Pensata | Regina Zilberman

O intelectual, a literatura e a ética

Em um dos diálogos relativos ao encarceramento de Sócrates, ocorrido em 399 a. C., Platão coloca o filósofo em conversa com um de seus seguidores, Críton, que expõe ao prisioneiro um plano de fuga. O pensador, acusado de corromper a juventude, fora condenado à morte por ingestão de um veneno. Críton procura convencê-lo a escapar do infortúnio, mas o interlocutor resiste à ideia, conformando-se com sua sorte.
Sócrates, porém, não é apenas um conformado; sua resistência funda-se em um raciocínio incontornável: não concorda com a sentença incriminadora, mas argumenta que, se fugisse da prisão e, ainda mais, travestido de mulher — esta é a opção que lhe oferece Críton —, não mais estaria do lado da justiça e da virtude, e sim no da injustiça e da perversão. Sócrates está convicto de que seus juízes agiram incorretamente, condenando-o de modo indevido; mas não quer nivelar- -se a eles, porque, se o fizer, não poderá mais se pronunciar sobre os temas de sua filosofia, norteada pela busca do conhecimento e da sabedoria. Para o filósofo, o discurso e a ação caminham na mesma direção, e a segunda não pode contradizer o primeiro. A ética não se separa da doutrina; pelo contrário, permeia as decisões do indivíduo, mesmo quando aquelas se materializam em falas conceituais e universalizantes.

Corta para o século XX: Hans Robert Jauss era um bem sucedido professor de literatura na Universidade de Constança, partidário da Estética da Recepção, corrente de pensamento que, ao final dos anos 1970, começava a correr o mundo, e um dos líderes do grupo Poetik und Hermeneutik, que congregava a nata dos acadêmicos da então Alemanha Ocidental, quando apareceram os primeiros rumores relativos às suas convicções nazistas à época do Terceiro Reich. Os rumores transformaram-se em fatos quando, nos anos 1990, Earl Jeffrey Richards divulgou suas ligações com o regime hitlerista, bem como a adulteração de documentos de identidade, a fraude por ocasião de sua inscrição na Universidade de Bonn, a falsificação de sua trajetória na juventude.

A notável reação contrária por parte de colegas e admiradores de Jauss reprimiu o avanço das investigações. Porém, os dados divulgados nos últimos anos por Jens Westermeier, retomados por Ottmar Ette em O Caso Jauss, obra recentemente publicada no Brasil,1 parecem não deixar margem à dúvida: o eminente professor, pesquisador e formador de gerações de docentes atuantes em universidades alemãs, tinha não apenas pertencido ao Partido Nazista desde a adolescência, como comandara tropas das Waffen-SS, responsáveis por ações de extermínio na França e na Croácia em 1944.

Hans Robert Jauss inicialmente negou os fatos; depois, diante das evidências, procurou explicá-los, adequando-os às ideias que difundia em obras então elaboradas. Rejeitou a vida passada, como se não tivesse acontecido, e inaugurou um mito de nascimento no pós-guerra. Ao contrário de Sócrates, no diálogo de Platão, não se incomodou com a circunstância de o passado apontar um dedo acusador para o presente, época em que, em procedimento inverso ao do intelectual ateniense, se travestia em sujeito liberal e compreensivo.

Contudo, mesmo a imagem do “novo” Jauss foi contestada: Hans Ulrich Gumbrecht, seu ex-aluno, denuncia, em livros como Depois de 1945, o autoritarismo do mestre; e Ottmar Ette analisa textos como a “Pequena Apologia da Experiência Estética” para mostrar como imagens bélicas e agressivas atravessam o discurso de seu autor. O presente une-se ao passado, não, porém, pela via desejada pelo principal nome da Estética da Recepção.


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                                                                                                                                Ilustração: DW Ribatski

Estética da recepção

Dois conceitos embasam a Estética da Recepção: os de emancipação e de prazer estético. Ambos pautam-se pelos critérios de liberdade e autonomia do leitor, alcançadas por efeito de obras literárias inquietantes e inovadoras. Transgressora nos seus melhores momentos, a literatura conduz o destinatário à ruptura com o convencional e o déjà vu. Tal é o caráter iluminista da arte, que, sem abrir mão de sua natureza, espraia-se no tempo e no espaço.

Princípios como esses dificilmente podem ser rejeitados. Em épocas sombrias como as experimentadas no século XX e que ainda toldam a cena contemporânea, a literatura oferece-se como alternativa de contestação e utopia. Contudo, o indivíduo que enunciou este discurso aparentemente não o praticou, destoando do modelo sumariado na figura de Sócrates, que preferiu sacrificar a vida a renunciar à coerência ética pela qual conduziu sua existência e formulou seu pensamento filosófico.

A história de Sócrates narrada por Platão é reconfortante, porque parece afirmar o primado da sabedoria sobre a barbárie e a injustiça. O percurso de Jauss é seu avesso, produzindo incômodo, sobretudo porque contraria os efeitos usualmente atribuídos à literatura. Dessa supostamente emanam valores positivos, ampliando o conhecimento do indivíduo sobre o mundo e sobre si mesmo, impregnando-o de predicados que colaborariam para a superação de desequilíbrios nocivos à sociedade ou à humanidade de modo geral, fazendo avançar a civilização.

Aparentemente, não foi o que aconteceu com o pesquisador alemão: suas iniciativas, quando se dedicou aos estudos literários e firmou-se como um dos vultos mais importantes da academia alemã, não foram mais éticas ou menos violentas (ainda que simbolicamente) do que as que marcaram sua carreira nas Waffen-SS.

Até que ponto a literatura fortalece comportamentos eticamente desejáveis? E até que ponto as pessoas que lidam com a arte na qualidade de criadores e críticos são contaminadas pelos valores iluministas de que se compõe o objeto de seu trabalho? Eis aí questões que se apresentam à nossa reflexão, quando nos deparamos com as histórias particulares de indivíduos como Sócrates e Jauss, cada um em seus respectivos tempos e lugares.
 
 
Regina Zilberman é professora do Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul(UFRGS). Pós-doutora pela University College (Inglaterra) e Brown University (EUA), possui experiência como pesquisadora nas áreas de história da literatura, literatura do Rio Grande do Sul, formação do leitor e literatura infantil. 

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1 ETTE, Ottmar. O Caso Jauss: A Compreensão a Caminho de um Futuro para a Filologia. Trad. Giovanna Chaves. Goiânia: Caminho, 2019.
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