Entrevista | Ernani Ssó

No limite entre o drama e o cômico

Marcio Renato dos Santos
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Em meio a uma passagem pela capital francesa, Ernani Ssó, na sombra, pensa no ato da escrever ficção: “Me divirto horrores e, de quebra, me esclareço pra mim mesmo”. Foto: arquivo do autor.
 
Ernani Ferreira da Fonseca Rosa, ou Ernani Ssó, como ele assina artisticamente, está faceiro. Como o diabo gosta, romance escrito há quase duas décadas, finalmente está publicado. Ssó é autor de outros livros, a novela O sempre lembrado (1989), o romance O emblema da sombra (1998), além de 20 títulos destinados a crianças, por exemplo, O voo da bruxa (2007) e A saga do lobisomem sob um sol de rachar (2015). Mas, desta vez, a obra dele sai pela Cosac Naify, com distribuição nacional e texto de apresentação do escritor e jornalista Sérgio Rodrigues. Ssó, que se define como um escritor com senso de humor, demonstra estar realmente satisfeito com a publicação de Como o diabo gosta. Nesta entrevista, comenta detalhes da obra, na qual o personagem Camilo, entre um trago e outro de mate, lembra de sua formação durante os anos 1970, 1980, entre algumas praias de Santa Catarina e Porto Alegre, cidade onde o autor vive desde 1972 — Ssó nasceu em Bom Jesus, interior do Rio Grande do Sul, em 1953. Como o diabo gosta tende a despertar riso e reflexão nos leitores. É um romance que traz ironia, característica marcante do texto deste autor que, em 1973, entrou no curso de jornalismo e no ano seguinte abandonou a faculdade. Motivo? Queria ser escritor. Camilo, o protagonista do romance, é um escritor que faz traduções, o que coincide com o percurso de Ssó: desde 1987, já traduziu mais de 50 obras do espanhol para o português, entre as quais Dom Quixote, publicado em 2012 pela Penguin-Companhia das Letras. Mas, de acordo com ele, não há pontos de contato entre autor e personagem: “Apenas brinquei de aproximar e distanciar o Camilo de mim”. Ssó diz gostar de escrever livros esquisitos, fora do esquadro. Admira a produção literária de Julio Cortázar, Jorge Luis Borges, Stendhal, Franz Kafka, Joseph Conrad, Robert Louis Stevenson e Philip K. Dick. Aprecia bife com fritas, água, vinho tinto e cerveja. Alguns de seus textos são publicados regularmente nos sites coletiva.net e no Sul21. O resto, e mais um pouco, ele conta neste bate-papo.

Numa incerta manhã, após um sonho agitado, Camilo, o protagonista de Como o diabo gosta, acordou exatamente o mesmo de sempre. Como você o define?
Suspeito que você quer saber se ele sou eu, já que é escritor e tradutor como eu. Mas não. Eu apenas brinquei de aproximar e distanciar o Camilo de mim. Compartilhamos algumas alegrias e raivas, um jeito irreverente de ver o mundo, a preferência por alguns autores, por vinho tinto e seios que cabem numa taça de champanhe (viva Drummond e abaixo o silicone!). Enfim, quem espera fatos, vai se decepcionar ou cair em todas as armadilhas que espalhei pelo livro. Acordar o mesmo, não um inseto monstruoso, não é só uma brincadeira com a A metamorfose, do Kafka, um dos poucos livros que considero perfeito. Muitos livros e filmes começam com uma mudança brusca na vida do personagem, uma separação, a morte de um filho, essas coisas. Só que o drama da maior parte das pessoas é não haver mudança nenhuma, é o sujeito continuar o mesmo, preso na mesma circunstância. Não parece nada atraente partir daí, não? Mas em literatura, você sabe, é como contar que faz a diferença. E a história do Camilo é a de uma busca — uma busca encarniçada e obscura. Bom, não teria graça se fosse óbvia.
 
Por falar como contar, o romance está carregado de humor, na linguagem e nas cenas.
Sim, mas não é uma comédia ou é uma comédia com peso dramático. Gosto de andar no limite entre o drama e o cômico. É assim que vejo e sinto o mundo. Aos 18, 19 anos, eu queria ser humorista. Não consegui. Acabei um escritor com senso de humor. Tudo bem, dá pro gasto.
 
