Especial Capa

03/03/2017

Uma vida entre livros

O escritor argentino Alberto Manguel fala da leitura como experiência primordial, lança críticas à internet e reflete sobre os desafios de dirigir a principal biblioteca de seu país, que já esteve a cargo de Jorge Luis Borges


Mariana Sanchez

Foto: Elisandro Dalcin
Manguel


Convidado da série de eventos que marcam os 160 anos da Biblioteca Pública (onde apresenta uma palestra aberta ao público no dia 26 de maio), Alberto Manguel afirma que tomou “consciência do mundo” por meio dos livros. Mas a verdade é que conhece ambos — os livros e o mundo. Filho de embaixador, foi alfabetizado em alemão e inglês, passou a infância em Israel, a adolescência na Argentina e a vida adulta entre Inglaterra, Espanha, Itália, Taiti, Canadá e França. 

A palavra escrita, no entanto, sempre foi seu território. Desde criança, encontrou na literatura um lugar seguro e uma companhia prazerosa, uma forma de ordenar o caos do mundo e a liberdade para imaginá-lo.

Trabalhando como livreiro, conheceu Jorges Luis Borges e se tornou seu leitor — literalmente e em voz alta — quando este ficou cego. A relação com um dos maiores escritores da América Latina inspirou Manguel a construir uma vida em torno da literatura. Inicialmente, como leitor de originais para grandes editoras europeias. Mais tarde, no papel de antologista, editor e autor de numerosas obras, entre elas Uma história da leitura, A biblioteca à noite, No bosque do espelho, À mesa com o Chapeleiro Maluco e seu título mais recente, Uma história natural da curiosidade.

Em meados do ano passado, deixou sua biblioteca particular no sul da França para assumir a direção de outra, pública e muitíssimo mais vasta, a Biblioteca Nacional Argentina. “Como recusar um cargo que já foi de Borges?”, justifica. Na entrevista a seguir, Manguel fala sobre Borges, Dante, internet e o futuro do livro e das bibliotecas, entre outros assuntos. E faz uma recomendação à BPP, que completa 160 anos: “Que a Biblioteca Pública do Paraná tenha confiança em seus leitores atuais e futuros e fé para continuar sendo o símbolo essencial da sociedade que os alberga”. 

Em A biblioteca à noite o senhor conta que sonhava em ser bibliotecário quando era adolescente. Entre este sonho e a realidade de ser o diretor da biblioteca mais importante da Argentina, como logrou viver uma vida entre livros?

Não foi uma decisão voluntária. Minha primeira consciência do mundo se deu por meio da página impressa. Minhas primeiras descobertas foram feitas através dos contos de Grimm, Andersen, Monteiro Lobato, de As mil e uma noites. Desde aquelas primeiras tardes, os livros nunca me abandonaram.

“É preciso ser um inventor para ler bem”, disse o filósofo Ralph Waldo Emerson. Em À mesa com o Chapeleiro Maluco, o senhor diz que ler não significa ser um leitor. Afinal, o que implica ser um leitor? Que fatores influem na formação de um?

Ser leitor implica reconhecer que é. Ou seja, implica saber que um livro está nos esperando para colocar em palavras nossas curiosidades, dúvidas e paixões. Que um livro está destinado a nós, a cada um de nós em particular. E, para que esta epifania aconteça, são necessários o acaso e nossa boa disposição. No meu caso, isso ocorreu sem que eu soubesse, mas um dia soube que era leitor. E desde então esta condição me define.

O senhor conhece bibliotecas do mundo todo e é um especialista no assunto. Entre as tantas que conheceu — pessoais, reais ou imaginárias —, quais foram as mais impressionantes? E por quê?

Entre as imaginarias, a biblioteca do Capitão Nemo, porque é uma das únicas definitivas. Possui 12 mil livros que são para ele seu único vínculo com a Terra. “O mundo acabou para mim no dia em que meu Náutilus submergiu nas águas pela primeira vez”, confessa o Capitão. “Naquele dia, comprei meus últimos volumes, minhas últimas brochuras, meus últimos jornais. E desde então quero crer que a humanidade nunca mais pensou nem escreveu”, diz. Entre as bibliotecas reais, a composta por oito livros no campo de concentração para crianças de Birkenau, em Auschwitz, onde eram escondidos todas as noites para que os guardas nazistas não os encontrassem. Este é um exemplo magnífico de uma biblioteca verdadeiramente essencial.

