Conto | Micheliny Verunschk

Vizinhança


     Ilustração: FP Rodrigues
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Ontem vi dona Tina na janela. Há dias não a via. Pensei que talvez tivesse pego um resfriado, ou uma pneumonia, quem sabe? Faça chuva ou sol, frio ou calor, está com aqueles vestidinhos de algodão, sempre tão finos, os casacos que agora se chamam cardigans, mas que antes se chamavam suéteres, os pés metidos em meias e chinelos. Todos os dias a vejo, para cima e para baixo, vai de uma ponta à outra da calçada, às vezes recolhe uma caixa em melhor estado que o vizinho, dono do pet shop, deixou para o caminhão de reciclados, e a leva para casa. O dono do pet shop, que já se chamou loja de animais, sabe que dona Tina pegará as melhores caixas e por isso pede ao funcionário que as deixe acessíveis, o que nem sempre o funcionário faz. Dona Tina segue, para cima e para baixo, seu percurso lento, em passos miúdos, às vezes para no armarinho do filho e pergunta se precisam de ajuda. O filho ri para os clientes e diz que não precisa. A nora, ao contrário, sempre arranja algo que ela possa fazer. Ela sente falta de estar ocupada, explica. O filho se ressente que armarinhos não tenham sinônimos populares em outras línguas, mas se arrepende de, por sua conta, ter mudado o nome Ao Rei do Armarinho para Chemiserie, que lhe pareceu mais aceitável que o italiano mercearia, e menos complicado que o inglês haberdashery. Entretanto os clientes não pronunciam chemiserie com os dois primeiros “e” com som de “a”, e tampouco pronunciam o “r” gutural da forma correta, o que lhe causa uma certa, mas silenciosa, irritação. Dona Tina pronuncia chemiserie corretamente mas não leva em conta que o Ao Rei do Armarinho mudou de nome. Às vezes ela encontra a doce Dulce em suas caminhadas. A doce Dulce anda mais agasalhada que dona Tina no inverno, e costuma usar écharpes, que antes se chamavam cachecóis, e um casaco de nylon roxo acolchoado, que certamente a protege nos dias em que faz nove graus ou menos. A doce Dulce anda com balas e moedas nas mãos e as distribui com as crianças da vizinhança, claro, quando as babás ou, mais raramente, as mães, assim o permitem. O dono da barbearia que, recentemente passou a se chamar barber shop e que agora ostenta na fachada pinturas muito em voga de bigodes vintage, que antes se chamava antigo ou mesmo retrógrado, sabendo do hábito da doce Dulce muitas vezes lhe dá, ele mesmo, algumas poucas moedas, e se sente bem com o ato e consigo mesmo. Dona Tina, para cima e para baixo, não cumprimenta o barbeiro por puro esquecimento, mas ele sempre a cumprimenta com a pergunta invariável, vai pra onde, dona Tina? A resposta interessa pouco e ela sabe disso, mas sorri e responde alguma coisa quase inaudível. Do outro lado da calçada, Maria de Lourdes arranca ervas daninhas e acena para a vizinha do prédio em frente que acaba de embarcar a filha no transporte escolar, seus cabelos são completamente brancos, mas é muito mais jovem do que as outras, lembra uma ilustradora de livros para crianças que teve um jardim como o dela e recusou terminantemente o século XX e da qual não recordo o nome. Mas me ocorre, então, que há quase tanto tempo que eu não via dona Tina não vejo também a doce Dulce, talvez mais tempo até e refaço os passos da memória entre cardigans e écharpes, entre o pet shop e a Chemiserie, entre a barber shop e os bigodes vintage e calculo que há uns dois meses não a vejo por aí em seu casaco roxo, daquele tecido sintético tão popular, suas mãos cheias de moedas e balas. Penso, então, que é possível que tenha morrido ou que apenas tenha sido trancada em casa por um filho incomodado com o ir e vir da mãe, ela pode atravessar a rua e ser atropelada, ela revira o lixo e pode pegar uma doença, é melhor pra ela que esteja quietinha e assim ninguém pode me cobrar, diz aos que têm perguntado por ela. Os velhos morrem quando morrem. Mas, ontem, vi dona Tina na janela.


MICHELINY VERUNSCHK é autora, entre outros, dos romances O Amor, Esse Obstáculo (2018), O Peso do Coração de Um Homem (2017), Aqui, no Coração do Inferno (2016) e nossa Teresa — vida e morte de uma santa suicida (2014), vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura 2015. O conto publicado pelo Cândido faz parte do livro inédito Aquele Verão.
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