Romance | Márcia Barbieri

A Casa das Aranhas

                 Ilustração: Benett
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Não exijam bons modos dos que estão fora do sistema. Não peçam silêncio aos defuntos, eles são ruidosos, porque insetos copulam entalados em suas gargantas. Não exijam explicações demasiadas, apenas os verborrágicos usam palavras em excesso. Não me peçam elucidações infindáveis. Não me peçam explicações sobre os mortos que enterrei. Não me peçam esclarecimentos das manhãs insólitas. Os dragões verdes habitam os devaneios dos homens inválidos. Trago traços de insônia desde que nasci. Trago na carcunda os pecados dos meus progenitores. Trago no corpo a vertigem dos desarvorados e na cabeça as cicatrizes dos que dormem pouco. Não posso evitar o peso de uma cabeça que pende feito um fruto adormecido. Tenho pesadelos intermináveis. E você jamais conseguiria interrompê-los. Choro pelas crianças que nasceram sem sonhos e sem vísceras. Trepo no dorso de éguas indomáveis. Gaguejo na língua incontrolável dos aflitos. Lido com assombros o tempo inteiro. Os monstros que devorei ainda embrulham meu estômago. Não quero me perder em tautologias infindáveis. Como uma pergunta retórica poderia me salvar do afogamento¿ Como uma luta e um quebrar de ossos poderia me resgatar da letargia¿ Como uma revolução poderia restaurar a minha fé¿ Como os estilhaços deixariam de profetizar a catástrofe iminente¿ A minha salvação virá das matérias silenciosas. Minhas narinas tremem, entretanto, o ar é rarefeito. Aperto a gravata negra dos desacordados. Os enforcados gastaram todo o seu fôlego em coisas inúteis, tenho pena da fé dos burocratas. Trago nas mãos flores de outros mundos. Vivo entre o sono que nunca vem e a lucubração que jamais se finda. Nem por isso me entregarei aos que têm o sono tranquilo. Não confio nos homens que não encharcam de rumores seus travesseiros. Não gastarei saliva com discursos dissonantes não desperdiçarei carícias nas rachaduras das rochas nem discutirei o silêncio impróprio das pedras. Não se vive a desgraça a não ser através do próprio corpo. Veja, olhe para a sua carcaça, ela é a prova quase morta dessa sentença. Não ralharei com os cupins que devoram a seiva dos troncos brancos. Mas, se apoiar o ouvido nas árvores posso escutar o barulho da ruminância, se apoiar as narinas posso sentir o odor de madeira contaminada. Não abrirei trilhas para os homens que caçam os cervos, tampouco salvarei os cervos da matança dos homens. Não acredito em um país sem mortos e sem decretos. Acredito apenas nos animais que conseguem ludibriar os seus predadores. Não cavarei a cova das formigas graúdas. Não sufocarei os grunhidos das bestas. Não comerei a carne insólita dos urubus. Não chorarei sobre a mortalha dos monstros. As mulheres santas e fingidas se encarregarão dessa função. Não abrirei as mandíbulas exageradas da noite. Não agradecerei aos guardas que impedem a fuga dos assassinos. Não despejarei minha bile em fossas de concreto. Não farei vigília dentro dos alojamentos dos cães. Não arrancarei os ovários das cadelas no cio para que não procriem, deixe a natureza perseverar em sua ignorância e em sua vontade insana de proliferar. Graças a essa proliferação desgovernada nasceram os desajustados da minha estirpe. Graças a esse descontrole hormonal somos uma nação de infelizes. Não farei ninhos para os pássaros cansados, deixem que voem a outras paragens. Não furtarei carne nos abatedouros, tenho pena dos animais grandes e indefesos. Cansei de sufocar o riso dos bichos rastejantes. Não julgarei o choro simulado dos crocodilos, cada ser encontra uma forma peculiar de se defender, nem todos os seres são dotados de dentes e carapaças. Não roerei o osso dos inválidos. Não lamentarei pelas trapaças que falharam. Os fracassados também merecem um palmo dessa terra miserável. Não saciarei a fome dos homens desajuizados. Não polirei o cérebro dos idiotas. Não impedirei a matança dos inocentes. Na guerra todas as espécies de morte são justificáveis. Não roubarei no peso incomensurável das maçãs. Cansei de escorregar nos musgos dos seus músculos, cansei de gritar dentro dos seus buracos e esperar a reverberação dos ecos. Alguns corpos são feitos de orvalhos e silêncios. Respeito a noite e a solenidade dos homens tristes, porque dentro de mim existe um velório que nunca termina. Acenda as velas e sinta meu corpo morrendo em vida. Fecho os olhos e cruzo as mãos sobre o ventre inchado. As mães deveriam partir antes de parir, evitaria esse fim funesto. Ao redor do meu corpo magros fantasmas contam os dedos dos meus pés. Este é o meu primeiro ensaio para a morte. Eu sei, não precisa pronunciar de novo e de novo as mesmas expressões idiomáticas, no começo te excitava me escutar em uma língua incompreensível, um dialeto além-mundo, quase inaudível, porque é mais fácil lidar com a mudez do que lidar com a verborragia, é menos doloroso lidar com o silêncio do que com o gume das palavras, ainda soletro fonemas antigos em frente ao espelho, escondida feito um rato encurralado. Você ditava signos que eu desconhecia por completo, tateando e procurando um significado que correspondesse aos seus anseios, mas com o tempo você me obrigou a costurar meus lábios, construir vazios na soleira da boca, enterrar minha língua, me fez decorar cada minúcia da sua própria angústia, engolir a sua singular escuridão, distinguir as palavras homógrafas, como se eu fosse capaz de entender contextos diversos, eu que praticamente conhecia apenas a irregularidade do seu corpo, tíbia, rótula, patela, escápula, ombros... Agora não faz mais diferença nenhuma. Você não pode soletrar o seu desespero. Você já não pode resmungar, em língua alguma, todos os sons soam exóticos, quem sabe consiga ainda articular pequenos gemidos, estalar ruidosamente as falanges dos dedos menores, inventar embustes aos fantasmas que te sondam, arquitetar armadilhas às crianças perversas que nos vigiam, armar emboscadas aos defuntos que te esperam do lado de fora [...]


MÁRCIA BARBIERI nasceu em Indaiatuba (SP), em 1979. É autora dos romances A Puta (2014), O Enterro do Lobo Branco (2017) e do ainda inédito A Casa das Aranhas, que será lançado no final de 2019 e do qual o Cândido publica este trecho. Como contista, lançou O Exílio do Eu ou A Revolução das Coisas Mortas (2018), As Mãos Mirradas de Deus (2011) e Anéis de Saturno (2009).
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