Prêmio Paraná de Literatura | Romance

Conto a serviço do romance

Daniel Tozzi

Ganhar prêmio literário não é novidade para Lourenço Cazarré. O autor de Kzar Alexander, o louco de Pelotas, obra vencedora do Prêmio Paraná de Literatura de 2018 na categoria Romance, ostenta uma sólida carreira como escritor. Com mais de 35 livros lançados, entre novelas juvenis, contos e romances, o gaúcho de 65 anos já conquistou, entre outros, o Jabuti, em 1998 (com seu romance infantojuvenil Nadando contra a morte), e o prêmio Nestlé de Literatura Brasileira em duas oportunidades (em 1982 com o romance O caleidoscópio e a ampulheta e em 1984 com a coletânea de contos Enfeitiçados todos nós).

Para o autor, Kzar Alexander, o louco de Pelotas pode ser definido como um livro “sobre a paixão alucinada de um homem pela literatura”. O romance nasceu a partir de contos que Cazarré começou a escrever na década de 1990, mas que, de acordo com o autor, não possuíam o mínimo traço de unidade entre as histórias. “Daí a ideia de criar um professor enlouquecido que imagina uma oficina literária para contistas”, observa o escritor sobre o personagem central de seu romance. 

Cazarré salienta ainda que, no momento da inscrição no Prêmio Paraná, sua obra não estava totalmente pronta: “Nos últimos cinco anos o livro passou por uma dezena de revisões, até ser colhido em pleno voo pelo concurso”. Apesar do caráter “em construção” da obra, o trio de jurados que avaliou os romances inscritos no Prêmio — composto por Carola Saavedra, Luiz Antonio de Assis Brasil e Oscar Nakasato — selecionou Kzar Alexander, o louco de Pelotas entre os mais de 500 concorrentes na categoria. “O valor de um concurso é avaliado pelo gabarito do júri e por isso fico feliz pelo reconhecimento”, diz.

Leia abaixo o início do romance Kzar Alexander, o louco de Pelotas.

      Foto: Juliano Cazarré
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Lourenço Cazarré construiu um romance com muito humor e que celebra o conto em Kzar Alexander, o louco de Pelotas, livro vencedor do Prêmio Paraná de Literatura 2018. 


Capítulo inicial

Começa aqui a aula sem fim do Ateliê Livre de Iniciação Literária Embaixador Machado de Assis, obviamente sem prazo para encerramento, a ser ministrada pelo senhor professor doutor César Alexandre Sampaio de Cazeneuve e Honorato-Guimarães, conhecido escritor de histórias curtas e pedagogo de escol, no âmbito modesto do nosso município, sob inspiração dos seus mentores espirituais: o senhor doutor Anton Tchecov, o senhor conde Leão e aquele maluco narigudo chamado Gogol.

E mais tarde, muitas vezes em sua vida, Acáqui estremeceria ao perceber o quanto há de desumano no ser humano, quanta grosseria feroz existe às escondidas num ambiente culto, requintado e, meu Deus!, até naquelas pessoas que a sociedade reconhece como nobres e honradas.

A referida aula (na verdade, um curso intensivo) terá, em tese, como objetivo, na sua parte teórica, apresentar aos alunos participantes os mais significativos fragmentos da literatura mundial (contos) de modo que componham (os referidos fragmentos) um vasto painel da e(in)volução da escrita em todas as terras e tempos.

Janeiro do mesmo ano, que veio depois de fevereiro.

Até hoje não consigo entender que espécie de país é a Espanha... Hoje me rasparam a cabeça, embora eu gritasse com todas as forças que não queria ser monge.

Revolucionária, essa iniciativa pedagógico-artística que capitaneamos possibilitará (quem sabe?) a confecção, em sala de aula, pelos alunos, de um volume narrativo que, quase certamente, virá a ser uma fulgurante obra-prima literária que, num futuro não afasta18 do, causará furor de fruição gozosa em dimensão planetária. Entre os espíritos esclarecidos, claro.

Participarão do mencionado curso os mais diversos e vários narradores, fictícios ou não, concupiscentes ou castos, jovens ou idosos, machos ou fêmeas, praticantes das mais diferentes profissões, escolhidos entre os que aqui se encontram.

Daremos a essas pessoas, esperamos nós, a oportunidade ímpar de se tornarem os laboriosos artesãos literários dos quais tanto necessita esta sofisticada e culta cidade.

O facilitador dessa aula magna, o mestre no dizer arcaico, serei eu, ojá mencionado nobre senhor Czar Alexander, reputado criador de textos breves, que, ao longo dos últimos três decênios, dei a lume (luminoso arcaísmo) cerca de sessenta narrativas curtas, enfeixadas em cinco coletâneas publicadas por três humílimas (mas conceituadas) editoras desta urbe.

— Foi o senhor que se dignou a perder seu nariz? 

— Eu mesmo. 

— Ele foi encontrado... Foi apanhado quando já estava quase tomando a diligência para Riga.

O fato mais extraordinário do nosso curso-lição será, sem dúvida, a presença, não física, impalpável, como professores auxiliares, de três cidadãos reconhecidos mundialmente na cena literária: Anton Pavlovitch Tchecov, Liev ou Lev ou Leão Nicolaiévitch Tolstói e Nicolau Vassiliévitch Gogol. Ipsis verbis. Per saecula saeculorum.


LOURENÇO CAZARRÉ é gaúcho, jornalista formado pela Universidade Católica de Pelotas e reside em Brasília desde 1977. Autor de 35 livros, entre coletâneas de contos, novelas juvenis, peças de teatro e romances. Estava nascendo o dia em que conheceriam o mar (2011) e Os filhos do deserto combatem na solidão (2017) são suas publicações mais recentes.
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