Um Escritor na Biblioteca - Michel Laub

Michel Laub

 
Com uma literatura marcada pela concisão e pelo tom aparentemente autobiográfico da narrativa, Michel Laub falou sobre essas e outras questões que envolvem sua obra romanesca durante o último encontro de 2013 do projeto “Um Escritor na Biblioteca”, realizado em novembro. Laub lançou no segundo semestre deste ano o romance A maçã envenenada que — segundo o autor — compõe uma trilogia iniciada com Diário da queda (2011). O novo livro, que começará a ser escrito em 2014, deve marcar não só o fim da trilogia romanesca, disse Laub, mas também o fim de um ciclo ficcional do autor. “Depois da trilogia [iniciada em Diário da queda], talvez acabe minha carreira de ficcionista, pelo menos do ficcionista que eu fui até aqui. São seis livros, o leitor já entendeu e os livros têm muita semelhança entre si. Se eu voltar a escrever, certamente será uma coisa diferente.” Questionado a respeito dos autores que influenciaram a sua escrita, o escritor gaúcho revelou que prefere sempre fugir de sua zona de conforto e buscar autores que tenham concepções literárias diferentes da sua. “Cada vez mais, à medida em que os anos vão passando, procuro vozes que sejam particulares e que não necessariamente digam o que já sei ou o que eu espero ouvir, o que considero um grande pecado de quem lê ideologicamente, porque você acaba sempre procurando confirmar as próprias certezas.” Durante o encontro, mediado pelo diretor teatral Flávio Stein, Laub também falou que considera sua trajetória de escritor iniciada com os primeiros livros que leu. “O início da minha trajetória como escritor vem da minha vivência como leitor. Os primeiros livros que li, como O patinho feio, me fizeram ter gosto pela literatura, foram, para mim, mais influentes do que qualquer coisa que eu tenha lido depois.” Nascido em Porto Alegre, em 1973, Michel Laub foi editor-chefe da revista Bravo! e coordenador de publicações e internet do Instituto Moreira Salles. Hoje é colunista da Folha de S.Paulo e da revista Vip, além de colaborar com diversas editoras e veículos. Além de A maçã envenenada, publicou outros cinco romances: Música anterior (2001), Longe da água (2004, lançado também na Argentina), O segundo tempo (2006), O gato diz adeus (2009) e Diário da queda (2011), que teve os direitos vendidos para 11 países e virará filme. Confira os melhores momentos do papo.

Foto: Guilherme Pupo

LEITURAS
Hoje em dia leio muita coisa por obrigação. Como trabalho com livros, preciso ler sobre aquilo que escrevo, referências que preciso ter, etc. E, eventualmente, algo que eu precise acompanhar da produção atual, porque escrevo literatura contemporânea e é legal saber o que meus parceiros de geração estão fazendo.

INFLUÊNCIAS
Não sei falar muito sobre influências porque sempre acreditei que um escritor iniciante já tem a intenção de fazer algo único e precisa tentar fugir das influências mais evidentes. Toda vez que o escritor iniciante percebe que um autor está muito presente naquilo que ele escreve, imediatamente foge disso. Os escritores que mais poderiam me influenciar acabaram não influenciando porque, conscientemente, fugi deles na hora de escrever.

ESCRITOR COMO LEITOR
A maior influência de toda a minha trajetória foi a leitura. Acho que todo escritor é um leitor de si mesmo, no sentido de que aquilo que vai para a página, que ele concorda em mostrar para seu editor e depois para o seu público, passou pelo crivo desse escritor como leitor. Ele nunca publica algo sem ter lido antes. Eu jamais faria uma coisa dessas e acredito que 99% dos escritores também não. Você publica aquilo que quer, de acordo com o que gosta como leitor. Essa habilidade para ler um texto e decidir se ele é bom ou ruim, o que falta ou não, é o que faz o processo de escrita. O início da minha trajetória como escritor vem da minha vivência como leitor. Os primeiros livros que li, como O patinho feio, os títulos da Coleção Vaga-Lume, romances da Agatha Christie e, mais tarde, os contos de Rubem Fonseca, que foram os livros que me fizeram ter gosto pela literatura, foram, para mim, mais influentes do que qualquer coisa que eu tenha lido depois.

TEMPO DE LEITURA
Você todo dia está no computador, escreve trechos e, ao final de dois, três, quatro anos vai olhar aquela maçaroca e dar uma forma para ela, de maneira que aquilo se torne um romance, um todo coerente. Essa habilidade de ler acho que se adquire ao longo dos anos lendo outros autores, muito mais do que imitando-os. Um livro similar a Como funciona a ficção, do James Wood, às vezes te dá ferramentas para ler e destrinchar tecnicamente um texto que você acaba usando na sua própria escrita de maneira muito mais efetiva e visível do que propriamente aquilo que você leu e eventualmente tenha influenciado você.

