Entrevista: Ruy Espinheira Filho

“Sem a metafísica não chegamos às essências”

A pedido do Cândido, Alexei Bueno entrevistou Ruy Espinheira Filho, um dos poetas mais expressivos em atividade no país, que acaba de ter toda a sua produção poética reunida em um único volume

O lançamento de Estação infinita e outras estações, no final de 2012, marca um dos grande eventos da poesia brasileira dos últimos anos: a publicação da poesia reunida de Ruy Espinheira Filho, sem qualquer dúvida, um dos mais altos entre os nossos poetas, no mesmo momento em que se comemoravam os seus 70 anos de vida. Mais antigo e mais puro dos gêneros literários, a poesia, justamente por sua maior independência de aspectos histórico-sociológicos ou da narratividade, é também o mais irredutível a uma simples apreciação racional, o que maior sensibilidade específica exige do leitor no ato de sua apreensão, aquele, enfim, sobre o qual é mais difícil falar. De toda forma, o baiano Ruy Espinheira Filho fala sobre a sua poesia, além de recuperar os primeiros passos como poeta. Ele também comenta a adversidade de ser um autor que está fora do Sudeste e reflete sobre a situação da cultura, da poesia e da crítica literária no Brasil, entre outros assuntos.

espiEm Estação infinita e outras estações você reúne uma obra que vem de Heléboro, o seu primeiro livro, publicado em 1974, até a atualidade. Como ninguém, em sã consciência, publica
sem antes haver muito escrito, julgo poder falar que o livro reúne ao menos meio século de exercício poético. Apesar de o autor estar numa posição complexa para analisar a própria obra, penso que tal fato não impede que, sob certos aspectos, ele tenha dela uma visão privilegiada. Apesar de sua poesia apresentar uma unidade notável dentro de sua variedade, quais as mudanças formais e de fundo que você julga mais marcantes nesse correr de meio século?

Alguns críticos disseram que minha poesia já apareceu madura, em Heléboro. Na verdade, um ano antes, 1973, dividi um mini-livro de 34 páginas, intitulado Poemas, com Antonio Brasileiro, com composições que viriam a aparecer em meu primeiro livro individual. Quanto à minha possível maturidade poética logo no início, é bom que se leve em conta que comecei a publicar já com 30 anos, no mini-livro, e que a estreia teria sido bem diferente se ocorrida antes, o que me livrou de aparecer com obra que certamente rejeitaria depois, como aconteceu com vários poetas. A demora não foi, porém, resultado de sabedoria ou prudência de minha parte, mas simplesmente por não haver dinheiro para publicar livro. O Heléboro só veio a sair porque eu ganhara dois prêmios literários, mesmo assim feito numa gráfica mais barata de Feira de Santana, conseguida por Antonio Brasileiro, que cuidou de toda a edição de 500 exemplares, escreveu o prefácio e ainda desembolsou uma grana própria para plastificar a capa. Quanto a mudanças formais, o que houve foi cada vez maior conhecimento técnico, aprofundamento nas leituras de poetas e crítica, que me possibilitaram escrever poesia em formas diversas, do dificílimo verso-livre, que pouca gente sabe fazer, até chegar à nobre forma do soneto. Quanto ao fundo, como diz você, acho que permaneceu o mesmo, apenas tornado mais profundo e vasto, porque, de modo geral, sempre escrevi com o que sou, isto é, com meus sentimentos e minhas reflexões, o que significa a condição humana, a perplexidade do homem diante do tempo, da vida e da morte. Claro que, nesse meio, como bem notou Miguel Sanches Neto, com as belas experiências da amizade, do amor e das esperanças.

