• Download das Edições

Entrevista: Sérgio Rodrigues

Dos dois lados do balcãosergio


Escritor e crítico, Sérgio Rodrigues fala sobre a democratização da “conversa” literária na internet, onde se tornou referência com seu blog Todoprosa, e da rotina de um leitor profissional que tem a difícil tarefa de comentar a cena literária da qual faz parte

Guilherme Sobota


Se a internet não criou uma nova forma de se fazer literatura, como se apregoava no início dos anos 2000, ela tem sido um importante canal de discussão sobre assuntos que os cadernos de cultura, com suas páginas cada vez mais enxutas, não conseguem mais dar conta. “A conversa literária, a troca de informações, o ambiente de recepção de livros, tudo isso também vai passando por mudanças muito excitantes, com o meio digital ocupando cheio de entusiasmo os espaços que a imprensa tradicional e a crítica universitária vão deixando vagos”, diz Sérgio Rodrigues, que com seu blog Todoprosa se tornou uma referência literária na internet.

Apesar de seu trabalho na rede, Rodrigues tem uma solida carreira na grande imprensa, iniciada como repórter da Folha de São Paulo, no Rio de Janeiro. Já no Jornal do Brasil, aos 25 anos, foi enviado pela editoria de esportes a Londres para cobrir o circuito da Fórmula 1. Trabalhou ainda no jornal O Globo, na revista Veja e na TV Globo. No começo dos anos 2000 ajudou a criar o periódico esportivo Lance!.

Em 2000 fez sua estreia na literatura com O homem que matou o escritor, um elogiado livro de contos. De lá para cá foram cinco livros, entre romances e coletâneas de contos, escritos paralelamente ao trabalho crítico no Todoprosa. Apesar de rechaçar a alcunha de “crítico literário” (“Em termos de autodefinição, fico satisfeito com essas três palavras: leitor, escritor e jornalista”), Rodrigues diz que não se pode confundir “crítica literária” com “crítica de rodapé”, os textos publicados nos antigos suplementos literários. “Qualquer texto, seja jornalístico, acadêmico, ensaístico, blogueiro ou o que for, que dê uma contribuição inteligente, bem informada e original à leitura de uma obra literária, é um texto de crítica literária”, diz.

Na entrevista a seguir, o escritor ainda fala sobre um possível esgotamento da narrativa. “Não acho que tudo já tenha sido escrito ou experimentado. As recombinações vão sempre tender ao infinito”. Rodrigues também revela como um leitor profissional organiza suas leituras, que, no seu caso “têm a ver com uma mistura de obrigação, planejamento, impulso e prazer”.

Você é um jornalista formado na imprensa tradicional, de papel, que está agora na internet. No começo dos anos 2000, surgiu uma discussão acerca de uma possível “literatura feita na internet”. Uma década depois, qual a influência da internet em nossa literatura contemporânea?
Uma influência muito pequena, quase inexistente, se pensarmos na literatura em si, forma e conteúdo. A influência da internet só aparece com força no aspecto da divulgação, da circulação, da facilidade de publicar. Essa curiosa explosão que estamos vendo no número de escritores, aspirantes e simpatizantes tem tudo a ver com isso, a meu ver. A conversa literária, a troca de informações, o ambiente de recepção de livros, tudo isso também vai passando por mudanças muito excitantes, com o meio digital ocupando cheio de entusiasmo os espaços que a imprensa tradicional e a crítica universitária vão deixando vagos. Mas a ideia, muito presente dez anos atrás, de que a internet daria origem imediata a uma literatura dramaticamente nova era ingênua ou oportunista. Revoluções profundas desse tipo nunca têm a velocidade do marketing.

Nos contos de O homem que matou o escritor, as histórias enveredam por vários gêneros. Depois de Kafka, Joyce e Guimarães Rosa, ainda há espaço para experimentar? A percepção de que tudo já foi escrito na literatura chega a lhe angustiar na hora de escrever?
O escritor que amaldiçoa a tradição é como o pescador que amaldiçoa o mar. Está certo que a tradição representa um desafio, que é imensa e perigosa, que pode te engolir, mas sem ela você não existiria, então convém manter as coisas em perspectiva. O maior risco da tradição é você, por ignorância, achar que está sendo revolucionário quando repete um achado dos vanguardistas de 1870. Por isso, quem pensa que pode escrever sem ter lido nada já perdeu o jogo antes de começar. Mas não, não acho que tudo já tenha sido escrito ou experimentado. As recombinações vão sempre tender ao infinito.

O escritor José Castello escreveu texto recentemente afirmando que a crítica literária é um fenômeno do século XX. Se não há mais crítica, o que há então? Como você definiria seu trabalho no site da Veja?
Me parece que esse é um juízo bastante estreito. Não se pode reduzir a crítica literária à “crítica de rodapé”. Esta é um fenômeno do século XX, certo, e tem tanto a ver com a história da literatura quanto com a história do jornalismo — mais até com esta, imagino. Mas a crítica literária existia antes disso e continuou a existir depois. Qualquer texto, seja jornalístico, acadêmico, ensaístico, blogueiro ou o que for, que dê uma contribuição inteligente, bem informada e original à leitura de uma obra literária, é um texto de crítica literária. Os espaços institucionais da crítica passam por um momento de crise: encolhem na imprensa tradicional, fecham-se numa algaravia autista em grande parte da universidade. Em compensação, uma multidão de vozes espontâneas se levanta na grande Babel digital, e algumas delas são ótimas. Quanto a mim, de vez em quando publico no Todoprosa textos que podem ser catalogados como crítica, sem dúvida. Se não me intitulo “crítico literário”, embora algumas pessoas me chamem assim, é porque não é esse o foco do meu trabalho. O Todoprosa é um blog de leitor, um leitor que é também escritor e jornalista. Em termos de autodefinição, fico satisfeito com essas três palavras: leitor, escritor e jornalista.

Assim como os livros do escritor espanhol Enrique Vila-Matas, sua ficção se alimenta, em grande parte, de temas relacionados ao universo da escrita, dos escritores e da leitura. Isso não pode tornar a literatura ainda mais restrita a um círculo de iniciados?
Gosto muito do Vila-Matas, mas não vejo esse parentesco. Até me aproximo disso pelo lado do humor nos textos curtos que comecei a publicar no blog com o nome de Sobrescritos e que depois foram lançados em livro. Nos Sobrescritos, os personagens são todos ligados a uma versão satírica e meio absurda da nossa vida literária, mas no restante da minha ficção a metalinguagem é só uma entre outras linhas de força, tem mais a ver com a estrutura do que com o tema. Trata-se de uma obsessão ou limitação minha: a de considerar naïf qualquer texto que, a esta altura do campeonato, não traga em si a consciência de ser texto. Quem narra? Por que narra? Não acho que dê para fugir dessas perguntas. Mas a ideia da literatura como linguagem cifrada ou maçonaria não me agrada nem um pouco. Procuro escrever para fora e não para dentro.

Você trabalhou em diversas áreas de grandes veículos da imprensa, como esporte, por exemplo. Como foi sua trajetória até chegar à literatura. Quando enveredou para a área e decidiu que iria ser escritor? Ou foi algo que simplesmente “aconteceu”?

