Novela | Márwio Câmara

Janelas indiscretas

O caos de existir é a minha luta diária. É a sobrevivência do cão. Ciclos que se evaporam à medida em que o mundo se transforma. Ondas que se deslocam e comprimem entre espumas flutuantes sobre os rochedos da Barra.

A palavra não basta, é preciso senti-la.

Na varanda do terraço, o sol enamorado.

R. acaba de atravessar a esquina.

***

A nulidade do absurdo convoca à face o que eu nunca deveria te dizer. 

Tudo é abstração, mistério e indulgência.

A voz interior comanda-me a inequívoca pulsão de comunicar — o quê?

Nem mesmo entre os arbustos encontro a ossatura de um crânio para verificar a dignidade do corpo humano. Mas, ao relembrar os seios de Sofia, sinto que é possível amar novamente um amor que se pauta apenas pela distração e pelo desejo, não tanto pela alma.

E o que seria de nós sem a compostura daquele único ardente beijo?

Olhar as estrelas do céu, admirá-las e...

Atreve-se a dizer?

***

Bruno ama a um homem e não a uma mulher. Isso não o constrange. Nem deveria constrangê-lo. Ele chora porque este homem não pode amar a outro homem. Não da forma como Bruno gostaria. Mas há tantos outros no mundo, digo. Não igual a ele, Bruno diz. Eu o entendo, respondo-lhe. Entende? Sim. Você também ama? Amo. Quem? Um jardim inteiro

***

     Ilustração: FP Rodrigues
...

Contou-me que gostava dessas coisas de comida vegana, mas que, de vez em quando, não resistia a um belo bife mal passado, e com fritas, enquanto preparava um prato colorido para saborearmos.

“Virou modismo essa coisa de ser vegano, né?”

“Saúde, meu caro! Fora que a culinária vegana é bárbara.”

“Admito que invejo pessoas que mudam repentinamente seus hábitos alimentares. Eu sou meio preguiçoso para isso.”

“Mas sabe que me fez tão bem?”

“Imagino. Eu gostaria de parar de fumar.”

“E por que não para?”

“Não consigo. Maldita ansiedade.” 

“O mal do século. Admito que também sou um bocado ansiosa. É uma grande merda. Veja, a duas semanas falarei em público num congresso importantíssimo, e já estou ficando louca.”

“Você é ótima falando em público.”

“Não sei não.”

“Você é professora, está o tempo todo interagindo.”

“Mas em uma conferência como essa é diferente. Tenho medo de esquecer as coisas na hora, atropelar as palavras… Estou me sentindo um pouco pressionada, por mim mesma. Sempre tenho medo de deixar a desejar. A maldita ansiedade, Escobar.”

“Relaxa, vai dar tudo certo. Lembra quando me ligou daquela vez dizendo que não conseguiria dar aula, um dia antes de assumir o cargo de professora substituta na UFRJ?”

“O Rivotril me salvou. Aliás, ele sempre me salva.”

“Achei que a nossa conversa tivesse te ajudado.”

“E ajudou. Você é sempre um gentleman comigo. É porque o comprimidinho me relaxa.”

“Falando nele, tem algum que possa…”

“Te dar? Sim, tenho muitos até. Mas você também anda precisando?”

“Surpresa?”

“Não muito, se bem que eu ouvia um certo amigo dizer que não achava muito cool o uso de ansiolíticos, por conta disso e daquilo.”

“Às vezes, o mundo faz a gente enlouquecer. A vida sempre anda nos cobrando tantas coisas. Nos reservando surpresas. Eu tento viver um dia de cada vez, sabe? Às vezes, sinto que…” 

“Diga.”

“Já parou para se perguntar por que estamos aqui?”

“Aqui em casa?”

“Não. Falo nessa vida.”

“Para sermos felizes.”

“Será? Penso que não seja apenas por isso.”

“Eu não faço a menor ideia, mas a nossa comida já está quase pronta.”

“E essa janela aberta?”

“O que tem?”

“Sinto que alguém do lado de fora nos observa.”


MÁRWIO CÂMARA é escritor, jornalista, professor e crítico literário. Autor de Solidão e Outras Companhias (contos, 2017). O capítulo publicado pelo Cândido faz parte de uma novela ainda inédita, que deve ser publicada até o primeiro semestre de 2020.
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