Romance | Edilson Pereira

O absurdo também faz parte da vida


        Ilustração: Theo Tavares/Thapcom
1

O sujeito veio em sua direção e ele foi direto ao assunto:

“E aí, meu chapa, qual é a tua?”

O sujeito estancou assustado:

“Qual é a minha? Como qual é a minha?”

“Você me segue há cinco dias.”

“Exatamente. Eu o sigo há cinco dias.”

“Eu percebi.”

“Percebeu e não disse nada.”

Aquilo ficava surrealista. E o sujeito não tinha cara de Salvador Dali. Se parecia com alguém, ele diria que era com o Moe Howard. O grande Moe Howard.

Ele indagou:

“O que eu deveria dizer?”

“Você deveria parar e falar comigo, porra!”

“Estou falando agora.”

“E demorou. Além disso, está falando e não me reconhece.”

Ele era um pateta que não reconhecia Moe Howard.

“Eu sou o Taquinho!”

Taquinho? Quem era Taquinho? Ele não se lembrava de Taquinho. E nem de Tacão. Na realidade, a memória dele não andava boa, por mais que se esforçasse, não encontrava nenhum Taco no seu passado. O sujeito indignado na frente dele por ele não reconhecer o Taquinho, que poderia ser Tacão com aquela altura, aquele terno escuro e expressão severa. Não ia adiantar se esforçar o resto da manhã.

“Eu não recordo de você.”

“Você não é o Homero?”

Pronto. Se sabia o nome dele, era alguém que o conhecera. Mas alguém que ele não lembrava.

“Sou.”

“Sou o Taquinho do Vital Brasil, porra!”

Taquinho do Vital Brasil. Ele recordou vagamente que conheceu um sujeito chamado Eustáquio, em 1970. Era orador do grêmio estudantil do Vital Brasil. Ambos foram para um congresso de estudantes em Guarapuava. Ele se lembrava vagamente. Agora fazia sentido. O véu difuso da memória descerrou:

“Eustáquio?”

O rosto do cara se iluminou:

“Lembrou?”

“Claro, o Taquinho do Vital Brasil. Como pude me esquecer?”

Ele não recordava o apelido do sujeito porque ninguém o chamava de Taquinho naquele tempo ou se o chamasse nunca o chamava perto dele. Quer dizer, ele também recordava vagamente que aquele sujeito era o Eustáquio. Mas quando ele disse Vital Brasil, num estalo o nome Eustáquio veio à memória, como poderia não ter vindo. A única coisa que recordava do sujeito era que foram juntos para um congresso estudantil, daqueles permitidos pelos militares porque não se fazia nada a não ser paquerar moças bonitas que disputavam um concurso de rainha de estudantes e fazer discursos inócuos elogiando pessoas inócuas, além de beber muito e cometer algumas sandices. Eustáquio, o orador. Só podia ser ele. Vangloriava-se de ter vencido concursos de oratória por onde andou e com sua voz empolada angariou um círculo de amizades na semana em que ficaram em Guarapuava, porque os bajulados ficavam encantados e convidavam Eustáquio e seus amigos — aí ele entrou na história — para almoçar e jantar em suas casas, onde eles comiam bem e bebiam até ficarem bêbados. À noite iam para uma boate ou clube noturno chamado Nova York ou coisa parecida e jogavam boliche até meia-noite. Os mais espertos arrastavam uma garota ingênua e embriagada para um hotel e não dormiam no alojamento. Homero não era tão esperto e ia dormir bêbado no alojamento. O certo é que quando terminou o colegial eles não se encontraram mais. Agora, 40 anos depois, o sujeito estava na sua frente, cobrando uma atenção como se fossem os maiores amigos do mundo.

“E aí, rapaz, como vão as coisas?”

Homero apertou a mão do sujeito enquanto o rosto dele se desmanchava num sorriso.

“Meu camarada, há quanto tempo?”

Eustáquio contou que fez um monte de coisas nas últimas quatro décadas. Tentou ganhar dinheiro em Rondônia nos anos setenta, mas ganhou malária que quase o matou. Depois a família foi para Goiás trabalhar com cereais e lá ganhou dinheiro como caixeiro viajante até um dia a mulher o abandonar, deixando os filhos para ele criar. A mulher foi para os Estados Unidos com um locutor de rádio de Goiânia. No meio da maior crise de sua vida, Eustáquio se encontrou com o Senhor numa cidade chamada Cristalina, no interior de Goiás, uma cidade cheia de pedras semipreciosas.

“Senhor? Que Senhor?” 

“Jesus, cara. Jesus.”

As pessoas encontram Jesus em todos os lugares. Mas o que Jesus fazia em Cristalina? Ele não ia perguntar. Era indiscrição. Eustáquio prosseguiu. Disse que Jesus mandou-o voltar para a cidade do Paraná de onde saiu e ele devia fundar uma igreja. Foi o que Eustáquio fez. Até ali era a história de mais um sujeito que resolveu fundar uma igreja. Era coisa comum naqueles dias. Homero ficou intrigado com o tom usado por Eustáquio, não era o de um beato, mas de um caixeiro viajante que venceu a grande aposta:

“Minha vida mudou. Estou rico.”

Ficar rico é o desejo de grande parte da humanidade. Riqueza compra conforto e qualidade, mulheres bonitas e mansões; põe o sujeito na ponta da pirâmide social; o cara é respeitado e em muitos casos as pessoas trabalham para ele. Não precisa fazer muita coisa a não ser continuar rico. Ser rico é um negócio bom e por isto Homero não se espantaria com a ênfase de Eustáquio se fosse outro ramo de negócio: mas, não fazia muito sentido botar uma igreja para ficar rico. Ou fazia? Eustáquio continuou falando de sua epopeia espiritual e financeira enquanto Homero recordava de o outro ser um rapaz de origem pobre. Aliás, no tempo em que foram jovens, os filhos de famílias abastadas não estudavam no Colégio Vital Brasil. Para pessoas que foram pobres, moravam em bairros pobres, havia um significado intraduzível na metamorfose social que se chamava ficar rico.  

Eustáquio continuou a enaltecer o seu feito:

“Que coisa! Andei meio mundo para ficar rico no lugar em que nasci e passei a infância e juventude: na Vila Morangueira.”

O que ele podia dizer?

“Ser rico é um bom negócio.”

Eustáquio não gostou da falta de entusiasmo. Mas como Homero podia se entusiasmar se quem ficou rico foi o outro? Eustáquio disse, para ele entender como era forte o seu empreendimento:

“Eu sou dono de uma igreja.”

“Você pegou uma franquia?”

O segmento religioso tinha destas coisas. Novas seitas eram fundadas e o sujeito que fundava criava uma espécie de franquia, fornecendo as características visuais do templo, certa decoração e arquitetura, além dos livros básicos e a linha teológica a ser adotada. O outro pegava tudo pronto. O dono da franquia também treinava o sujeito para a tarefa. O resto era cativar o cliente e administrar o ambiente. Era um pacote fornecido em troca do repasse de vinte por cento da arrecadação mensal do templo e garantia de não haver concorrência num raio de mil metros. No começo, o dono da franquia investia uma grana para o negócio deslanchar. E quando deslanchava, o franqueado pagava o investimento, os juros de praxe e a cota mensal. Era um bom negócio para as duas partes.

“Criei a minha própria igreja Godislove.” 

“God is love?” 

“Exatamente. Mas se escreve tudo junto.” 

“Godislove.” 

“Exatamente.” 

“Este é um ramo de crescimento excepcional nos últimos tempos.” 

“Coisa de louco! Coisa de louco! Você não imagina como é grande a demanda pelo Senhor. Não tenho do que reclamar.”  

Homero já ficava impaciente com aquela conversa estranha, quando Eustáquio perguntou:

“O que você faz na vida?” 

Ele não gostava de dizer o que fazia da vida. Não estava rico se era o que o outro queria saber: 

“Eu me aposentei.” 

“Ainda é tempo de ficar rico.” 

“Como?” 

“Eu quero abrir novas igrejas. Eu te dou todo apoio. Você é bom de oratória. E tem um aspecto respeitável. O resto a gente contorna.” 

Aquilo era absurdo. Mas o absurdo também faz parte da vida.

“Não sei. Acho que não tenho jeito para a coisa.” 

“Eu também achava. Até encontrar Jesus.” 

“Mas aí eu vou ter que me encontrar com Ele?”

“Não se preocupe. Venha comigo que eu te apresento. Ele é um cara bacana.”

“Eu vou pensar no assunto. Qualquer coisa eu te procuro.” 

Eustáquio enfiou a mão do bolso do paletó e tirou um cartão de visitas e entregou para ele. Homero leu: Igreja Godislove. Tudo junto, como Eustáquio dissera. Embaixo: Bispo-Diretor-Presidente Eustáquio Washington Soares. Homero nunca ia se lembrar daquele Washington Soares. Ele guardou o cartão, enquanto perguntava:

“Então você já é bispo?” 

“Claro. É preciso uma hierarquia.” 

Fazia sentido. O outro esticou a mão direita de novo e apertou a mão dele enquanto dizia: 

“Desculpe ter seguido você, mas foi necessário.” 

“Não tem importância.” 

“Seja bem-vindo,meu irmão!”

“Obrigado.”

Enquanto o outro se afastava, Homero ficou pensando o que levava um sujeito a segui-lo por cinco dias apenas para contar tudo aquilo. Talvez fosse uma forma de dizer para alguém que conhecia, passar uma mensagem do tipo, “sabe, aquele cara pobre e fodido que você conheceu há muito tempo, hoje está rico. E você, seu babaca, você continua pobre. Aliás, te dou a chance de ser meu empregado”. Fosse isso ou outra coisa o certo era que Homero não tinha nada com os negócios de Eustáquio. E não ia dar um pulo na igreja dele embora o nome dela fosse simpático e agradável aos ouvidos. No final, pensou Homero, Eustáquio não sabia, mas era apenas um pateta como muitos outros. Com a diferença de ter ficado rico. Com aquele terno, a única coisa que o distinguia de Moe Howard eram os cabelos brancos. Mas, Moe Howard quando envelheceu também ficou de cabelos brancos.


Edilson Pereira nasceu em Oriente (SP) em março de 1952. Desde 1997 está radicado em Curitiba (PR). Trabalhou nos jornais Diário do Norte do Paraná, Folha de Londrina, O Estado do Paraná e Tribuna do Paraná. Publicou oito livros, entre os quais a antologia de contos Uma profissão tão antiga quanto a tua e o romance A garota da cidade. O texto publicado nesta edição faz parte do romance A velha cidade perdida, que será publicado em 2019. 
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