Um Escritor na Biblioteca - Domingos Pellegrini

Domingos Pellegrin

No terceiro encontro de 2012 do projeto “Um escritor na biblioteca”, o autor londrinense recuperou episódios de sua trajetória construída a partir de muita leitura, escrita e atenção à realidade


O assunto quase virou lenda. Domingos Pellegrini já disse que cria “jabutis” em sua chácara em Londrina. Naturalmente, é brincadeira, mas com um fundo de verdade. O escritor conquistou seis prêmios Jabuti, reconhecimento concedido pela Câmara Brasileira do Livro, inclusive com o seu livro de estreia, O homem vermelho (1977) — contos, e também com o romance O caso da chácara chão (2001). Independentemente dos prêmios, Pellegrini é um autor presente no imaginário do leitor contemporâneo, inclusive pela visibilidade que adquire por meio de suas crônicas, publicadas aos domingos — a cada 15 dias — no “Caderno G”, suplemento de cultura da Gazeta do Povo. O autor, que também ministra palestras, cursos e oficinas considera-se, mais do que tudo, um contador de histórias. “Estamos aqui neste planeta e temos o tempo todo uma história se desenvolvendo junto com a gente. Nossa família é uma história, o casamento é uma história. As mulheres, quando querem discutir a relação, na realidade querem discutir a história. Para mim, história é algo muito poderoso. Tudo no ser humano é história”, disse, durante sua participação no projeto “Um escritor na Biblioteca”, no auditório Paul Garfunkel. Durante o bate-papo, mediado pela jornalista Mariana Sanchez, o escritor falou da sua rotina de leitura e escrita, lembrou do convívio com Paulo Leminski e defendeu a tese do dom. Pellegrini afirma que descobriu o seu próprio dom — o da escrita — aos 13 anos e, desde então, nunca deixou de escrever. “O dom capta as coisas. Esse dom não é mérito de quem o tem, diz respeito à loteria genética, pode cair em qualquer um. O mérito de uma pessoa com dom artístico é cuidar dessa dádiva e aperfeiçoá-la.” Pellegrini também comentou, com detalhes, o processo de criação de seu mais recente romance, Herança de Maria (2012), que surgiu da dificuldade de relacionamento com a sua mãe, já falecida. “Para mim, mais que um romance, trata-se de um processo de vida. Não escolhi nada. Fui conduzido em um processo no qual fiz esse livro e o livro se fez através de mim.” A seguir, os principais momentos do bate-papo.

A gênese do leitor
Meus pais se separaram quando eu tinha sete anos e meio, e fui morar em Assis. Um pintor deixou em nossa casa duas pilhas de revistas e comecei a ler. Li e reli todo aquele conteúdo. Era uma felicidade ler aquilo. Na revista O Cruzeiro, havia colaboradores como o Millôr Fernandes, que assinava com pseudônimo, além do David Nasser e um fotógrafo maravilhoso, o Jean Manzon. O David Nasser inventava textos-legenda incríveis sobre um assunto que, para um jornalista sem talento, não pareceria assunto. Lembro de uma matéria na qual eles seguiram um cachorro pelas ruas do Rio de Janeiro. Inesquecível. Aquilo tudo me envolveu tanto e senti que algo me chamava, mas, na época, não sabia o que era nem o motivo.

Crença no dom
Mais tarde, tomei consciência do dom artístico. Acredito no dom. Todas as pessoas têm um talento e, às vezes, não sabem que talento é esse porque pensam que as artes são limitadas à pintura, escultura, dança, teatro e literatura. Não é só isso. Existe o dom da jardinagem, da culinária, da arrumação de ambientes, da conversação, de contar anedotas, etc. Uma pessoa pode ter um ou mais dons. Lendo, descobri que eu gostava de histórias que falam da vida. Aos 13 anos, comecei a escrever.

Devorador de livros
Entre os oito e 13 anos, comecei a procurar livros, e chegaram até minhas mãos obras maravilhosas. As viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, Robinson Crusoe, de Daniel Defoe, etc. Aos 14 anos, já tinha lido parte considerável da literatura brasileira, incluindo os poetas. Quando estava no segundo ano do ginásio — hoje chamado ensino fundamental —, uma professora perguntou se alguém sabia declamar, sem ler, apenas de memória, algum poema. Quem soubesse, ganharia um ponto na média do mês. Levantei a mão, e disse: “Conheço vários poemas, principalmente de Castro Alves”. A professora pegou um livro do autor para conferir o texto enquanto eu declamava. Falei tudo direitinho, e ganhei dois pontos na média para o ano inteiro. Naquele tempo, não se usava a expressão bullying. Durante o recreio, os colegas me chamavam de “caxias”. Nunca me esqueci, mas adorei. Vi que havia um caminho ali, que eu poderia ganhar coisas com aquilo.

O olhar da mãe

Quando identificou em mim essa tendência para a leitura, minha mãe agiu rápido, e com precisão. Naquele tempo, havia vendedores que ofereciam livros na porta das casas. Minha mãe comprou uma enciclopédia, um dicionário que tenho até hoje, e diversas coleções de literatura, publicações encadernadas, bonitas.

O método da distração
Já não frequento mais bibliotecas. Peguei conjuntivite oito vezes por manusear livros velhos e, em seguida, coçar os olhos. Mas devorei bibliotecas. Na Biblioteca Municipal de Londrina, eu lia tudo, poesia, romance, etc. E também as enciclopédias, não para procurar algo: você finge que não está achando nada para o assunto te achar.

Tudo é história
Pratico vários gêneros, prosa, poesia, etc. Basicamente, sou um contador de histórias. Quando falo que sou um contador de histórias, não estou em má companhia nem me diminuindo. Homero foi contador de histórias, Camões também. As grandes obras da literatura universal são nada mais nada menos que grandes histórias. Penso que, quando o cidadão conta uma história, ele atende a um desejo íntimo e ancestral do ser humano, que é ver tudo em série, os fatos ligados desenvolvendo o que chamamos de história.

Discutir a relação
Estamos aqui neste planeta e temos o tempo todo uma história se desenvolvendo junto com a gente. Nossa família é uma história, o casamento é uma história. As mulheres quando querem discutir a relação, na realidade querem discutir a história. Para mim, história é algo muito poderoso. Tudo no ser humano é história.

Ocidente oriental
Embora a filosofia oriental diga que o importante é o agora, o agora também é resultado de uma história. Eis o grande conflito entre o sujeito ocidental e o oriental. O ocidental pensa tudo em perspectiva, levando em conta passado, presente e futuro. Já o oriental foca em um ponto só. Fui desenvolvendo meu lado oriental, mas nunca abandonei o viés ocidental de contar histórias, de ver causas e consequências entre tudo. Mas, como já dizia Jesus Cristo, cada um é o que é. A gente tem que desenvolver o que é natural em cada um de nós. Me sinto um contador de histórias, aquele ser que descende dos sujeitos que, ao redor de fogueiras, desenvolveram linguagem contando suas caçadas, diferentemente do escritor que posa como alguém que sabe apenas lidar com as palavras. Mais do que palavras, eu lido com a vida.

Loteria genética
Quando se tem o dom, você não controla nada. Nunca me programei para sentar e escrever um livro sobre determinado assunto. O enredo surge. Assim acontece com a poesia, com o conto e o romance. No caso da longa narrativa, o enredo é elaborado internamente durante anos, o escritor fica “grávido”. Eu não penso nem planejo nada, o dom capta as coisas. Esse dom não é mérito de quem o tem, diz respeito à loteria genética, pode cair em qualquer um. O mérito de uma pessoa com dom artístico é cuidar dessa dádiva e aperfeiçoá-la.

Tema que se impõe
Nunca pensei em escrever um livro sobre minha mãe. Veja que coisa interessante: estava brigado com ela fazia sete anos, e a situação me incomodava. Eu ia lidar na chácara e ficava pensando na minha mãe, com a impressão de estar certo em brigar com ela, uma megera, que queria controlar a vida de todo mundo. Até que a minha esposa, a Dalva, me pegou pelo colarinho, e disse: “vamos visitar sua mãe, ela está velhinha, pode ter mudado e, se não mudou, vamos perdoá-la”.

Um renascimento
De fato, minha mãe havia se transforma em uma velhinha, não conseguia mais controlar nada e estava precisando de apoio. Era apenas a minha mãe, que aprendi a respeitar e a amar novamente. Foi um renascimento para mim. Eu havia começado a escrever um livro de memórias familiares, que iria se chamar Coração de pilão, e incluía fotos. Houve modificações na proposta, e o título mudou para Cacos de mosaico. Então, retirei as fotos e o livro deixou de ser apenas de memórias de famílias e passou a ser uma obra memorialística. Minha mãe entrou em uma fase terminal, e me dei conta de que ela realmente iria morrer.

Herança de Maria
A Dalva, minha esposa, falou para deixarmos minha mãe morrer em casa, o que, inclusive, era um pedido que ela havia feito para mim. Percebi, então, que tinha outro livro nas mãos. Na realidade, o que se anunciava era um romance, misturando lembranças de vida com esse drama de você ter, ou não, de abreviar a vida de sua mãe. Nesse meio tempo, o código de ética médica mudou, autorizando as pessoas a fazerem a eutanásia. Estava decidido a não deixar a minha mãe sofrendo, alimentando-se por sonda no hospital. Eu tinha de tomar uma atitude, exatamente como está no livro. Um dia, fiz massagens nos pés da minha mãe, como a Dalva pediu. No dia seguinte, minha mãe morreu, em paz, tranquila. Aí, o livro mudou. Minha mãe tinha me deixado como herança esse livro, para eu entendê-la e para iluminar outras famílias que, às vezes, precisam aprender a perdoar. O romance passou a se chamar Herança de Maria, e demorou oito anos para ser escrito. Para mim, mais que um romance, trata-se de um processo de vida. Não escolhi nada. Fui conduzido em um processo no qual fiz esse livro e o livro se fez através de mim.

Primeira pessoa e O filho eterno
Mostrei o original de Herança de Maria para três pessoas: Dalva, minha mulher, para o Miguel Sanches Neto e para um escritor de Londrina, o José Antônio Pedriali. O Zé Antônio sugeriu umas mudanças no final do livro. A Dalva deu sugestões desde o início do processo. O livro foi escrito na primeira pessoa e cogitei que, mesmo sendo ficção, muita gente poderia falar e pensar que eu queria matar a minha mãe. Enviei metade do livro para o Miguel Sanches Neto e ele sugeriu que eu colocasse tudo na terceira pessoa. O Miguel, inclusive, citou o romance do Cristovão Tezza, O filho eterno, que é narrado em primeira pessoa. Reescrevi 20 laudas na terceira pessoa, e gostei. Então, reescrevi o livro todo. Foi um processo complexo elaborar esse livro. Tenho as versões anteriores no computador, material que poderia ser uma maravilha para aulas de Teoria da Literatura.

Afinação do enredo
Quando um tema surge, ele chega meio formatado. A linguagem da criança é mais mágica e simples. A do jovem tem de ser envolvente, com alguma paixão. Já a do adulto, pode admitir tortuosidades, fragmentações. Você não pode querer colocar no colo do jovem textos complexos, como Fausto, do Goethe. É um erro o que fazem na escola quando apresentam Dom Casmurro para o jovem ler. Isso é um castigo. Do Machado de Assis, deveriam sugerir O Alienista, que é mais fininho, gostoso de ler e abre a cabeça. Dom Casmurro é melhor a partir dos 20 anos, quando você já tem uma visão própria da vida. Caso contrário, o sujeito sai da leitura daquele longo e clássico romance achando que a vida é uma droga.

O simples é difícil

A busca pela simplicidade é o maior desafio. Seu Cid Garcia, o pioneiro idealizador da Viação Garcia, tinha uma frase maravilhosa: “complicar é fácil, simplificar é difícil”. Fazer uma obra arquitetônica cheia de rebuscamento é fácil. Agora, produzir um projeto clean, funcional, bonito, com poucos traços, é muito difícil. Vou citar um poema do Leminski: “a noite/ me pinga uma estrela no olho/ e passa”. Simples. Tem toda uma graça que você não consegue definir porque é, justamente, engraçado. Veja, não tem rima, não tem métrica, não tem ritmo, é apenas um pensamento solto, mas todo gracioso. Essa é a suprema dificuldade. E é isso que eu persigo: fazer algo que não pareça rebuscado, que não dê a entender que eu sentei para fazer aquilo.

Não parecer literário
Quando comecei a escrever, havia lido toda a obra do José de Alencar a partir de uma das coleções que minha mãe comprou. Eu ficava com raiva quando ele, em meio a ações narrativas, parava para descrever um poente ou então gastava uma página descrevendo o semblante de uma donzela. Aquilo me irritava mesmo, era muito literário. Eu sempre quis fazer uma literatura que não parecesse literatura, mas que parecesse com a vida, que foi também a obsessão de Graciliano Ramos e Ernest Hemingway, meus grandes mestres. Um grande dançarino faz poucos gestos, mas todos são tensos e graciosos. A arte suprema, para mim, é essa da simplicidade com graça.

Fugindo dos lugares-comuns
No início de meu percurso, aprimorei muito a linguagem. Meu primeiro livro, O homem vermelho (1977), quase não tem adjetivo. A linguagem é toda muito objetiva, mas sempre com graça, envolvimento e ação. E, ao mesmo tempo, não utilizei lugares-comuns. Fala-se muito disso. Lembro que o Miguel Sanches Neto escreveu uma crítica de quase meia página, publicada na Gazeta do Povo, questionando a literatura do Jô Soares. O Miguel analisava os textos do Jô, calcados no senso comum, e a linguagem repleta de obviedades, como “disparou porta afora” e “falou em voz tonitroante”. Quando se usa expressões que todos conhecem, não é o escritor que está escrevendo, são os lugares-comuns escrevendo por você.

Domingos PellegrinO homem vermelho
Me orgulhei quando saiu O homem vermelho (1977), que obteve ótima repercussão, e eu entendi o motivo. Além de dar voz às pessoas que não têm voz, na época eu era comunista e também queria dar voz aos marginalizados. Os personagens do meu livro de contos assumem a protagonização dos enredos e sofrem, e vivem, as histórias com suas deficiências e coragem. A crítica não apontou para essas nuances, mas entendi que o livro foi reconhecido devido à linguagem nova e a um modo peculiar de ver o mundo. Aí me lembro do crítico literário Wilson Martins (1921-2010), que dizia que o escritor, para ser grande, tem de desenvolver linguagem própria e apresentar a sua visão de mundo. O meu próximo livro vai iniciar com uma epígrafe do Martins, que dizia o seguinte: “Quem só entende de literatura, não entende nem de literatura”.

Raízes

Como sou uma pessoa muito ligada à terra, no sentido de vivência, das raízes, nada mais natural do que eu me embeber da cultura da região onde nasci. Até porque o nascimento é determinado por uma série de circunstâncias anteriores, de onde vieram seus trisavós, bisavós, até seu pai e sua mãe se encontrarem um dia, se enamorarem e terem você. Há toda uma cosmogonia, um arranjo universal para você nascer ali. Acho que a pessoa que rejeita a sua origem é como se ela rejeitasse o universo.

Choques culturais
Vejo muita gente que saiu de Londrina e se deu bem. Fui morar durante três anos em São Paulo e voltei sem nenhuma saudade. Gosto da terra. Prefiro passar férias em uma pequena aldeia do que em uma grande cidade. Ano passado, passei um mês na Europa acompanhado da minha esposa. Ela nunca tido ido, e adorou Berlim, Amsterdam, Roma e outras grandes cidades. Eu me chateava com aquelas multidões. Gostei de ver as aldeias. Você percebe que a cultura de um povo emana, realmente, de todas as suas raízes sociais. Não são os artistas que fazem a cultura de um povo. Os artistas, muitas vezes, são moldados pela cultura. A cultura do povo nasce nas oficinas, nas padarias, nas fábricas, nos sindicatos, nas escolas, nas lavouras. É ali que se vê o sangue cultural do povo fervilhando. É isso que gosto de ver. Então, falei para a Dalva que, na próxima vez, quero viajar para o interior, de carro, parando de aldeia em aldeia, comendo um queijo aqui, uma linguiça ali, e participar de festas populares. Não quero entrar em uma igreja para ver um quadro do Caravaggio. Quero é entrar em uma igrejinha pobre e ouvir um passarinho cantar.

Fios da cultura
Entendo que a cultura é um tecido feito de muitos fios e são fios diferentes. Se não houvesse arte pela arte, não haveria uma série de obras-primas. Não houvesse a arte política, não haveria uma outra série de obras-primas. Você pega o Cem anos de solidão, do Gabriel García Marquéz, e há trechos que são pura brincadeira, brincadeira verbal. Por exemplo, naquele momento em que o narrador diz que choveu tanto que um caroço de abacate começa a germinar no bolso de um paletó dentro de um guarda-roupa. Isso é coisa séria? Isso é uma brincadeira, e é tão bonito. No entanto, nesse mesmo livro há trechos nos quais os mineiros que participaram de uma revolta popular e foram mortos são empilhados dentro de um trem que passa por aquelas estações escuras, simbolizando a ditadura escura, o que é altamente político. Cem anos de solidão é um livro que dá para citar como exemplo de que todas as funções podem conviver em uma mesma obra.

Diversarte
No dia 13 de maio, a Gazeta do Povo publicou uma crônica que escrevi, com o título de Diversarte, na qual citei uma frase do Leminski: “a arte não tem qualquer utilidade”. Ele disse aquilo num tempo em que havia muita ideologização da literatura, quando quem fizesse um conto ou poema e não falasse do povo, era um alienado. Era necessário escrever dia claro como sinônimo de liberdade, e trevas para falar, de maneira indireta, da ditadura. A situação era de castração, e o Leminski reagiu a essa falta de liberdade com lucidez, coragem e com o talento polemizador que ele tinha. No entanto, hoje tem gente que pega a frase do Leminski como se fosse uma máxima indiscutível. Então, fiz o texto da Gazeta do Povo para rebater isso. A arte pode ter múltiplas funções. A diversidade é a maior riqueza humana. O time que você monta não funciona se não tiver baixinho, alto, gordo e magro. Se você analisar todos as seleções brasileiras que ganharam Copa do Mundo, pode perceber, tem baixinhos, brutamontes, atletas perfeitos. A mistura funciona, inclusive no que diz respeito à arte.

Leminski e a guerra
Inicialmente, a minha relação com o Paulo Leminski foi conflituosa. Ele defendia a gratuidade da arte, e eu defendia uma arte comprometida. Estivemos em lados opostos, inclusive em polêmicas veiculadas em Curitiba. O Hamilton Faria, o Reinoldo Atem, o Raimundo Caruso e eu defendíamos uma posição, e o Leminski, o oposto. Depois, fui me aproximando dele. O que nos uniu, por incrível que pareça, foi a arte militar. Durante muito tempo, fui fascinado por histórias de guerras, tática de guerrilha e estratégias. Eu não podia imaginar que o Leminski conhecia o Von Clausewitz, um teórico alemão das guerras. Começamos a dialogar assim. Passei a frequentar a casa dele, e ele também esteve várias vezes na minha casa, quando eu morava em São Paulo.

Polaco genial

Leminski era a pessoa mais inteligente com quem eu me encontrava para conversar. Tínhamos uma euforia para trocar conhecimentos, devido a nossas posturas e visões de mundo. Fui o primeiro do meu grupo a romper com o marxismo-leninismo, e a perceber que a ditadura do proletariado seria apenas mais uma ditadura. Iríamos, simplesmente, trocar uma ditadura de direita por uma de esquerda. Quando falei isso para os meus colegas comunistas da época, todos me olharam como se eu tivesse uma espécie de lepra ideológica. Mas o Leminski entendia. Uma vez, eu estava na casa dele, e chegou um cidadão que o convidou para ir a um encontro de um novo partido de esquerda. No ano anterior, o Leminski havia participado de uma convenção partidária cantando umas músicas, o que agradou os convidados. Mas o Leminski se recusou a participar do novo encontro, e disse: “desse brinquedo eu já brinquei”. Ele tratava a ideologia como brinquedo, como uma brincadeira.

Discordar com prazer
O Leminski e eu tínhamos essa capacidade de enxergar além e fora das ideologias, e isso nos unia, embora discordássemos a respeito de muitas questões. Mas, como a gente concordava que a variedade é a maior riqueza humana, discordávamos com prazer. Era gostoso ouvir ele defender os seus pontos de vista. E ele gostava de escutar o que eu tinha a dizer. Um grande encontro que tivemos foi quando eu descobri Jesus, mas não o Cristo cultuado pelas igrejas, cuja vida é tão deformada na Bíblia, e sim o Jesus Cristo que transparece nas parábolas. Um dia, cheguei na casa do Leminski, no bairro do Pilarzinho, em Curitiba, e ele perguntou o que eu estava lendo. Contei que estava “lendo” Jesus. Ele se espantou, perguntado: “você também?”. É que o Leminski, naquele momento, estava escrevendo aquela biografia de Jesus Cristo, posteriormente compilada no livro Vida, com outras biografias que ele produziu. Tínhamos, enfim, esses encontros fulminantes, reveladores, e os desgastes contínuos, que eram absorvidos como gozação. Ele viajava com alguma frequência para São Paulo com a finalidade de encontrar os irmãos Augusto e Haroldo de Campos. Eu perguntava: “vai pastar nos campos?”. Assim era a nossa relação.

Autoaperfeiçoamento
Já disse que acredito ter um dom, e tenho de exercitar esse dom da melhor maneira, sendo coerente com a minha visão de mundo, procurando instigar as pessoas rumo a um mundo melhor. Agora, em termos de crenças pessoais, deixei de acreditar que posso mudar o mundo. Acredito, no máximo, em mudar um pouco as pessoas. E a única pessoa que tenho certeza de poder mudar sou eu mesmo. Passei a crer que a melhor ação que se pode fazer para o mundo é melhorar a si mesmo.

O que você faz
Acredito que melhorei. Meu casamento com a Dalva foi muito bom nesse aspecto. Ao invés de reclamar que os outros não catam lixo, eu mesmo recolho detritos. Não reclamo que o mundo está mal no que diz respeito ao meio ambiente. Eu planto e cuido das minhas árvores. Pode parecer egoísmo, mas se trata de eficiência. Até porque a internet e a democratização e transparência das organizações sociais estão provocando a mobilização dos indivíduos. Nesse novo universo, quando você dá o exemplo, soma com outros que dão exemplo, o que resulta em uma união de forças poderosas. Logo, vai chegar o dia em que os ciclistas não vão apenas exigir ciclovias, mas também vão deixar de cruzar o sinal vermelho e de circular na contramão.

Receita de Maiakóvski
Sigo o conselho de Maiakóvski que, no livro Como fazer versos, recomenda que o escritor sempre ande com papel e caneta. Aliás, o poeta russo fala em lápis e caneta. Tenho papel espalhado pela casa inteira, nos bolsos, no carro, viajo com papel. Porque a ideia surge, anoto no mesmo instante e depois desenvolvo no computador. Escrevo, principalmente, de manhã. À tarde, às vezes sim, às vezes não. No mais, vou pescar, cuidar da chácara. É como diz o doutor Drauzio Varella: “Para você não cair, fique atento o tempo todo”. Se você quer ser escritor, ande com papel e caneta.

Ler para ser feliz
No Brasil, há esse grande impasse: muita gente pensa que ler é um luxo. Ler é uma necessidade! Hoje, para arranjar um emprego, você tem de se comunicar, precisa de relações humanas e profissionais ricas que se traduzam em uma vida melhor, para se ter saúde ser feliz. E a leitura, principalmente de literatura, proporciona condições para a felicidade. Um leitor olha determinada cena, do mundo real, e sente e entende tudo muito mais.


Olho:

“Para mim, história é algo muito poderoso. Tudo no ser humano é história.”
“Mais do que palavras, eu lido com a vida.”
“É um erro o que fazem na escola quando apresentam Dom Casmurro para o jovem ler. Isso é um castigo.”
“Eu sempre quis fazer uma literatura que não parecesse literatura, mas que parecesse com a vida.”
“O haicai é um avanço na percepção, representa o casamento do Ocidente com o Oriente.”
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