Perfil do leitor - Rogério Skylab

Um filho da adversidade

Um filho da adversidade

 

O músico e poeta Rogério Skylab é dono de um vasto repertório literário e filosófico, constituído em meio a um ambiente nada inspirador


Omar Godoy

Quem só conhece Rogério Skylab “por alto” não imagina o que há por trás de sua excentricidade, humor negro e gosto pelo trash. Autor de clássicos do underground como “Eu tô sempre dopado” e “Amo muito tudo isso?”, o músico, poeta e agora apresentador do Canal Brasil (onde comanda o talk show “Matador de passarinho”) é um leitor obsessivo e autodidata, dono de uma erudição rara no universo da cultura pop brasileira. Em pouco mais de uma hora de conversa com a reportagem do Cândido, ele cita de Machado de Assis a Heidegger, passando por Apolinaire, Guimarães Rosa e Rubens Figueiredo — sempre com opiniões bem particulares sobre autores e escolas literárias e filosóficas.

Nascido no Rio de Janeiro há 54 anos, Skylab faz questão de dizer que sua formação intelectual se constituiu tardiamente, sempre em meio à adversidade. “Meu pai era advogado e a minha mãe, dona de casa. Eram pessoas absolutamente simples, de classe média. Não faço parte de uma casta de professores, escritores ou tradutores”, conta.

“Meu processo de leitura, como diz o Borges,

é labiríntico. Preciso descobrir os meus próprios caminhos.”


Nesse ambiente familiar pouco inspirador, o primeiro livro que leu foi uma tradução de Monteiro Lobato para Robin Hood, presenteada por uma tia quando ele tinha entre 9 e 10 anos. “Lia todo dia. No último dia, no último capítulo, chorei, pressentindo o fim”, lembra. Ainda assim, o contato com a literatura só foi retomado na adolescência, quando sua irmã mais velha, então recém-aprovada no vestibular para o curso de Letras, apareceu em casa com livros de Machado de Assis e João Cabral de Melo Neto (“Que eu achei chatíssimos, horríveis”).

O ponto de virada aconteceu pouco depois, quando Skylab passou no concurso para estudar no Aplicação, considerado um melhores dos colégios do Rio de Janeiro. Ali, ele se apaixonou por uma professora de português, filha do famoso gramático Celso Cunha. Para impressioná-la, e passar de ano sem maiores problemas, levou de casa um texto pronto para usar na prova final de redação, que deveria ser feita em sala de aula. “Foi nessa ocasião que eu agi de má fé pela primeira vez. Aliás, o Sartre dizia que todo escritor age de má fé, pois nunca é absolutamente sincero”, afirma.

Cola à parte, o fato é que a professora ficou tão encantada com a produção do aluno que o presentou, no Natal, com um livro de Clarice Lispector: Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. “Eu já gostava do Drummond e escrevia alguns poemas. Mas foi a partir da leitura da Clarice que eu mergulhei definitivamente na literatura”, revela.

“Principalmente a partir dos anos 1990, essa corrente

que não diferencia a literatura da vida, virou uma praga no Brasil.”


Corta para a vida adulta. Matriculado no curso de Direito, Skylab ignorava a bibliografia recomendada pelos professores e se aprofundava em livros de filosofia. Até ser aprovado num concurso para o Banco do Brasil, trancar a faculdade e iniciar a carreira de bancário numa agência de Maracaju, no interior do Mato Grosso do Sul. “Era como seu estivesse servindo o Exército naquele fim de mundo com uma única rua asfaltada. O único livro que consegui comprar, pelo correio, foi sobre socratismo cristão.”

Depois de dois anos dividido entre a agência, a quadra de futebol de salão e o bar de Maracaju, o artista foi transferido para o Rio de Janeiro. Abandonou o Direito, ingressou em Letras e finalmente entrou em contato com o universo literário. Mas o autodidatismo falou mais alto. “Isso me persegue até hoje. Não consegui ficar refém dos professores e resolvi largar Letras também. Meu processo de leitura, como diz o Borges, é labiríntico. Preciso descobrir os meus próprios caminhos”, justifica.

Nessa época, Skylab iniciou um hábito que mantém até hoje: o de estudar em bibliotecas. “Vou morrer com isso. É uma coisa neurótica, autoimposta. Às vezes, passo seis horas por dia lendo numa biblioteca. Comecei na Biblioteca Nacional, migrei para a do Centro Cultural do Banco do Brasil e agora estou na da PUC”, conta.

Enquanto isso, ele já militava no underground musical carioca, fazendo shows no esquema de voz e violão. Ao completar dez anos de banco, no início da década de 1990, usou a licença prêmio para produzir seu primeiro álbum, Fora da Grei. “Enquanto meus colegas de trabalho iam para Miami fazer compras, eu me tranquei no estúdio e gravei um disco.”

“Machado virou a minha bíblia, o meu Deus. Quanto ao 

João Cabral, acho que é o maior poeta brasileiro de todos os tempos.”


Ter um emprego “comum” foi fundamental para sua carreira artística. Graças à estabilidade profissional, Skylab conseguiu produzir música sem precisar se envolver com guetos de artistas que, segundo ele, priorizam laços afetivos e misturam amizade com trabalho. Hoje, aposentado do Banco do Brasil, dedica-se em tempo integral à criação. E idolatra Machado de Assis e João Cabral de Melo Neto. “Machado virou a minha bíblia, o meu Deus. Quanto ao João Cabral, acho que é o maior poeta brasileiro de todos os tempos.”

Questionado sobre a literatura brasileira contemporânea, o músico cita Rubens Figueiredo, Milton Hatoum e Cristovão Tezza como os seus autores preferidos — exceções, de acordo com ele, num cenário tomado pela influência de escritores beat e pop. “As experiências que eu tenho com autores mais jovens não são muito boas. Principalmente a partir dos anos 1990, essa corrente que não diferencia a literatura da vida, virou uma praga no Brasil. A escrita como um sopro, como um fluxo de consciência, deve ser apenas um elemento da produção literária. Não pode ser tudo.”

Skylab só alivia a barra do paulista Marcelo Mirisola. Para ele, o autor de Joana a Contragosto e Proibidão, entre outros, passa uma falsa impressão de que se limita a narrar a própria vida — mas, na verdade, forja um universo bastante particular. “Isso é uma coisa muito sutil e discreta no trabalho dele, que deveria ser lido com mais atenção.”

Com um único livro de poesia publicado, Debaixo das rodas de um automóvel, o artista acredita que tem material suficiente para, pelo menos, outros quatro volumes. Sua produção, que também inclui contos, resenhas e ensaios, está disponível no blog godardcity.blogspot.com, frequentemente atualizado. Nada mal para quem se formou intelectualmente aos trancos e barrancos, como ele mesmo diz. “Nunca fui precoce em nada e não acredito em filhinho de músico, filhinho de escritor. Valorizo muito mais as condições adversas”, afirma.
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