Prateleira | João Antônio

MALAGUETAS, PERUS E BACANAÇO (1963)
Com apenas este livro, João Antônio já havia cravado seu nome na história da literatura brasileira. A boa repercussão da obra inaugural, por exemplo, trouxe ao autor convites para trabalhar na grande imprensa do país. E o sucesso se justifica pelo teor dos nove contos presente na coletânea. Conforme o crítico Mário da Silva Brito apontou, as histórias trazem uma visão de São Paulo até então inédita na literatura da cidade (e do país). É o ponto de vista do proletariado, trabalhador ou não. Seus personagens, a exemplo dos três malandros que dão nome ao livro, falam ao rés do chão, em uma linguagem quase cifrada permeada de elipses e gírias. E conforme o próprio autor escreveu, “foi nas beiradas das estações, nos salões do joguinho, nos goles dos botecos” que ele viu Malaguetas, Perus e Bacanaço.

LEÃO-DE CHÁCARA (1975)
Mais de uma década separa a estreia de João Antônio do seu segundo livro, também de contos. Leão-de-chácara traz a mesma verve de Malaguetas, Perus e Bacanaço, com a experiência do autor sendo reinventada literariamente em contos como “Paulinho perna torta” (para muitos críticos a obra-prima do autor). Em um tom de depoimento e memória, o personagem revela fatos de seu “mundo cão”, do começo como engraxate, passando pela experiência com punguistas de todas as espécies até se “formar” no banditismo, tornado-se um criminoso conhecido. Como quase toda a produção de João Antônio, esse conto revela um tom crítico em relação às transformações do capitalismo tardio em São Paulo, expondo uma desigualdade que, nos anos 1970, só crescia.  

ABRAÇADO AO MEU RANCOR
Se Jack Kerouac cunhou a expressão “on the road” com seu livro mais conhecido, João Antônio, por outro lado, se empenhou em fazer uma literatura “pé na rua”. Seus personagens são andarilhos que vagam atrás de aventuras pela cidade. É assim que se inicia o conto-título de Abraçado ao meu rancor. “É andar. E andar”, são as primeiras sentenças da narrativa. Como o nome do conto sugere, João Antônio, em um de seus textos mais autobiográficos, desenrola um rosário de insultos contra tudo e contra todos: as mudanças do jornalismo (ah, se ele pudesse ver hoje como está a profissão), as diferenças de classe, a degradação das relações e das cidades, etc. Um livro virulento, realista e impactante. 

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CASA DE LOUCOS (1976)
A faceta jornalística de João Antônio é escancarada neste livro. Oficialmente Casa de loucos é uma coletânea de crônicas. Mas o autor avança pelos gêneros, em um misto de reportagem e ficção (conto-reportagem, como foi descrito na época) com elementos narrativos que já estava amalgamados ao seu estilo, como as frases cujo significado estavam nas entrelinhas. Nelson Cavaquinho, ídolo de João Antônio, ganha um entusiasmado perfil; Noel Rosa tem sua obra esmiuçada pelo autor, que escreve que o personagem “foi um artista universal, cujas dimensões transcendem as medidas de uma simples letra de samba-canção”. Já em “Merdunchos”, o tema é a sinuca, onde o contista nadava de braçada. 

DEDO-DURO (1982)
Além das características mais evidentes e elogiáveis da prosa de João Antônio — a maioria relacionada à linguagem —, destacam-se em sua obra alguns personagens emblemáticos. No livro de contos Dedo-duro, a estrela é Paulo Melado do Chapéu Mangueira Serralha, personagem do conto homônimo, que relata sua vida de forma fragmentada, pulando de assunto em assunto. Talvez um dos contos mais radicais de João Antônio, desenvolvido em um fluxo aberto, em que mais uma vez o autor desemboca na autoficção, àquela altura um subgênero pouco celebrado. 

GUARDADOR (19921)
Um dos livros da fase final de João Antônio, Guardador traz aquilo que o editor Ênio Silveira chamou de “instantâneos fotográficos” e “reportagens existenciais”, na tentativa de definir as narrativas da obra. E de fato os contos são tão distintos quanto os personagens que apresentam. Há o retrato da burguesia intelectual em “Tatiana pequena”, a paixão alucinada pelo futebol em “É uma revolução” e a imagem captada pelo olhar singular do autor do submundo da Lapa, no Rio de Janeiro, em “Morre o valete de copas”. É a “prosa aderente a todos os níveis de realidade” que destacou Antonio Candido em célebre ensaio.
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