Sempre me chamou atenção, em sua poesia, a grande liberdade formal na qual ela foi vazada, ou seja, uma plena liberdade de lançar mão do verso livre ou da forma fixa, do poema longo ou do curto, de rimas toantes ou consoantes, etc., uma liberdade que surgiu entre nós com o amadurecimento do Modernismo, para depois, a partir dos anos de 1950, ser severamente solapada pelos sectarismos vanguardistas, sempre dogmáticos e messiânicos, que ainda contam, diga-se de passagem, com epígonos entusiasmados. É a mesma liberdade formal que, só como exemplo, encontramos em figuras monumentais da poesia brasileira do século XX como Manuel Bandeira, Cecília Meireles ou Carlos Drummond de Andrade, assim como em Jorge de Lima. Gostaria que você comentasse esta minha observação.
É claro que estou ligado também às grandes lições dos clássicos, mas sem dúvida sou herdeiro direto dos autores que você cita e, em particular, das grandes lições de Mário de Andrade. Aliás, quando escrevi livros sobre poesia estudei três autores em especial: Jorge de Lima (O nordeste e o negro na poesia de Jorge de Lima, 1990), Mário (Tumulto de amor e outros tumultos — criação e arte em Mário de Andrade, 2001) e Bandeira (Forma e alumbramento — poética e poesia em Manuel Bandeira, 2004). Com tais autores aprendi a escrever com a variedade formal a que você se refere. Quanto aos “modernosos” dos anos 1950, acho que foi um atraso inominável. Para encurtar a conversa a este respeito, na introdução de meu ensaio sobre o Mário cito Antonio Candido falando sobre a indigência daquela produção, vendo-a como (pego o volume e transcrevo o trecho) uma “barragem que será estourada quando as correntes represadas da inspiração adquirirem, na experiência individual e coletiva, energia suficiente para superar as atuais experiências técnicas, mais de poética do que de poesia.” Bem, não foi fácil, mas a inspiração dos verdadeiros poetas acabou arrebentando mesmo a infeliz barragem, da qual só sobreviveram tristes fragmentos cultuados em alguns bolsões de miséria intelectual e lírica.

“ A crítica brasileira vem atravessando um

dos seus piores momentos. Hoje, pelo que vejo,

os que se dizem críticos preferem falar dos

amigos, da sua igrejinha literária.”


Você corrige ou modifica os seus poemas quando um livro seu esgota e se faz necessária uma nova edição?
Faço correções também, mas muito poucas, depois da obra publicada. Antes, porém, corrijo muito. Antigamente destruía poemas aos montes, às centenas, hoje não porque se o poema não estiver funcionando bem nem chega a acabar de ser escrito. E tenho também o cuidado de não deixar juntar lixo nas gavetas, nem no computador, para não correr o risco de uma publicação depois da minha morte, como a gente tanto vê por aí.

estacaoCreio que uma das questões mais graves entre as que envolvem a literatura brasileira, ao lado de uma crescente insuficiência da crítica, é a dos guetos regionais, a tarefa hercúlea que autores nascidos fora do Sudeste tem para se firmar nacionalmente, enquanto outros, flagrantemente inferiores, mas geopoliticamente mais bem situados, se beneficiam da situação inversa. Sendo você, indubitavelmente, o poeta baiano de sua geração que melhor ultrapassou tais dificuldades, o que você comentaria a respeito disso?
Sim, a crítica brasileira vem atravessando um dos seus piores momentos, com raríssimas exceções. Hoje, pelo que vejo, os que se dizem críticos preferem falar dos amigos, da sua igrejinha literária, ou, em muitos casos, apenas do próprio umbigo. Quanto aos que estão longe dos chamados centros culturais, a luta é realmente bem mais dura — e o resultado mais frequente é a derrota. Qualquer poetinha medíocre do Sudeste, por exemplo, é muito mais conhecido do que poetas admiráveis do Nordeste, até mesmo do que alguns que já são clássicos, como Carlos Pena Filho e Sosígenes Costa. No meu caso, a dureza foi extrema, pois sempre vivi na Bahia, onde não há praticamente nenhuma oportunidade para nada, sobretudo na área de literatura. Mas os meus livros foram encontrando bons leitores, escritores e críticos, pois sempre os enviei a quem achava que valia a pena. Meu primeiro livro abriu-me caminho na Civilização Brasileira por eu ter enviado um exemplar ao Mário da Silva Britto, que não me respondeu, mas gostou e emprestou o volume ao Ênio Silveira, que o leu e, quando, mais adiante, procurei-o para editar um volume de crônicas, fez-lhe elogios e disse que se a minha prosa fosse como a minha poesia, ele editaria o livro, o que ocorreu meses depois. E também houve os prêmios — como o Cruz e Sousa, em 1981, depois vários outros até a consagração do Prêmio de Poesia de Academia Brasileira de Letras, em 2006, e, no mesmo ano, um segundo lugar no Jabuti, do qual fui finalista mais três vezes. Não foi nada fácil, batalhei e sofri bastante, mas acabei me dando melhor do que muita gente do Sudeste, a ponto de chegar a uma tão honrosa entrevista como esta.

