Capa | Mark Twain

...E Deus criou Mark Twain

As Aventuras de Huckleberry Finn, livro mais importante do escritor que libertou os americanos das amarras do inglês britânico, acaba de ganhar uma nova edição que faz jus à obra original

IRINÊO BAPTISTA NETTO

Ilustração: FP Rodrigues
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O homem era uma figura, o tal de Mark Twain. Usava ternos brancos, um bigode respeitável e uma cabeleira branca espetacular. Ele tinha senso de humor e gostava de fazer piada: “Fui feito à imagem e semelhança de Deus. Fora isso, não fiquei parecido o suficiente a ponto de ser confundido com Ele, a não ser por alguém muito míope”. 

Além de engraçado, é um dos gigantes literários dos Estados Unidos porque foi com ele que os americanos deixaram de arremedar os ingleses para descobrir uma literatura própria. Sua obra-prima, As Aventuras de Huckleberry Finn, é uma lição de como ser humano (no sentido de ser bom e compassivo). Uma lição dada por alguém improvável, um menino de 13 anos ignorante e mentiroso.

Antes de continuar, é preciso explicar uma coisa. As Aventuras de Huckleberry Finn não é um livro infantojuvenil e muito menos infantil. Essa ideia tem a ver com as muitas adaptações brasileiras do texto — a começar pela de Monteiro Lobato, talvez a mais famosa de todas, em 1934. Na prática, as adaptações são atestados da complexidade do texto original. Se fosse simples, não precisaria ser adaptado. Mesmo nos Estados Unidos o livro tem versões facilitadoras, mas tenha em mente que Huck Finn não é coisa de criança. Para entender os dilemas éticos e morais que Mark Twain aborda na história e transitar com tranquilidade pelas proezas linguísticas do romance, o leitor precisa ter um pouco de experiência de vida e alguma bagagem literária.

Huck Finn acaba de ganhar uma edição pela Zahar que faz jus ao texto original. Ela tem capa dura e ilustrações de E. W. Kemble, mais tradução, apresentação e notas de José Roberto O’Shea. “Quem tentar encontrar um motivo nesta narrativa será processado; quem tentar encontrar a moral da história será banido; quem tentar encontrar um enredo será fuzilado”, avisa Mark Twain na abertura do livro. (Mas é claro que o motivo, a moral e o enredo estão lá. E são importantíssimos.)

“Acho que antes de Mark Twain, nós [os americanos] ainda nos sentíamos presos à língua inglesa formal e à ideia de termos sido uma colônia da Grã-Bretanha. Até então, nossos melhores escritores — como James Fenimore Cooper e até mesmo [Nathaniel] Hawthorne — meio que escreviam numa imitação do estilo formal dos ingleses”, diz o cineasta Ken Burns, diretor de documentários sobre eventos e personagens importantes da história americana. “Twain fez com a literatura o que Lincoln fez com o discurso político: ele acabou com as formalidades, falando como a gente falava. (...) Ele disse: ‘É assim que nós somos. Esses somos nós’. E com isso liberou uma quantidade tremenda de criatividade dos americanos. Ele mostrou que nosso jeito de ser era OK.”

Redenção
As pessoas tendem a gostar de histórias de redenção, em que o protagonista sofre todo tipo de agruras, perdendo tudo para depois se reabilitar no embalo de uma segunda chance. A história de Mark Twain é dessas. Ele ganhou tudo e perdeu tudo mais de uma vez, mas conseguiu quitar suas dívidas com muito sacrifício no fim da vida. Morreu aos 74 anos, em 1910, exausto. Já as perdas sentimentais não tiveram solução — o pai, o irmão, o filho, a esposa… Ele viveu para enterrar várias pessoas queridas.

Seu nome, na verdade, era Samuel Langhorne Clemens. Ele nasceu em 1835 e aos 20 anos tentou fazer fortuna como garimpeiro, falhando miseravelmente. Em 1859, conseguiu se tornar piloto de barco a vapor e trabalhou no rio Mississippi por três anos. Nesse período, conheceu pessoas e viveu experiências que inspirariam personagens e histórias de seus livros.

