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Literatura pop brasileira — sucesso e contrassenso

Televisão, consumo, cinema, quadrinhos, videogame e musica pop passaram a fazer parte de narrativas criadas por escritores nacionais. A geração 2000 trouxe referências que assimilaram o popular à linguagem literária, dando origem a livros que ajudaram a diversificar a ficção do país 

Santiago Nazarian

"Jovem, tatuado, redator de disk-sexo e ganhou um prêmio de literatura.” Essa era a manchete de uma das primeiras matérias sobre meu trabalho como escritor, num jornal de grande circulação.

O ano era 2003, e eu tinha a sorte de fazer parte da nova geração de autores do começo do milênio, que encontrava na internet novas formas de divulgação e novas possibilidades de publicação.

Naqueles tempos, da internet 1.0, a comunicação era basicamente escrita, ainda não se tinha a capacidade de áudio e vídeo que se tem hoje; e assim surgia uma nova leva de escritores que, pela primeira vez, podia formar um público sem precisar de uma grande editora por trás. Esses “jovens tatuados” vinham com novos temas, novas estéticas, aproximando a literatura de uma linguagem mais jovem e urbana. 

Estabelecia-se assim a literatura pop brasileira. 

O termo “literatura pop” é controverso e de definição imprecisa — se não conseguimos definir nem o que seria “literatura”... —, e muitas vezes é falsamente compreendido como uma literatura mais rasa, de fácil assimilação ou apelo popular. Eu mesmo fiquei um tanto incomodado com o rótulo de “escritor pop” que me foi dado por críticos bem-intencionados como Beatriz Resende, nesse início de carreira. Levaria tempo (e maturidade) para eu assumir a veia (com Mastigando humanos, meu quarto livro).  
                                                                                                                                                                                                                                                                                      Fotos: Reprodução
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A escritora Ana Paula Maia, que este ano lançou seu sétimo livro, Enterre seus mortos, começou a publicar pela Coleção Rocinante, da editora 7Letras. 

Novidade no começo dos 2000, levaria tempo também para o pop conquistar seu devido espaço na ficção literária — e mesmo hoje talvez ainda enfrente resistências. O que é popular não pode ser erudito. E o que não é erudito não pode ser levado a sério pela crítica.

“A palavra popular já é complexa. Quando se fala em pop, então, é mais difícil ainda de saber sobre o quê estamos falando. Pop pode ser sinônimo de ‘muderninha’, de pós-moderna (no sentido de romper as barreiras entre o popular e o erudito), de estilo que leva em conta as influências midiáticas, de uma literatura jovial e livre das amarras beletristas, de autores que se interessam em atingir um público mais amplo, e por aí vai. Então, antes de tudo é preciso saber do que se fala quando se fala de literatura pop”, diz Cristiane Costa, crítica literária, escritora e professora da UFRJ.

Fronteira tênue
É curioso notar como essa separação entre cultura pop e alta cultura no Brasil não é exclusividade da literatura. No cinema ou na música também sempre houve uma separação do que era produto de massa, comercial e o que era a produção intelectual (uma fronteira que não é tão definida em países anglófilos, por exemplo).

“É uma fronteira muito tênue”, afirma o crítico musical Mauro Ferreira. “Porque alguns compositores da MPB volta e meia flertam intencionalmente com o pop, notadamente Caetano e Gil, arquitetos da Tropicália. Um cantor de MPB pode soar pop. No entanto, ele sempre terá uma obra ‘sofisticada’ que o põe em patamar superior daqueles que fazem música pop por não terem outra opção. Mas ressalto que, alguns, como Chico Buarque e Edu Lobo, nunca tentaram uma aproximação com o universo pop.” Ferreira acrescenta: “Mesmo que esses compositores já tenham perdido o elo com o chamado ‹povão›, continuam sendo referenciais justamente pela sofisticação. A música pop, por mais que seja bem feita, tende a ser mais simples, justamente para facilitar a assimilação popular. Pop, afinal, vem de popular. Daí o abismo.”  

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O gaúcho Antônio Xerxenesky mistura referências de cinema e música em suas narrativas. No livro F, o cineasta Orson Welles está no centro da trama. 

