Poemas | Sônia Barros

DONIZETE GALVÃO

Na virtude do menos,
o disfarce para o muito:

                                 vasta alma,

casa a recusar adornos
sem serventia,
                   desejando o mínimo
mas cultivando afetos,
amigos e discípulos
a transbordar
               — seu único acúmulo.

Na escolha de cacos,
rebotalhos e restolhos,
feixe de sulcos e rastros,

                                   o perfeito acabamento

após lenta
urdidura de si mesmo.

Muito além
de fachada provisória:
                              ponte a estender-se,
fonte generosa
do mais fino humor,

rara voz
— por vezes destilada na dor e no lamento —
                                    de pássaro que procura
                                    razão para cantar com contentamento.



sonia
DEVANEIO


Corpo molhado,
misturado ao tecido
da rede, esquecido
de ser corpo, como se
só o pássaro-pensamento
existisse: penas flutuantes
embaladas pela brisa
e balanço — pêndulo
de um tempo interior
senhor de si
capaz de retroceder,
parar, prender
o instante
em luz
para depois seguir,
avançar,
mas ainda dentro
de si mesmo,
tempo outro
galopante no dorso
de um rinoceronte:
voo que o corpo
de repente consegue
acompanhar, chamado
pela voz de outro
corpo, que deu de morar
(demorar)
no pensamento.


NOVELO

Ao descer do palco,
desejava carregar
cada personagem,
feito um sapo
colado às costas:
pele, carne, vísceras
de outra pessoa
ou bicho
                      para poder não ser.
Príncipe-marionete
guiado por fios
fantasmas não queria
— nem no palco —
só se pudesse
encenar-encarnar Teseu
e o real deixasse
de ser labirinto
                      para tornar-se caminho:
Ariadne a resgatá-lo
por um (único) fio.

ÁGUAS RASAS

Atrás do muro, o outro lado
do mundo que seu canto curto
não alcança nem ousa — não ousa mais
voo maior que o rastejar. Aprendeu
a contentar-se com fiapos, trilhas,
trilhos sob os pés descalços,
música de ouvido que vem do rio,
colhida na concha acústica das mãos.
Altas pedras cerceando as águas
rasas de um riacho: tão efêmeras
quanto eternas, asas e muralha.

SILÊNCIO

Ninguém sabia, mas ele
vivia perdido em labirintos
por entre as vigas da palavra,
em batalhas por dentro
de si mesmo: essa casa língua
que, por mais que tentasse,
não podia compreender — sequer
alcançava o caminho
das entrelinhas.
                       Por isso preferia o silêncio
dos gritos, abafando qualquer
vestígio de ruídos intrínsecos.


NOITE ESTRELADA SOBRE O RÓDANO


Pintar era o mesmo que respirar — não o ar,
mas o sol vindo de abismos noturnos,
negro solo a engolir noites insones.

De obsessivas criações de um louco
coração sempre à deriva
                                nascia o sopro,
vértebra de luz
cortando o impossível
azul, perpetuando águas,
solidão e alma.


ROTO CAMINHO

Sob o céu do viaduto,
sua casa, rumo ao vazio
de um poço vida-vala,
segue um profeta sem sonhos
equilibrista cego e coxo
sem bengala sem cachorro
sem saber até quando.



Sônia Barros
nasceu em 1968, em Monte Mor (SP), e desde a infância mora em Santa Bárbara d’Oeste (SP). É formada Letras pela Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep). Publicou o livro de poemas mezzo voo (2007) e mais de dez obras de literatura infantojuvenil, entre as quais Ciranda mágica e outros poemas (2009) e A coragem de Leo (2014).
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