Pensata | João Cezar de Castro Rocha

Ocaso do crítico — Expansão da crítica

A coluna Pensata abre espaço para que autores reflitam sobre um tema sugerido pela equipe do Cândido. Nesta edição, João Cezar de Castro Rocha discute os caminhos da crítica literária em tempos de internet e redes sociais.

A pergunta sobre a crítica literária — e seus descontentes e muito provavelmente seu desaparecimento — talvez tenha sido colocado de um modo inadequado. Por isso, as respostas que arriscamos são cada vez menos satisfatórias.

Não é mesmo?

Vejamos.

Como levar a sério alguém que defendesse o exercício da crítica literária como um valor em si mesmo e, por alguma razão obscura, confiasse nos métodos empregados desde o século XVIII e entronizados no século XIX? Não seria um stand-up involuntário procurar pelo Sainte-Beuve do século XXI ou emular Álvaro Lins nos textos apressados do Facebook?

Tal anacronismo somente faria sentido — e não se esqueça do anacronismo deliberado e das atribuições errôneas do criativo Pierre Menard borgiano — se a crítica literária, como atividade socialmente reconhecida, dispusesse de uma fonte constante de legitimação. Isto é, se a literatura permanecesse no centro do circuito comunicativo, imune à onipresença da cultura audiovisual e do universo digital, então a crítica literária manteria uma posição olímpica na ordem dos discursos.

E não é tudo.

Tal anacronismo exigiria outro passo — mais arriscado. Vale dizer, a crítica literária apenas poderia ser entendida como uma atividade estável, infensa à história, se essa qualidade residisse na fonte de sua legitimação: a própria literatura. No entanto, ninguém parece disposto a atribuir uma propriedade essencial à literatura; afinal, a historicização do conceito já possui uma respeitável história. Nesse sentido, a história literária que tal vez ainda possa ser escrita pouco tem a ver com a narrativa cronológica de processos de canonização de obras num contexto determinado. Pelo contrário, ela deve mapear as controvérsias relativas à definição mesma de literatura. E, por que não?, tal história poderia inclusive considerar a superação do conceito; no mínimo, supor uma transformação radical do que poderíamos denominar experiência literária, que se descobriria independente da ideia tradicional de literatura.

Ray Bradbury já sabia das coisas em 1953! Aliás, no mesmo ano, Erich Auerbach escreveu o obituário da noção clássica e humanista de literatura em seu ensaio Philologie der Weltliteratur.

 Reprodução
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O crítico alemão Erich Auerbach (1892—1957), autor do clássico Mimesis.

O romanista alemão lamentava o desaparecimento de uma geração de renomados críticos cujo horizonte existencial foi inteiramente forjado pela experiência literária, que, naquela época, encontrava-se intrinsecamente associada à literatura. O mundo que emergiu da Segunda Guerra Mundial, americanizado e fundamentalmente audiovisual, era um mundo novo não necessariamente admirável aos olhos de Auerbach, e em muitos aspectos era tão diverso que dificilmente seu perfil poderia ser antecipado. Contudo, uma certeza se impunha: a época de ouro da Weltliteratur pertencia ao passado.

O romancista projetou uma alternativa ao inevitável declínio vislumbrado pelo romanista. Recordemos o diálogo revelador entre Faber e Montag. O momento é tenso: o bombeiro não pode mais seguir na faina de queimar livros, pois decidiu preservá-los e sobretudo resolveu aprender com eles. O professor aposentado respirou fundo e situou o problema numa dimensão muito mais ampla, com vocação antropológica:

—Você é um romântico incorrigível — disse Faber. — Seria cômico se não fosse trágico. Não é de livros que você precisa, é de algumas coisas que antigamente estavam nos livros.As mesmas coisas poderiam estar nas ‘famílias das paredes’. Os mesmos detalhes minuciosos poderiam ser transmitidos pelos rádios e televisores, mas não são. Não, não. Absolutamente não são os livros o que você está procurando! Descubra essa coisa onde puder, nos velhos discos fonográficos, nos velhos filmes e procure em você mesmo. Os livros eram um só tipo de receptáculo onde armazenávamos muitas coisas que receávamos esquecer.[1]

A agudeza do autor autoriza a analogia (nada perfeita, reconheço): se o objeto livro não contém a experiência literária, que pode ser imaginada em materialidades as mais diversas, o exercício crítico não é refém do ofício da crítica — literária ou de qualquer outra área. O ocaso do crítico literário não significa obrigatoriamente o naufrágio da crítica.

Num ensaio recente, Sem título, Ricardo Lísias deu um passo decisivo nessa direção. Ele analisa, à luz da potência da arte contemporânea, a decisão inesperada do desembargador Rogério Favreto que ordenou a concessão de habeas corpus ao ex-presidente Lula. Nas palavras de Lísias, Favreto “produziu uma série de decisões jurídicas que, tomadas em conjunto e consideradas em seu contexto, acabaram causando o maior abalo que a Operação Lava Jato sofreu até agora”.[2]

A reflexão de Lísias é brilhante: o despacho de desembargador não foi acolhido porque, apesar de estar em férias, o ex-juiz Sérgio Moro fez valer sua vontade por meio de intempestivos telefonemas. Ao fazê-lo, involuntariamente expôs “que a famosa Operação Lava Jato (...) foge à ordem jurídica” (p. 5). Nesse sentido, “o desembargador agiu como um brilhante performer” (p. 7), pois trouxe à luz os excessos da Operação.

Sem título merece um estudo mais detalhado e pode mesmo favorecer uma mudança de modelo crítico. De imediato, limito-me a compartilhar a conclusão do autor: “A arte precisa aumentar seus limites, expandindo-se para além de suas formas comuns e lançando mão de ferramentas de várias naturezas. Precisamos reunir tudo e nos reunir” (p. 75).

Substitua-se arte por crítica e podemos surpreender um caminho novo na expansão da atividade apesar do ocaso do crítico profissional. No fundo, ampliação do exercício em virtude do desaparecimento do ofício.

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1. Ray Bradbury. Fahrenheit 451. Tradução de Cid Knipel. São Paulo: Globo, 2011, p. 120-21.
2. Ricardo Lísias. Sem título. Uma performance contra Sérgio Moro. Rio de Janeiro: Oficina Raquel, 2018, p. 5. Nas outras ocorrências, citarei apenas o número de página.


JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA é professor de Literatura Comparada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Recebeu em 2014 o prêmio Ensaio e Crítica Literária, da Academia Brasileira de Letras, e em 1998 o Prêmio Mário de Andrade, da Biblioteca Nacional. É autor de, entre outros, Exercícios críticos: leituras do contemporâneo e Crítica literária: em busca do tempo perdido?.
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