Perfil biográfico | Orwell

Nada mau para uma vida curta

De voluntário na Guerra Civil Espanhola a delator de comunistas: não faltaram emoções nem contradições na vida do escritor inglês George Orwell

João Lucas Dusi

George Orwell (1903-1950) faz parte do seleto grupo de escritores que têm seus nomes transformados em adjetivos. Para o jornalista e escritor inglês Christopher Hitchens (1949-2011), o termo “orwelliano” pode servir tanto para fazer referência “à tirania, medo e conformismo esmagadores” quanto para “reconhecer que a resistência humana a esses terrores é inextinguível”. De fato, a literatura desse autor nascido em Motihari, na Índia Britânica, caracteriza-se pela crítica social e por um quê de revolta desde o princípio.

Após passar quatro anos como bolsista no internato de Eton, já vivendo na Inglaterra, Eric Arthur Blair — o verdadeiro nome de Orwell — embarca no navio SS Herefordshire rumo à Birmânia, um país ao sul da Ásia, onde trabalhou para a Polícia Imperial Indiana de 1922 a 1927. Os cinco anos de serviço bastaram para Blair largar a vida militar e se dedicar à escrita, contrariando o caminho que talvez fosse mais óbvio, já que seu pai também servira à Coroa como um executivo de comércio de ópio entre a Índia Britânica e a China. Sobre esse período iniciático na literatura, registrou: “Consegui mais ou menos o mesmo que a maioria dos jovens que enveredaram por uma carreira literária — isto é, nada”. 

A experiência como policial inspirou o romance Dias na Birmânia, de 1934, mas o que lhe rendeu conteúdo para a estreia literária foi a penúria que enfrentou logo depois de abandonar seu cargo governamental. As dificuldades financeiras e o contato direto com todo tipo de gente à margem da sociedade serviram de base para o livro Na pior em Paris e em Londres, publicado em janeiro de 1933. Apesar da entusiasmada recepção crítica, George Orwell — pseudônimo que estampou a capa de seu début literário — precisou trabalhar, entre outras coisas, como professor e empregado de meio período numa livraria para se sustentar.

Mesmo tendo considerado que “nenhum trabalho é mais fascinante do que ensinar” e ter sido estimado como professor, Orwell seguiu publicando romances regularmente. Após lançar os dois livros citados acima, publicou os romances A filha do reverendo, em 1935, e A flor da Inglaterra, um ano depois, no mesmo período em que se casou com Eileen O’Shaughnessy. Ao lado da esposa, pouco depois de se juntarem, Orwell respondeu à ameaça fascista na Espanha empunhando um rifle e se embrenhando, mais uma vez, nos campos de batalha.

Junto aos companheiros do Partido Operário de Unificação Marxista (POUM), teve seu papel na Guerra Civil Espanhola (1936-1939) contra a tentativa de golpe de estado promovida pelo general fascista Francisco Franco, que tinha o apoio dos ditadores Benito Mussolini, da Itália, e Adolf Hitler, da Alemanha. Em um dos confrontos, tomou um tiro na garganta. O ferimento físico, porém, talvez não tenha sido o mais impactante dessa experiência.

Ao travar contato direto com os bastidores da revolução, Orwell concluiu que “se o Líder disser a respeito de um evento ‘Isso nunca aconteceu’, então isso nunca aconteceu. Se ele disser que dois mais dois são cinco, então dois mais dois são cinco”. Essa aguda noção de submissão do povo a uma voz intocável, mais suas já características aversões ao fascismo e ao imperialismo, podem ter sido peças-chave na elaboração de seus dois clássicos.

O alegórico A revolução dos bichos (1945), que funciona como uma fábula sobre a Revolução Russa de 1917, chegou a ser confiscado e queimado por autoridades americanas na Alemanha. O manuscrito, aliás, sobreviveu a um bombardeio nazista durante a Segunda Guerra Mundial, o que não deixa de ser um fortuito acaso que demonstra a resistência simbólica da obra. Outra curiosidade em torno do livro é que ele foi publicado cinco meses após a morte da esposa do autor, Eileen, vítima de uma cirurgia mal realizada.  

1984, que a princípio se chamaria O último homem da Europa, completa 70 anos de sua publicação em 2019. O romance conta a história do funcionário público Winston Smith e sua paixão proibida, num futuro distópico em que sentimentos são considerados ilegais e o Grande Irmão está sempre de olho. Assim como seu predecessor, o livro está próximo de uma morte — desta vez do próprio autor, que contraiu tuberculose e morreu em janeiro de 1950, aos 46 anos de idade.  

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Contradições e ironias
Uma cena protagonizada por George Orwell durante a Guerra Civil Espanhola diz muito sobre seu curioso modo de enxergar as coisas. Apesar de não ter hesitado em ir à luta em prol da resistência espanhola contra o fascismo, ele não atirou em um inimigo ao vê-lo sair correndo de uma latrina com as calças na mão. Esse acontecimento aponta para a veracidade de um comentário de Christopher Hitchens sobre a mudança de visão de mundo do escritor inglês: se o jovem Orwell “tinha fantasias sobre enterrar uma baioneta nas tripas de um sacerdote birmanês”, na época em que nutria maiores inclinações patrióticas e foi soldado da Polícia Imperial Indiana, o passar do tempo o transformou num “paladino da independência da Birmânia”.

Ainda sobre desdobramentos relacionados à sua participação naquela Catalunha em chamas da década de 1930, um arquivo da KGB — datado de julho de 1937 — mostra que a inteligência russa havia classificado Orwell e sua esposa como “trotkistas declarados”. Abertamente contra o governo stalinista da Rússia e avesso aos regimes autoritários de esquerda que eclodiam na Europa, o autor teria elaborado uma lista negra com o nome de 86 simpatizantes do comunismo e a compartilhado com a Information Research Departament (Departamento de Estudo de Informações) da Inglaterra. 

Essa informação, que coloca Orwell na posição de delator, reverberou através do livro Britain’s secret propaganda war (1948-1977), de Paul Lashmar e James Oliver, na década de 1990. O fato, porém, já constava na biografia George Orwell: A life (1980), de Bernard Crick. Sobre o acontecimento, o escritor Richard Ress, que fora amigo pessoal de Orwell, diz que a lista surgiu de uma espécie de jogo que faziam, no qual opinavam “sobre quem era agente pago do quê” e, na sequência, deviam “estimar o grau de traição a que estariam dispostas as nossas bête noires favoritas”. 

Para além das questões políticas que marcaram a trajetória de Orwell, os embates morais também lhe causaram conflitos. Por mais que tenha sempre tentado romper com os modos burgueses que vigoravam na Inglaterra e no seio das famílias que serviam à Coroa, ele não conseguiu escapar de uma ortodoxia um tanto tradicional nas questões de sexo e moral, além de condenar o aborto e não ver os homossexuais com bons olhos. Afora isso, sua relação com as mulheres também não foi das melhores. O narrador de A flor da Inglaterra, por exemplo, a certa altura dispara: “Essa história de mulher! Quanto aborrecimento! Pena não conseguirmos cortar por completo, ou pelo menos nos comportar como os animais — minutos de luxúria feroz e depois meses de gélida castidade”.  

De modo geral, no plano da ficção, Orwell se culpava pela baixa qualidade de sua obra, pois sentia viver num período que impossibilitava uma “atitude puramente estética diante da vida”. Não seria possível, segundo o autor, “dedicar-se à literatura com tanta singularidade de propósito como Joyce ou Henry James”, já que havia uma “consciência de enorme injustiça e miséria do mundo”. Não devemos esquecer que Ulysses, de James Joyce, foi lançado em 1922, ou seja, 11 anos antes da estreia literária de Orwell. A década que separa as publicações teria afetado a visão de mundo dos autores a esse ponto? Elucubrações à parte, é fato que — pouco antes de sua morte precoce — o escritor inglês manifestou o desejo de que fossem impedidas as reedições de A filha do reverendo e A flor da Inglaterra. Os livros circulam até hoje.

Em tantas idas e vindas, George Orwell deixou um legado tão controverso quanto marcante. O seu clássico distópico, 1984, está inegavelmente enraizado no imaginário popular e a fábula de A revolução dos bichos persevera como uma alegoria bastante lida sobre estados autoritários e suas hipocrisias. De soldado voluntário na Guerra Civil Espanhola, passando por delator de comunistas a escritor de um clássico contemporâneo, Orwell marcou o século XX e segue atual. É como cravou Christopher Hitchens: nada mau para uma vida curta. 
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