Literatura em cena | Belém

Novo vigor da literatura paraense

Apesar da rica tradição e da produção literária recente, Belém tem um mercado editorial restrito, o que obriga seus autores a procurar visibilidade no eixo Rio-São Paulo


Ruy Barata Neto

Berço de uma importante geração modernista, o Pará tem tradição literária pouco explorada pelo mercado editorial brasileiro. Apesar disso, a cena local é dinâmica e nos últimos anos vem ganhando projeção com o surgimento de uma nova safra de autores lançados a partir de meados de 1990. O movimento tem garantido novo vigor à literatura paraense e começa a abrir portas para os autores no Brasil e no exterior.

No pelotão de frente do grupo está o tradutor e poeta Antônio Moura. Dono de uma poesia equilibrada e madura, nas palavras do professor de literatura paraense Paulo Nunes, Moura é visto como um dos principais poetas contemporâneos do Pará. Seu terceiro livro, Rio silêncio, de 2004, está trilhando um caminho de sucesso. Na Inglaterra, conquistou o prêmio John Dryden, em 2008, específico para autores de língua estrangeira, e foi lançado comercialmente no país pela editora Arc Publications, no ano passado.

Há talentos ainda mais novos em plena fase de decolagem, como o jornalista e poeta Caco Ishak. Seu segundo livro de poesia, Não precisa dizer eu também — publicado este ano, já está sendo traduzido para o alemão. A obra chegou às mãos de Márcia Huber, tradutora paraense radicada na Alemanha, que convidou o austríaco Burkhard Sieber para viabilizar o lançamento do autor no país.

Divulgação
O poeta Caco Ishak, que terá seu segundo livro, Não precisa dizer eu também, traduzido na Alemanha.

Além da poesia, esta nova cena também tem representantes em gêneros como o romance, o conto, e a literatura infantojuvenil, que valem a pena serem descobertos. Na crítica literária, a escritora, poeta e ensaísta Élida Lima, destaca-se como um grande nome da nova produção paraense. Seu segundo livro, Cartas ao Max: limiar afetivo da obra de Max Martins — um dos mais importantes poetas paraenses da geração de modernistas dos anos 1940 e 1950 —, explora um tipo de crítica literária ainda rara no Brasil. Por meio de seus poemas e ensaios, Élida estabelece um diálogo criativo com a obra de Max que trafega no limiar entre a poesia e a crítica literária.

Cada um dos autores trilha seu próprio caminho por conta da desorganização da cena local. Carente de editoras, boa parte do escoamento da produção local depende de iniciativas de órgãos públicos. Os que não embarcam nesse caminho, tentam abrir canais diretos com as editoras do eixo Rio-São Paulo. “Para quem está começando, a distribuição é um fator importante, mas em Belém ainda é uma lacuna”, diz Ishak, que lançou seus dois livros pela editora 7Letras, do Rio de Janeiro.

A boa repercussão da obra de Antônio Moura, que também está sendo traduzida para o alemão, catalão e espanhol, deve-se em parte às editoras do Sudeste. Após publicar o livro de estreia, Dez (1996), com recursos próprios, partiu em busca de editoras do eixo Rio-São Paulo para publicar os próximos títulos: Hong Kong & outros poemas, de 1999, editado pela Ateliê Editorial, de São Paulo, Rio silêncio e A sombra da ausência, de 2009, publicados pela Lummi Editor, também de São Paulo. “O Pará não tinha editora acessível”, conta Moura. “A saída era ir atrás das editoras do Sudeste.”

SOLUÇÕES CASEIRAS
Mas aos poucos o Pará já adquire uma estrutura maior de divulgação e escoamento da produção literária local. E isso ocorre por meio de iniciativas individuais dos próprios autores. Após romper contrato com a Lummi Editor, em 2010, Antônio Moura agora se dedica a consolidar sua própria editora: a Edições do Escriba. A empresa está sendo montada com o também poeta Marcílio Costa, que é de Marabá, município no sudeste do Estado e que é centro de produção literária do Pará junto com Belém, Bragança e Santarém.

foto: Eduardo KalifCosta já trabalha com um projeto de difusão da literatura paraense, chamado “Sendas”, que promove encontros, leituras e palestras sobre a obra de escritores regionais, novos e consagrados. Um dos mais recentes eventos do projeto foi dedicado à escritora Maria Lúcia Medeiros — uma das melhores contistas do Pará. Já integrada ao projeto, a Edições do Escriba publicou edições reduzidas, com certa de cinco contos, da obra de Maria Lúcia. “É um esforço para sanar a falta de estrutura de divulgação e distribuição de obras no Pará”, diz Moura. Ele acrescenta que inicialmente a editora fará publicações de poesias, mas naturalmente pretende ampliar o leque com o tempo.

A editora de Moura será a segunda empreitada do mercado editorial local. Hoje há apenas uma editora privada em atividade: a Paka-Tatu, montada em 2000. Dirigida por Armando dos Santos Alves Filho, a empresa tem conseguido manter catálogo de autores locais, vendidos por meio de uma pequena livraria própria. Há parcerias com empresas de São Paulo para a comercialização das obras fora das fronteiras do Estado, o que tem sido um caminho útil para exportar os autores locais.

Antônio Moura é considerado um dos mais importantes poetas contemporâneos de Belém.


A divulgação da cena literária local também cresceu nos últimos anos. O poeta Vasco Cavalcante criou um novo portal de internet, o Cultura Pará, no qual se encontram trechos de obras, contatos e biografia dos principais autores paraenses. Há também novas revistas como a PZZ, de arte e cultura, comandada pelo poeta Carlos Pará, e a Polichinello, que procura ganhar força de penetração nacional.

GARGALOS
Apesar da musculatura adquirida recentemente, o Pará tem muitas carências. A primeira delas é o tamanho da Paka-Tatu. Por funcionar praticamente como uma microempresa, não dá conta de abraçar toda a demanda local. “Nossas vendas hoje nos permitem ganhos que, grosso modo, destinam-se à manutenção e funcionamento da editora. Pouco sobra para investimentos em novas obras. Muitos autores estão na fila de edição aguardando a publicação de sua obra. E isso nos gera certa inquietude”, diz Armando Filho.

Com uma oferta de escritores maior do que a capacidade local de escoar a produção, as editoras universitárias como Editora da Universidade Estadual do Pará (EDUEPa), da Federal do Pará (EDUFPa) e da Universidade da Amazônia (EdUnama) agem para além da literatura acadêmica, mas tem limitações para distribuir, por exemplo.

Isso joga a responsabilidade de desenvolver a cena no colo do Estado. O principal incentivador local de literatura é o Instituto de Artes do Pará (IAP) que viabiliza, por meio de editais literários, a publicação de diferentes gêneros — da poesia ao ensaio —, além de promover cursos de formação para escritores e agentes de leitura. A entidade também conduz trabalhos de resgate da obra de literária de autores consagrados como o da geração do Central Café, no centro de Belém, a partir do início dos anos 1950. Entre eles, Mário Faustino, Ruy Barata, Paulo Plínio Abreu, Benedito Nunes, Haroldo Maranhão, Max Martins e outros.

Apesar de importantes, as ações do Estado têm as suas limitações, segundo o professor Paulo Nunes. “Falta uma política comprometida do Estado, como ocorre em outras unidades da Federação, para estabelecer convênios com editoras sérias e grandes que possam publicar, distribuir e divulgar seus autores célebres e que não encontram mais mercado, a exemplo de Ruy Barata, Haroldo Maranhão, Dalcídio Jurandir, Max Martins, apenas para citar quatro nomes que estão fora dos catálogos de editoras e nada se faz”, critica Nunes.

Sem os grandes autores nas prateleiras, muitas das ações de promoção da literatura paraense ficam inócuas. Um dos principais eventos locais, a Feira Pan-Amazônica do Livro, que ocorre anualmente, em geral homenageia alguns dos grandes escritores paraenses. Ironicamente, não é raro constatar que o tão difundido autor praticamente não tenha exemplares do que escreveu disponíveis ao público.
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