Pensata | Antonio Carlos Secchin

Em torno do verso

A coluna Pensata abre espaço para que autores reflitam sobre um tema sugerido pela equipe do Cândido. Nesta edição, o poeta e crítico Antonio Carlos Secchin discute sobre a viabilidade ou não de qualquer um escrever e publicar poesia e, ainda, se não há verso livre demais sendo praticado e publicado pelos poetas brasileiros contemporâneos. 

Antonio Carlos Secchin

Em 1980, Carlos Drummond de Andrade publicou A paixão medida. Valho-me desse belo título para tecer algumas considerações sobre o verso. De certo modo, podemos considerar o poema como a prática de uma “paixão” que, simultaneamente, se insere em alguma “medida”, algum andamento rítmico que lhe dá força e expressão.

Um dos maiores equívocos que se perpetuam, inclusive em salas de aula universitárias, é o de que, em contraposição ao verso tradicional, o livre não tem métrica! Ora, a métrica é exatamente o que define o verso, em oposição à prosa, cujo limite é estabelecido pela mancha tipográfica do fim de uma linha, e não pelo recorte (rítmico) arbitrado pelo poeta. O que se pode dizer é que o verso livre não apresenta métrica regular, constante, mas nunca que prescinde de alguma “medida”, sem o quê não seria verso. Sem falar, ainda, em certos experimentos do final do século XIX/ início do XX, quando poetas, desejosos de ampliar os horizontes expressivos do poema, porém sem atingir o patamar do verso livre, valeram-se da forma intermediária dos “versos polimétricos”, que rompiam a rígida simetria dos predecessores ao mesclarem medidas diversas num mesmo texto, respeitando, porém, alguns parâmetros de regularidade na elaboração de seus desvios: por exemplo: submissão das métricas ao limite infranqueável de doze sílabas; manutenção de um modelo reiterativo de variação métrica ao longo do texto, cerceando a livre expansão do verso.

Outro equívoco, ainda mais rudimentar, consiste em definir verso livre a partir da inexistência da rima. Ora, verso livre é matéria estritamente rítmica, conforme assinalamos, sem nada a ver com a questão eufônica da rima. O verso sem rima é denominado “branco”, e é de prática antiquíssima. Vide, em nossas letras, O Uraguai (1769), de Basílio da Gama, em decassílabos brancos. Como, porém, a dupla “métrica/rima” costumava vir unida, tomou-se uma coisa pela outra, na errônea concepção de verso livre pelo viés da rima.  
                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Foto: Reprodução
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Na literatura brasileira, a atribuição do pioneirismo no emprego do verso livre é assunto controverso. O simbolista Mário Pederneiras é o nome mais citado, embora antes dele os hoje também ignorados Guerra-Duval e Alberto Ramos (sob o pseudônimo de Marcos de Castro) tenham praticado a modalidade — que se consolidou, de fato, na década de 1920, após a Semana de Arte Moderna de 1922.

É inegável a fecunda contribuição, o sopro renovador do verso livre contra o engessado domínio do sub-Parnasianismo que entre nós grassava nos primeiros anos do século passado. A consideração, todavia, deve ser matizada, pois não é a utilização (ou a recusa) de um recurso em si que irá previamente assegurar a qualidade de um texto. Ao romper as barreiras da métrica regular, o verso livre forneceu a (falsa) perspectiva de um facilitário irrestrito: bastava alguém não saber metrificar para dizer-se poeta. Algo bem diverso da simples ignorância do verso tradicional foi sua superação por parte de quem o dominava com maestria — e a obra de Manuel Bandeira é cabal demonstração do fenômeno: partiu do exercício inicial com formas consolidadas para o extraordinário versilibrismo de Libertinagem, de 1930. Sem nos esquecermos de grandes poetas que trilharam o caminho inverso: Jorge de Lima, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, partidários do verso livre na década modernista, retornaram à “paixão medida” cerca de 20 anos depois. Muitos críticos, inclusive, consideram que nessa prática se inscreve o que de melhor Drummond produziu, em Claro enigma, de 1951.

Deve-se evitar o erro de considerar o verso livre necessariamente superior ao metricamente regular, legislando-se ditatorialmente em nome da liberdade. Onde o poeta colhe seus melhores resultados, aí reside o efetivo espaço de sua manifestação criadora. O cerceamento por barreira voluntária às vezes é combustível que faz girar a máquina poética. Em prol da hegemonia do verso livre, recalca-se, por exemplo, o fato de que quase toda a obra de um dos maiores poetas brasileiros do século XX, João Cabral de Melo Neto, é pautada pela observância de métrica e rima regulares. Se, de um lado, a rima restringe o universo vocabular, de outro, exatamente por isso, pode conduzir a imagens inesperadas, que, sem ela, provavelmente jamais ocorreriam ao poeta.

Um renomado e talentoso escritor contemporâneo, tentando menosprezar certa visão do poema, declarou que não lhe interessava a poesia como “caixinha de sonoridades”. Retomemos a imagem. Sim, em geral pela curta extensão, o poema é uma “caixinha”, mas que pode conter todas as sonoridades, não apenas as que os caciques designam como “poeticamente corretas”. Sim, que nela caibam todos os ritmos, os regulares, os não regulares, as rimas, as não rimas, as dissonâncias, as eufonias. Caixinha que condensa a linguagem em seu estado de máxima potência: para essa vocação talvez sirva a poesia, que não se deixa capturar em nenhuma fórmula de modelo ou de antimodelo.


Antonio Carlos Secchin nasceu no Rio de Janeiro, em 1952. Doutor em letras e professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, desde 2004 ocupa a cadeira 19 da Academia Brasileira de Letras. Poeta e ensaísta, Secchin publicou, entre outras obras, João Cabral: a poesia do menos (1985) e Todos os ventos (poemas reunidos, 2002, ganhador dos Prêmios da ABL, da Biblioteca Nacional e do Pen Clube). Com a obra Desdizer, lançada ano passado, o autor voltou à poesia 15 anos após a publicação de Todos os ventos
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