num tipo de cinismo descolado, numa espécie de indiferença disfarçada de cool que, muito longe de ser tão refinada quanto se pretendia, era na verdade uma condenação: “A voz do prisioneiro que passou a gostar de sua jaula”, numa citação que ele empresta de Lewis Hyde.

Esse tipo de ironia tinha se tornado um caminho circular em que todos os presentes se uniam em sua unânime rejeição de tudo que não fosse cool, e acabavam por definir como cool precisamente essa atitude negativa, numa curiosa reprodução do paradoxo da adolescência (e não é à toa que esse índice de “imaturidade” acabe surgindo aqui), em que todos os indivíduos, em sua devoradora vontade de “diferir”, de se destacar de um sistema, acabam se tornando curiosamente reproduções de um mesmo modelo.

Nada mais velho que os modernosos. Nada mais acomodado que os revoltadinhos. Nada mais improdutivo que o destacamento blasé e pseudo-refinado que gera, no final, uma postura inimputável, que não afirma nada porque está apenas negando e acusando seus detratores de “não terem entendido nada”.

Até aí tudo bem. Mas veja que de saída ele está se colocando contra UM tipo de ironia. Contra um USO da ironia. Ele sabia muito bem, como fruto que era de todo o pós-modernismo americano, que a ironia era um instrumento poderoso demais para ser esquecido, e era uma característica central demais do discurso humano para ser “proibida”. Ele, como em tantas outras áreas, estava apenas interessado em pensar antes de usar, em questionar antes de se entregar a mecanismos simples e achatadores. Exatamente o contrário do que andaram às vezes fazendo com ele. E ele pensou. E como!

Sua produção literária posterior (em 1993 ele estava começando a escrever Graça infinita) exibe usos virtuosísticos de tudo quanto é viés, tom e matiz de discurso irônico. O que ele não se permite é justamente aquela atitude de se proteger por trás de um discurso que sempre pode argumentar que não disse o que disse. É nesse sentido que faz sentido sua luta pela “sinceridade”. Sua luta “contra a ironia”.

     Foto: Divulgação
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O escritor norte-americano David Foster Wallace (1962-2008) publicou — sem contar as obras póstumas — dois romances, três livros de contos e cinco coletâneas de ensaios. No Brasil, foram lançados Breves entrevistas com homens hediondos (contos, 2005), Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo (ensaios, 2012) e Graça infinita (romance, 2014).

Agora, de 1993 pra cá tem muito chão
Muita coisa mudou na paisagem cultural (inclusive graças ao impacto da obra de Wallace, seja sobre os leitores seja sobre outros escritores que esses leitores podem hoje admirar). Nós certamente não estamos mais assistindo ao mesmo tipo de televisão que ele descreve. E certamente não estamos mais produzindo o mesmo tipo de discursos.

Se você conhece um tantinho que seja de televisão e de publicidade (a área em que tudo isso se torna mais denso e, claro, mais perverso: dinheiro é dinheiro), pode imaginar que essas mudanças dos últimos 25 anos não terão sido univocamente na direção da “iluminação” e da sinceridade que Wallace parecia não defender, mas buscar para si próprio. A bem da verdade, a coisa mais pervertida que aconteceu nesse nível da cultura foi precisamente a reviravolta total: a apropriação pela publicidade, por exemplo, do discurso anti-irônico, pró-sincero, tocante e “simples”, reto e direto. Na primeira vez em que eu vi uma propaganda da Coca-Cola que falava das “pequenas felicidades da vida” como as únicas coisas que importam; a cada vez que vejo um anúncio de carros pregando simplicidade e autenticidade de valores eu penso que Wallace, afinal, foi derrotado. 

Não porque sua voz (e de tantos outros, claro) não tenha sido ouvida. Ela foi. Ela provinha de tendências que se fizeram sentir e marcaram seu tempo. Elas criaram o mundo hipster, no que ele tenha de falso e de real. Mas sim porque o mecanismo do capital, da indústria do entretenimento e da publicidade era ainda maior e mais poderoso do que ele supunha. Era capaz de engolir até seu discurso e soltar Coca-Cola.

Há esperança?

Claro.

Se você viu o último episódio da série Mad Men já entendeu tudo que eu queria dizer aqui com este texto. Aliás, aquele episódio tinha não poucas referências diretas a fatos de Graça infinita. E o futuro preconizado pelo sorriso final de Don Draper é, sim, cínico. Mas no mesmo ano em que vimos essa cena, o musical Hamilton estreava nos Estados Unidos. E lá se vê exatamente, no ataque à figura de Aaron Burr, uma outra reação, quando Alexander Hamilton lhe faz a pergunta que cabe fazer a todo ironista, e que tem todo o cheiro do discurso de Wallace: what’ll you fall for? Por que coisa você se sacrificaria?

E se você leu Karl Ove Knausgård, e sua obsessão de ir ao fundo, se leu Elena Ferrante, e entendeu sua postura filosófico-literária, exposta em Frantumaglia, sua preocupação com o desvelamento da “verdade”, sua clareza em usar a palavra “verdade” sem aspas, você pode entrever ainda outro caminho. Diverso do de Wallace, mas afiliado a ele precisamente por esse cordão feito da coragem de se expor ao sorriso enviesado dos ironistas “sofisticados”.


Caetano Galindo nasceu e vive em Curitiba. É professor no curso de Letras da Universidade Federal do Paraná, tradutor e escritor. Publicou o livro de contos Ensaio sobre o entendimento humano (2013) e Sim, eu digo sim — Uma visita guiada ao Ulysses de James Joyce (2016). Traduziu, entre vários outros, Graça infinita, de David Foster Wallace (2014) e Ulysses, de James Joyce (2012).  

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[1] Trechos do ensaio foram publicados no Brasil em 2010, na revista Serrote, em tradução de Sérgio Rodrigues.
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