Entrevista | Leonardo Padura

O tempo de Leonardo Padura

         Fotos: Divulgação
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Uma pessoa que enfim se reconhece como homossexual, uma virgem negra desaparecida, a pobreza de Havana, o tráfico de drogas, o contrabando de obras de arte, a opulência de muitos dos que lidam com essa arte, viagens pela História, a guerra civil espanhola, a Idade Média... Todos esses elementos estão presentes em A transparência do tempo, novo romance do cubano Leonardo Padura, que acaba de sair pela Boitempo Editorial. Na obra, acompanhamos mais uma vez Mario Conde, detetive que protagoniza boa parte dos títulos do autor e que agora beira os 60 anos.

Rodrigo Casarin

Conde estreou na literatura em 1991, em Passado perfeito, quando tanto criador quanto criatura estavam ali com seus 35 anos e Padura dava os primeiros passos como escritor publicado. “É mentira que, se somos mais velhos, somos mais sábios. Se somos mais velhos, apenas somos mais velhos, nos cansamos mais, não vemos bem, esquecemos das coisas”, diz o escritor, hoje com 63 anos, na entrevista concedida ao Cândido. No papo, também fala sobre a sua carreira: “Ser escritor profissional é um privilégio em qualquer parte do mundo, eu consegui e não posso desperdiçar essa maravilhosa possibilidade”.

Como o título entrega, a passagem do tempo é uma das marcas do novo romance, que, esteticamente, segue o estilo apurado do autor, exigindo plena imersão do leitor no texto. “Escrevo para um leitor não somente atento, mas também inteligente, e, por sorte, esse leitor existe e alguns deles gostam dos meus livros. Não posso baixar minhas expectativas e intenções ao nível de um leitor apressado ou superficial.”

Outra marca cara a Padura que encontramos em seu novo trabalho são as viagens pela história, algo também presente, por exemplo, em O homem que amava os cachorros (2009), seu livro mais famoso, um improvável best-seller no Brasil e em boa parte da América Latina. “Acredito que o romance nasce justamente dessa obsessão que me persegue por tentar entender como podem ser as relações do homem com a História, do homem que às vezes até chega a pensar que escreve a História, quando, na verdade, é a História que quase sempre escreve as nossas vidas”, comenta ao falar sobre a origem de A transparência do tempo, para depois retomar o assunto: “Nós escritores somos seres cheios de obsessões e a História é uma das minhas. A História vista de uma perspectiva dramática, não científica”.

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Uma pessoa que enfim se reconhece como homossexual, uma Virgem negra desaparecida, a pobreza de Havana, o tráfico de drogas, o contrabando de obras de arte, a opulência de muitos dos que lidam com essa arte, viagens através da História… Como surgiu a ideia central de A transparência do tempo e como foi construir a narrativa desse seu novo livro?
As ideias de onde surgem os livros são, para mim, um dos grandes mistérios do meu trabalho: podem vir de uma leitura, de uma imagem, de uma obsessão. Acredito que o romance nasce justamente dessa obsessão que me persegue por tentar entender como podem ser as relações do homem com a História, do homem que às vezes até chega a pensar que escreve a História, quando, na verdade, é a História que quase sempre escreve as nossas vidas. Tudo começou com isso, e como o romance é um sistema aberto, ao qual se pode colocar — se deve colocar — muitas sementes para que cresça e se desenvolva, peguei a imagem das velhas virgens negras, coloquei em um contexto cubano contemporâneo e tudo começou a enredar-se, ou a ficar mais claro, não sei, até tomar a forma desse romance que terminei anos depois.