NOVAS VOZES
Cada vez mais, a medida em que os anos vão passando, procuro vozes que sejam particulares e que não necessariamente digam o que já sei ou o que eu espero ouvir, o que eu considero um grande pecado de quem lê ideologicamente, porque você acaba sempre procurando confirmar as próprias certezas e a não sair do lugar, pois as leituras se tornam “pregações para convertidos”. Eu gosto muito de ler escritores que pensam o mundo e escrevem de uma maneira totalmente diferente da minha. A escrita que faço, por exemplo, às vezes é muito apolínea, muito trabalhada, no sentido de que é demasiadamente exata. E gosto, por exemplo, de escritores que tenham uma prosa muito mais suja.

Foto: Guilherme Pupo
O diretor teatral Flávio Stein conversou com o autor de Diário da queda.

ESCRITA EM PROGRESSO

Quando estou escrevendo, é muito dramático pra mim, muito angustiante. Cada frase demora muito pra sair, às vezes passo um dia inteiro sem conseguir escrever um parágrafo, no outro dia, continuo na mesma. E, quando vejo, passo a semana toda sem um parágrafo. Escritores mais prolíficos, me alimentam porque são autores que usam as palavras sem se preocupar, que comem no restaurante sem se preocupar com a conta, digamos. Um exemplo é o Lobo Antunes. Não é um escritor da minha preferência, mas durante a escrita de O gato diz adeus, lembro ter lido Lobo Antunes porque é um tipo de escrita caudalosa, meio barroca e tal. E aquilo me serviu como um estímulo. “Pô, não sei fazer um parágrafo e esse cara escreveu 700 páginas”, pensei. Não preciso fazer 700 páginas nem ser o Lobo Antunes, mas pelo menos uma pagininha eu consigo terminar até o fim da semana. E se fizer uma página por semana, estou no ritmo dos meus livros de 120, 150 páginas, que publico a cada dois ou três anos. Assim está tudo bem.

FAULKNER
O Faulkner cito sempre como uma influência, porque tem algum ponto da prosa dele que eu acho que incorporei na minha. Ele é muito generoso, digamos assim, escreve livros longos e não poupa as frases, está tudo dito ali de uma maneira que vai para vários lugares, sem se preocupar muitas vezes com o leitor, uma coisa que eu acho legal também. Num ritmo às vezes lento, às vezes muito rápido, muito violento e tal. É um cara que faz coisas que eu não costumo fazer e, por isso, admiro ainda mais a escrita dele.

PREOCUPAÇÃO COM O LEITOR
Eu acho que existem duas repostas possíveis. Uma delas, é a mais fácil e a que mais agrada as pessoas, que é dizer, contraditoriamente, que você não se preocupa com o leitor. E isso pega muito bem, “porque eu sou contra o mercado, contra o leitor, sou contra a inteligência, sou contra tudo, porque eu quero fazer exatamente aquilo que penso e o mundo que se adapte”. Em alguma medida, é claro que é assim, porque você tem que ir contra algum tipo de certeza sua mesmo — e se é uma certeza sua, também é uma certeza geral, porque você não consegue fugir muito do lugar-comum. Mas ao mesmo tempo, é claro que o livro é pra ser lido, em alguma ponto, você quer que o leitor tenha algum envolvimento com aquilo. Acho que a primeira coisa com que um escritor deve se preocupar, é em fazer o leitor chegar até o final do livro. Não necessariamente por meio de um enredo bem construído, aquela coisa folhetinesca, mas um interesse que o faça pular de uma página para a outra. Não existe pureza nessa questão, de fingir que o leitor não existe. Nem, por outro lado, ser um escravo do leitor e falar só o que as pessoas querem ouvir. O equilíbrio está em algum ponto no meio.

PÚBLICO
Acho que ao longo do tempo, pelo menos em termos de linguagem, puxei para o lado do leitor. Meus últimos textos estão mais inteligíveis que os primeiros, certamente. Quanto aos temas, acho que foi ao contrário. Quero crer que eu hoje tenho umas sofisticação temática maior que a de antigamente. Até porque estou mais velho e a experiência de vida dá outra compreensão.

