Ficção | Vilma Arêas

Vestidos de palha

Totó me olhou com aqueles doces olhos de andorinha e me disse: “Pode me chamar de Antonio”
Frederico Fellini

A respeito dele podemos retomar o que presumimos do universo: quando e de que forma surgiu? À primeira vista ambos parecem eternos. A ponderação é de Jean Clair: o primeiro primata a se pôr de pé, ousando se erguer sobre as patas e controlando a vertigem, foi o primeiro saltimbanco. Começava aí a aventura de nos equilibramos precariamente, percorrendo “o fio invisível” da existência.

Séculos depois, no teatro popular napolitano, ele se vestia da fazenda de forrar colchões de palha. Parecia mesmo um saco de palha. Parecia qualquer coisa, menos um homem. Seria um bicho?

Fellini pelo menos afirma que Carlitos era um gato feliz que sacudia os ombros e ia embora. E que Totó era algo natural e completo, talvez outro gato. Ou um morcego.

Parece até que nunca foram homens. Quem disse que palhaços têm sexo? Não, senhor, não têm. Não cabem nessa saia justa. São inocentes. Só por isso já fazem rir. Ao mesmo tempo são mais do que isso. Certamente resultantes de uma longuíssima sedimentação. Mal comparando, é o que acontece com as pedras, dentro das minas ou rente ao chão dos desertos.

Duros como elas, pois costumam treinar o corpo desde pequenos, engambelando a fome. Nisso se assemelham também aos pobres coitados, que se enfiam indiferentes em qualquer roupa velha a seu alcance. Em casos extremos se enrolam nesses cobertores baratos, cinzentos, tristíssimos e transparentes. Embora pareçam, não são palhaços profissionais, estes sim, que fingem não ligar para nada, aos pulos e rindo muito. Quem não gosta? 

Palmas. Palmas.

Apesar da maquiagem extravagante, pincelando narizes de batata, piruetas tronchas e saltos mortais, eles acabam fazendo a maldade brotar no palco como uma fonte. Como água pura dentro dos olhos.

As crianças a princípio nunca se enganam com essa parafernália, se assustam, têm medo e choram. Até ficarem definitivamente hipnotizadas pela ilusão.

Agora um detalhe bem chato: desde a comédia antiga a cólera desaba sobre eles, como se fossem meros escravos vestidos de palha. Mas será mentira? O que vemos é que a despeito de sua mortal fadiga, são ameaçados constantemente com o pau-de-arara, com os açoites, com a crucificação, com a cabeça besuntada de piche e levada ao fogo.

— Vou terminar meus dias numa cruz, onde seguirei o destino de meus ancestrais, pai, avô, bisavô, lamentou-se Céledro, um tipo ordinário.

Mas, por favor, é melhor parar com detalhes, quem vai levar essa choradeira a sério? Esses olhos doces, de mel? Quanto exagero! Chamem depressa aquela andorinha.

 Mas é que, pensando bem, não nos interessamos jamais por um desespero sem pedigree. 

Mesmo observando a resistência do palhaço em cena (não importa quantas vezes um homem é derrubado, pois ele se levanta etc), mesmo assim somos fiéis à nostalgia do herói trágico, votado por definição à morte. Lágrimas correm, os lencinhos se afobam, olhos parecem ceifados como flores. Também bigodões são arrancados, colares ou cabeleiras, nos retratos travestidos dos palcos.

Palmas. Palmas.

(Ao saber da traição do tio naquela tragédia célebre, o Príncipe só pôde gemer “Oh, minha alma profética”. Pois de súbito compreendia, pedindo ao próprio coração que se detivesse, que um canalha podia levar a vida a sorrir.) 

Ah, mas é melhor virar a página. Ninguém duvida que as histórias possíveis viraram frangalhos à custa da mera repetição. Sem relatos de bordo, com o sumiço das caixas pretas, frequentemente escolhemos o consolo da obscenidade, essa coisinha vulgar e gastro-sexual. Por isso podemos relaxar e afirmar tranquilos, entre duas gargalhadas e um requebro, que os obscenos vão bem, obrigado. Muito bem mesmo. Prazer violento no reino da incoerência.

(De repente parece que falta um pouco de ar.)

Mas olhe lá, não perca: Fellini surge pela última vez, afastando com dois dedos a cortina prateada dos aplausos. Silêncio profundo. Ele declara que entre todas as formas de espetáculo, a comédia é a que mais se avizinha da poesia. 

Como assim, meu leviano?

É, sim. A comédia faz uma releitura dos sentimentos e mostra claramente que a natureza não é natural. 

Neste momento preciso, como qualquer animal ameaçado, o homem mostra as presas. Ri.

Palmas. Palmas.

Esta comédia sem remorsos assegura total impunidade a quem nos roubar de todos os nossos pertences: o teto sobre nossas cabeças debaixo do Minhocão, um nome ou uma criança acabada de nascer. A onipotência plena da máscara surge na linha do horizonte como a lua vermelha, poluída do veneno das cidades.

Chega. Abandonemos enfim a lengalenga: na curva do texto derrapamos em nossa precariedade histórica.

Isso ocorre frequentemente em Shakespeare, quando a máscara do bufão cai de súbito e olhamos diretamente no rosto de um escravo batido e ridicularizado. 


Vilma Arêas  nasceu em Campos dos Goytacazes (RJ) e vive em São Paulo (SP). É professora titular de literatura brasileira na Unicamp. Estreou na ficção com Partidas (contos, 1976). Seus livros Aos trancos e relâmpagos (literatura infantil, 1988) e A terceira perna (contos, 1992) ganharam o prêmio Jabuti. Em 2005, Clarice Lispector com a ponta dos dedos (ensaio) recebeu o prêmio APCA na categoria literatura. O mais recente livro da autora é Um beijo por mês, lançado este ano.
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