Tradução | Mitsuo Florentino

Carmina Priapea, 8

Cur obscena mihi pars sit sine veste, requiris? 
quaere, tegat nullus cur sua tela deus.
fulmen habet mundi dominus, tenet illud aperte;
nec datur aequoreo fuscina tecta deo.
nec Mavors illum, per quem valet, occulit ensem, 
nec latet in tepido Palladis hasta sinu.
num pudet auratas Phoebum portare sagittas?
clamne solet pharetram ferre Diana suam?
num tegit Alcides nodosae robora clavae?
sub tunica virgam num deus ales habet?
quis Bacchum gracili vestem praetendere thyrso,
quis te celata cum face vidit, Amor?
nec mihi sit crimen, quod mentula semper aperta est:
hoc mihi si telum desit, inermis ero.

Priapeia latina [1], 8: Resposta de Priapo a Amor

“Por que não cubro a minha genitália?” indagas.
Pergunte, então, qual deus oculta as suas armas.

Zeus divino detém o raio abertamente
E de Netuno não se afasta o seu tridente;

nem Marte esconde a espada que lhe dá coragem
ou Atena encova a lança em tépida roupagem;

acaso Febo vexa ao ter a loura flecha?
Ou é tímida Diana quando a aljava leva?

Oculta Herácles o vigor da grossa clava?
Ou porta o deus alado o cetro sob a capa? 

Alguém viu Baco recobrir o grácil tirso?
Ou com teu rosto oculto, Amor, já foste visto? 

Não seja crime ter meu pau sempre evidente: 
pois se não tenho a minha lança, sou impotente.


María Auxiliadora Álvarez

9

mamá es un animal negro
manso
extenso
huele
         a aguas estancadas
cría
        batracios dulces 
            en las encías 
no come 
no duerme 
no ríe 
       es un espacio oscuro
que recorro con la lengua
y me sabe a semen 
a sangre
a agua de renacuajo 

mamá es un animal quieto
amarrado
            hinchado
                       habitual
morto

9

mamãe é um bicho preto
manso
grande
fede
      a água parada
cria
      doces sapos
      nas gengivas 
não come 
não dorme
não ri 
      é um espaço negro
que com a língua percorro
e sinto sêmen 
sangue 
água com girinos

mamãe é um bicho quieto
tacanho
             inchado
                          comum
morto


Alfonsina Storni

TERNURA

Pesa sobre la ciudad
un cielo demasiado tierno.
Cielo blando, húmedo, triste.
¿Lo lastima acaso
la dureza
de la línea del horizonte?
Y las lanzas negras
de las cúpulas
¿le abren en la transparente
pulpa azul celeste
llagas de ofensa?
Llueve el cielo
su pradera de nomeolvides
sobre la piedra gris y angulosa
de la ciudad extendida;
tapa el hervidero humano,
lo abraza en su ancho
círculo de piedad,
lo acuna
tristemente
en su belleza.

TERNURA

Pesa acima da cidade 
Um céu extremamente terno. 
Céu brando, úmido, triste. 
Acaso o fere
a dureza
da linha do horizonte?
Ou as lanças negras
das cúpulas
rasgam-lhe na transparente
polpa azul celeste
chagas de ofensa?
Chove o céu
o seu campo de não-me-esqueças
sobre a pedra inclinada e cinzenta
da dilatada cidade;
fecha o fervedouro humano,
o abraça em seu largo
círculo de piedade,
o acalanta 
tristemente
na sua beleza.

—————

1. Antologia de poemas anônimos, frequentemente obscenos e humorísticos, dedicados ao deus Priapo, curiosa divindade grecorromana cujo gigantesco falo sempre estava ereto e evidente. Esse deus — que fora proibido pelos demais numes de frequentar o Olimpo — era relacionado ao sexo e à fertilidade e gozava de grande popularidade nas zonas rurais.


MARÍA AUXILIADORA ÁLVAREZ é uma professora e poeta venezuelana radicada nos Estados Unidos desde 1996. Autora dos livros Piedra en :U (2016) e Cuerpo y paréntesis del estupor (2011).

ALFONSINA STORNI (1892-1938) nasceu na Suíça e viveu na Argentina desde os quatro anos de idade. Poeta, ensaísta e dramaturga, é autora dos livros Mundo de siete pozos (1934), Ocre (1925), entre outros.

MITSUO FLORENTINO estuda Letras na Universidade Federal do Paraná (UFPR). Traduziu poemas de Roberto Bolaño para o fanzine Obsoletos.
Recomendar esta página via e-mail: