Romance | Otto Leopoldo Winck

Que Fim Levaram Todas as Flores


     Guazzelli
1

Comparada a São Paulo e Rio de Janeiro, Curitiba era um ovo. Quinhentos mil habitantes, uma população pacata, ordeira, reservada — e extremamente conservadora. Mas, para quem vinha de uma minúscula cidade do interior, aquilo era o paraíso: mais de dez salas de cinema, inúmeras livrarias, teatros, cafés, boates, bares e uma boemia cultural inquieta e efervescente. Fui morar numa pensão barata na Praça Carlos Gomes. Depois de muita discussão, logrei convencer meu pai de que, para entrar na faculdade, eu devia fazer um cursinho pré-vestibular. Por conta do custo, a Universidade Católica estava, obviamente, fora de cogitação. Acertamos uma mesada até que eu arranjasse um emprego: trezentos cruzeiros novos, que mal davam para pagar o curso e a pensão.

Adrian conseguira uma vaga na Casa do Estudante Universitário. Elisa hospedara-se no apartamento de uma velha tia, no Água Verde. Fui encontrá-los pouco depois que cheguei. Marcamos na cantina da Faculdade de Filosofia, no prédio da Reitoria. Apareci cedo, com medo de me atrasar. Já tinha estado lá duas vezes, na inscrição do vestibular e na publicação do resultado. Mas mal entrara na cantina. Olhei os doces e salgados nos expositores, o quadro de preços, os cartazes nas paredes anunciando assembleias e quartos para alugar. Pedi uma média e uma empadinha, e sentei-me a um canto, num banco almofadado encostado à parede. Girei os olhos em volta: quatro ou cinco moças, três rapazes, um dos quais dormitando, bolsas e cadernos sobre uma das mesinhas de fórmica, leve fumaça de cigarro, moscas voejando no calor de quase duas da tarde.

— Olá, velho, como está?

Virei-me. Era Adrian. Com sua calça jeans cada vez mais desbotada, uma camisa estampada, a franja comprida jogada para o lado, já parecia perfeitamente ambientado aos ares da capital. Ao lado, uma moça num vestido justo, um palmo ou mais acima dos joelhos: Elisa.

— Opa! Como é que vocês estão? Levantei-me. Abracei-os. 

— Estamos bem. Já agitando na cidade — disse Adrian, sorridente. 

— E você, está bem instalado? — quis saber Elisa. 

— Numa pensão não muito longe. Não tem pulgas — menti. — Já está bom. 

Riram. 

— Mais tarde temos que resolver esse problema. Procurar uma república, sei lá — comentou Adrian. 

— Sentem-se. 

— Não, vamos num local melhor. Esse calor pede uma cerveja. 

— Você já comeu? — perguntou Elisa. 

Ia mentir que sim, mas minha fome me obrigou a ser sincero. 

— Na verdade, estou no meu café da manhã. 

Viemos descendo pela Rua das Flores (Adrian e Elisa de mãos dadas), conversando, olhando as lojas, os passantes, os carros — na época não era ainda um calçadão. Fazia mais de mês que não nos víamos. Para quem antes se encontrava todo dia, aquele intervalo parecia demasiado longo: Adrian perdia os traços de garoto, Elisa já era uma mulher feita. E nós ainda nem tínhamos dezoito anos! Passamos sob as araucárias e o grande guapuruvu da Praça Santos Andrade, contemplamos a fachada neoclássica do prédio histórico da universidade, atravessamos a Presidente Faria, a Barão do Rio Branco, cruzamos a Monsenhor Celso, a Marechal Floriano e a Doutor Muricy, ruas e nomes que logo me seriam familiares. Chegamos ao Bar Triângulo e nos instalamos numa das mesas próximas à calçada. Pedimos a um simpático garçom, também vindo do interior, uma rodada de chope e, para mim, um sanduíche de pernil. Aprovei o petisco: pão d’água crocante, fatias de pernil ao molho, mostarda escura, tudo coberto com uma miríade de rodelas de cebolinha-verde. Faminto, pedi mais um.

— Como está o cursinho? — perguntou Adrian. 

— Não sei, ainda nem apareci. 

— E se teu pai sabe? 

— Não tem por que saber. 

— Olha, te cuida, hein. 

— Não esquenta. Como vamos derrubar a ditadura se não temos nem coragem de enfrentar a família? 

— Há, há. Tá certo. 

— Você não tem esse grilo, cara. Seus pais são gente boa. 

— Não é tão simples assim... 

— Corta essa, Adri — interveio Elisa. — Seus pais são superbacanas. 

— Só o fato de eles não serem reaças já está ótimo — ajuntei.

Adrian não teve como não concordar. Bebericamos o chope. Passei os olhos pela multidão que formigava em torno. Aquela atmosfera de metrópole — nova para mim — me enlevava: pessoas indo e vindo, apressadas, com pacotes, com bolsas, com valises, engraxates anunciando seus serviços, jornaleiros apregoando as manchetes. (Só mais tarde, numa temporada em São Paulo, eu vi o quanto aquilo tudo ainda era provinciano.) O trânsito se arrastava, lento, pesado: Decavês, Gordinis, Kombis, Aero Willys, um Puma, um Opala e sobretudo fuscas, muitos fuscas. Só naquele trecho de rua havia mais automóveis do que em toda a nossa antiga cidade. Mas se por um lado o capitalismo exibia os seus trunfos, por outro os mendigos — nenhum deles, porém, com a verve de seu Melquides — deixavam claro que suas benesses não eram equitativamente distribuídas. De toda forma, ali, naquele instante — lépido, fagueiro, solar — nada indicava que vivíamos sob o tacão de uma ditadura. Comentei isso.

— Se você não incomoda ninguém, ninguém vai incomodar você. 

— A melhor prisão é aquela que não tem muros — acrescentou Elisa. — Mas olha ali: dois samangos pra gente não esquecer quem que manda no pedaço. Basta gritar “abaixo a ditadura” que eles vêm direto pra cá. 

O garçom voltou. Pedimos mais uma rodada. As mãos de Adrian e Elisa se tocavam por debaixo da mesa. Mas os dois não se beijavam — reparei.

— E vocês, que andam tramando? — perguntei, quando sobre nós já se insinuava, suave, o poente. 

— Entrar numa chapa pra disputar o centro acadêmico. 

— Vocês não têm jeito, hein!


OTTO LEOPOLDO WINCK é autor do romance Jacob (2006), vencedor do Prêmio da Academia de Letras da Bahia, e dos poemas de Cosmogonias (2018). O trecho publicado pelo Cândido faz parte do romance inédito Que Fim Levaram Todas as Flores.
Recomendar esta página via e-mail: