De escritor para escritor | Angélica Freitas

O melhor conselho que já me deram: compre um caderno barato e escreva todos os dias no mesmo horário. Fui à papelaria perto de casa, investi o equivalente a um pingado e um pão na chapa — escolhi um caderno com uma motocicleta na capa e uma caneta esferográfica —, rumei para um café que já frequentava. Pedi um expresso e uma água. Me prometi escrever até acabar a garrafa. 

Nos primeiros dias saíam umas coisas estranhas. Mas ia adiante. Enchia as páginas. Pensamentos que apareciam, sonhos, observações da calçada. E um dia pintou um poema. Uma lembrança veio de repente, minhas irmãs e eu jogando basquete num fliperama. E a coisa chegou já em verso, como se alguém me dissesse: escreve isso. Como se me soprasse as palavras.

Voltei pra casa feliz e prestando mais atenção em tudo.

O acontecido me aconselhava, por sua natureza misteriosa, a ficar quieta sobre minhas atividades naquele café da Baronesa de Itu, em Higienópolis. 

Naquela época, eu trabalhava em jornal e escrevia todos os dias. Já considerava a prosa uma prática. Quanto mais você pratica, melhor fica. A poesia me acompanhava desde sempre, mas, para escrever poemas, só se a inspiração baixasse. Tudo  mudou quando entendi que inspiração se convoca. E isso aprendi com o caderno-motocicleta.

Você já gastou toda a tinta de uma caneta Bic? Que sensação de dever cumprido.

O que é melhor que começar um caderno? Terminá-lo.

                                                                                                                                                  Divulgação
Angelica Freitas

                                           Angélica Freitas durante oficina de poesia ministrada em novembro na BPP

Meu amigo Odyr me disse, certa feita, lá em Pelotas: “Musa é que nem Sedex, se você não está lá, não recebe”. Por Mercúrio, como isso é verdade.

E eu tinha razões para acreditar no Odyr, que passava os dias em casa, entre pincéis e cadernos. Quando ia visitá-lo, ele tinha tinta até no cabelo.

Uma vez, não lembro onde, li uma história sobre o Michael Jackson. Ele estava conversando com amigos, mas não parava sentado. Alguém perguntou: “Man, o que tá pegando?”. “Deus vai dar esta música pro Prince se eu não for agora pro estúdio.”

Porque tem isso, a natureza misteriosa da criação de qualquer coisa. Poesia vem da palavra grega poiesis, que em sua origem significava simplesmente “criar”. Uma ode ou um vaso de cerâmica. Tanto fazia.

O quanto é seu ali? O quanto é estar lá? Escreva enquanto descobre.

Para mim a gente é antena.

Gosto de respeitar o mistério. Vem daí uma superstição, proteger o caderno. Ninguém lê meus rabiscos até que os passe a limpo.

Das manhãs com um expresso e uma água, no café da Baronesa, saiu o meu primeiro livro. O segundo, escrevi em casa. Passava um café e, na mesa da cozinha, abria o caderno. Alguns dias caí da cama e escrevi na sala, sem café nem nada.

Continuo escrevendo de manhã, sempre à mão, nos cadernos. É a melhor ocupação que existe. Sou grata a Maria Luiza Mendes Furia, poeta que um dia me emprestou um livro chamado Writing Down the Bones, da escritora Natalie Goldberg. Desse livro é que veio o conselho: no centro do caos, escreva. Compre um caderno.


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