Para fugir da Guerra Civil Americana (1861-1865), Clemens viajou com o irmão para o Oeste, até o estado de Nevada. Numa cidadezinha chamada Virginia City, começou a trabalhar como repórter para o jornal Territorial Enterprise. O documentário que Ken Burns fez sobre Mark Twain em 2001 diz que o escritor adorou a vida de repórter, bebendo, fumando e jogando cartas com outros jornalistas, e recebendo cem dólares por mês (hoje, o equivalente a quase 2,5 mil dólares, um salário modesto para os padrões americanos).

No dia 3 de fevereiro de 1863, o nome Mark Twain apareceu pela primeira vez na assinatura de um texto. Era o fim de Samuel L. Clemens — ao menos em papel e tinta —, porque o pseudônimo pegou.

Twain é um termo náutico que significa duas braças, o equivalente a quatro jardas no sistema inglês (ou 3,66 metros). Os marujos monitoravam a profundidade das águas dos rios e avisavam o responsável pela embarcação com gritos de quarter twain (91,5 centímetros), half twain (1,83 metro) ou mark twain (3,66 metros, uma profundidade segura para navegação). Um grito de “mark twain!” era o melhor do mundos. Daí alguns puristas defenderem o argumento de que o pseudônimo precisa ser usado sempre com as duas palavras, Mark Twain, por se tratar de uma expressão e não de um nome próprio.

Em 1866, ele recebeu uma pauta que mudaria sua vida. Foi quando o jornal Sacramento Union encomendou um texto sobre o Havaí. Mark Twain viajou até lá e escreveu sobre as ilhas havaianas com inteligência e humor. Foi um sucesso. Na volta, um amigo sugeriu que ele transformasse a viagem numa palestra e assim fizesse mais um dinheirinho. As palestras eram o YouTube do século XIX, um jeito de se divertir, mas também de se informar.

No ano seguinte, três jornais uniram forças para pagar uma viagem caríssima para Mark Twain. Ele teria de navegar por cinco meses a fim de conhecer a Terra Santa, passando no caminho por lugares como Egito, Gibraltar e Marrocos. Depois de escrever para os jornais, o autor usou as experiências da viagem no seu primeiro livro, The Innocents Abroad (algo como “os ingênuos no exterior”), e em mais palestras. As pessoas iam vê-lo aos milhares nas turnês que fazia pelos Estados Unidos. Há quem diga que Mark Twain foi o primeiro comediante a fazer espetáculos de humor sozinho no palco diante de uma plateia (o que chamam de stand-up comedy). Outra sacada do escritor foi recrutar vendedores para oferecer seus livros de porta em porta. Isso fez com que ele fosse lido e conhecido por uma multidão que crescia a cada dia, aumentando o público de suas palestras. Quando lançou As Aventuras de Huckleberry Finn, em 1884, era o escritor mais famoso do mundo.

Entre os gênios
No livro O Cânone Americano, o crítico literário Harold Bloom apresenta Mark Twain como um escritor que está no mesmo nível de outros gênios oitocentistas: Victor Hugo, Balzac e Émile Zola na França; Goethe e Thomas Mann na Alemanha; Tolstói e Dostoiévski na Rússia; e Charles Dickens no Reino Unido. “Se nossa literatura tem alguma obra de apelo universal, popular e elitista, é a história de Huck Finn”, diz Bloom.

Mark Twain era um escritor que não gostava de escrever. Como sofria de artrite no braço direito, teve de aprender a escrever com a mão esquerda. Seu sonho era encontrar uma forma de ganhar dinheiro e largar mão dos livros. Ele tinha um entusiasmo enorme por engenhocas e o período era propício para isso, com feiras mundiais e novas invenções surgindo a cada dia. Ele mesmo conseguiu registrar algumas patentes em seu nome, incluindo a de um álbum de recortes autocolante (um scrapbook), que lhe rendeu algum dinheiro, e a de uma cinta elástica para substituir o suspensório, que não serviu para nada.

Numa anedota famosa que ilustra o quanto o escritor era incompetente como empreendedor, ele teria se recusado a investir dinheiro na empresa de Alexander Graham Bell porque achava sua invenção (uma parada chamada “telefone”) algo meio inútil, que não ia vender muito.