“Seu avô Rufino não era um velho quando, aos sessenta anos, o levava às rinhas da cidade e arredores e lhe ensinava as artes e manhas da briga de galos? Por acaso não chamavam Hemingway de Velho já uns anos antes do suicídio, aos sessenta e três? E Trotski não era O Velho quando aos sessenta e dois Ramón Mercader lhe abriu o crânio ao meio com uma stalinista e proletária picareta?” O trecho está em A transparência do tempo e no mesmo parágrafo Conde constata que “estava apenas se transformando num velho de merda”. Como foi ver seu personagem chegar nessa fase? O que isso implicou na hora de construir a narrativa?
O tempo não melhora muitas coisas, dentre elas o físico dos indivíduos e também a mente. É mentira que, se somos mais velhos, somos mais sá- bios. Se somos mais velhos, apenas somos mais velhos, nos cansamos mais, não vemos bem, esquecemos das coisas e, por outro lado, ficamos nostálgicos e pensamos que quando éramos jovens as coisas poderiam ter sido melhores. Mas, além disso, se você se sente derrotado pela História, como acontece com Conde e com muitos de sua geração, isso é ainda pior. Nesse romance tive que levar em conta tudo o que aconteceu anteriormente. Um homem de quase 60 anos é muito diferente de um de 35, a idade que Conde tinha quando comecei a escrever os primeiros romances que ele protagonizou. Talvez por isso este livro tenha um toque de agonia, de algo que se acaba, de um tempo que não se pode recuperar, que se repete e que sempre termina nos esmagando.

O detetive Mario Conde apareceu em Passado perfeito, de 1991, protagonizou boa parte de seus livros e agora está à frente de A transparência do tempo. Olhando para os diferentes momentos de Conde em sua literatura, quanto ele se transformou num parceiro para que você explore e entenda a sociedade cubana, ao mesmo tempo que a apresenta aos seus leitores?
Conde não mudou muito ao longo dos anos. Ser fiel a si mesmo é parte de suas características, e ser um pouco conservador é parte de seus defeitos. Mas tantas coisas mudam ao seu redor que sua relação com o mundo e consigo mesmo também mudaram. A realidade cubana de 1989, a de Passado perfeito, é muito diferente da de 2014, em A transparência do tempo. Entre um momento e outro, diversas novas páginas da história universal foram escritas e da cubana também: as tremendas crises dos anos 1990, as mudanças sociais e econômicas de todos esses anos, a saída do poder e, logo na sequência, a morte de Fidel Castro. Enfim, todos esses acontecimentos de alguma forma afetaram a vida cubana e, claro, a vida de um Conde que é cada vez mais nostálgico e pessimista, mais cansado fisicamente e historicamente.

O próprio título do seu novo livro, A transparência do tempo, já evidencia que estamos diante de um romance que abordará como o passar dos anos pode ser implacável. Hoje você está com 63 anos: a passagem do tempo é algo que lhe incomoda? O que essa transparência da passagem do seu próprio tempo já lhe revelou?
Bom, acho que lido melhor com o tempo do que o Mario Conde. Faço exercícios todos os dias, só tomo vinho quando me reúno com amigos, fumo menos que dez cigarros por dia e escrevo todas as manhãs ao longo de cinco ou seis horas. Estou em forma e, como acontece para se jogar xadrez profissionalmente, esta condição física é muito importante para o escritor, principalmente para o romancista, que trabalha com algo que pode lhe consumir por três, quatro, cinco anos. O romance é uma corrida de fundo, que exige capacidades físicas e mentais. Eu acredito que ainda tenho muitas coisas para dizer, com Mario Conde e a atual realidade cubana, ou sem esse personagem, como é o caso do romance em que estou trabalhando agora: uma história sobre a diáspora cubana da minha geração, a diáspora que se vive em Cuba a partir da década de 1990, quando come- çam as crises econômicas do país. É um romance em que passo por diversos lugares (Miami, Madrid, Buenos Aires) e que alterno o protagonismo entre vários personagens mais ou menos próximos de mim e de outras pessoas também cubanas que conheço e que viveram e vivem o drama que o exílio sempre representa. Ou seja, tenho uns 63 anos bem ativos e, creio, com minhas capacidades literárias bem-dispostas. Mario Conde não aparece nesse romance, mas ele não está morto, claro que não. Ainda voltará e percorrerá comigo as ruas da Havana de 2018, de 2020 — e espero que muitos anos mais. Definitivamente, Conde é a minha melhor maneira de ver e buscar entender os ritmos da vida cubana.

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Em O homem que amava os cachorros você passa por um momento importante da história do século XX. Em Hereges temos a Holanda de Rembrandt, no século XVII. Em A transparência do tempo, a guerra civil espanhola e a Idade Média. Por que essa opção por estar constantemente construindo suas narrativas comum pé no passado — um passado, em alguns casos, um tanto remoto? 
Como disse, nós escritores somos seres cheios de obsessões e a História é uma das minhas. A História vista de uma perspectiva dramática, e não científica, como a encararia um historiador. No passado eu encontro comportamentos, processos, conjunturas que me servem para iluminar duas coisas: as eternas atitudes da condição humana e os reflexos que me permitem clarear e entender melhor o presente. A História, para mim, não é um acúmulo de acontecimentos, mas uma despensa de acontecimentos que, encarados a partir da nossa perspectiva, permitem-nos entender melhor a nós mesmos, inclusive saber por que somos como somos, por exemplo. Saber que sempre nós, homens, temos sido bastante estúpidos, não?

Você comumente cita a dificuldade de se obter livros em Cuba e o próprio Conde atua nesse mercado regido pela escassez. Sendo assim, como é para você pesquisar sobre assuntos históricos? E como era antes de você ser um escritor que viaja o mundo, quando o regime era mais fechado e não havia internet?
Sempre pude viajar para onde se podia viajar, inclusive agora só viajo para onde quero, pois preciso recusar muitos convites para ter tempo para a parte mais importante do meu trabalho, que é a escrita. É certo que muita gente em Cuba não pôde viajar quando quis por conta de leis regulatórias, mas também é preciso admitir que muita gente se moveu com relativa facilidade e que muitas vezes as dificuldades eram impostas — e são impostas — por alguns consulados que devem nos conceder os vistos. A internet é um problema diferente, ainda que tenha a mesma origem. Hoje, em Cuba, ainda que tenha havido uma grande abertura, o acesso à internet é complicado e, sobretudo, muito caro para a maioria das pessoas, ainda que uma quantidade enorme de gente passe diversas horas do dia conectada, navegando, visitando o Facebook. Em meu caso, é claro que foi complicado realizar certas pesquisas, mas isso nunca me deteve. Igual aos livros que não conseguia em Cuba: sempre havia alguma forma de acessá-los. Eu os buscava e depois escrevia.

Mario Conde já foi parar até na Netflix com a série Quatro Estações em Havana, lançada no final de 2016, que adaptou quatro de seus livros protagonizados pelo personagem. Como foi escrever o roteiro dessa série?
Bem, a série não é da Netflix. É de uma produtora espanhola chamada Tornasol Films. Netflix foi só a plataforma que até agora, creio, não pagou nada pela exibição da série para mim e para a minha esposa, Lucía, pelos roteiros, e a mim, como autor dos livros em que a série se baseia. O mais difícil do trabalho foi dar o salto mortal entre a literatura e o cinema, que sempre é tremendo, pois são dois meios artísticos diferentes. Mas parece que foi bem e se fala de possíveis novas temporadas (produzidas pela mesma empresa espanhola), mas não acredito que repita a experiência de escrever roteiros. Quero dedicar meu tempo à literatura, na qual tenho todas as liberdades, e não ao trabalho para o cinema, que é somente um serviço para alguns produtores e um diretor, que sempre têm a última palavra, ainda que o roteiro seja o que decide, desde o começo, a qualidade de um filme.

Conde vive com a Lixeira II em A transparência do tempo. Em O homem que amava os cachorros, temos uma importante presença de cães. Já aqui em casa, comumente leio com uma poodle e um vira-lata dormindo nos meus pés. A presença dos cachorros em suas obras de alguma forma reflete a importância desses animais em sua vida?
Claro, eu sou um amante dos cachorros. Desde que nasci, vivo rodeado por cachorros, alguns deles inesquecíveis para mim. Contudo, agora não tenho cães. Tenho dois gatos que vão e vêm. O problema é que eu e minha mulher passamos tanto tempo fora que ter um cachorro seria muito complicado, pois são animais que se tornam muito dependentes e sofrem muito quando não estão com seus donos. 

Seus livros são complexos: a narrativa não é linear, seus parágrafos são longos, suas construções são sofisticadas. É impossível lê-lo sem estar completamente atento ao texto. Por que a opção por uma forma que exige bastante do leitor? Num mundo com pessoas que se concentram cada vez menos em uma única tarefa, isso pode lhe ser um adversário ou um aliado um tanto provocativo?
Escrevo para um leitor não somente atento, mas também inteligente, e, por sorte, esse leitor existe e alguns deles gostam dos meus livros. Não posso baixar minhas expectativas e intenções ao nível de um leitor apressado ou superficial, por isso coloco armadilhas na leitura dos meus romances. Troco os tempos, os cenários, os personagens, inclusive o sentido dos argumentos, troco até a linguagem, e a resposta que tenho tido sempre é positiva. As pessoas podem ser mais bobas do que parecem, mas também mais inteligentes. E esses gostam que os provoquem, que os desafiem, enquanto eu gosto de provocar como escritor.