Na literatura, o rótulo se torna mais nebuloso, uma vez que associar o termo “popular” a um livro soa meio paradoxal num país de não-leitores. A literatura pop — mais do que popular ou do “povão” — é aquela que se apropria de elementos da cultura popular, o que não necessariamente faz dela mais acessível à grande massa. 

Se houve grandes êxitos editoriais com certa carga pop ainda nos anos 1980, com autores como Marcelo Rubens Paiva, Márcia Denser e Caio Fernando Abreu, foi no início dos 2000 que a literatura pop se estabeleceu de vez, com essa nova geração de autores que trazia o pop não apenas na escrita, mas na postura e interação com o público.

Como exemplo, apesar da carga cinematográfica de sua obra, Marçal Aquino é um autor de sucesso, de uma geração anterior, que não se reconhece como parte do “movimento”.  

“Não estou certo de que o trânsito por gêneros tenha, de alguma maneira, trazido um caráter pop para o que escrevo. Lembro que, na década de 1970, quando me formei como leitor e escritor, que foram anos de muita literatura engajada e alegórica, o único que se assumia como escritor pop era o mineiro Roberto Drummond, autor de livros como A morte de D.J. em Paris e Sangue de Coca-Cola.” (Drummond curiosamente morreu em 2002, quando a “geração pop” começava a arregaçar as mangas).  

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Influências
A consolidação do pop na liter tura brasileira é fruto de um contexto que começou com o fim da censura, a abertura política (o fim da ditadura) e culminou com a ampliação de voz dos jovens escritores pela internet. 

Uma das pioneiras da “Geração Zero Zero”, a gaúcha Clara Averbuck (que antes assinava como Clarah, com “H” no final) começou a divulgar sua escrita na virada do século através do fanzine eletrônico (via e-mail) CardosOnline, de onde vieram outros auto - res reconhecidos, como Daniel Galera e Daniel Pellizzari. O fanzine com base em Porto Alegre foi um marco dessa nova literatura, utilizando da ferramenta tecnológica para alcançar horizontes bem maiores do que as tradicionais publicações xeroca das. Clara migrou em seguida para um blog próprio (Brazileira Preta), formato que também era novidade, e atingiu uma febre de acessos para os padrões da época (na casa dos milhares; nada comparado aos milhões que hoje têm os youtubers). Isso atraiu os olhos da editora Conrad — mais conhecida pelas HQs, que já havia publicado o jovem André Takeda, com o romance Clube dos corações solitários, que tem seu título tirado da música dos Beatles (“Sgt. Pepper’s”). O primeiro livro de Clara, Máquina de Pinball, também já trazia carga pop no próprio título e era dedicado, entre outros, “Aos Strokes” (banda nova-iorquina de rock que despontava na época). Ela era uma menina tatuada, que interagia com os fãs pelas redes sociais (e pelos bares) e falava a língua deles. “O leitor quer mais é se identificar com a obra”, diz ela.

A saga de Clara acabou virando filme: Nome próprio, dirigido por Murilo Salles, com Leandra Leal no papel principal. Curioso que se pretendia um retrato atualíssimo de uma geração, mas pela lentidão da produção cinematográfica brasileira acabou sendo lançado apenas em 2008. Então, a realidade da internet (discada) que retratava já estava ultrapassada, o que, se não comprometeu a qualidade artística da obra, a tornou um filme de época. 

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Autor de romances policiais, Raphael Montes situa suas tramas no Rio de Janeiro contemporâneo porque acha “interessante que um livro seja um registro daquele tempo em que se passa a história.”

Antes de Clara, Fernanda Young foi uma espécie de precursora dessa linguagem pop. Vinda da televisão, ela já era roteirista de sucesso da Rede Globo, com “Os Normais”, quando publicou seu primeiro romance, Vergonha dos pés, em 1996. Ela também era uma “jovem tatuada”, que incorporava muito da carga pop e televisiva em seus textos. 

“Eu não venho de uma família letrada”, confessa. “As minhas referências são da cultura pop — da televisão, Chico Anísio, Dias Gomes, Casal 20, As Panteras” (risos). “Mas isso não quer dizer que eu faça uma escrita fácil.”