REALIDADE E FICÇÃO
No momento em que você escolhe contar uma história, também escolhe não contar outra história. Eu sou, constantemente, confundido com um escritor autobiográfico. Mas existe um erro óbvio em dizer que uma pessoa que conta uma história de 20 anos atrás vai reproduzir exatamente tudo o que aconteceu.

Foto: Guilherme PupoLONGE DA ÁGUA
Dos meus seis romances, o que eu poderia dizer que é mais autobiográfico é o Longe da água (2004), que tem um episódio sobre um acidente que aconteceu com um amigo, em 1987. Hoje é muito difícil eu lembrar da sensação daquele dia, é mais fácil eu me lembrar das palavras do livro que usei para descrever aquela sensação meio abstrata, que se perdeu na memória, pois eu tinha 14 anos. A memória vai transformando as coisas ao longo do tempo. E a escrita, no momento em que você resolve fixar, registrar isso, congela isso no tempo. A realidade não tem sentido, é fragmentada, sensorial. Um livro não é isso, ele tem lógica, trabalha com um instrumento, que é a linguagem, possui regras. Você usa um instrumento técnico e artificial para falar de algo que não é nem técnico nem artificial.

EXISTÊNCIA DA REALIDADE
Existe uma objetividade possível. É claro que quando eu digo que “meu pai nasceu em Berlim, em 1930”, ou que “tenho 40 anos”, isso é verdade, não vou discutir a existência da realidade. Mas isso não é importante na literatura, dentro de um livro. Essas referências factuais servem para colorir algo que está ali por baixo, a ação, o emocional do livro e tal. O conto que enviei para a revista Granta, chamado “Animais”, que provavelmente é meu maior exercício autobiográfico, em vários momentos, meu pai realmente é aquela pessoa da história, que morreu daquele jeito. Essa neutralidade da descrição desse conto talvez só interesse ao leitor porque dentro do “Animais” existe uma história sobre um cachorro que morre e essa história é mentira. Se alguém gostar do conto, vai gostar pela história do cachorro e não pela do meu pai.

MEMÓRIA
Existem mil circunstâncias que interferem no registro da memória e eu não tenho nenhuma dúvida sobre essa subjetividade. Quanto à literatura, o que posso dizer é que existem também várias formas de tratar a memória, e uma delas é a temática. A memória não está nem na estrutura do texto, está na forma com que você a trata no livro. Uma das escolhas que sempre fiz nos meus livros, foi situar personagens num período da vida — infância ou adolescência — em que as coisas são necessariamente mais intensas porque elas são vividas pela primeira vez. Como em Longe da água, em que o garoto vê o amigo morrendo. Se hoje meu melhor amigo morrer, vai ser terrível, mas é diferente. Eu sei que o mundo não para, que não tenho só esse amigo, que tenho uma vida familiar, que a vida tem muitos caminhos e nada é definitivo. Na adolescência, você não tem nenhum experiência de vida para saber que é possível ter uma vida além disso.

ROMANCE DE FORMAÇÃO
Dentro dos romances, sempre me pareceu mais interessante tratar dessa época, inclusive porque os dramas dos meus livros são coisas às vezes muito banais e que se fossem vista apenas do ponto de vista de um adulto não teriam força suficiente para “segurar” um livro de 150 páginas. Esse é o principal motivo para eu ter produzido uma série de livros que são identificados como romances de formação, acho que talvez até falta de imaginação da minha parte em pensar em algo mais complexo que esses pequenos dramas que precisam ser coloridos por questões etárias.

PRIMO LEVI
Diário da queda (2011) trata de um menino cujo avô esteve no campo de concentração de Auschwitz. Esse avô nunca falava diretamente sobre o campo de concentração, e eu precisava contrapor isso, de algum modo, colocando toda a experiência intelectual da segunda metade do século XX falando sobre a Segunda Guerra. Para isso, escolhi É isto um homem? (1956), do Primo Levi, que considero o livro que traz o relato mais literal, menos sentimental, e exato do que foi a experiência em um campo de concentração. Eu já estava quase terminando Diário da queda, quando resolvi reler esse livro para conferir se não havia algum erro que comprometesse meu texto. Meu avô nunca esteve em um campo de concentração. Mas o avô de um primo meu esteve em Auschwitz no mesmo ano em que o Primo Levi, o nome dele era Chaim e era relojoeiro. E o cara que dividia a cama com o Primo Levi nos alojamentos se chamava Chaim e era relojoeiro. Foi chocante, eu inclusive procurei meu primo pra checar se isso era verdade, comparamos datas e chegamos à conclusão de que não era ele, até porque o Chaim que conhecíamos saberia se fosse ele o citado no livro, pois era uma pessoa bem informada.

A MAÇÃ ENVENENADA
A maçã envenenada conta a história de um soldado do exército de Porto Alegre que quer ir para São Paulo porque a namorada está lá e vai assistir ao show do Nirvana. A partir disso, ele faz uma série de relações entre Kurt Cobain e uma menina chamada Immaculèe Ilibagiza, sobrevivente do massacre de Ruanda que passou noventa dias no banheiro com outras seis mulheres. Ela entrou nesse banheiro no dia da morte do Kurt. Comecei a escrever esse livro antes de Diário da queda e era um livro só sobre o Kurt Cobain, mas ele empacou em um determinado momento e eu não sabia para onde ir. Muito tempo depois, quando conheci Immaculèe Ilibagiza na vida real e ela me contou tudo isso, eu fiquei impressionado com a história, li os livros dela e percebi essa coincidência de datas. Eu estava escrevendo um livro sobre alguém que se matou no mesmo dia em que uma mulher perdeu tudo, e essa história começa no mesmo dia, era algo muito forte para eu desprezar. O desafio passou a ser aproximar essas histórias e então eu retomei o livro. Queria entender essas experiências aparentemente tão opostas, descobrir se havia possíveis pontos de contato entre elas, por meio de um personagem que está entre esse desejo de sobrevivência e a ideia romântica da morte.

LITERATURA E VIDA
Os livros têm impacto na vida pessoal, sim. No início da carreira, como todo escritor que quer impressionar, sempre dizia que “literatura não serve pra nada, ninguém se importa e tal”. Mas, no mínimo, ela muda a vida de quem se propõe a ler. Se você passa a vida inteira escrevendo um livro, participando de debates, isso gera um efeito sobre o mundo, um mundo possível, o seu mundo. Claro que eu não estou interferindo na economia brasileira, mas estou mudando algo na minha vida, na vida de um leitor, de dez leitores, etc. Isso é mudar a realidade dentro de uma esfera possível.

ROMANCE AUTOBIOGRÁFICO
Existem dimensões autobiográficas nos livros que são subestimadas. Exceto pelo O gato diz adeus, que tem mais de um narrador, todos os meus outros livos têm uma voz mais uniforme, que é um pouco a minha voz natural. Leio meus romances e identifico neles exatamente a maneira como penso, e isso é muito mais autobiográfico do que dizer que uma coisa aconteceu exatamente daquela maneira.

ROMANCISTA RELATIVISTA
Sempre existem extremos que os personagens, por ter mais ou menos a minha voz, e por ter uma certa curiosidade intelectual que eu tenho, testam as ideias até o limite delas. No Diário da queda onde eu mais fiz isso, porque um personagem fala de nazismo e está o tempo inteiro se colocando dos dois lados da história, algo que não é aceito como naturalmente moral, mas intelectualmente, é o que se faz. E acho que eu sou assim na vida real, relativista. Quem acompanha o que escrevo na imprensa, percebe que certamente não sou um colunista enfático, com ideias mais ou menos previsíveis como tem tanta gente por aí. Quando falo de um assunto, sempre vou olhar os dois lados e dar voltas em cima daquilo, e acho que os meus livros reproduzem isso.

LEITORES
Essa postura deve irritar leitores que gostam de algo mais direcionado, mas agrada um outro tipo de leitor. Embora eu tenha me impressionado muito com a história da Immaculèe, não podia deixar isso contaminar o texto, tinha que dissecar essa mulher. Falar mal do Kurt Cobain, que foi um cara muito importante na minha vida, faz parte do mesmo processo. Acredito que o verdadeiro respeito e entendimento pelas pessoas passa por você ser capaz de pesá-las assim e de analisar todos os aspectos da personalidade delas, sem fazer um julgamento prévio, pois o julgamento vai ser do leitor. Esse é um típico procedimento meu, que não é feito para agradar o leitor, não de propósito, mas acaba tendo esse efeito.

DEPRESSÃO COMO TEMA
Há um livro do Otavio Frias Filho chamado Queda livre — Ensaios de risco (2003), em que cada ensaio tem um tema. No último capítulo ele é voluntário do CVV [Centro de Valorização da Vida] por seis meses. Com essa experiência ele escreve que “se curou” do suicídio. Eu não posso dizer que tenha uma tendência concreta ao suicídio, mas essa é uma ideia que me interessa intelectualmente. Nunca sofri de depressão, por exemplo, mas a depressão foi um tema que me interessou, acho a depressão uma coisa fascinante, um instinto contra a própria espécie. Tanto que, em quase todos os meus livros, há um personagem que sofre dessa doença. Tratar desse tema talvez seja uma maneira de exorcizar esse instinto em mim.

Foto: Guilherme Pupo

FIM DA CARREIRA
Tenho 40 anos e sinto um esgotamento de mim mesmo em relação à literatura. Tenho mais um livro, que já não vai mais passar pela questão do suicídio, mas ainda falará sobre a morte, sobrevivência e tal. Provavelmente é o último livro que eu escrevo e talvez seja último produzido nessa chave de primeira pessoa, de misturar algumas referências de experiência pessoal, etc. Depois da trilogia [iniciada em Diário da queda], talvez acabe minha carreira de ficcionista, pelo menos do ficcionista que eu fui até aqui. São seis livros, o leitor já entendeu e os livros têm muita semelhança entre si. Se eu voltar a escrever, certamente será uma coisa diferente, narrar sob a ótica de outra pessoa, ou escrever livros-painéis com vários personagens, em terceira pessoa, não sei. Mas certamente vou dar um tempo, fazer livros de não-ficção, que é algo que me interessa, ou então reportagens mesmo. Não quero passar o resto da vida escrevendo romances de formação porque eu mesmo estou cansando disso.

CARÁTER AUTOBIOGRÁFICO
Não nego o caráter autobiográfico de meus livros. Acho que todo livro é autobiográfico de alguma maneira, porque o escritor parte da sua memória, mesmo que seja para inventar alguma coisa. Eu gostaria de ter escrito A divina comédia, mas só consegui escrever A maçã envenenada, são os limites da minha escrita. Os limites do escritor são exatamente os livros que ele publicou, a capa, o miolo, aquilo é o máximo que eu consegui fazer. Meu talento, minhas circunstâncias, idade, experiência de vida, etc., está tudo ali. Por saber disso, você usa as armas que tem. O Bernardo Carvalho, em uma entrevista que fiz com ele certa vez, disse que quando ele entendeu que os defeitos que tinha eram só seus, passou a apostar justamente nisso. Ou seja, investir nos meus defeitos é o que vai me fazer um escritor único, não um escritor como o Bernardo Carvalho, ou qualquer outro que faz um outro tipo de literatura. Percebi isso e muitas vezes forcei a barra, exacerbando esses defeitos. Esses detalhes autobiográficos criam um espécie de jogo com o leitor, que ao longo dos anos começa a ter alguma ressonância. Uma das maneiras de convencer o leitor, hoje em dia, que todo mundo é tão interessado em detalhes pessoais, em relatos confessionais, é fazer com que o leitor acredite que aquilo realmente aconteceu. É um mau motivo para atraí-lo, mas ali no meio você contrabandeia e coloca lá as coisas mais importantes e que você espera refletir pro leitor.

TÉCNICA
A técnica é uma coisa curiosa. Já dei algumas oficinas literárias e é possível você ensinar a identificar alguns procedimentos. Um filme, por exemplo, trabalha com cortes. Mas você se acostumou, porque isso não nasceu com o cinema. Isso é uma teoria que faz com que a narrativa do cinema ande pra frente por meio dos cortes. A literatura não é assim, ela tem algo que não pode ser reproduzido pelo cinema. E cada autor faz essa transição de um jeito. Com o tempo, você consegue desenvolver no seu discurso esse tipo de técnica.

ROTINA
Cada escritor tem uma rotina diferente. Não tenho um ritmo muito regular porque trabalho em outras coisas, viajo bastante. Eu tenho um ritmo de produção muito lento, em períodos curtos e com muitas distrações no meio. Só publiquei tantos livros porque eles são quase novelas. Se eu fosse romancista mesmo, daqueles que escrevem 300, 400 páginas, teria publicado no máximo dois livros, pois não tenho esse ritmo de romancista de fôlego e não adianta eu querer lutar contra isso. Eu era contista e conseguir me estender a ponto de escrever novelas, mas mais que isso eu não vou conseguir fazer. Mas, enfim, cada um tem que achar sua própria maneira de exprimir por meio da técnica aquilo que está dentro de você, que é o mais importante. É um poço de petróleo que você precisa encontrar a ferramenta certa para furar.

ESCREVENDO NA REDAÇÃO
Trabalhei muito tempo em redação. Longe da água eu escrevi quase todo dentro de uma redação. Foi o primeiro livro em que eu usei os capítulos curtos, e de lá pra cá fui diminuindo cada vez mais, porque eu precisava terminar esse capítulo em uma sessão de uma hora ou duas sessões porque depois a redação entrava em polvorosa, entrava uma matéria em que eu tinha que viajar e eu ficava três semanas fora.
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