A poesia é o menos popular dos gêneros literários, o que mais exige uma empatia quase criadora da parte do leitor, por motivos mais ou menos óbvios. Há homens de grande cultura e inteligência, críticos inclusive, que são simplesmente surdos à poesia, como há aqueles que são surdos à música. Por isso mesmo, a crítica deveria ter, em relação à poesia e seus leitores, um papel ainda mais importante do que tem em relação à ficção ou à ensaística, embora o contrário é que se constate. O que você diria a respeito?
Sim, a crítica de poesia é particularmente difícil, muitos bons críticos de prosa se equivocam imensamente com ela. É um tipo de leitura especial, que exige sensibilidades especiais. Não que o leitor de poesia tenha que ser obrigatoriamente um erudito, longe disso. Tendo sido criado no interior da Bahia, conheci grandes apreciadores de poesia, inclusive da mais sofisticada, cuja educação era precária. Por outro lado, conheço pessoas que estudaram bastante e são incapazes de chegar à poesia, inclusive na universidade, e inclusive também professores de literatura. Aliás, Valéry observava que muita gente que não tem necessidade de poesia, nem ao menos gosta de poesia, muitas vezes se dedicam a julgar a poesia, a ensiná-la, o que, acrescentava ele, “nos faz temer pelas consequências”.

Apesar do patético ufanismo em que o Brasil tem vivido nos últimos anos, somos um país de Terceiro Mundo, com um nível cultural deplorável. Quando falo de nível cultural, não me refiro às grandes massas, que em quaisquer países do mundo compartilham a mesma ignorância, antes refiro-me àquela parcela da população que recebeu uma educação formal, e que no caso brasileiro é de uma incultura assustadora. Não estou comparando o brasileiro médio com o francês médio, o russo médio ou o inglês médio, mas com o argentino, o colombiano, o peruano, por exemplo. Descrevo, é certo, uma experiência pessoal, mas muitas vezes reiterada. Até que nível essa miséria educacional brasileira em relação às humanidades é um desastre para a literatura?
O aviltamento de nossa educação é, de fato, uma tragédia. Ninguém sabe nada, não há mais memória, as pessoas se tornaram profundamente acríticas. Um amigo meu, numa reunião, foi emitir opinião sobre a qualidade de certas composições musicais e acabou acossado por várias pessoas que diziam não ter ele o direito de fazer juízo de valor porque, afirmavam elas, todas tinham o mesmo valor, pois cada um tem o direito de gostar do que quer e fazer crítica seria apenas manifestação de “preconceito”. Pois é, qualidade não existe mais entre nós, daí a aceitação geral de qualquer droga, como acontece particularmente na música popular da Bahia. Clarice Lispector lamentava a baixa exigência do povo brasileiro, mas nunca esta baixa exigência foi tão abominável como nos últimos tempos.


" Vários problemas surgiram por

incapacidade de entender o Modernismo.

Um dos equívocos, que continua poderoso,

é o de se achar que escrever verso livre é,

além de mais moderno, mais fácil. ”


Insistindo um pouco na questão anterior, houve uma herança do primeiro Modernismo, herança maldita — para usar uma expressão da moda — que persevera até hoje em relação à poesia no Brasil, a demonização das formas fixas, coisa que não existe em nenhum lugar civilizado. Como sabemos, enquanto em todo mundo a poesia moderna — moderna, não Modernista — nasceu do Simbolismo, entre nós o Modernismo surgiu não como um desenvolvimento do Simbolismo, mas como uma reação ao Parnasianismo, escola que já estava morta e enterrada no mundo inteiro. Daí esse fato escabroso de milhares de leitores, ao se depararem com um poema metrificado, especialmente um soneto — e você é um grande sonetista — tacharem-no imediatamente de “parnasiano”. É como se a métrica, com seus mais de três milênios de bom serviço, fosse apanágio dessa escola efêmera que só é reiteradamente lembrada no Brasil. No entanto, muitos dos maiores poetas do século XX, Rilke, Fernando Pessoa, Paul Valéry, Yeats, Blok, etc. etc., são autores de obras majoritariamente metrificadas. Não é difícil dedicar-se de corpo e alma à poesia no meio dessa miséria mental?
Pois é, vários problemas surgiram por incapacidade de entender o Modernismo. Um dos equívocos, que continua poderoso, é o de se achar que escrever verso livre é, além de mais moderno, mais fácil. Na verdade, é mais difícil, pois a criação de ritmos se faz muito complexa, o ouvido é muito mais exigido. E para que alguém possa escrever bem o verso livre tem que ser muito bom no verso medido. Manuel Bandeira, o primeiro a escrever bem o verso livre entre nós, costumava dizer que não confiava em poeta que não tivesse o verso medido “nas ouças”. A imbecilidade dos que se lançam contra o verso medido não percebe isso — e por isso alguns dos poetas mais festejados do Brasil hoje sejam fazedores apenas de verso livre, ou do que chamam verso livre, o que fazem muito mal exatamente porque não têm capacidade de metrificar um verso. Enfim, são autores bastante medíocres, que se valem da ignorância das pessoas e da mídia em geral para fazer sucesso, o que acaba obscurecendo poetas muitíssimo melhores do que eles.