Ele preferiu torrar sua fortuna numa traquitana que prometia revolucionar a produção de jornais, livros e revistas: uma máquina de composição tipográfica que substituiria a prensa de tipos móveis. Seu nome era Paige Typesetting. Além de ser enorme e cara, ela vivia quebrando e, antes que seu inventor conseguisse fazer a porcaria funcionar direito, surgiu o linotipo (esse, sim, revolucionário). Foi uma das vezes que Mark Twain perdeu tudo.

Além de se dar mal na startup de tipografia, o escritor acabou fracassando também como editor. Ele fundou a Charles L. Webster — batizada com o nome de seu sobrinho, que administrava o negócio — para publicar as memórias do presidente Ulysses S. Grant (1822-1885). O livro fez sucesso, mas Mark Twain pensou ter descoberto um filão e resolveu investir todo o dinheiro que tinha conseguido em mais um livro de memórias, assinado pelo papa Leão XII. Fiasco total.

Para pagar seus credores, apesar dos 60 e poucos anos, ele teve de fazer 122 palestras em 71 cidades de quatro países (África do Sul, Austrália, Índia e Nova Zelândia), segundo dados da revista Time. Assim conseguiu quitar seus débitos.

"Jeito arrastado"
Relatos da época indicam que Mark Twain tinha um modo estranho de falar. As pessoas às vezes achavam que ele estava embriagado. Sua mãe foi uma das primeiras a notar o “jeito arrastado” de pronunciar as palavras. A partir dessas informações, dá para imaginá-lo como uma espécie de Paulo Francis (1930-1997), o jornalista brasileiro que aparecia na televisão falando enrolado como se tivesse tomado uns drinques a mais.

A única coisa que Mark Twain fazia melhor que ninguém era uma das que ele menos gostava de fazer: escrever histórias.

No começo de As Aventuras de Huckleberry Finn, Huck explica que ele e seu amigo Tom ficaram ricos depois de achar o dinheiro que ladrões tinham escondido numa caverna. Cada um ficou com “seis mil dólar” (o menino não fala direito). O episódio é narrado em As Aventuras de Tom Sawyer. Aqui, Mark Twain dá várias piscadinhas para o leitor. Ele não só retoma um de seus personagens antigos, mas também faz o garoto se referir ao criador da coisa toda: “O livro foi feito pelo sr. Mark Twain e ele falou a verdade, muitas das vez. Umas coisa ele chutou, mas muitas das vez ele falou a verdade”.

Agora, o sr. Mark Twain sai de cena (outra piscadinha) e Huck tem a chance de narrar a própria história. Órfão de mãe e com um pai bêbado que não dá a mínima para o filho, ele acabou sendo adotado pela viúva Douglas e o juiz Thatcher ficou responsável pelo seu dinheiro. Isso, até o pai aparecer exigindo sua parte. O bebum sequestra o guri e o prende numa cabana no meio do mato, batendo nele um dia atrás do outro.

É desse lugar que Huck Finn escapa. No caminho, ele encontra o escravo Jim, também em fuga. O menino não quer saber da sivilização que dá direitos a um pai abusivo, e que o obriga a fazer coisas chatas como usar roupa limpa e ir para a escola. (Existem teses de doutorado sobre essa palavrinha: a grafia errada de sivilização mostra o desprezo de Huck pelas coisas ditas civilizadas.) O negro foge da vida de escravo e sonha em guardar dinheiro para libertar a esposa e os filhos. É exatamente na convivência com Jim que Huck ganha outra perspectiva sobre escravidão e liberdade.

A força da história está no dilema enfrentado pelo menino. A lei americana dos anos 1830 tolera a escravidão e defende os direitos de propriedade daqueles que são donos de escravos. Huck sabe que ajudar Jim a escapar é contra a lei, é errado. Mas aos poucos ele percebe que a lei, nesse caso, parece cruel e inaceitável. É quando precisa decidir o que fazer: ajudar Jim, que tinha se tornado um amigo, ou entregá-lo para as autoridades.

Dificuldades
No Brasil, há tradutores — como Rosaura Eichenberg — que enfrentaram com coragem as dificuldades impostas por Mark Twain: diz o autor que o romance abarca sete dialetos específicos da região onde se passa a história, no sudoeste dos Estados Unidos (estudiosos admitem que há um tanto de bravata nessa afirmação). A façanha mais recente — e também a mais impressionante — é a de José Roberto O’Shea para a editora Zahar. Tradutor experiente de Shakespeare, ele estudou a obra de Mark Twain ao longo de três décadas, na graduação, no mestrado e no doutorado realizados em universidades norte-americanas.

Em entrevista ao Cândido, O’Shea conta que foram 14 meses de trabalho e 11 revisões. “O mais difícil foi me manter consistentemente distante da norma culta. É uma coisa tão entranhada que a gente acabava resvalando de volta para ela”, diz.

O’Shea escreveu uma apresentação, 143 notas para o texto e um posfácio explicando a lógica da tradução. Ele organizou os sete dialetos do romance em três grupos distintos: iletrados, semiletrados e letrados. Cada um desses grupos fala de um jeito específico. Enquanto os letrados como a viúva Douglas e o juiz Thatcher seguem a norma culta, os semiletrados como Huck Finn ignoram a concordância do plural (“seis mil dólar”) e falam sastifeito em vez de satisfeito, ou ingnorante em vez de ignorante. Os iletrados como Jim e o pai de Huck têm um léxico próprio e demonstram até dificuldade de se fazer entender.

Quando Jim surge na história, no capítulo dois, ele é apresentado como “o preto da srta. Watson”, a irmã da viúva Douglas, mãe adotiva de Huck. Jim está na porta da cozinha, ouve um barulho do lado de fora e pergunta: “Quem é que tá aí?”. Pouco depois, ele insiste: “Fala aí… quem é? Cadê tu? Eu que me dane, se num escutei alguma coisa. Bão, já sei o quê é que eu vou fazê. Eu vou é sentá aqui e ficá assuntano inté ouví de novo”. Essa é a versão de O’Shea, que deixa evidente a simplicidade de Jim, e isso é importante para a história.

Na adaptação de Monteiro Lobato, a primeira frase de Jim ficou assim: “Quem está aí?”. E a segunda: “É alguém, bem sei. Meus ouvidos não me enganam e tenho a certeza de ter ouvido ruído de gente. Não responde? Pois vou ficar aqui até o fim, e quero ver…”. Não parece o mesmo livro e passa uma ideia muito diferente a respeito de Jim.

Antes de Mark Twain — muito antes, desde o século XIV —, escritores de língua inglesa já criavam diálogos tentando reproduzir modos diferentes de falar. Porém, nesses casos, havia um narrador que respeitava a norma culta e os modos diferentes de falar apareciam somente quando um autor abria aspas para dar voz aos personagens.

A ousadia de Mark Twain foi entregar um livro inteiro nas mãos de um menino com conhecimento rudimentar do idioma e dar a esse menino uma sagacidade incrível.

Extremamente ofensivo

A palavra usada em inglês por Mark Twain para se referir a Jim — nigger — motivou (e ainda motiva) discussões à parte e acusações de racismo. O termo é chulo e extremamente ofensivo. Houve até um movimento nos Estados Unidos para “limpar” o livro, adotando a palavra slave (escravo) em seu lugar.

    Ilustração: FP Rodrigues
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Na nova edição brasileira, o tradutor José Roberto O’Shea explica: “Na tradução, empregar termos hoje politicamente corretos, tais como ‘afrodescendente’, ‘pardo’ ou mesmo ‘negro’, além de constituir anacronismo, seria inverossímil diante da retórica e do contexto dos personagens de Huck Finn”. A solução encontrada por ele foi traduzir nigger como “preto”. “É importante enfatizar, no entanto, que Huck utiliza o termo por hábito e não por malícia”, diz o tradutor. Mark Twain nunca foi acusado seriamente de ser racista — e sua biografia desmentiria fácil uma afirmação como essa. Um fato: no livro A True Story, Repeated Word for Word as I Heard It (“Uma história real, contada exatamente como eu a ouvi”), ele narra a história de uma escrava chamada Mary Ann Cord, que, na condição de mulher livre, trabalhou como cozinheira na casa de amigos da família Clemens. No Brasil, uma polêmica semelhante atingiu Monteiro Lobato e o livro Caçadas de Pedrinho, em que o autor compara Tia Nastácia a uma “macaca”. Estudiosos entraram na discussão sobre se o autor brasileiro teria sido ou não racista, com bons argumentos de ambos os lados.


IRINÊO BAPTISTA NETTO é jornalista e doutor em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná. Escreveu para os jornais Folha de S.Paulo e Gazeta do Povo.
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