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11/07/2016

O mundo e o palco de Wisława Szymborska

A professora e tradutora Regina Przybycien explica como a poeta polonesa, que em breve terá a segunda seleta de seu trabalho publicada no Brasil, utilizou a metáfora do “mundo como teatro” para compor parte significativa de sua obra

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Talvez Wisława Szymborska (pronuncia- se mais ou menos Visuáva Chemborska) não seja conhecida de todos os leitores por isso, começo com uma breve biografia. A poeta nasceu em 1923 num lugarejo chamado Bnin (que hoje faz parte do município de Kórnik), perto da cidade de Poznań, na parte ocidental da Polônia. A família se mudou para Cracóvia quando ela tinha 7 anos, de modo que toda a sua vida esteve ligada afetiva e intelectualmente a essa cidade. Em Cracóvia cursou clandestinamente o segundo grau durante a ocupação nazista e posteriormente estudou sociologia na Universidade Jaguielônica, mas não chegou a se formar. Após a Segunda Guerra, a Polônia tornou-se um satélite da União Soviética e sob o regime comunista as atividades intelectuais e artísticas sofreram forte censura. Como vários outros jovens artistas, Szymborska filiou-se ao Partido Comunista no início dos anos 1950 e publicou os primeiros poemas em consonância com a ideologia do partido, mas após a morte de Stalin, com uma relativa distensão política na Polônia, pôde expressar-se numa voz individual, já visível no livro Wołanie do Yeti (Chamando pelo Yeti), de 1957, e que foi se intensificando nos livros subsequentes. Desde o começo seus versos foram apreciados na Polônia e em outros países nos quais foi traduzida (ganhou, entre outros, o prêmio Goethe na Alemanha, em 1991, e o prêmio Herder, na Áustria, em 1995), mas a consagração mundial veio com o prêmio Nobel, em 1996. Traduzida para dezenas de línguas, é considerada uma das poetas mais relevantes do século XX. 

Szymborska sempre levou uma vida discreta. Não gostava de dar entrevistas e de aparecer na mídia. A premiação do Nobel colocou-a sob os refletores, transformou-a numa celebridade e durante um bom tempo tirou-lhe a tranquilidade para escrever, tanto que seus amigos se referiam ao prêmio como “a tragédia do Nobel”. Fumante inveterada, a poeta morreu em 1º de fevereiro de 2012, aos 89 anos, vítima de um câncer de pulmão.

A poesia 

Sua poesia, de grande sofisticação intelectual e densidade filosófica, mas vazada numa linguagem clara, sem hermetismo, atrai não somente leitores iniciados — como poetas e críticos literários —, mas também o leitor comum que aprecia poesia. 

Szymborska publicou relativamente pouco, considerando que sua atividade literária se estende por mais de meio século: 11 livros abrangendo algumas centenas de poemas (sem contar os dois primeiros, que ela renegou por conter poemas engajados, rezando pela cartilha do socialismo real). A inspiração para a criação poética vinha de fontes muito diferentes. É visível a fascinação da poeta pelas ciências naturais, sobretudo a biologia e a astronomia, mas também os acontecimentos acontecimentos comuns da vida cotidiana eram para ela matéria de poesia porque sempre conseguia vislumbrar neles algo extraordinário. Os temas muitas vezes sombrios têm certa leveza graças ao humor e a ironia, recursos que produzem um distanciamento do eu lírico e evitam que caia no trágico ou no patético. 

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marido

Um topos comum na literatura desde a Grécia antiga é a ideia do theatrum mundi — o mundo como um palco. Ele se torna recorrente no teatro elisabetano e principalmente nas peças de Shakespeare. Veja-se, por exemplo, o famoso trecho da comédia As you like it (Assim é se lhe parece): “O mundo inteiro é um palco e todos os homens e mulheres não passam de meros atores. Eles entram e saem de cena e cada um no seu tempo representa diversos papéis”. Também em Macbeth temos a ideia da vida como representação: “A vida nada mais é que uma sombra que anda ... um pobre ator que se pavoneia e se agita durante sua hora no palco e depois não é mais ouvido. É uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria significando nada.” Em ambas as citações, mas principalmente em Macbeth, temos uma visão sombria e desencantada da vida. 