Citando uma frase sua: “Se a biblioteca de Alexandria foi um símbolo da nossa sede de onisciência, a internet é o da nossa sede de onipresença”. Em sua opinião, quais serão os paradigmas das bibliotecas do futuro? 

Tomara que nossos paradigmas futuros sejam menos absolutistas, mais modestos. Que nossas bibliotecas futuras (de obras manuscritas, impressas, digitais ou qualquer tecnologia ainda por ser inventada) sejam acima de tudo exemplares, para que possamos reconhecer nos espelhos de nossa experiência passada algum traço ou advertência do presente.

Na era digital, em que temos acesso a quase todo tipo de conteúdo e a intertextualidade nos leva de um “hexágono” a outro (para citar uma imagem borgeana), como as bibliotecas podem continuar sendo inovadoras e relevantes para a sociedade?

A internet não é o melhor exemplo de biblioteca. Se a comparamos à Biblioteca de Babel borgeana, concluiremos que é acima de tudo tão inútil quanto [Publicado pela primeira vez em 1941, o conto “A Biblioteca de Babel” trata de um acervo eterno e infinito, que abriga todos os livros possíveis. É considerado uma metáfora da Sociedade da Informação]. Creio que as bibliotecas continuarão sendo inovadoras enquanto continuarmos imaginando novos mundos. E relevantes enquanto continuarmos consultando a experiência passada.

Quais são suas maiores críticas à internet?

Como a Biblioteca de Babel, ela pretende acumular tudo — não mais todas as variações das letras do alfabeto, mas qualquer ideia, piada, informação verdadeira ou falsa, devaneio ou invenção escrita por qualquer um com acesso a um computador. É claro que muitos destes textos são valiosos, mas muitos outros, não. Vimos recentemente que podem ser perniciosos. No caso das acusações contra Hillary Clinton, por exemplo. O perigo da internet não é tanto prejudicar nossa memória (por confiarmos que a máquina lembrará por nós) ou nossa curiosidade (porque podemos buscar qualquer resposta e, portanto, não refinamos nossas perguntas). O perigo é que nos dá a ilusão do conhecimento: pensamos que, por encontramos tudo na rede, este tudo nos pertence intelectualmente. Claro que não é assim: somente o que tornamos nosso, de maneira intelectual e emocionalmente profunda, nos pertence.

Há uma tendência entre as novas bibliotecas de transformar espaços de leitura em espaços de convivência. A Biblioteca 10, de Helsinki, na Finlândia, oferece digitalização de vinis, entre outros serviços, e permite a entrada de animais de estimação. Como o senhor vê esse modelo?

Bibliotecas sempre foram um lugar de atividade pública. Em Alexandria, supomos que estudiosos iam e vinham, reuniam-se para discutir os mais variados assuntos, certamente havia recitais e conferências, quem sabe até um lugar para consultas práticas do dia a dia. Em Viagem ao centro da Terra, de Júlio Verne, quando os exploradores observam que há poucos livros nas estantes de uma biblioteca pública de Reykjavik, o bibliotecário diz: “Ah, senhor Lidenbrock! Estes livros percorrem constantemente o país. Em nossa pobre ilha de gelo há um grande entusiasmo pelos estudos! Não há pescador ou agricultor que não saiba ler, e todos leem. Acreditamos que os livros, em vez de ficarem embolorando em uma estante, longe dos olhares dos curiosos, foram escritos e impressos para que todo mundo os leia. Por isso os de vossa biblioteca passam de mão em mão, são lidos uma e cem vezes, e demoram com frequência um ou dois anos para retornar às suas respectivas estantes”. Este é um verdadeiro “espaço de convivência”.

O senhor é bastante crítico com relação à sociedade de consumo, que ofuscaria o prestígio da atividade intelectual. Acredita que as bibliotecas são um contraponto necessário às megastores de livros, por exemplo?

Creio que as bibliotecas podem ser um lugar a partir do qual é possível educar o cidadão na aprendizagem de uma ética social. Uma biblioteca, sobretudo uma biblioteca nacional, pode oferecer exemplos de outros modelos sociais e de outras condutas cívicas. Em tempos de corrupção generalizada e falta de empatia, a biblioteca pode nos ensinar a nos comportar de outra maneira, através de histórias que não são as oficiais. Não sei se isso pode funcionar, mas creio que devemos tentar.

