Poemas | Luiza Mussnich

Começos

sabonetes 
filhotes 
relacionamentos: 
coisas que não deveriam ficar 
expostas ao tempo
o tabuleiro de xadrez da mesa da praça
continua


Círculo

estar sem óculos 
precisando dos óculos 
para pôr os óculos 
não encontrar os óculos 
quando está sem óculos 
porque está sem óculos 
para achar os óculos

Imperfeito

(para Victor Heringer)
poucas coisas doem 
tanto como precisar do pretérito imperfeito 
para se referir a alguém 
que gostaríamos que fosse 
sempre presente


15A

o mundo parece mais bem organizado 
de cima 
um homem bonito 
de longe

Geografia de um coala

(para Alexandre Gontijo)
há um homem que só poderia existir 
numa cidade 
como o Rio 
andando como se estivesse 
perdido 
tivesse perdido 
alguém de vista 
alguém sempre à vista 
sempre avistaremos você 
perdidos 
na próxima esquina

Fins

terminar um livro
um casamento 
onde estaria daqui a alguns anos 
o personagem 
o marido 
sobreviverá ele à estante 
às memórias 
o livro:
podemos reler. 


Fecho

fechar portas é diferente de fechar parênteses
e o livro?

Cacoete I

o jogador chuta 
olha 
para a rede 
depois de lançar 
a bola 
aponta para as câmeras
grita alguma coisa 
faz o balancinho com as mãos 
abraça o centro avante que fez o passe 
depois os companheiros 
leva as mãos à cabeça
tiro 
de meta
merda


Cacoete II

o goleiro olha
para trás 
depois de perder a bola 
de vista 
para ter certeza de que foi para fora 
bateu no travessão 
passou por cima do gol
balançou a rede 
olhos fechados com força 


Luiza Mussnich nasceu em 1991, no Rio de Janeiro. É autora dos livros de poesia Microscópio (2017) e Lágrimas não caem no espaço (2018). Os poemas desta série serão publicados ainda este ano pela editora 7Letras em Telescópio.
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