Szymborska apropria a ideia do mundo como teatro e do teatro como mundo e coloca-a para uso próprio. Tadeusz Nyczek observa como diversos poemas lembram microdramas com personagens, ação, desenvolvimento de um tema, prólogo, clímax e resolução.¹ Em alguns poemas o próprio tema é o theatrum mundi. Essa predileção pela metáfora da vida como representação não deixa de ser paradoxal pois, a poeta confessou às suas biógrafas que não gostava de teatro: “Me enfada o teatro tradicional, no qual tudo é certinho e de acordo com a época, mas me enfada ainda mais quando personagens do século XVIII se balançam pendurados no teto ou gritam suas falas deitados no chão, portanto também não suporto isso que se considera vanguarda. Mas gosto de ler peças teatrais. Lendo, eu mesma as dirijo.”² A poeta também não gostava de adaptações musicais ou performances dos seus poemas: “Meus versos não são para cantar, nem para dançar, nem para fazer monodramas, são para escutar e pensar.”³ 

O poema que desenvolve de forma mais evidente a metáfora da vida como representação é “A vida na hora”:

A vida na hora.
Cena sem ensaio.
Corpo sem medida.
Cabeça sem reflexão.
Não sei o papel que desempenho.
Só sei que é meu, impermutável.
De que trata a peça
devo adivinhar já em cena.
Despreparada para a honra de viver,
mal posso manter o ritmo que a peça impõe.
Improviso embora me repugne a improvisação.
Tropeço a cada passo no desconhecimento das coisas.
[...]
Se pudesse ao menos praticar uma quarta-feira antes
ou ao menos repetir uma quinta-feira outra vez!
Mas já se avizinha a sexta com um roteiro que não conheço.
Isso é justo — pergunto
(com a voz rouca
porque nem sequer me foi dado pigarrear nos bastidores).
É ilusório pensar que esta é só uma prova rápida
feita em acomodações provisórias. Não.
De pé em meio à cena vejo como é sólida.
Me impressiona a precisão de cada acessório.
O palco giratório já opera há muito tempo.
Acenderam-se até as mais longínquas nebulosas.
Ah, não tenho dúvida de que é uma estreia.
E o que quer que eu faça,
vai se transformar para sempre naquilo que fiz.4

A atuação é improvisada. A atriz insegura e canhestra, mas essa é a sua estreia, a vida presente, sua ocasião única. Um dos poemas mais breves de Szymborska, “As três palavras mais estranhas”, começa com os versos: “Quando pronuncio a palavra Futuro, / a primeira sílaba já se perde no passado.” Não se pode postergar o espetáculo da vida, ensaiar para uma atuação melhor. Cada momento é sempre uma estreia. 

O poema “Impressões do teatro” aborda o tema do theatrum mundi da perspectiva do espectador. Lembremos que a tragédia elisabetana tem cinco atos que abrangem: exposição, ação crescente, clímax, ação decrescente e resolução. No poema, o eu lírico diz que prefere o “sexto ato”, isto é, o momento em que os atores, ainda maquiados e vestidos, já não atuam, mas ainda estão no palco, no limiar entre a representação que acabou e a vida que retomam:

Para mim, o mais importante na tragédia é o sexto ato:
o ressuscitar dos mortos das cenas de batalha,
o ajeitar das perucas e dos trajes,
a faca arrancada do peito,
a corda tirada do pescoço,
o perfilar-se entre os vivos
de frente para o público.5
Mais do que a tragédia que acaba de assistir, com sua dose
de páthos, violência e morte, o que comove o eu lírico é o
momento da transição do teatro-arte ao teatro-vida:
Mas o mais sublime é o baixar da cortina
e o que ainda se avista pela fresta:
aqui uma mão se estende para pegar as flores,
acolá outra apanha a espada caída.
Por fim uma terceira mão, invisível,
cumpre o seu dever:
me aperta a garganta.
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A universidade Jaguelônica, em Cracóvia, fundada em 1364, é a mais antiga instituição de ensino superior do país e uma das mais antigas do mundo. A poeta cursou sociologia na universidade, mas não chegou a se formar.
A universidade Jaguelônica, em Cracóvia, fundada em 1364, é a mais antiga instituição de ensino superior do país e uma das mais antigas do mundo. A poeta cursou sociologia na universidade, mas não chegou a se formar.

Longe da lírica 

Poucos são os poemas de Szymborska sobre o amor e normalmente vêm carregados de uma dose de ironia. Pela sua visão de mundo, a poeta se parece mais com os racionalistas do século XVII do que com os românticos que os sucederam e que marcaram tão profundamente a lírica amorosa. Na poesia de Szymborska ninguém morre nem enlouquece de amor. No poema “Ópera bufa” temos novamente a metáfora do palco. O eu lírico prevê que no futuro o seu caso amoroso será encenado como uma comédia de costumes na qual ela e o amado serão representados como personagens burlescas. Implícita na descrição está a ideia de que o amor não resiste à passagem do tempo: o que um dia foi drama passa a ser comédia. Mas há uma nota amarga na fala do eu lírico porque a comédia é para divertimento dos espectadores, não das personagens. Estes são os palhaços da ópera bufa e palhaços são tristes:

Primeiro passará o nosso amor,
depois cem, duzentos anos,
depois nos encontraremos de novo:
um casal de comediantes,
os favoritos do público,
vai nos representar no teatro.
Uma pequena farsa com canções,
um pouco de dança, muito riso,
uma boa comédia de costumes
e aplausos.
Você irresistivelmente cômico
nesse palco, com esse ciúme
e essa gravata.
[...]
Vamos nos encontrar,
afastar, a sala rindo sem parar,
e sete rios, sete montes
entre nós imaginar.
E como se não bastassem
os fracassos e as dores da vida
nos feriremos com palavras.
Depois faremos mesuras
e com a farsa terminada,
o público irá dormir
depois de muita risada.
[...]
E nós sempre assim desse jeito,
nós de barretes com guizos,
com seu tinido bárbaro
nos nossos ouvidos.6

Shakespeare é fonte de inspiração para outro poema sobre o teatro. A personagem Ofélia, de Hamlet, foi representada exaustivamente no palco, nas pinturas e no cinema, como frágil figura feminina que enlouquece e morre por causa do amor não correspondido. O poema de Szymborska, “O resto” , desnuda a representação, apresenta uma Ofélia-atriz prática, preocupada com a sua aparência durante a performance. Novamente o que temos é o espaço limiar entre palco e vida:

Ofélia acabou de cantar cantigas loucas
e saiu de cena preocupada:
será que o vestido não amarrotou, o cabelo
caiu nos seus ombros do jeito que devia?
[...]
Ofélia, que a Dinamarca perdoe a mim e a ti:
morrerei com asas; sobreviverei com garras práticas.
Non omnis moriar de amor.7

O poema termina com a invocação do eu lírico à personagem que representa uma recusa dos papéis consagrados pela tradição. A expressão latina non omnis moriar (uma das favoritas de Szymborska, que ela utiliza em vários poemas e que significa “não morrerei inteiramente”) se torna aqui um desafio, uma afirmação de resistência. Afinal, tudo é só uma representação: não se morre de amor. 

A julgar por estes e outros poemas, há uma evidente preferência de Szymborska pelo espetáculo da vida em toda a sua complexidade, com seus atos cruéis, mesquinhos ou simplesmente confusos. A arte é um pequenino recorte bem delineado desse imenso palco onde são representadas as verdadeiras tragédias e comédias. Outra questão importante para entender a sua criação poética: ela não se interessa pelos grandes acontecimentos que ocupam o centro do palco. Escolheu narrar o pequeno, o particular, o trabalho dos bastidores, a vida miúda, não só humana, mas também de outros seres que compartilham esse grande teatro que é o planeta Terra.

1

Regina Przybycien é doutora em literatura comparada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Professora aposentada da Universidade Federal do Paraná (UFPR), lecionou literatura brasileira na Universidade Jaguielônica de Cracóvia de 2009 a 2016. É tradutora da poesia de Wislawa Szymborska. Entre as suas publicações, estão os livros Poemas, de Wislawa Szymborska (Companhia das Letras, 2011), Poetas mulheres que pensaram o século XX, (org., Editora UFPR, 2008) e Feijão preto e diamantes — O Brasil na obra de Elizabeth Bishop, (Editora UFMG, 2015). Vive em Curitiba.

  1.   NYCZEK, Tadeusz. Tyle naraz świata. 27 x Szymborska. Kraków, Wydawnictwo a5, 2005, p.155.
  2.  BIKONT, Anna, SZCZĘSNA Joanna. Pamiątkowe rupiecie – Biografia Wisławy Szymborskiej. Kraków, Znak, 2012, p. 141.
  3.   Idem, p.352.
  4.   SZYMBORSKA, Wisława. Poemas. S.Paulo, Cia.das Letras, 2011, p.63-64.
  5.   Idem, p.44-45.
  6.  Poema inédito a ser publicado em 2016 num novo livro da Cia. das Letras. Tradução de minha autoria.
  7.  Idem.
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