Poema | Calí Boreaz

Desaforismo

horizontalmente,
o frio está sempre a aquecer \ o quente não para na quentura
o dia cada vez mais dia \ cada vez mais atinge \ a noite
a doença é um processo de cura \ a sanidade, de loucura
a solidão mira na multidão \ e vice-versa
e se há uma certeza, é a da calma que vem depois do desespero
há um (inconcluso) equilibrismo (quântico) que busca o zero — de tudo
e depois o próprio zero é transístor para um outro deslimite qualquer
verticalmente.
e aqui, no nadir do nada
na calada dos cálamos do pó do éter
é quando começamos a definir e tudo começa a deixar de fazer sentido
como quem encontra e nisso não conseguisse mais situar-se em relação a isso
mas diz que deixando o oco fermentar, e fermentar, há quem
se encha de edifícios
e ao contrário do contrário sempre a contrariar
— o que, veja bem, faz pensar que amar e não amar é,
no fundo do fundo sempre a afundar,
a mesma coisa

 Guazzelli
1

CALÍ BOREAZ nasceu em Portugal e vive no Brasil desde 2010. Estudou Direito em Lisboa e, em Bucareste, na Romênia, dedicou-se à língua e literatura romenas e à tradução literária. Como tradutora, verteu do romeno para o português os romances O Regresso do Hooligan (2008), de Norman Manea, e Lisboa Para Sempre (2012), de Mihai Zamfir. Estreou com os poemas de outono azul a sul (2018) e integra a coleção Identidade vol. 1 (2019), da Amazon Kindle, com o conto “islandeses”. O poema publicado pelo Cândido faz parte do livro inédito tesserato.
Recomendar esta página via e-mail: