Poema | Ievguêni Ievtuchenko

Eu gostaria

Tradução: André Rosa

   Divulgação
1

Eu gostaria de
      nascer
             em todos os países,
sem passaportes,
      para o pânico do pobre MID [1];
ser um peixe
         em todos os oceanos
e um cachorro em todas
         as ruas do mundo. 
Eu não quero me inclinar
         ante quaisquer deuses,
nem quero brincar de ser
           um hippie da igreja ortodoxa,
mas eu gostaria de nadar
          fundo-fundo no Baikal,
e sair, fungando, 
           à superfície
no Mississippi.
Eu gostaria de 
    —  em meu amado e odiado 
                     universo —
ser uma bardana solitária 
          e não um goivo bem cuidado.
Uma criatura de Deus qualquer,
           ainda que a última das hienas sarnentas,
mas de forma alguma um tirano,
         nem mesmo o gatinho de um tirano.
Eu gostaria de ser
              uma pessoa em qualquer hipóstase:
ainda que sob tortura em uma prisão guatemalteca,
ainda que sem-teto em uma favela de Hong Kong,
ainda que um esqueleto-vivo em Bangladesh,
           ainda que um paupérrimo louco-por-cristo em Lhasa
ainda que um negro na Cidade do Cabo.
Eu gostaria de me deitar
        sobre as facas de todos os cirurgiões do mundo,
ser corcunda, cego,
       experimentar todas as doenças, todas as feridas,
                             deformidades,
ser um amputado de guerra,
              um catador de guimbas sujas, —
para que não se crie em mim
             o micróbio da superioridade.
Eu não quero ser da elite,
     e, claro, também não do rebanho dos covardes,
nem o cão de guarda desse rebanho,
          nem dos pastores,
                para um rebanho agradável;
eu gostaria de ter felicidade,
         mas não às custas dos infelizes,
eu gostaria de ter liberdade,
         mas não às custas dos aprisionados.
Eu gostaria de amar
         todas as mulheres do mundo,
e gostaria de ser mulher  —
          pelo menos uma vez…
Mãe-Natureza,
        os homens foram diminuídos por ti,
  por que a maternidade
         não foi dada aos homens?
Se uma criança desse
                  batidinhas
                       sob seu coração
o homem talvez  não fosse
               cruel.
Eu gostaria de ser o pão de cada dia,
           ainda que uma xícara de arroz
                  nas mãos de um vietnamita em lágrimas,
ainda que um pedaço de cebola 
        numa prisão do Haiti,
um vinho barato
      numa trattoria de trabalhadores napolitanos
ou mesmo um minúsculo pedaço de queijo 
                na órbita lunar:
Que me comam,
        que bebam,
de modo que haja utilidade
       em minha morte.
Eu gostaria de estar em todas as eras,
       iria então desconcertar toda a História
 para deixá-la atordoada,
          para ser impertinente com ela:
Cortar a gaiola de Pugatchóv
      numa Rússia permeada por Gavroche,
trazer Nefertiti
         na troika de Púchkin em Mikhailovski.
Eu gostaria de aumentar
           o espaço de um instante
                      em cem vezes
para então, nesse momento,
         beber com os pescadores do Rio Lena,
beijar no Beirute,
      dançar sob o tantã na Guiné,
fazer greve na Renault,
correr atrás da bola com os meninos em Copacabana.
Eu gostaria de ser todas as línguas,
        como águas secretas sob a terra.
Exercer todas as profissões simultaneamente.
          E então haveria
um Ievtuchenko que fosse apenas poeta,
           um segundo que fosse guerrilheiro,
um terceiro, estudante da Berkeley,
          e um quarto, cunhador de Tbilisi.
Bem, e um quinto: 
       professor entre as crianças esquimós,
                          no Alasca;
o sexto, 
               um jovem presidente,
       em algum lugar, digamos, em Serra Leoa;
o sétimo,
        estaria ainda sacudindo 
                  um chocalho num carrinho de bebê,
e o décimo…
        o centésimo…
                o milionésimo…
Para mim, ser eu mesmo é pouco,
           eu preciso ser todos!
Toda criatura
       foi feita em pares,
mas Deus 
           economizou no papel carbono
                      e me copiou em samizdat
                            num único exemplar.
Mas eu vou misturar todas as cartas,
                    confundir Deus!
Eu serei mil
           até o último dia
para que de mim a terra zumba,
           para que os computadores enlouqueçam
quando o censo mundial se der conta de mim.
Eu gostaria de estar em todas as suas barricadas,
                humanidade,
                         lutar,
estreitar o Pirineus.
E aceitar a fé em nós mesmos,
        a grande irmandade humana,
e fazer do meu próprio rosto
          o rosto de toda a humanidade. 
E quando eu morrer,
          barulhento feito um Villon siberiano,
que me enterrem não em terra inglesa
            ou italiana,
mas em nossa terra russa
         numa colina tranquila, 
                no verde
onde, pela primeira vez
      pude
          sentir por todos.

1972


Ievguêni Ievtuchenko nasceu em Zimá, na Sibéria, em 1932. Publicou seu primeiro livro, Os Exploradores do Futuro, em 1952. Ficou conhecido por suas manifestações públicas e saraus poéticos, chegando a declamar seus versos no antigo Estádio Central Lênin de Moscou para um público de mais de 100 mil pessoas. O poema publicado pelo Cândido, traduzido diretamente do russo, dialoga com Maiakóvski (“Versos Sobre o Passaporte Soviético”) e com o norte-americano Walt Whitman (“Canção Sobre Mim Mesmo”). Ievtuchenko Morreu em 2017, nos Estados Unidos, aos 84 anos de idade. 

André Rosa é escritor, tradutor e pesquisador na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Colaborou na Revista Brasileira (Academia Brasileira de Letras), Le Monde Diplomatique e Folha de S.Paulo. Traduziu poetas de língua russa como Vera Inber, Aleksándr Blok e Nikolai Asseiév. 


[1] Sigla de Министерство Иностранных Дел (Ministério de assuntos exteriores).
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