Não foi assim que as coisas se passaram. Não “cheguei” à literatura, já estava lá desde o início. Decidi que seria escritor aos 14 anos, quando comecei a escrever contos com uma disciplina que gostaria muito de conseguir reproduzir hoje em dia. Eram os anos 1970, época do tal “boom do conto”, e andei ganhando alguns concursos de província pelo país afora com meus primeiros escritos. Pensei: estou no caminho certo. O jornalismo surgiu então como uma forma de me aproximar daquela meta, um modo de garantir o ganha-pão enquanto a literatura não me cobrisse de glória e riquezas, como àquela altura eu tinha certeza que acabaria acontecendo. Era para o jornalismo ter sido um mandato-tampão, mas deu tão certo que me desviou por um tempo do caminho. Comecei pelo jornalismo esportivo e aos 25 anos estava morando em Londres, responsável pela cobertura de Fórmula 1 do Jornal do Brasil, enviando matérias para todas as seções do jornal, da política à cultura. Viajei o mundo inteiro. Depois, de volta ao Brasil, fui chefe de reportagem, editor, chefe de redação, colunista. Quem já esteve lá, sabe que o jornalismo pode ser a profissão mais absorvente do mundo. Só em 2000, aos 38 anos, retomei o fio e publiquei meu primeiro livro de ficção. Mas não tenho de modo algum a sensação de que perdi tempo. O homem que matou o escritor é um livro muito melhor do que qualquer coisa que eu poderia ter publicado aos vinte e poucos anos.

Quais são as leituras fundamentais e básicas (teóricas ou não) para quem quer se iniciar na vida de “leitor profissional”?

Não sei se existe tal coisa. Profissional ou não, um leitor tem que fazer o seu recorte pessoal no universo quase infinito dos livros. Nem sempre a leitura mais constitutiva é a mais óbvia. No meu caso, por exemplo, para falar de crítica, Roland Barthes foi apaixonante durante um tempo, mas não saberia dizer se a leitura dele foi mais ou menos influente do que a leitura disciplinada que fiz na mesma época de O Capital, de Karl Marx. Outro exemplo: Antonio Candido é obrigatório e Roberto Schwarz falando de Machado é, a meu ver, brilhante, mas nenhum deles ficou impresso na minha memória com a nitidez dos eruditos inventados de Borges. Não existe receita. O importante é ler muito, sem preconceitos, para ir formando aos poucos uma visão própria.

Na Oficina de Leitura da BPP, você disse que a literatura de “interface”, aquela que se relaciona ou trata com a história, com a mitologia e com o jornalismo, por exemplo, pode ser um caminho importante para a literatura contemporânea. Que exemplos recentes podem ilustrar esse comentário?
A linguagem da ficção nunca foi pura, e as zonas de fronteira são sempre excitantes, mas talvez a narrativa esteja se beneficiando um pouco mais dessa mestiçagem nos últimos tempos. Basta pensar em Sebald, Julian Barnes, Vila-Matas, Javier Cercas... Alguns críticos têm batido na tecla de um suposto esgotamento da narrativa. Uma das coisas que me fazem duvidar da possibilidade desse esgotamento é o fato de as fronteiras serem todas abertas.

Seu romance mais recente, Elza, a garota, de 2009, trata de uma história real, mas romanceada. Romances históricos têm uma trajetória bem delineada na literatura brasileira contemporânea. Acha que a literatura pode falar da nossa História de uma forma mais atraente do que os próprios livros de História?
Mais atraente, sem dúvida, porque o público potencial de um romance histórico – ou de um livro jornalístico de divulgação da história, como os de Laurentino Gomes – é muito maior do que o de livros de historiadores. Histórico ou não, um bom romance vai sempre chegar mais perto de reconstituir a pulsação de vida de determinada época do que qualquer trabalho acadêmico, que tem méritos de outra ordem. Existe uma demanda dos leitores nesse sentido, uma fome que eu diria ser de aprendizado mesmo, e que parece ter a ver com o fracasso do ensino brasileiro em prover um quadro razoável de referências históricas. Elza, a garota é o meu livro mais vendido, e não tenho dúvida de que o fato de se basear em fatos históricos tem a ver com isso. Mas a presença do romance histórico em nossa literatura é tradicionalmente modesta. Nos últimos anos saíram alguns, mas acho prematuro falar numa tendência.

Esta edição do Cândido discute os caminhos do conto. A publicação de contistas no Brasil é cada dia mais esparsa. Os contistas “puro-sangue”, que não migraram para o romance após uma coletânea de histórias curtas, estão sumindo?

Duvido muito que estejam. Uma coisa é a resistência das editoras ao conto, que obedece a uma lógica de mercado, e outra é o potencial artístico do gênero em si, que a meu ver continua instigante como nunca. Um conto extraordinário vai sempre valer mais do que dez romances medianos, por mais que o mercado não funcione assim. A pressão para transformar contistas em romancistas é grande: “ah, aumenta essa história aí, enfia umas subtramas, uns personagens secundários...”. É preciso caráter para resistir a isso, mas um escritor de verdade sabe que cada história dita seu próprio tamanho. Um conto esticado à força nunca será um bom romance.

Na vida de um leitor profissional, as leituras de “lazer” certamente se confundem com as “profissionais”. Mas existe uma pilha de livros queridos à espera de leitura na nua cabeceira? Poderia citar alguns?
Não posso dizer que organize minhas leituras. As decisões sobre quais livros vou ler, e em que ordem, têm a ver com uma mistura de obrigação, planejamento, impulso e acaso que no fim das contas está mais para caos do que para organização. Começo a ler com grande interesse livros que abandono após algumas páginas sem dor na consciência, outros eu folheio despretensiosamente e acabo fisgado. Hoje a pilha na mesinha de cabeceira — mesinha metafórica, porque a pilha não caberia ali – inclui The sense of an ending, de Julian Barnes, Alvo noturno, do Ricardo Piglia, e um manuscrito ainda inédito do Fernando Molica chamado O inventário de Julio Reis.

Dos clássicos, o que deveria ter lido e ainda não leu?
Um monte deles. A lacuna que mais tem me incomodado, e que estou só esperando uma hepatite para corrigir, é Proust. Li apenas No caminho de Swann, o primeiro livro de Em busca do tempo perdido.

Nosso mercado editorial nunca esteve tão aquecido. Hoje há uma “vida literária” que permite aos escritores viver da literatura e de seus derivados – palestras, oficinas, etc. Por outro lado, continuamos presos aos três mil exemplares, a tiragem padrão dos livros de ficção que as editoras não conseguem esgotar. Como explicar essa contradição?
Acho que não existe uma explicação simples. O processo de profissionalização da indústria editorial tem se acelerado, o livro como mercadoria nunca teve tanto peso no Brasil, mas os pontos de contato desse fenômeno com a ficção nacional são escassos. Por outro lado, existe a explosão digital que mencionei ali atrás. Palestras e oficinas estão em alta porque a facilidade de publicar na internet e mesmo no papel, com as novas tecnologias, levou a um aumento exponencial no número de pessoas que querem escrever. Mas talvez, em boa parte dos casos, esses aspirantes não compareçam com a necessária contrapartida da leitura, quem sabe sejam movidos mais por um desejo pessoal de expressão e projeção do que por um compromisso real com a literatura, que não é brinquedo. De toda forma, acho que o quadro atual é promissor. Confuso e contraditório, como você disse, mas de grande potencial.

Depois de muita discussão, as oficinas literárias se espalharam e se firmaram no país. Você ministrou uma oficina de criação na Biblioteca Pública do Paraná. Que tipo de benefício esses encontros podem trazer a quem pretende escrever ficção?
Oficinas podem ser boas ou ruins, dependendo das pessoas envolvidas — e não me refiro só a quem as ministra, mas também a quem delas participa. Quando funcionam, são espaços de discussão e convivência que podem ser muito úteis a quem escreve, como um contraponto à solidão inevitável da escrita. Mas o que eu acho mais positivo é a disseminação de uma ideia subjacente a toda oficina: a da criação literária como trabalho, processo, esforço, aprendizado. É uma ideia meio subversiva na cultura brasileira, que sempre foi mais inclinada a confiar na inspiração pura.
Recomendar esta página via e-mail: