Um Escritor na Biblioteca - Lourenço Mutarelli


Com origens nos quadrinhos,    Foto Mutarelli
o autor de O cheiro do ralo fala           sobre sua relação com outras
atividades artísticas, como o
cinema e a música, e revela de
que forma produz seus romances
e HQs 


Nascido em 1964, Lourenço Mutarelli cursou a faculdade de Belas Artes e, durante três anos, integrou a equipe do estúdio de Maurício de Sousa. Nos
anos 1980, iniciou sua produção em
histórias em quadrinhos por meio dos
fanzines e edições alternativas com pequenas tiragens. Nos anos 1990 lança alguns de seus quadrinhos mais famosos, entre os quais Transubstanciação. Mas é pela via da literatura que Mutarelli fica conhecido do grande público, ainda que conserve aos milhares os fãs de seus quadrinhos. Instigado por um e-mail de Arnaldo Antunes, que se empolgou com os originais de O cheiro do ralo, Mutarelli se animou a publicar o livro, escrito em surto catártico de cinco dias, durante um feriado de Carnaval. Dali em diante, o livro foi publicado, adaptado para o cinema com grande sucesso por Heitor Dhalia e possibilitou a Mutarelli o início de duas novas carreiras: a de ator e romancista. Mutarelli falou sobre o início de sua carreira como romancista e outros assunto durante o quatro encontro do projeto “Um Escritor na Biblioteca”. No bate-papo, conduzido pelo escritor e jornalista Luís Henrique Pellanda, o escritor confessou a sua admiração pelos escritores Franz Kafka, William Burroughs, Fiódor Dostoiévski e Valêncio Xavier. “O Valêncio Xavier é o maior escritor brasileiro. De todos os tempos. Gosto de outros, de outras épocas, mas o Valêncio é o autor que me atingiu mais profundamente”, disse. Leitor apegado aos livros, Mutarelli também revelou que não lê ficção enquanto produz as suas obras, e que, entre outras idiossincrasias, tem um pé atrás com o que chamam de “memória”. “Desconfio da memória. É um assunto que está me consumindo. Acho que a memória é muito fictícia. Acredito cada vez menos nessas imagens da memória, nas lembranças. Tudo é reconstruído. É importante desconfiar da lembrança e da memória”, afirma o escritor. A seguir, os principais momentos do bate-papo


Biblioteca em casa
A maior parte da biblioteca da casa do meu pai era de livros, mas também tinha quadrinho. Estudei em escola de padre e de freira, ambiente de pouca liberdade e muita castração. Inclusive, nasci em 1964, junto com a ditadura militar. Na biblioteca da minha casa, eu tinha acesso a tudo. Era uma biblioteca relativamente grande, onde havia desde títulos de medicina legal até livros de arte. Meu pai não lia os autores russos, por ser policial na época da ditadura. Mais tarde, tentei apresentar a ele alguns livros do Dostoiévski, mas ele não se permitia.

O mundo dos gibis
Na biblioteca da minha casa, tinha desde Will Eisner até Flash Gordon, Fantasma, e muitos autores e personagens da chamada Era de Ouro dos quadrinhos. A parte mais contemporânea eu conheci quando fui trabalhar com o Maurício de Sousa, na parte de animação. O Maurício tinha uma ampla gibiteca para os funcionários. Lá, conheci os contemporâneos, o que me estimulou a fazer quadrinhos.

Polícia não
Um dia, meu pai, que ainda era policial estava no fim da carreira, desabafou: “A polícia acabou, a polícia acabou.” É que, naquele contexto, começaram os direitos humanos. Ele foi um policial de uma época em que não existiam direitos humanos, quando a tortura era permitida, um tempo execrável. A polícia é um meio terrível, onde você conhece um mundo realmente cão, e é um caminho sem volta. Houve pressão muito grande para que eu entrasse na polícia. Mas eu tinha escrúpulo demais para entrar no meio policial. É impossível um policial manter alguma ingenuidade ou serenidade com relação a qualquer outro ser humano. Preferi, então, sobreviver em subempregos antes de conseguir me firmar com o meu trabalho artístico.

Por si mesmo
Estudei em um colégio da classe mais alta, da qual eu não fazia parte — era a minha avó quem pagava. Eu usava roupa remendada, era óbvio que eu não fazia parte daquele meio. Ali, tinha uma biblioteca interessante. Mas as bibliotecas, em geral, me intimidavam. A procura por um livro em catálogos e fichários era uma coisa que me deixava perdido. Vamos sintetizar da seguinte maneira: nem sempre o atendimento em uma biblioteca é adequado. As minhas experiências em bibliotecas não foram muito boas. Por sorte, acho que todo leitor se faz por si mesmo, por nota de rodapé e pelos interesses que movem a pessoa em busca de informações. De modo geral, digo que a biblioteca da minha escola nunca fez com que eu me sentisse à vontade.

Acidente literário
Por desenhar desde a infância, o quadrinho nunca me intimidou. O quadrinho é um laboratório, onde é possível experimentar e, acredito, não há um olhar tão crítico quanto na literatura. A literatura era, para mim, algo sagrado, inatingível até. Entrei na literatura acidentalmente. Quando pensei em escrever O cheiro do ralo, eu estava terminando a trilogia do personagem Diomedes, e tinha uma série de outros trabalhos de ilustração e quadrinhos. Tive a ideia de escrever uma história e achava que a imagem iria denunciar demais, por isso tentei escrever um texto.

Gênese do primeiro romance
Escrevi O cheiro do ralo em cinco dias, durante uma viagem que a minha mulher e o meu filho fizeram durante um carnaval. Quando ela voltou, mostrei o texto e disse: “Olha, fiz um negócio, não sei se é livro, não sei o que é, mas é um texto.” Pedi para ela ler e, quando terminou, ela me disse o seguinte: “Você não escreveu em cinco dias, mas em 38 anos, desde 1964, ano em que você nasceu.” A minha esposa percebeu dois pontos, onde fui preguiçoso e onde não havia resolvido uma questão. Passei mais dez dias resolvendo os problemas, enxugando excessos. Havia terminado, mas não sabia se aquilo era um livro. Aí, levei o original para a minha editora, que era a Devir, e comentaram: “Pô, um livro? O teu público é de quadrinhos.” E engavetaram O cheiro do ralo.

Ferréz
Finalizei O cheiro do ralo imediatamente após ler o livro Capão pecado, do Ferréz, uma obra que flui muito bem. Foi ali que percebi que um texto, com apenas palavras, pode evocar a realidade de uma forma mais real do que se tentar representar aquilo por meio apenas do desenho. Dedico O cheiro do ralo a ele, Ferréz. Um pouco antes do meu livro ser publicado, o Ferréz queria me apresentar a um amigo, mas não disse quem era. Ele apenas falou para eu levar alguns álbuns meus de quadrinhos para dar de presente ao amigo dele, que era uma pessoa que eu, certamente, deveria gostar. Então, fomos ao encontro, e o amigo do Ferréz era o Arnaldo Antunes.

Valêncio Xavier
Aconteceu algo muito importante na minha vida no dia em que fui visitar o Arnaldo Antunes, e tem ligação com Curitiba. É o seguinte: quando eu lançava um álbum de quadrinhos, quem sempre me entrevistava para a Gazeta do Povo era o Valêncio Xavier. E eu vou dizer uma coisa, talvez possa soar como exagero, mas é a minha opinião. O Valêncio Xavier é o maior escritor brasileiro. De todos os tempos. Gosto de outros, de outras épocas, mas o Valêncio é o autor que me atingiu mais profundamente. Nunca tive coragem de dizer isso para ele, mas agora está dito. Ainda em relação a Curitiba, tem outra questão importante. Eu lançava os meus quadrinhos em São Paulo e no dia seguinte viajava para Curitiba para lançar na Itiban Comics Shop, que visito até hoje e ainda mantenho amizade com os proprietários. Mas, voltando ao Valêncio, aconteceu de num desses encontros eu dizer para ele: “Valêncio, escrevi um negócio, que é um texto, não sei o que é.” Ele disse que gostaria de ler. Então, fiz uma cópia e iria mandar para ele, e isso justamente no dia em que eu estava indo, mesmo sem saber, para a casa do Arnaldo Antunes.

Arnaldo Antunes
Na casa do Arnaldo Antunes, entreguei alguns dos meus álbuns para ele, que já possuía a coleção completa dos meus quadrinhos. O Arnaldo me deu alguns CDs, dele, que eu ainda não tinha. Foi uma tarde muito divertida: eu, o Arnaldo e o Ferréz. Em determinado momento, falei: “Arnaldo, a única coisa que posso te dar é um negócio que fiz, que nem sei o que é.” Achei que ele nunca iria ler. Enquanto tirava xerox, perdi um pouco da ordem daquilo. E mandei para o Arnaldo, só para retribuir os CDs que ele tinha me dado. Nesse contexto, meu computador foi para o conserto e eu estava esperando um e-mail de um quadrinista espanhol e, então, pedi para o meu editor monitorar as minhas mensagens. O Arnaldo leu O cheiro do ralo e enviou um e-mail comentado o livro. Meu editor leu a mensagem e me telefonou, dizendo: “Olha, o Arnaldo fez um comentário sobre esse livro que você mandou pra gente. Se ele autorizar, publico o comentário na quarta capa.” O cheiro do ralo só existe por causa de um pequeno e-mail do Arnaldo Antunes comentando o livro. E é interessante, duro, mas importante dizer que, na nova edição que saiu ano passado, pela Companhia das Letras, o meu atual editor suprimiu o comentário do Arnaldo Antunes que é, justamente, o que tornou o livro possível. É isso. Foi dessa forma que me tornei escritor.

Crime contra a literatura
Na infância, tive um grave problema com a literatura porque eu era obrigado a ler obras indicadas na escola. Tem livros e autores que hoje eu gosto, mas naquela época era impossível gostar. Parnasianos, por exemplo. Acho que é impossível colocar um adolescente para ler uma obra parnasiana. É um crime contra a literatura. Eu tinha um amigo de outra escola que lia o gênero “crime”, ou policial. Nós líamos aquilo sem nos darmos conta de que estávamos lendo um livro. Porque aquilo era legal. Era quase o vídeo-game da época, uma coisa interessante de se envolver. O que me atraiu na literatura foram coisas que não aprendi na escola.

Kafka
Até um momento da vida, eu achava muito chato ler. Então, alguém comentou sobre A metamorfose, de Franz Kafka. Eu devia ter uns 14 anos e a experiência de ler Kafka foi transformadora. Reli o livro várias vezes, e me tornei leitor de Kafka. Passei até a sentir ciúme da literatura dele: cheguei a pensar que aqueles livros tivessem sido escritos para mim. Era um diálogo profundo comigo, com o mundo extremamente sombrio no qual eu vivia. Pense na minha situação: filho de policial, durante o regime militar, estudando em colégio de padre. Então, eu tinha quase certeza: o Kafka me entendia profundamente.

Apego aos livros
Tenho livros no apartamento, mas não há muito espaço. Minha mulher tem uma relação melhor com biblioteca e livros. Ela lê, inclusive, muito mais do que eu. No fim do ano, confere os livros que leu, pensa qual obra tem relação com algum amigo e envia o título para a pessoa. Quando não tem nenhum amigo com o perfil de um livro, ela sorteia no facebook e manda por sedex. O meu caso é diferente. Tenho muito apego ao que leio, gosto de grifar trechos e nesses grifos eu me localizo. Quando comecei a produzir literatura, parei de ler ficção e passei a estudar assuntos teóricos, muitos dos quais ainda não usei, mas talvez algum dia eu venha a utilizar. Por isso tenho tanto apego aos livros, mais do que com os quadrinhos.

Acervo na gibiteca
Doei parte de minha coleção de quadrinhos para o SESC Pompéia, de São Paulo, que ainda em 2012 vai reabrir a sua gibiteca. Talvez eu doe todos os meus quadrinhos para eles. Mas os meus livros eu sou incapaz de doar e mesmo emprestar. Tenho duas estantes de vidro, fechadas, e tem livros que não deixo nem a minha mulher tocar. Ela não sabe folhear os meus livros. Tenho, realmente, uma relação de apego.

Fumaça em casa
Desde que a lei antifumo entrou em vigor, por volta de 2009, parei de sair. Então, recebo os amigos em casa, incluindo escritores como Marçal Aquino, Marcelino Freire e outros. A gente janta, bebe e fuma à vontade.

Mais profana que sagrada
Sou muito amigo do Marcelino Freire, um cara que adoro, um escritor que admiro muito. Falo para ele que, por sorte, conheço dois Marcelinos. O que eu leio e o que eu convivo. Não conseguiria conversar e brincar sabendo que é ele quem escreve aquelas coisas que leio. Existe sim algo de respeito e valor, tanto na literatura como nos quadrinhos, mas não é algo mítico. Conheço muitos escritores para pensar que a literatura é algo sagrado. Na realidade, a literatura é mais profana que sagrada.

William Burroughs
Nos primeiros livros escrevi — em no máximo 15 dias —, até desejei experimentar outra forma de escrita. A arte de produzir efeito sem causa levou de 10 a 12 meses para ser finalizado, e foi um ótimo processo. Teve muita pesquisa, li muito. Nesse período, voltei a ter contato com a obra do William Burroughs, que li quando era jovem, mas não tinha compreendido. Durante o processo de escrita de A arte de produzir efeito sem causa, foi fundamental ler a obra completa do Burroughs. Não leio quase nada dos contemporâneos. Adoro pegar um autor morto e ler a obra completa dele. Acho fascinante perceber a curva que existe entre cada livro de um mesmo autor. Em um dos últimos livros que escreveu, Minha educação, o Burroughs faz uma autobiografia, mas ele conta os sonhos importantes que teve durante a vida em ordem cronológica. Então, você passa a entender melhor os livros dele.

Dostoiévski
Não li a obra completa do Dostoiévski porque apareceram outros autores para eu ler e, quando trabalho muito, leio pouco. Mas do Dostoiévski eu li O idiota, Os demônios, entre outros, naquelas retraduções do francês, publicadas há muito tempo no Brasil. Não conheço as novas traduções, feitas diretamente do russo. Crime e castigo é o único livro que li em três momentos da minha vida, e foram sempre leituras e descobertas diferentes. Dostoiévski é um autor que gostaria de voltar a ler.

Crença
Não acredito em Deus. Acho que Deus não tem nada a ver com os homens, é algo que diz respeito ao sólido e ao geométrico. Acredito no mal. O mal é algo mais próximo da natureza humana.

Ateu
Embora eu tenha estudado em colégio de padre e de freira, meu avô paterno era ateu. Desde pequeno, quando ouvia falar que ele era ateu, eu queria entender o que significava aquilo. Um dia, meu pai explicou que meu avô não acreditava em Deus. Então, perguntei: “Mas a gente pode não acreditar?”. Daí, meu pai comentou: “Poder não acreditar, pode. Mas você vai ver. Um dia, quando o seu avô estiver bem velho e perto da morte, ele vai voltar atrás.” O meu avô nunca voltou atrás. Então Deus foi uma coisa que superei rapidamente.

Foto Mutarelli
Demonologia
Pesquisei os nomes de demônio que existem em todas as culturas. Eu era cético e se tratava de um hobbie. Em um determinado momento, vivi uma experiência muito estranha no Museu Chileno de Arte Pré-Colombiana. Aquela situação fez com que eu passasse a repensar o meu ceticismo. Depois, tive uma outra experiência estranha durante a preparação para as filmagens de O natimorto. Então, hoje já não sou tão cético.


Xipe Totec
Durante a adolescência, sofri muito por causa de enxaqueca, inclusive, nas crises, eu perdia a visão. É uma situação terrível. Surgem pontos luminosos e não é possível enxergar por uns dez minutos. E o pior vem depois: há dores fortes nas têmporas. Então, comecei a fazer tratamento e não tive enxaqueca por uns 15 anos. O tempo passou. Ao visitar o Museu Chileno de Arte Pré-Colombiana algumas obras chamaram a minha atenção, em especial a de uma divindade que se veste de macaco, Xipe Totec. Não era permitido fotografar, e comecei a desenhar a imagem em um caderno. Era uma figura muito interessante, com padrões diferentes de tudo o que eu já tinha visto. Inesperadamente, senti uma tremenda dor de cabeça e fiquei absolutamente cego. Não conseguia andar. Não sei como, mas consegui telefonar para a minha mulher, que me socorreu. Antes de sair do Museu, comprei um catálogo que tinha aquela imagem e fui embora. A experiência mexeu muito comigo.

Memória é ficção
Desconfio da memória. É um assunto que está me consumindo. Acho que a memória é muito fictícia. Acredito cada vez menos nessas imagens da memória, nas lembranças. Tudo é reconstruído. Outro dia, um neurologista falou que a memória não é um arquivo como um filme ou uma fotografia. Cada vez que acessa a memória, você acessa uma série de arquivos e reconstrói o que está lembrando. É importante desconfiar da lembrança e da memória.

Simulacro
A palavra é o simulacro mais próximo da comunicação que o ser humano possui. Não acredito que a palavra seja o verbo, mas que a palavra possa evocar o verbo.

Disciplina
Sou disciplinado. Levanto cedo todo dia e vou trabalhar. Sem folga. Vou confessar uma coisa: minha religião é a música. Só desenho ouvindo música. Não consigo escrever com música, mas antes de começar o processo de escrita eu ouço um pouco de som. Gosto muito de música minimalista, que se faz por meio de repetição e praticamente induz a um transe. E, quando começo a escrever, entro em um processo de transe. Ao entrar nessa frequência, as coisas fluem e dificilmente vou mexer no que escrevi. Nesse estado, eu viro um instrumento do que estou fazendo.

Dentro da jaula
Trabalho dentro de uma jaula. Na época dos quadrinhos, eu trabalhava de 12 a 18 horas por dia, acordava e dormia vendo não só a minha mesa como meus desenhos e outras referências pessoais, e era muito desgastante. Então, procurei me mudar para um apartamento onde tivesse quarto de empregada. Onde moro atualmente tem um quarto de empregada que não tem janela. É um quarto e banheiro, minúsculo, quase um útero. Quando estava dedicado ao trabalho de ilustração, devido ao fato de ter tintas no local, tive de colocar uma grade. Ao interromper o processo de quadrinhos, foquei na literatura e retirei a grade. Mas tinha uma plaquinha que coloquei na porta na qual estava escrito “proibida a entrada de pessoas estranhas”. Era uma piada. Depois, perdi a placa e procurei outra e, devido ao politicamente correto, só encontrei uma com a frase “proibida a entrada de pessoas não autorizadas”. Isso estragou minha piada. Fui num lugar e pedi para fazerem uma nova placa, na qual está escrito “proibida a entrada de pessoas estranhas, gatos e gatos estranhos”. E é isso. Trabalho dentro dessa jaula. Ninguém entra lá. Só eu limpo o local, a cada dois anos. Mas é fundamental, para mim, esse trânsito. Quando entro ali, estou em um determinado estado. Quando saio, deixo tudo ali dentro. Tomo muito cuidado para que meu trabalho não contamine a minha casa.

Banana para pesadelos
Quando era criança, minha mãe falava para não comer banana à noite porque “dava” pesadelo. Uma noite, tive um pesadelo horrível. Acordei tão desesperado e, então, percebi que a vida era boa, apesar de na época eu achar que minha vida não era boa. Desde então, desenvolvi predileção por pesadelos. Eu dizia para a minha mãe: “Ei, vou tomar água”. Ia à cozinha, comia duas bananas e voltava para o quarto esperando ter pesadelos.

Cine-Mutarelli
Quem descobriu meu livro, O cheiro do ralo, foi o Marçal Aquino, que sugeriu ao Heitor Dhalia, um diretor que estava procurando um argumento para filmar. Um dia, o poeta Glauco Mattoso me telefonou para saber se podia, ou não, passar o meu telefone para o Marçal. Quando desliguei, meu filho, que tinha uns seis anos, perguntou: “Ah, o seu livro vai virar um filme?”. Respondi: “É, parece que vai, ainda estou conversando.” Aí, meu filho completou: “Mas é um daqueles filmes que a gente vai ver no cinema comendo pipoca?”. Então, me dei conta de que a melhor relação que eu poderia ter com esse filme seria por meio de uma adaptação. O que me interessou naquele momento foi o dinheiro que iriam me pagar, até porque eu enfrentava dificuldades financeiras. E foi isso. Fui, inclusive, surpreendido e fiquei feliz porque participei de todo o processo. Adoro a adaptação de O cheiro do ralo. E também gostei muito de O natimorto.

Impasse com a crítica
Minha relação com a crítica não é boa. Quando me elogiam, os sujeitos, como diria meu filho há uns dez anos, estão pirando na batatinha. Quando me criticam, às vezes é infundado. Um crítico tentou destruir meu livro A arte de produzir efeito sem causa. Na realidade, ele destruiu o livro pelo fato de eu ter vindo dos quadrinhos. A resenha, publicada na Folha de S.Paulo, trazia frases como “o livro é um gibi sem desenho”. Curiosamente, é um livro que adoro, e a crítica não me afetou. A arte de produzir efeito sem causa acabou conquistando o público e ficou em terceiro lugar no Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2009.

Falta de foco da imprensa
Fui entrevistado por um jornalista da Folha de S.Paulo, que me perguntou: “Como é ficar em terceiro lugar no Prêmio Portugal Telecom de Literatura?” Respondi o seguinte: “Bom, vocês consideraram o meu livro ruim, e o juri do Portugal Telecom considerou o livro bom. Então, tenho de escolher entre um julgamento e outro. Respeito a Folha, mas o pessoal do Portugal Telecom teve mais discernimento.” Foi uma entrevista medonha. Disseram, na Folha, até que sou alcoólatra. Mesmo que fosse verdade, não tem fundamento afirmar isso. Passa o tempo, e a Folha publica uma matéria de duas páginas. Então, citam até o nome dos meus gatos, e me elogiam. Mas que relevância tem o nome dos meus gatos? Às vezes, dá raiva por não poder contra-argumentar com quem faz a crítica ou a matéria. Fora isso, o que eu sei de fato, até porque a minha mulher trabalhou durante três anos em uma livraria, é que uma crítica positiva vende livro, e uma crítica ruim não vende livro. Então é isso. Mas, para mim, quando alguém faz um comentário na saída de uma palestra ou evento literário, é bem melhor do que uma crítica.

Conto não
Na primeira vez que participei de um evento literário, acho que foi na Balada Literária, em São Paulo, pediram para eu ler um conto. Mas eu nunca escrevi um conto. Meus contos viram romances de fôlego curto. Tentei produzir um conto, mas não consegui. Então, escolhi uma história em quadrinho minha, extraí apenas o texto e li, como se fosse um conto. Adoro quando estou escrevendo e aquilo cresce, e se ramifica. Gosto de extrair o máximo possível de um enredo. Sempre que leio um conto, eu gostaria que aquilo tivesse mais. Acho que uma história sempre pode render mais.

Amores expressos
Participei do projeto Amores Expressos, no qual autores brasileiros viajaram, individualmente, para cidades, a maioria do exterior, com a finalidade de escrever um livro. Fui para Nova York, e a experiência foi muito boa, mas não para o livro que tenho de escrever por contrato. Passei um mês no loft de um russo que iria ficar um mês fora da cidade. Os organizadores do projeto não queriam que os escritores ficassem em hotel, e odeio hotel. Sempre lidei bem com a solidão, mas vivi um mês numa solidão alheia, o que me afetou profundamente. O dono do loft tinha os desenhos das filhas dele pendurado nas paredes, muitas coisas dele, e nada meu. Tudo o que eu comprava, para mim, não era meu, só seria meu quando eu chegasse ao Brasil e guardasse na minha casa. Postei a minha impressão sobre isso num blog.

Desconforto
O projeto Amores expresso tem uma série de requisitos difíceis e, como a única coisa que me interessava em Nova York era o William Burroughs, fiz um livro totalmente inspirado nele. É uma obra caótica e ruim pra caramba. A Companhia das Letras não gostou, pediu uma série de alterações, fiz as modificações, mas não gostei. Tenho até este ano para entregar. Pensei em começar do zero, mas não. Não vai ser um bom livro, e eu acho importante ter livro ruim. São processos. Acho que meus dois próximos livros serão ruins. Isso é importante para que o terceiro próximo livro seja bom. Às vezes, é ruim para mim, e pode ser bom para alguém. Vamos à luta.

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