Conto | Tereza Yamashita

Serpentes de areia

Crânio, mente, tronco e membros inferiores exaustos, eu queria ter a capacidade de ser como uma água-viva imortal (Turritopsis nutricula), também conhecida como Benjamin Button, e poder voltar ao meu primeiro estágio de vida. Então, ser MORTAL novamente. 
Me arrasto pelo mundo há milênios, como uma serpente que rasteja e se queima, e se congela num deserto de peles secas, medíocres e miseráveis.
Hoje, finalmente a eutanásia foi autorizada. Quando nascemos, deveríamos ter o direito de escolher entre mortalidade ou imortalidade. Eu teria deixado um testamento, e nele, com letras garrafais, devia ter digitado: “NÃO ME RESSUSCITEM”.
Sem o meu consentimento, a vida quase arrancou- -me o coração, que ainda não tinha experimentado os desleixos da paixão. Mutilou-me as pernas… E os meus pés ficaram sem rumo, ingênuos, só tinham pisado em caminhos com brisas, sons agudos e palavras amenas.
A minha pele escureceu, quinze por cento do meu corpo sofreu a carbonização dos tecidos, e em alguns lugares as queimaduras foram profundas, chegando até os ossos. Queimaduras de terceiro grau, o odor da dor nunca mais saiu das minhas narinas e entranhas. Por sorte ou azar, o meu rosto ficou intacto.
Eu me recordo nitidamente: me sentia extremamente excluída, afinal, as minhas pernas originais, que não eram tão bonitas plasticamente ou geneticamente falando, mas me pertenciam e faziam parte de mim, foram substituídas por duas próteses mecânicas, na época, de última geração.
Eu me recordo nitidamente: me sentia extremamente excluída, afinal, as minhas pernas originais, que não eram tão bonitas plasticamente ou geneticamente falando, mas me pertenciam e faziam parte de mim, foram substituídas por duas próteses mecânicas, na época, de última geração. Comecei a me isolar como um caramujo em sua casca. Odiava ser meio-humana. O pós-humano propriamente dito ocorreu depois de muitas décadas. Eu era uma privilegiada, tinha muitos recursos financeiros que herdei da minha segunda mãe. Ela derreteu como sorvete de chocolate no mesmo acidente de avião. Às chamas e às lâminas pontiagudas dos destroços, infelizmente, eu sobrevivi. Renasci ou me perdi?


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   Ilustração: DW Ribatski

Com apenas vinte anos, eu já era uma pós-humana e órfã de duas mulheres. Órfã de uma das minhas mães, pois a minha outra mãe, a que terminou de me criar, era uma louca, uma desvairada, mas que me amava do seu jeito. A desatinada dizia que a minha depressão vinha das minhas pernas biônicas, por serem tão asquerosas e desagradáveis. Sim, ela usava essas palavras ao se referir a elas. Ana nunca mais tocou no nome da minha outra mãe. Os seus lindos, agora opacos, olhos de safira a culpavam, afinal Ana pediu que não viajássemos. Nada muda o silêncio. Ecos vagos.
Decidida a me curar desse constrangimento físico, eu não saía mais dos complexos centros cirúrgicos, me usavam como cobaia em experiências científicas que eram patrocinadas por Ana, mas com a minha herança. E, assim, percorremos o mundo para solucionar a minha suposta doença estética visual. Acho que foi numa dessas idas e vindas que acabei me tornando friamente imortal.
Com certeza, depois de milhares de procedimentos, as minhas longilíneas pernas ficaram lindas, e sexualmente sugestivas. E os poucos centímetros de pele saudável do rosto — a parte mais forte da expressão da minha dor humana, que ainda restava, foi arrancada —, foram quase que totalmente substituídos por outra, lisa e perfeita. A minha máscara original ruiu.
Sim, fiquei parecida com uma modelo de revista virtual. Claro, nos moldes culturais da estética da época, e da minha mãe. Eu não era mais a garota ingênua que gostava de música eletrônica e e-books. Não conseguia me reconhecer, me olhando no espelho holográfico. Virei um animal irracional? Aliás, eu nunca mais me vi refletida em espelhos. Meus olhos, que ainda eram meus, se recusavam a tal visão artificial.
Minha mãe conseguiu, estava orgulhosa de si, havia se realizado através de mim. Uma beleza que ela nunca tinha conseguido atingir com as suas tresloucadas cirurgias plásticas. Não me lembro mais como eu era, quando orgânica. Nunca mais tirei selfies e deletava todas as fotos que a minha mãe clicava ou tinha clicado. Depois de certo tempo, eu desisti, e me entreguei às tristes e solitárias sandices da minha mãe.
Muita coisa mudou, pra pior… pra melhor… Não existem mais guerras, todos os recursos minerais foram esgotados. A água, como as informações, passou a valer milhões de bitcoins! Infelizmente, nada é perfeito, surgiu outro tipo de guerra, a da inteligência, e acreditem, é pior do que as guerras antigas, em que o humano era dizimado pela violência física. Quase todas as doenças foram erradicadas, e o humano venceu a morte, conquistamos a tão sonhada imortalidade, o mind upload.
Com essa nova tecnologia, eu comecei a trocar de cascas infinitamente, como se elas fossem uma droga alucinógena, que me davam prazer de estar numa mesa cirúrgica e ser transformada, mutilada novamente. Foram mais de mil vezes, talvez, perdi a conta.
 No tédio desta imortalidade, e no ódio que sentia da primeira casca que a minha mãe me fez vestir como uma camisa de força, eu experimentei todas as peles possíveis, troquei de sexo várias vezes, mas o tédio infinito sempre me habitou e me corroeu.
Sempre falta algo, qual a parte que falta desta infinitude? Será que estou querendo salvaguardar a existência humana? No meu desequilíbrio artificial, eu até criei a minha própria teoria da imortalidade. Você pode compreender, ou consegue imaginar, ou se colocar no lugar de quem é imortal? Consegue sentir empatia por esta divindade?
Esta sou EU, ou fui EU? Já tentei de várias formas me deletar… me aniquilar. Vocês nem imaginam quantas tentativas de suicídio frustradas eu já cometi.
 É impossível… gerações anteriores falavam de ressurreição após a morte, de almas e do céu e do inferno. Sempre achei ridículas todas essas teorias e superstições, mas hoje gostaria que alguma delas existisse e me tirasse deste limbo de ciclos, deste labirinto arenoso sem fim, deste sonhar acordado… Continuo me sentindo como uma serpente que se arrasta e se queima, e se congela num deserto de peles secas, medíocres e miseráveis.
Já vivi tanto e estou tão exaurida. Crânio, mente, tronco e membros inferiores estão no seu limiar. Mas, voltando à minha teoria, imaginem que no pós-futuro exista uma superpopulação de peripatéticos: mendigos e loucos vagando pelo planeta e pela galáxia. Serão os pobres coitados que não tiveram a sorte de nascer em famílias abastadas, ou não conseguiram uma carreira política que os tornasse milionários? Será? Eu me questiono repetidamente
Enfim, a minha teoria é que tudo isso não passa de uma farsa, um drama ou um monólogo futurista fora do tom. Me refiro aos mendigos moradores de rua, os sem- -teto, loucos e drogados. Na minha tese eles são iguais a mim, IMORTAIS, e se cansaram desta jornada com heróis e heroínas brincando de Pollyanna. Preferiram a liberdade ilusória, o inconsciente sem freios. Vida ignóbil. Jogaram tudo para o alto e apertaram o botão do FODA-SE.
Será que consigo fazer o mesmo? Ganharei esta misericórdia? Novamente alguém terá pena de mim (um ser em farrapos, como os mendigos e os paranoicos), através da minha súplica? Eu conseguirei um olhar ímpar novamente? Compaixão? E ainda me sinto como uma serpente que rasteja e se queima, e se congela num deserto de peles secas, medíocres e miseráveis.
 


Tereza Yamashita é escritora e artista gráfica. Publicou diversos livros infantojuvenis, como Troca de Pele (2009) e Dias Incríveis (2006). Participou, neste ano, da antologia de ficção científica Realidades Voláteis & Vertigens Radicais. Como designer, produz capas de livros e colabora regularmente com o jornal de literatura Rascunho
 
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