Young sentiu a desconfiança do meio “literato” por conta da carga televisiva de sua obra, mas não renega o rótulo de literatura pop. “Até porque tenho aí mais de vinte anos como escritora, não sou uma moda passageira. Só que desde pequena tive de fazer outros trabalhos para poder fazer literatura, não viver de literatura.”

Mesmo um dos autores mais respeitados e premiados surgidos na geração dos 2000, Daniel Galera, no começo de carreira sentiu na pele preconceito por incorporar elementos da cultura pop em sua obra, como os videogames. Ainda assim, ele não se considera restrito ao rótulo: “Entendo literatura pop como aquela na qual as referências à cultura pop são parte essencial do estilo e da narrativa, como o uso de canções pop como indício dos sentimentos dos personagens e condução da história. Outra coisa é a referência ocasional, realista, ao consumo da cultura pop por parte das pessoas. Isso não transforma um livro em literatura pop, é apenas uma questão de verossimilhança”, diz. “Não há como narrar realisticamente os tempos atuais sem incluir em alguma medida a cultura pop, a publicidade, as marcas, etc.”

Popstar
Apesar do preconceito dos literatos, a ebulição dessa nova geração no começo dos anos 2000 alimentou e foi alimentada por todo um novo cenário, com o surgimento de sites de literatura (Paralelos, Portal Literal, Cronópios) e os festivais literários, como a FLIP (inaugurada em 2003) e todos os outros acrônimos. Nesse contexto, exercitava-se a figura do escritor como uma espécie de “popstar”, muito para horror dos acadêmicos e a velha guarda em geral. 

As editoras embarcaram. No Rio, a 7Letras garimpou bem a nova produção, lançando autores excelentes com sua Coleção Rocinante. Muitos viriam a se consolidar no cenário literário, alguns arcando com parte dos custos dessas publicações de estreia. Veronica Stigger, Julián Fuks, Carola Saavedra, Ana Paula Maia foram alguns nomes da coleção. Isso se seguiu em editoras maiores. Na Planeta, que chegava ao Brasil em 2003, o editor Paulo Roberto Pires começou um catálogo de literatura brasileira com novíssimos, como João Paulo Cuenca, Joca Terron, a própria Clara e eu (ambos tivemos nossos segundos romances lançados pelo grupo espanhol em 2004). A Rocco criou um selo específico, o “Safra XXI” (cuja logo trazia um bebê de moicano punk), exatamente para englobar essa literatura (nacional e estrangeira) “urbana, contemporânea, que não se encaixava nos padrões tradicionais”, lembra Amanda Orlando, à época editora do selo na Rocco (hoje trabalha na Globolivros). “Eram livros com referências que remetiam muito à TV, à internet”, diz ela.

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Roteirista de TV, Fernanda Young incorpora em sua prosa a cultura pop que a formou como escritora. 

Porém a euforia com essa nova geração foi morrendo no final da década. As editoras percebiam que esses novos autores não vendiam tanto assim — consumia-se mais a imagem do escritor do que sua obra. Na crise do jornalismo, os cadernos literários também foram sendo extintos. E com a internet se tornando multimídia foram surgindo outras ondas — primeiro de novas bandas, depois de “videomakers” (os já citados youtubers). 

Hoje, me parece que os elementos da cultura pop já estão incorporados na literatura brasileira. Afinal, os autores que cresceram mergulhados na cultura dos anos 1980 e 1990 já estão com 40, 50 anos, já são “tiozões”, como eu. O “escritor tatuado” não soa mais como oximoro, porque toda uma geração foi tatuada. Entretanto, a separação entre literatura popular e “alta literatura” permanece, principalmente na literatura de gênero — fantasia, terror, chic-lit —, que se encaixa no guarda-chuva maior de literatura pop e enfrenta suas resistências.

Sucesso entre adolescentes e jovens adultos, a carioca Tammy Luciano faz uma literatura açucarada, com títulos como Sonhei que amava você e Diário do amor desenfreado. Tammy aceita o rótulo de autora pop, mas rechaça a divisão entre literatura acessível e “alta literatura”: “Eu acabo trazendo referências pop ao meu trabalho, falando de filmes, músicas e acho que o que me enquadra no pop é minha fala sobre o mundo atual. Carrego muito da vida urbana no que escrevo, mas não me preocupo com esse rótulo. Penso que quanto mais a gente classifica a literatura, mais difícil é atingir a massa. Eu sempre penso na enorme quantidade de gente que não tem o livro em sua rotina. O Brasil não valoriza seus escritores, apoia pontualmente em Bienais, eventos, mas na vida cotidiana não somos lembrados. Luto por isso, para que mais pessoas lembrem da gente, para o livro ser um objeto de desejo regular. Não fico pensando se sou alta ou baixa literatura. Isso é um pensamento pequeno.”

Gêneros
Outro autor da nova geração que flerta com o pop é o gaúcho Antônio Xerxenesky, um dos eleitos pela revista britânica Granta entre “os melhores jovens escritores brasileiros”. Seus romances trazem elementos de faroeste, de terror e apocalipse zumbi. “Minha escrita encontra-se num limiar. Assimilo características típicas da literatura de gênero, mas acabo subvertendo convenções e experimentando com a linguagem. Como resultado, às vezes pessoas que amam literatura de gênero se frustram com os meus livros. Costumo dizer que escrevo falso terror, falso policial, falso western. Como leitor, minhas principais influências são do alto modernismo europeu, mas sou uma pessoa que cresceu (e ainda convive) com videogames e filmes de gênero. A minha escrita reflete esses gostos diversificados.” 

Assim como Tammy, Xerxenesky contesta a separação entre níveis de literatura. “É possível fazer alta literatura com elementos pop e há provas abundantes disso. O vencedor do Nobel Kazuo Ishiguro publicou uma ficção científica (Não me abandone jamais) e um livro de fantasia (O gigante enterrado). Mas, para além disso, acho que as fronteiras entre ‘alta’ e ‘baixa’ literatura se dissolveram e precisam ser repensadas.”

Na literatura policial, Raphael Montes é um autor surgido nesta década, que conseguiu enorme destaque entre leitores, aliando uma prosa afiada a uma ótima comunicação com os leitores e grande investimento de sua editora, a Companhia das Letras. Ele questiona a intersecção entre literatura de gênero e literatura pop:.

“A meu ver, são ideias bem distintas. A ‘literatura de gênero’ é aquela criada a partir de certos preceitos básicos que constituem o gênero (um crime e uma investigação, na literatura policial; algo de sobrenatural e assustador na literatura de terror; um par romântico nos livros chick-lit). Não sei qual a definição exata de ‘literatura pop’, mas me parece ser aquela que dialoga com seu tempo, dando voz a personagens ‘reais’, que vivem no mundo de hoje e, por isso, assistem a filmes de diretores contemporâneos, escutam álbuns recentes, se relacionam e se comunicam da maneira como fazemos hoje, através de redes sociais e celulares.”

Ainda assim, Montes se vê identifica com a literatura pop. “Em geral, minhas histórias se passam nos dias de hoje, no Rio de Janeiro, com personagens jovens e adultos. Por isso, quando escrevo, busco mimetizar essa realidade: o que esses personagens escutam? Do que eles gostam? O que eles fazem quando chegam em casa depois de um dia de trabalho? Não é ‘para ser pop’ que escrevo que o personagem se joga no sofá e liga a Netflix. Simplesmente, é assim que acontece hoje em dia. Não me preocupo de ficar datado. Penso que é interessante que um livro seja um registro daquele tempo em que se passa a história.”

Como para estabelecer a literatura pop de vez no cenário literário, este ano a Editora Seguinte (selo mais comercial da Companhia das Letras) criou na cidade de São Paulo a FLIPOP, um “festival de literatura pop focado nos leitores”, com palestras sobre literatura de humor, LGBT, dicas de escrita, etc. A curadoria do festival parece ter tomado o termo “pop” ainda como sinônimo de “literatura jovem” o que, se limita o alcance, dá uma sobrevida a um rótulo que já pertence ao século passado.
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