Se “toda biblioteca é autobiográfica”, o que o seu acervo pessoal (com aproximadamente 50 mil títulos) e o que dirige hoje (com cerca de 3 milhões de volumes) contam? Quais os tesouros particulares de cada um?

Da minha biblioteca, agora sepultada em um depósito distante no sul da França, diria que os livros de Alice no país das maravilhas, os poemas de San Juan de la Cruz, a obra de Borges e tantos outros. Da que dirijo, as obras completas de Diderot que pertenceram ao general San Martín, o Ulisses de Joyce com anotações de próprio punho da poeta argentina Alejandra Pizarnik, o último livro que Borges leu em seu escritório na biblioteca antes de se aposentar... Mas se você me perguntar amanhã, a lista será outra.

E qual foi o último livro lido por Borges antes de se aposentar?

Não sei, mas sei que houve um “último livro”. De qualquer forma, o último que leu antes de morrer (na verdade, lido para ele por uma enfermeira alemã) foi Heinrich von Ofterdingen, de Novalis.

Por falar em Borges, este ano será publicado no Brasil seu livro Com Borges (pela editora Äyiné). O que o autor de O aleph representa em sua formação pessoal e qual sua opinião sobre ele como diretor da Biblioteca?

Borges foi meu mestre, embora só fui sabê-lo bem mais tarde. Foi ele quem me deu licença, por assim dizer, para eu fazer o que queria: viver entre livros. Como diretor da BN foi um símbolo. Não como bibliotecário (o bibliotecário era o vice-diretor José Edmundo Clemente), mas como ícone do leitor universal, algo muito apropriado para uma biblioteca.

Recentemente, a Biblioteca Nacional realizou uma grande exposição pelos 30 anos da morte de Borges, em que foram mostrados os manuscritos de alguns de seus contos, entre eles “Pierre Menard, autor de Quixote”. Por que o senhor considera esse texto tão importante?

Penso que é o texto fundamental da literatura do século XX, porque através dele o leitor demonstra seu poder transformador. Isso certamente já foi dito antes (por Sterne, por Diderot, entre outros), mas nunca tão rotunda e claramente. Com este texto, Borges muda o sentido do que é ser leitor e da própria literatura. A literatura pode ser definida entre antes e depois de “Pierre Menard”.

Não é permitido escrever nos livros de uma biblioteca, e no entanto Borges o fazia. Atualmente, alguns destes exemplares com suas anotações fazem parte do tesouro da própria biblioteca que ele dirigiu. O senhor acha que uma biblioteca deve ser respeitada ou subvertida? 

A missão de todo leitor é ser um subversivo, ir contra as leituras convencionais, fazer perguntas, questionar a autoridade. Borges nos mostra como cada leitor constrói sua própria literatura e sua própria história da literatura, nas quais as obras mudam de rótulo e são traduzidas para o idioma pessoal de cada um.

Foto: Elisandro Dalcin
Manguel

Por muitos anos, o senhor trabalhou para grandes editoras estrangeiras, além de ter fundado uma, a Ram Publishing Company, na Inglaterra. A figura do editor mudou muito nos últimos anos? Em que sentido? 

No mundo anglo-saxão, para pior, e isso contagiou quase todas as línguas. O editor se tornou um “editor” no sentido do termo em inglês, ou seja, alguém que retoca, altera, intervém na obra, muitas vezes de modo convencional. Mas talvez poucas vezes na história do livro houve verdadeiros editores, aqueles leitores privilegiados que, como parteiras, ajudam um livro a nascer.

O senhor diz que escreve a partir de sua biblioteca, e que o faz mais como leitor do que como escritor. Será por isso que se dedicou mais à prosa ensaística do que à ficção?

Talvez sim. Sei que minhas leituras me levam a escrever. Penso em citações. E escrevo a partir delas.

Por que, há mais de dez anos, o senhor lê todas as manhãs um canto da A divina comédia, de Dante Alighieri?

Cada leitor julga uma obra através daquela alquimia inexplicável produzida quando um texto e um leitor se cruzam. No meu caso, este encontro com a obra de Dante foi postergado por muitos anos e se deu quando eu estava por fazer 60 anos. E agora é uma parte imprescindível da minha vida, porque encontro em seus versos quase tudo o que me pergunto ou imagino.

Houve certa polêmica quando o senhor foi nomeado diretor da BN, por ter construído sua visão do país no estrangeiro. Como sua experiência no exterior pode contribuir para a gestão de uma das instituições nacionais de maior prestígio?

Não acredito em nacionalismos restritos, pequenos, caricaturais. Acredito que temos o direito (talvez o dever) de sermos universais, como queria Borges. Para um leitor argentino de verdade, Homero e Shakespeare são autores argentinos.

E como é para um intelectual ocupar um cargo com tantas conotações políticas?

Difícil. Eu me tornei um administrador que deve conduzir a instituição por meio de um labirinto de obstáculos burocráticos.

Quais deveriam ser as prioridades de uma biblioteca hoje, e da BN especialmente?

Como sempre, o serviço ao público: estimar, adquirir, conservar e proteger, evitar a censura, catalogar, digitalizar, propor bibliografias comentadas, oferecer um lugar para o diálogo, expor, facilitar o acesso a todos.

Soube que a digitalização do catálogo da BN é uma das prioridades da sua gestão.

É verdade. Não só estamos revendo todo nosso plano digital como também estamos pensando em uma extensão do projeto “Americana”, de Robert Darnton [historiador e bibliotecário norte-americano], que pretende reunir digitalmente todos os catálogos dos países das Américas.

Em sua aspiração por uma biblioteca universal, o senhor tem falado em estreitar laços com outras bibliotecas do país e exterior. Como foi a experiência de visitar as bibliotecas da Villa 31, uma das maiores favelas de Buenos Aires? Que estratégicas podem ser pensadas para que a BN seja realmente inclusiva e não restrita a uma elite?

Em primeiro lugar, apresentar-nos. Mostrar que não somos uma instituição para apenas um grupo de pessoas, abrir nossas portas a todos, explicando como fazer para nos usar. Não será fácil, porque em nossa sociedade tudo traz um rótulo de uma classe ou de outra, e tudo o que for intelectual é considerado elitista ou supérfluo. Na Villa 31 tentamos ajudar os moradores a montar uma biblioteca popular, mas depois os diferentes grupos representantes não conseguiram entrar em um acordo. E eu não quis que a BN impusesse essa criação. Acredito que, com o tempo, conseguiremos atrair mais público, e um público mais diversificado.

É verdade que existe um plano de criar um Centro de Estudos Jorge Luis Borges na antiga sede da Biblioteca Nacional, onde ele trabalhou? Como será esse projeto?

Criamos a pessoa jurídica do Centro Internacional de Estudos Jorge Luis Borges, a cargo de dois ilustres bibliotecários, Laura Rosato e Germán Álvarez. Estamos esperando recuperar o edifício da Rua México, onde Borges tinha seu escritório. Atualmente temos apenas o primeiro andar, mas esperamos que nos concedam uma boa parte do edifício. Ali, teremos uma Biblioteca Borges (com todos os seus livros, originais e traduzidos) e obras da “galáxia Borges” — de autores que o influenciaram e que ele influenciou. Além de todo trabalho sobre a obra de Borges que for publicado. E talvez residências para pesquisadores. 

Em Uma história natural da curiosidade, o senhor recorda um episódio de infância: aos 8 anos, quando já lia as narrativas de Sherlock Holmes, decidiu fazer um caminho diferente para voltar da escola e acabou se perdendo. Se não fosse leitor de Conan Doyle, talvez não tivesse a curiosidade de descobrir o que havia do outro lado. A leitura literária é uma forma de nos tornar mais curiosos e conscientes do mundo que nos cerca?

Certamente. A leitura literária estimula a curiosidade. Queremos saber o que vai acontecer com Aladim, se Sandokán conquistará Mariana, se K. finalmente chegará ao castelo. Assim lemos, desejando que o final nunca chegue. Flaubert disse que a estupidez consistia no desejo de concluir.

Em março de 2017 a Biblioteca Pública do Paraná completa 160 anos. Que recomendações o senhor daria para uma instituição mais jovem que a BN, que já ultrapassou dois séculos de existência?

Persistência para exigir das autoridades públicas os fundos necessários para subsistir de modo eficaz, confiança em seus leitores atuais e futuros, fé para continuar sendo o símbolo essencial da sociedade que os alberga. Nós, da Biblioteca Nacional Mariano Moreno, desejamos à BPP muitos outros anos de inteligência e iluminação.


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