Romance | Marcelo Labes

Paraízo-Paraguay

O medo, sabemos, não precisa de muito para florescer, uma fagulha basta. E aquela jovem Olga, recém-casada e grávida do primeiro filho, não teve dúvida: se a guerra chegasse até ali, não deixaria que brasileiros tocassem em seus pertences, também não permitiria que violassem seu corpo ou encostassem em sua criança. “Imundos!” Hubert que desse jeito de defender a família, mas fraco como é, fraco de corpo e de espírito, caberia a ela segurar os soldados antes que pisoteassem seu quintal, disso ela sabia.

A conversa que Olga tem com Hubert, seu esposo, soa a alemão, mas um imigrante que chegasse agora da Alemanha, neste ano de 1938, já não reconheceria todas aquelas palavras ditas com raiva e num dialeto muito específico. Olga explica ao marido que precisam se proteger, cuidar da cria que está por vir, construir um abrigo no meio da mata, esconder os animais, “Deus me livre se eles aparecem, imundos!”. Hubert faz que sim e que não com a cabeça. “Besteira!”, ele diz, “a guerra acontece na Alemanha, mulher. Eu ainda fico louco com tanta falação”.

A preocupação de Olga com os horrores de uma guerra que jamais alcançaria os limites de seu quintal tem, supomos, origem em sua ancestralidade germânica, num passado beligerante e heroico que proporcionou terror ao continente europeu, cujos países viram dois impérios germânicos se erigirem e agora temiam que pudessem ver se erguer o terceiro. Olga não tinha como saber porque ainda não tinha ouvido nenhuma notícia verídica a respeito das guerras recentes que maculavam a Europa. O que ela sabia — e não precisava ter estudo para isso — é que os soldados oponentes chegavam furiosos ao seu destino, matando, arrasando, estuprando, castigando crianças e clérigos, incendiando casas e igrejas. Olga se preocupava antevendo a história que ela mesma desconheceria quando fosse o tempo de acontecer. Nada disso importa agora. “Se não vai dar jeito de cuidar da esposa e da criança em seu ventre”, grita ao marido, “que pelo menos me consiga uma caixa onde guardar meus bens de valor, que não quero ver o pouco que me resta nas mãos desses imundos, brasileiros imundos!”, vociferava. Hubert, a contragosto, disse que a esposa esperasse o final de semana para ter o baú. A jovem senhora exigiu que fosse logo, que não tardasse, porque eles também não tardariam. Por eles não conseguimos entender se se referia aos brasileiros ou aos alemães. Se os brasileiros chegassem por ali, por Deus, ela preferiria morrer antes que lhe violassem o corpo santo de mulher grávida — Olga traz no ventre a semente da vida; “se vingar vai se chamar Hans”. Mas se fossem os alemães que estivessem por chegar, Céus!, era sabido que ela e os seus já não seriam reconhecidos como alemães; eles, ela e os seus, haviam nascido ali naquele vale, entre aquela gente deslocada, a cédula de identidade escrita em brasileiro. “Hubert, por Deus, precisamos fazer alguma coisa!” 

Claro que a ignorância dessa senhora precisa ser desculpada, já que faltam jornais que lhe cheguem à mão e lhe deem a devida noção do que de fato está acontecendo no continente europeu. Mas a língua humana, maior e mais eficiente rede de transmissão de notícias de todo o mundo, acaba também por sofrer interferências, e de uma passada de olho que alguém do bairro deu numa capa de jornal escrita em língua portuguesa, numa dessas idas de trajeto demorado à cidade para uma consulta médica ou uma visita à igreja matriz ou uma compra de alguns metros de tecido para toalhas de mesa e cortinas, nunca a passeio, enfim, a notícia que chegou aos ouvidos de Olga deve ter sido mesmo a de que os alemães estavam vindo salvá- -los dos brasileiros ou de que os alemães estavam vindo e estavam furiosos ou de que os alemães estavam para chegar e anexar aquele pedaço de terra chamado Paraízo ao que ficaria conhecido como Terceiro (e último) Reich.

Fosse como fosse, já era hora, pensava Olga, de acontecer alguma coisa com essa gente, ainda mais depois da violência que, ouviu dizer, estavam sofrendo outros tantos alemães, em vários lugares, mesmo que não soubesse precisar onde, que pessoas eram essas, nem que tipo de violência sofriam. Mas por todo lado se falava que depois da proibição da língua alemã, ordem posta pelo interventor federal, doutor Nereu Ramos, havia um bocado de alemães sofrendo pelos quatro cantos do sul do país e até mesmo em outros lugares, embora não soubesse precisar quais. 


MARCELO LABES nasceu em Blumenau (SC), em 1984, e está radicado em Florianópolis (SC). É autor dos livros Enclave (2018), O poeta periférico (2018) e Paraízo-Paraguay, ainda no prelo, do qual o Cândido publica o segundo capítulo. Além de ter textos publicados em diversos veículos, como Mallarmagens e Ruído Manifesto, mantém a revista eletrônica O poema do poeta e é editor na Caiaponte Edições. 
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