Poema | Marina Colasanti

O que se vai

Perco os cabelos
como perco os dias
um a um.
Um fio
de toda a cabeleira
nada vale.
Da vida
pouco vale
um dia somente.
Porém
o cabelo no pente
o dia no travesseiro
se alinham
           idos
             perdidos
             mortos
e o que se vai
mais pesa.
Não terei calva a cabeça
isso é seguro
a cada fio que parte
um se enraíza
— o crânio é campo fértil
mais que a vida.
Os dias
          no entanto
têm sua cota de estoque
limitada
e eu os vejo passar em fila indiana
sem que reposição me seja dada
e sem saber o ponto
em que a fatura
terá que ser quitada.

   Ilustração: Visca
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MARINA COLASANTI nasceu na Eritreia, na África, em 1937. Desde os anos 1940 vive no Rio de Janeiro (RJ). Escritora, jornalista e tradutora, Colasanti tem uma vasta obra, com mais de 50 títulos, que inclui livros de poesia, contos e literatura infantil e infantojuvenil. Recebeu diversos prêmios, entre eles, o Prêmio Jabuti e o Prêmio Portugal Telecom de Literatura. O poema publicado pelo Cândido faz parte do novo livro da autora, Mais longa vida, que sai em agosto pela editora Record.
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