Poesia | Ana Martins Marques

Retratos

Mancha do mundo
modo de ver por empréstimo
lixo de viagens
testemunho do fato (de que se tirou uma foto)
retrato de um modo de ver uma coisa
semelhança por contágio
paralisia da paisagem
armadilha para prender um pássaro no voo
forma de bifurcar uma pessoa
maneira de formar famílias
meio pelo qual o pôr do sol se arruinou
modo de deter a queda sem salvar o que cai
método rápido de fabricar passados
culto ao deus do detalhe
nos cartões postais, o avesso da escrita
nos documentos, aquilo com que nos devemos parecer
dispositivo que dá margens ao mar
guerra ao fato de termos um único rosto
parentes portáteis
com o advento do digital, aquilo de que nossas gavetas estão vazias
modo prático de acondicionar os mortos

*

Entra na terra estrangeira onde nascente
a casa antiga está aí recém-construída
o amigo morto acaba de se casar
e seu filho com quem já não falas
aí não sabe ainda falar de todo
é verão neste velho álbum
e as gerações como um rio atravessam
de um rosto a outro
aí tua namorada antiga numa camisa branca
está sorrindo, amassada nas bordas
e a tua mãe antes de o ser
fuma seriamente com as pernas cortadas
e o teu pai, sério e jovem e fora de foco,
segura orgulhoso um peixe
prateado e imóvel
aí ninguém morreu ainda a própria morte
exceto o peixe prateado e imóvel
ele sim o foco da fotografia

*

Dois corpos não podem ocupar
o mesmo lugar no espaço
mas dois eventos sim podem ocorrer
ao mesmo tempo no mesmo lugar
por exemplo a gaivota que num mergulho
captura um peixe prateado
e é ela mesma então capturada
na fotografia
enquanto logo ao lado
fora do quadro
contra o fundo azul do céu
o menino negro salta da pedra
ao mar nesta foto
não tirada

*

Poupou-nos das fotografias
como se nos poupasse, assim,
da morte
coice de cavalo
tombo na rua
rápida guilhotina.
Outros, decapitados,
amputados de pernas, pés
ou apenas privados da paisagem
encarcerados em retângulos
estreitos como celas
esperam.
Nós, ao contrário,
fomos poupados.
Fomos poupados
e não nos sentamos todos de um só lado da mesa
como numa última ceia
não abraçamos parentes que mal conhecíamos
não sorrimos sem vontade.
Fomos poupados
e não existimos mais naquele dia.
Fomos poupados
embora também sobre nós
o tempo tenha deixado cair
sua mão pesada.

*

Entra no álbum antigo como no leito de um rio
e sai dele diferente e deixa-o diferente dele
e sai sujo de árvores e paisagens e cidades
e esfrega os olhos com as costas das mãos para livrar-se das imagens 


Ana Martins Marques nasceu em 1977, em Belo Horizonte. Graduada em Letras, tem doutorado em literatura comparada pela UFMG. É autora de A vida submarina, Da arte das armadilhas (vencedor do Prêmio Biblioteca Nacional em 2012) e O livro das semelhanças.
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