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O homem que amava os cachorros, publicado em 2009, fez um sucesso estrondoso. Aqui no Brasil, vendeu mais de 50 mil cópias, número impressionante para um livro de literatura, e se tornou um romance venerado por muitos leitores. Qual é a sua relação com esse título hoje? Qual é o peso dele na sua obra e na sua carreira?
O que aconteceu com O homem que amava os cachorros me assombra, pois é um dos meus romances de leitura mais densa e complicada. Não só no Brasil, mas em muitos cantos, especialmente na América Latina, ele encontrou uma quantidade assombrosa de leitores. É um romance que marcou o topo da minha difusão internacional, me levou a muitos leitores e, creio, abriu caminho até prêmios muito importantes, como o Nacional de Literatura de Cuba, o Roger Caillois, da França, e o Princesa das Astúrias, da Espanha. Alguns amigos dizem que com esse livro me coloquei num patamar muito alto, que não voltarei a alcançar, e a verdade é que isso não me preocupa. Cada vez que escrevo um romance, escrevo o melhor romance que sou capaz de escrever — e se não é o melhor, não é por falta de esforços, mas de talento. 

Aliás, você já releu O homem que amava os cachorros
Não, não me releio, a menos que precise fazer algum trabalho para o cinema. Creio que devo ler tantas vezes um livro antes de considerá- -lo pronto, que não me sobre nenhuma vontade de voltar a lê-lo. E, além disso, o que posso fazer depois que já foi publicado?

Há alguns anos uma nova fase tinha se desenhado para Cuba: Fidel Castro havia passado o comando do país para seu irmão, Raúl, e as relações com os Estados Unidos se tornaram mais amistosas e promissoras com Obama no poder. No entanto, depois veio Donald Trump, trazendo uma nova sombra para a ilha. Como você avalia esses últimos anos em sua vida e na vida dos cubanos?
Nos últimos anos houve muitas mudanças em Cuba, apesar de parecer que não, pois o sistema político é quase o mesmo. Mas a economia precisou aceitar as mudanças e, principalmente, a sociedade mudou com fatores como o maior acesso ao mundo digital, a possibilidade de viajar mais livremente, as perspectivas diferentes de uma geração mais jovem. Tudo isso poderia ser potencializado com uma relação melhor com os Estados Undos, como tentou o presidente Obama, mas a chegada de Trump à Casa Branca quase acabou com essa possibilidade e, pelo menos nesse sentido, nos mandou de volta aos tempos da nega- ção e da retórica do inimigo. Mas, ainda assim, as coisas seguem mudando. Por exemplo, agora em Cuba se fala da profissionalização dos esportistas como uma das necessidades para o seu desenvolvimento, enquanto por anos se falava do esporte profissional como uma máquina voraz que os escravizava...

São décadas atuando como escritor e mais de dez romances publicados. Como você avalia a própria carreira?
Para mim, escrever literatura é uma forma de vida. Compro a comida com o dinheiro do que escrevo e, graças a essa comida, tenho forças para fazer o quê, que é seguir escrevendo. Ser escritor profissional é um privilégio em qualquer parte do mundo, eu consegui e não posso desperdiçar essa maravilhosa oportunidade. A literatura, além disso, me permitiu conhecer lugares e pessoas que alimentaram a minha experiência. Me permitiram obter reconhecimentos — já mencionei alguns — que jamais imaginei que poderia receber. Me deu a oportunidade de me apresentar em teatros com grande número de pessoas, como há alguns dias no Festival de Cartagena, na Colômbia. Se me coloco no lugar do jovem escritor que, por exemplo, se sentiu muito feliz quando Passado perfeito foi publicado, em 1991, por uma pequeníssima editora mexicana, minha vida então parece um sonho. Mas, quando acordo, faço a mesma coisa que fazia em 1991: vou escrever, e trato de escrever com a maior seriedade e responsabilidade possíveis.  
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