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Conto | Afonso Cruz

A guerra da Ordem Dos Peixes

marciel

A Ordem dos Peixes, uma tariqa sediada numa aldeia piscatória do sul do Irão, era assim chamada, porque o seu fundador, Parizad de Pasni, dizia que a alma humana deve ser como os olhos dos peixes que, por não terem pálpebras, estão sempre abertos. Todas as práticas ascéticas desta ordem se baseavam numa constante vigília, o zikhr, ou a recordação de Deus, acompanhada por uma permanente lembrança da morte e do presente, levadas a um extremo difícil de suportar, mas às quais os adeptos se entregavam com fervor e dedicação infinitos. Havia ainda outro motivo para a Ordem dos Peixes se denominar assim: o facto de os peixes nunca pararem de crescer, até morrerem. Isso era, para Parizad de Pasni, um excelente exemplo do modo como a sabedoria se vai alastrando pelo corpo, sem nunca parar de crescer. A sabedoria, dizia ele, é um peixe a crescer naalma. O corpo pode minguar, definhar, envelhecer, enfraquecer, mas a sabedoria não deve parar de crescer. Deve aumentar tanto o seu tamanho que não caberá na alma, transbordando e enchendo o mundo.

Na mesma altura, também durante o império Gaznévida, foi fundada a tariqa de Roozbeh, que era conhecida como a Irmandade dos Camarões, pois estes animais têm o coração na cabeça e isso, para Roozbeh, simbolizava uma união plena entre a razão e o sentimento. Os dervixes estudavam teologia e filosofia enquanto dançavam, e viviam uma espiritualidade em que cada acção emocional ou passional era acompanhada pela recitação dos textos da própria ordem, de poemas e, claro, do Alcorão e da Sunnah. A ordem valorizava a poesia acima de qualquer outra expressão, pois usavam-na como veículo filosófico, estético e passional.

O modo como cada uma destas confrarias vivia a religiosidade acabou por fazer aparecer, entre elas, uma rivalidade profunda. Parizad ridicularizava Roozbeh, dizendo que estes pensavam com o coração, enquanto Roozbeh se ria de Parizad por este nunca fechar os olhos e não perceber que o descanso e o sono também são maneiras de chegar a Deus. A disputa entre ambas as tariqas acentuou-se após a morte dos seus respectivos líderes e tornou-se absurdamente violenta ao ponto de morrerem, durante o século XI (411 depois da Hégira) centenas de dervixes de ambas as ordens, em circunstâncias atrozes.

A paz foi momentaneamente restaurada por Muqatil Al-Rashid, que mandou trazer à sua presença todos os dervixes das respectivas irmandades. Sentou-os a uma mesa e serviu peixes e camarões, cozidos, grelhados, com molhos, ao natural. Disse que era capaz de os comer a todos com a mesma voracidade, cuspindo cascas e espinhas. A mensagem de Muqatil al-Rashid foi compreendida e, durante algum tempo, houve paz entre as duas confrarias.

 As rixas voltaram a surgir alguns meses depois de Muqatil al-Rashid ter abandonado a região. Primeiro com pequenas acusações de parte a parte, que rapidamente tomaram proporções absurdas. Actos de extrema violência voltaram a ser cometidos, numa voragem que culminou na morte de inúmeros religiosos, bem como leigos, mulheres e crianças. Muqatil Al-Rashid voltou a intervir. Mandou prender os dervixes e enforcá-los a todos. Nesse instante, logo após a sentença ser ouvida, um dos conselheiros de Muqatil al-Rashid pediu para falar. Estava horrorizado com a crueldade da decisão do soberano.

Disse, então, Muqatil al-Rashid:

— Pode um homem desejar algo mais do que ver as suas preces atendidas e o seu mais profundo desejo concretizado? Eu, ó vizir, não faço senão como Alá. Estes homens, mais do que tudo, desejam matar-se e eu proporciono- -lhes a concretização desse desejo.

— Mas, ó rei, a bondade, muitas vezes, é negar aos homens os seus desejos. A generosidade de satisfazer a ambição dos outros, se for usada sem sabedoria, é apenas crueldade.

— Se os libertar, ó súbdito, matar- se-ão e arrastarão inocentes. A liberdade, se for usada sem sabedoria, é outra forma de crueldade. De ambas as maneiras, se os enforcar ou se os libertar, morrerão. Mas se for eu a fazê-lo a responsabilidade recairá sobre mim, em vez de recair sobre eles. E, quando Alá me julgar por isso, apontarei para as minhas costas. Contudo, seguirei o teu conselho, tendo a certeza de que o perdão poderá ser outra forma de matar.

Marciel Conrado Ilustração

Afonso Cruz é escritor, ilustrador e músico. É autor, entre outros, do romance Para onde vão os guarda-chuvas (2013). Foi eleito pelo jornal Expresso, de Portugal, como um dos 40 talentos que vão dar o que falar no futuro. Vive em Alentejo, em Portugal.
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