Ainda retornando à questão da crítica: desde Sílvio Romero a crítica brasileira tende fortemente para um viés sociológico, o que, no caso da poesia, só pode, é evidente, conduzir a resultados lamentáveis. É como se nunca nos tivéssemos libertado do Positivismo, fato que a cada dia me prece mais verdadeiro. Se um poeta, como é o seu caso, tem uma certa atração temática pelas bases inarredáveis do fenômeno da consciência, ou seja, a questão do tempo e da memória, ele está pronto para ser demonizado como “poeta metafísico”, exatamente o que foram, aliás, os acima citados Rilke, Fernando Pessoa, Paul Valéry, Yeats, Blok, aos quais poderíamos acrescentar Borges e inúmeros outros poetas geniais. Metafísico, e daí? É preciso escrever sobre coisas físicas — mas que separação ridícula e anacrõnica entre mundos que se interpenetram — para ser bom poeta? Tal materialismo de botequim, vergonhosamente atrasado em relação mesmo à física moderna, não seria uma sobrevivência do nosso Positivismo fundador, aliado à incultura e à carência intelectiva? Como disse Roberto Campos, personagem pelo qual não tenho a menor simpatia, a burrice no Brasil tem um passado glorioso e um futuro promissor.
João Guimarães Rosa falava da metafísica para questionar exatamente o realismo da manipulação política. Ele dizia que a literatura, para ser literatura, tinha que ser metafísica, ou não passaria de linguagem referencial e dirigida por interesses meramente ideológicos. Aliás, a classificação universitária de certos autores como “realistas”, não-metafísicos, é um horror. Como você diz, insistem na separação ridícula, como se o homem não fosse tanto material quanto metafísico. Sem a metafísica não chegamos às essências, ficamos apenas no nível de programa pragmático. Eu espero, sinceramente, ser considerado um poeta cheio de metafísica, para não acabar com qualquer “Estêves sem metafísica”, como aquele de Fernando Pessoa.


Após insistir na questão das categorias espúrias utilizadas pela crítica de poesia entre nós, às quais poderia acrescentar numerosas outras, gostaria que você falasse algo sobre a poesia baiana, os poetas da Bahia na segunda metade do século XX, vivos ou mortos, entre os quais sei perfeitamente de nomes de importância nacional que pouco apareceram além da já mencionada barreira regional.
Não gosto de citar nomes porque a ausência de um pode suscitar ressentimentos. Mas, enfim, vamos lá. Dos baianos eu já citei dois — Antonio Brasileiro e Sosígenes Costa, bem diferentes entre si e ambos grandes. Temos vários outros de reconhecimento nacional, hoje, ao menos entre os verdadeiros leitores de poesia, como Florisvaldo Mattos, Myriam Fraga, Luís Antonio Cajazeira Ramos, João Carlos Teixeira Gomes, Ildásio Tavares (recentemente falecido), Roberval Pereyr. Dois contemporâneos falecidos, Carlos Anísio Melhor e Affonso Manta, foram também grandes, do segundo organizei uma antologia que deverá estar saindo neste semestre. Há também os mais novos, os que estão vindo, dos quais é difícil falar por motivos óbvios, pois sua obra está apenas em início. Infelizmente, a barreira a que você se refere persiste e alguns dos nossos melhores não são conhecidos fora daqui, alguns não o são mesmo aqui, pois culturalmente a Bahia se afunda cada vez mais.


"Bandeira dizia que fora influenciado

por todos os autores que lera, eu não

posso dizer algo diferente”.


Quais foram seus grande companheiros mais velhos de caminhada lírica, desde a juventude, e quais a eles se acrescentaram depois?
Já falei dos grandes modernistas que me influenciaram. Alguns formam realmente uma família, são os chamados de cabeceira, como Olavo Bilac (sim, sem se conhecer o grande parnasianismo não se aprende a escrever bem e, além disso, Bilac, em parte da obra, foi uma romântico tardio), Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Mário de Andrade, Jorge de Lima, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, Mario Quintana, Fernando Pessoa, Baudelaire, Eliot, Auden... Bandeira dizia que fora influenciado por todos os autores que lera, eu não posso dizer algo diferente. Sim, é muita gente, sobretudo a partir de Homero. Obras admiráveis que jamais poderão ser inteiramente vividas pela minha breve e pobre existência humana.

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