Entre um mate e outro, Camilo recupera parte de seu percurso. Qual, exatamente, é a faixa de tempo narrado no romance?
Acho que o mate do Camilo dura uns 20 minutos. Todo o romance decorre nesses 20 minutos. Eles são o tempo presente, os trechos em itálico. O resto — lembranças, invenções, delírios — vem embutido aí, como muamba no fundo falso da maleta. Essas lembranças vão da infância a poucos meses atrás, mas a maioria se localiza no fim dos anos 1970, começo dos 1980 — quando a ditadura estrebuchava —, com a boemia no Bom Fim, em Porto Alegre, e loucuras nas praias de Santa Catarina, como algumas noites de carnaval no Farol de Santa Marta. Não sei, talvez eu devesse ter sido explícito em matéria de datas.
 
Como surgiu a forma do livro, essa espécie de mosaico ou caleidoscópio, com muitos capítulos que podem ser lidos como contos? Segundo Sérgio Rodrigues, na orelha, talvez Camilo não saiba que está “em busca do Santo Graal: um modelo artístico para a própria bagunça da vida”. O que diz disso?
Eu também não sabia, no começo, mas logo a ficha caiu e tratei de tirar vantagem. O livro se apresentou assim, aos pedaços, matéria bruta que resiste a um enredo tipo feijão com arroz, mas que segue uma ordem ditada pelos caprichos da memória, de justaposição de comédia e drama, realismo e alucinação, de dor e alegria, e mesmo uma justaposição formal, com uma boa variação estilística. Trata-se de um quebra-cabeça, mas nada caótico, tudo gravita em torno desse mate numa manhã horrorosa e do Camilo, que espalha pistas ao longo do texto pro leitor esperto juntar as peças. É um convite pra esse leitor espiar por cima do ombro do Camilo na hora em que ele toma notas sobre o que vai escrever. Acho que isso faz parte da diversão, como as histórias absurdas, o riso, o sexo, os malucos de todo tipo.
~~~queixinho
O escritor faz “queixinho” em uma estátua em Buenos Aires. “Quando eu era menino, havia uma brincadeira: passar mão no queixo de alguém desprevenido e dizer: 10 de queixinho. Ou 15. O cara ‘envaretava’ e o desafio era passar de novo, sempre aumentando a numeração”, conta. Foto: arquivo do autor
 
Há entre nós outro livro assim?
Não tenho ideia. Enfim, gosto de experimentar, mas jamais me afasto da narração. A narração, como dizia Borges, é um dos grandes prazeres do homem. Não abro mão desse prazer, não importa a moda que esteja bombando.
 

Há episódios em Porto Alegre, como a apresentação dos Beatles e a suruba natural, mas talvez haja mais no litoral catarinense. Isso diz respeito à geração do Camilo?

Acho que há mais histórias nas praias porque havia mais aventuras nas férias que no dia a dia em Porto Alegre. Mas, sim, a geração do Camilo, que é a minha, “descobriu” o litoral catarinense nos anos 1970. Boa parte da educação sentimental dos gaúchos dos anos 1970 foi nas areias catarinenses.

E aquele poema do Vate do Bom Fim que aparece no romance? Aqueles versos breves que Camilo e Beto declamam: “Quando era nada sendo tudo/ e por esse então tudo e nada/ não eram nada e nem eram tudo”. Ou: “Do inconsciente e inocente/ daquele selvagem terrenal/ e também vampiro espacial”. Isso tem ponto de contato com a realidade? De que período?
Infelizmente é tudo verdade. Esse capítulo é um dos poucos “biográficos”. Digo entre aspas porque meu método é o mesmo que se usa pra fazer almôndega: a gente pega vários restos de carnes de procedências variadas, às vezes suspeitas, mói e junta com ovo e temperos. Depois de frita e coberta de molho é difícil saber se a almôndega é de gato ou lebre ou soja. Eu tinha o livro do poeta anônimo que cito. Uma das coisas mais ilegíveis que já vi, com um humor involuntário fantástico. Havia, nos anos 1970, muita gente que fazia livros artesanais, xerocados muitas vezes, e vendia de bar em bar.

Não são poucas as mulheres com quem Camilo se relacionou. Ele foi um Dom Juan? Ou a memória dele recriou, batizando com desejo, o passado? Por que tanto interesse em tantas mulheres?
Ao contrário do Dom Juan, o sexo não é uma questão de domínio pro Camilo. Ele gosta das mulheres. Daí prefere distrair sua solidão com elas, em vez de colecionar selos, por exemplo. O sexo é importante no livro. Como eu acho sexo na literatura muito chato — mais chato que uma partida de beisebol, como dizia Ursula K. Le Guin —, tentei um drible ou dois. Todas as cenas são diferentes: engraçadas ou ternas ou tristes, desesperadas ou sacanas ou, me perdoe o palavrão, líricas, dependendo da situação e da mulher com quem Camilo está. Ou uma mistura dessas coisas, nos melhores momentos. O sexo me interessa, mas se, na sua descrição, não transparece a relação do casal, eu broxo. Sexo sem enredo é pornografia, como disse o outro. Isso é o que define a pornografia, não se a cena é explícita ou não. Enfim, sexo é das poucas coisas que é mais fácil fazer do que falar. Acho que a fantasia do Camilo colore ou distorce as lembranças. Ele sabe que não pode confiar muito no que lembra. Mas daí a inventar as mulheres está longe.

Os personagens de seu livro bebem muita cerveja. Mas em um trecho, a cerveja funciona como uma madeleine e, entre um gole e outro, Camilo relembra a chamada suruba natural. Considera este trecho um dos pontos altos do livro?
Gosto bastante da suruba natural, acho muito engraçada e reveladora de uma certa faixa da classe média da época. Também gosto do texto, um monólogo que é uma cavalgada doida. Acho que topei com a forma certa. Eu, pelo menos, não consigo ver essa suruba contada de outro jeito. Mas não sei se é um dos pontos altos do livro. Sei que muita gente gosta — quase sempre há unanimidade em matéria de sacanagem, não?

Camilo é um escritor que sente estar em descompasso com o mundo. Diz ter se fechado em casa para aprender a escrever antes de publicar. Quando deseja colocar o bloco na rua, o país está em crise. “Pra piorar, eu havia cometido um erro idiota. Achei que escrever bem era o suficiente. Deixei pra lá o que se chama de carreira. […] Nunca soube conspirar e já estou velho demais pra aprender. Não tenho padrinhos nem ânimo pra concorrer a miss simpatia.” O ponto de vista de Camilo tem a ver com o seu? Ou é a maneira de pensar a postura de um escritor brasileiro no contexto em que vivemos?
Em todo esse trecho eu uso o Camilo como ventríloquo. Foi mais ou menos isso que me aconteceu. Acho que há muita trapaça, incompetência e superstição no meio literário. Mas não adianta choramingar. Se você fala com seu dentista, por exemplo, ele vai dizer que entre dentistas é assim também.

“Em Turvo, Ermo e Sombrio o arco-íris é em preto e branco. […] As zebras, em Sombrio, não têm as listras brancas. […] Você conhece as sete pragas de Turvo, Ermo e Sombrio? Nem queira, nem queira.” Onde ficam Turvo, Ermo e Sombrio? No imaginário do narrador? Na cabeça do escritor? Na realidade? O que significa Turvo, Ermo e Sombrio?
Essas cidades existem, sim. Ficam em Santa Catarina, perto de Araranguá. Mas naturalmente o arco-íris não é em preto e branco por lá. Eu e um amigo começamos uma brincadeira, pelos bares, com os nomes das cidades. Virou uma febre, passamos meses inventando coisas — criamos uma espécie de mitologia de Turvo, Ermo e Sombrio, até que algumas tiradas se tornaram senhas. Por exemplo, se alguém contasse uma história sem graça e ficasse um silêncio constrangedor na mesa, eu ou meu amigo dizíamos: “E ventava em Ermo...”, ou “Chovia em Turvo…”, ou “Anoitecia em Sombrio…”. Acabei incorporando isso no livro, como metáfora, um modo indireto, engraçado e nada piegas de dizer que se está triste, solitário, angustiado ou se sentindo patético. Enfim, essas cidades estão na realidade e no delírio dos meus personagens, transfiguradas como quase todo o resto, é bom que se diga.

Ao invés de Nova York ou São Paulo, o destino de Camilo, é Porto Alegre. Camilo foi condenado, por praga de madrinha, a sofrer na capital do Rio Grande do Sul? No Rio Grande do Sul não tem moradores, tem sobreviventes?
Segundo o Barão de Itararé, o Rio Grande do Sul não tem moradores, tem sobreviventes. Bom, ele falava isso por causa do nosso clima miserável. Mas o Camilo, como muitos outros, foi ficando e não podemos culpar a madrinha dele. O primeiro escritor a ficar foi Mário Quintana, que disse que provincianismo seria ir pro Rio. Talvez o destino do Camilo seja apenas a literatura. Daí não importa onde esteja. Suspeito que ele ficou no sul por causa de mulher, o que está longe de uma condenação. Pode ter sido a salvação, inclusive.

Quando você escreveu Como o diabo gosta? O livro ficou na gaveta? Reescreveu? Como surgiu a oportunidade de publicar?
Escrevi há milênios e engavetei, porque tinha muita coisa de que eu não gostava. Lá por 1995 ou 1996 ou 1997, resolvi: ou boto no ponto ou boto fora. Era um calhamaço monstruoso. Basicamente cortei e apertei os parafusos. Reescrevi muito pouco. Nem sei por quantas editoras passou. Quer dizer, não foi recusado, nunca me deram notícia alguma. Sei lá se alguém se deu ao trabalho de ler pelo menos umas vinte páginas. Mas isso foi bom, porque assim pude revisar o livro outras vezes e atenuar seus erros. Ano passado, enquanto traduzia As novelas exemplares, do Cervantes, pra Cosac Naify, mandei pra Heloísa Jahn. Ela não só leu o livro como se entusiasmou com ele. É isso, agora você já sabe em quem botar a culpa.

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Escrever e passear com o cachorro Fritz são os dois hábitos, prioritários, de Ernani Ssó. Foto: arquivo do autor

Como você analisa o seu livro no contexto histórico? Consegue apontar uma filiação?
Há romances, como uns do Antônio Callado ou do Tabajara Ruas, que falam das pessoas que estiveram na luta armada, mas não lembro de romances sobre os que caíram no que se chamou desbunde, que embarcaram na onda da contracultura, meio que viraram hippies e se meteram com drogas. Penso que o Como o diabo gosta é dos poucos nesse território, como os dois primeiros livros do Reinaldo Moraes ou os do Caio Fernando Abreu. Não garanto, não, que sou muito ignorante. O crítico Paulo Hecker Filho leu o original, nos anos 1990, e o considerava um retrato da minha geração. Acho meio forte — minha geração não é só a classe média. De qualquer forma, minha intenção era bem mais modesta, flagrar um sujeito pelo maior número possível de ângulos, daí o realismo e o delírio, a comédia e o drama. Quanto à filiação, sei lá. Fui influenciado por tanta gente e gente tão diferente, como, só pra dar uns exemplos, Ivan Lessa e Campos de Carvalho, Luis Fernando Verissimo e Graham Greene, Chandler e Borges, Cortázar e Stendhal, Clarice e Trevisan… Mas talvez, de um modo muito indireto, o espírito que mais animou o romance tenha sido a anarquia do Henry Miller de Trópico de câncer e Primavera negra, que reli muito na adolescência.

Você se sente parte da literatura brasileira contemporânea? De que maneira?
Nunca pensei nisso, embora me sinta um alienígena em relação a quase tudo. Mas acho que faço parte sim: escrevo no português do Brasil e cada vez gosto mais do diabo dessa língua. Estou num verdadeiro xodó com suas expressões, suas graças e manias, seus ritmos e remelexos, suas caras e bocas. Quero minha língua o mais longe possível desse português de tradução, sem açúcar e sem afeto, que se vê por aí. O fato de que minha literatura tem pouco a ver, pelo menos formalmente, com a da maioria absoluta dos brasileiros que li não me faz sentir solitário. Eu sou muitos e não consigo expressar todos, então pego carona com outros escritores. A graça está aí, não? Se fôssemos todos muito parecidos e apostássemos nas mesmas cartas, ia ser um tédio sem tamanho.

Sua vida mudou depois da publicação de Como o diabo gosta?
Pra me perguntar isso, você deve ter gostado muito do livro. Mas fora a Charlize Theron ter me ligado pra marcar uma janta, não aconteceu nada, não. Falando sério, que Deus nos perdoe, se com esse livro eu ganhar mais uns amigos, está feito o carreto.
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