Reportagem | Itiban

Santuário das HQs

Com quase 30 anos de existência, a curitibana Itiban Comic Shop é uma das principais lojas especializadas em Histórias em Quadrinhos do país. Apesar da tradição e da valorização do gênero no mercado editorial, o espaço luta para se manter vivo em meio à crise das plataformas impressas e da concorrência com grandes sites de venda

Daniel Tozzi

       Fotos: Kraw Penas
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Atualmente localizada na Avenida Silva Jardim, a Itiban se notabilizou pelos lançamentos e bate-papos com autores realizados no espaço

A capital paranaense abriga, desde 1989, uma das primeiras lojas especializadas em HQs do Brasil. Ao longo das décadas, a Itiban Comic Shop tornou-se um lugar incontornável para consumidores de quadrinhos na cidade — além de parada obrigatória de artistas locais ou que estão de passagem por Curitiba.

Mas em 2019, a icônica loja, que nos anos 1990 conquistou o “Troféu HQmix” (espécie de “Oscar” do universo HQ no Brasil) na categoria de melhor ponto de vendas, pode encerrar as atividades. De acordo com a proprietária, Mitie Taketani, o público da Itiban, diminuiu consideravelmente. Para ela, a crise econômica e a do mercado editorial no país, instaurada a partir de 2013, além da entrada de grupos como a Amazon no mercado, contribuíram para a diminuição do público no espaço.

“Não sabemos se vamos chegar aos 30 anos em 2019. A ideia é tentar resistir, mas como resistência mesmo, porque, se colocar no papel, não temos mais como sobreviver”, diz Mitie. Segundo ela, as vendas da Itiban hoje representam cerca de 40% do que se comercializava há seis anos.

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Mitie e Thamyris Taketani: paixão pelos quadrinhos passou de mãe para filha

Coração pulsante
Frequentador assíduo da loja quando adolescente, DW Ribatski, hoje ilustrador e quadrinista, não hesita ao afirmar que a Itiban, além de fundamental para sua formação, é, ainda hoje, a melhor loja de quadrinhos do Brasil. “Eu costumava desenhar umas 15 cópias de uma HQ e levar na Itiban, que era o único lugar para vender para pessoas que não fossem nossos amigos”, conta.

Para ele, o aspecto mais valioso do espaço é a concentração de pessoas que se interessam pela contracultura de Curitiba, ou que são de fora e passam por lá. “A Itiban sempre esteve do lado dos artistas”, comenta Ribatski, autor, entre outras, das HQs Campo em branco (2013) e Como na quinta série (2012).  

Assim como Ribatski, o artista José Aguiar é uma das “crias” da Itiban. Ele praticamente foi iniciado no universo HQ através do acervo da loja. De acordo com Aguiar, os eventos organizados no local, como lançamentos, debates e palestras fizeram do espaço um dos “corações pulsantes” de Curitiba quando o assunto é Histórias em Quadrinhos.

“Minha relação com a loja é bastante afetiva e começou na adolescência. Era o único lugar onde se podia encontrar HQs importadas na cidade”, lembra Aguiar, que é organizador de uma obra inédita que refaz o percurso de artistas gráficos em Curitiba e será lançada ainda em 2018 pela Biblioteca Pública do Paraná.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                               Foto: Reprodução
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Os artistas Daniel Barbosa, Rafael Sica e Guilherme Caldas em debate promovido pela Itiban

Crise
A situação da Itiban contrasta com um período em que há presença cada vez maior das HQs no cenário literário e cultural do país. Em 2017, por exemplo, o prêmio Jabuti de literatura incluiu uma categoria específica para premiar Histórias em Quadrinhos lançadas no país.

Para além do mero entretenimento — os mangás e super-heróis, claro, continuam sendo sucesso — as HQs também ganharam novo status nos últimos anos, discutindo temas plurais, como guerras, racismo, escravidão, imigração e preconceito. “Acho esse o grande lance deste século: a possibilidade de você se encontrar em diversas histórias e criar pontes com outras culturas e outras problemáticas”, reflete Mitie.

Para ela, mesmo com uma produção, em tese, cada vez maior de HQs no Brasil, o grande problema hoje é a desvalorização da cultura e do livro de uma forma geral — o que inclui aí o papel dos governos.

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Fanzines, quadrinhos nacionais e HQs importadas fazem parte do acervo da Itiban

Quadrinhos, uma paixão
Os proprietários da Itiban, o casal Francisco Utrabo e Mitie Taketani, se conheceram na cidade de São Paulo na década de 1980, período em que compartilhavam gostos semelhantes alinhados à cultura pop. Na época, Mitie era dançarina e Utrabo seguia carreira na música como guitarrista da banda Máquina Zero, que tentava a sorte na capital paulista.

A abertura de um comércio especializado em quadrinhos (algo, à época, senão inexistente, bastante raro) foi a aventura escolhida pelo casal ao se mudar para a capital paranaense, cidade de origem da família de Utrabo.

Empreitada que Mitie faz questão de relativizar. “Não vejo grande coisa nesse sentimento de pioneirismo. A gente trabalhou com tanta naturalidade que nunca pensamos nessas bandeiras, como a de sermos pioneiros”, afirma.

Mas, de fato, a “aventura” teve, em seu início, ares intrépidos. “No começo não tínhamos nem telefone. Eu fazia os pedidos por fax e tinha que ir até a casa da minha sogra para usar o aparelho”, lembra Mitie, comentando que a cena HQ do final da década de 1980 no país contribuiu para o crescimento da loja, ao se referir às produções de nomes como Laerte, Angeli, Glauco e Fernando Gonzales.

“Pegamos a fase áurea dos quadrinhos, um boom de produção nacional com essa geração do humor, onde existia muita liberdade, força criativa e independência”, explica a proprietária da loja, que também cita a revista Animal, bastante popular na época por publicar o trabalho de ilustradores europeus, como fundamental para a popularização das Histórias em Quadrinhos no país.

Além disso, havia uma crescente produção de fanzines no Brasil recém democrático da virada dos anos 1980 para os 1990, o que também impulsionou a popularização de espaços como a Itiban. “O cenário de fanzines estava muito forte, e essa ideia do ‘faça você mesmo’ era muito presente na época e sempre teve espaço com a gente”, relata Mitie. 
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