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02/01/2018

Geração 90: delírio ou realidade?

Organizador de duas antologias que marcaram a literatura brasileira contemporânea, o escritor Nelson de Oliveira resgata o clima da cena literária do final do século XX e os motivos que o levaram a reunir em livro autores até então fora do radar das grandes editoras


Um jovem compositor chamado Renato Limonge lançou em 2017 uma canção intitulada “Geração 90”. Procurem no YouTube. Vamos cantar juntos?

Releio demais Borges & Philip Dick… Às vezes suspeito que os anos 1990 nunca existiram. O tempo tem essa capacidade irrefreável de dissolver tudo, por mais sólidas que as coisas e as certezas pareçam. Se até os milenares blocos de granito ou calcário das pirâmides um dia virarão poeira, que dizer dos frágeis documentos de papel, áudio & vídeo que nos cercavam no final do século XX?

O que reforça essa suspeita é o desapego à memória e à História que a cultura do consumo vem induzindo até nas melhores cabeças de nossa sociedade do entretenimento. Lembro que um livro muito consultado por mim, nos anos 1990, era a História concisa da literatura brasileira, do Alfredo Bosi.

No capítulo final, intitulado “Tendências contemporâneas”, a sensação era de que a literatura brasileira relevante terminava em Clarice Lispector, Guimarães Rosa, João Cabral & Drummond. Os concretistas eram mencionados. Rubem Fonseca & Dalton Trevisan também, mas por alto. A história iniciada com a carta de Caminha terminava gloriosamente no finalzinho dos anos 1950, ou talvez dos 1960. De acordo com o pesquisador, de lá pra cá parece que nada de valioso surgiu sequer no distante horizonte.

Lembro de uma entrevista que o Alfredo Bosi concedeu à Revista E, do Sesc, em janeiro de 2010. No finalzinho, o entrevistador pergunta: “O senhor falou de Guimarães Rosa e Clarice Lispector e disse que eles são muito superiores à produção do modernismo. A pergunta é: quem, da altura desses citados, veio depois deles?”

Resposta: “Ninguém. Nós temos muitos bons escritores hoje. Temos uma literatura muito viva atualmente, tanto na prosa quanto na poesia, sem dúvida nenhuma. Mas como a pergunta é sobre alguém depois de Clarice e Guimarães Rosa, que são autores de uma dimensão internacional — no sentido de poderem ser traduzidos para qualquer língua e admirados por qualquer literatura —, eu tenho de ser drástico.”

   Arquivo/Marcelino Freire
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Marcelino Freire, Ivana Arruda Leite, Marcelo Mirisola, Joca Reiners Terron e Ronaldo Bressane no lançamento de Geração 90 — Os Transgressores, em Santos, em 2003.

Lost generation?
Foi Gertrude Stein quem cunhou a expressão geração perdida. Será que essa etiqueta se aplicaria também a nós?

Era bastante comum, no final do século XX e no início do XXI, escutar autores importantes, da Velha Guarda, comentando que depois de sua geração nada de muito relevante havia surgido no cenário nacional. Lembro de outra entrevista, agora com o Ignácio de Loyola Brandão, no número 30 da revista Cult, de janeiro de 2000, que reforçava essa “drástica” posição: “Cadê a literatura brasileira? Cadê a nova literatura? Onde estão as jovens revelações? Não as vejo. (…) Os novos autores não estão querendo mudar mais nada. O grande problema é que ninguém quer mudar mais nada.”

Nos anos 1990, tanto escritor talentoso havia estreado na literatura! Eu começava a acompanhar com mais atenção os cadernos literários, as resenhas… Também começava a conhecer pessoalmente — apesar de minha timidez — muito contista estreante, muito poeta já no segundo ou terceiro livro. Os jovens romancistas eram mais raros nas rodas que começavam a se formar. Mas é claro que existiam.

Toda essa nova onda estava se beneficiando da revolução digital que começava a dar as caras na Botocúndia. A informatização da indústria gráfica logo teria um impacto forte na cultura. Softwares & networks multiplicavam a quantidade de papel impresso & encadernado. O custo industrial do livro estava caindo, novas editoras surgiam, umas de médio porte, outras menores, alternativas, todas dispostas a lançar estreantes brasucas.

Éramos sós, éramos sãos?
“Cadê a nova literatura? Onde estão as jovens revelações?” O fantasma dos natais passados não parava de repetir.

No início do século XXI, mesmo tendo quatro livros publicados, eu ainda era muito idealista. Enxergava na literatura um saudável santuário, um espaço de comunhão protegido da banalidade cotidiana. Então, era natural que me decepcionasse com a miopia dos autores mais velhos. Sua falta de interesse pela geração mais jovem me entristecia. Esse foi o gatilho para os dois volumes da antologia da geração 90.

Sempre que penso nessa época, sou arrebatado por um tsunami de sensações & impressões. Uma imagem cinemática espalha ondas audiovisuais, explodindo a memória. Foi uma época de muita alegria, muito entusiasmo. Mas é óbvio que essa impressão benfazeja, mais vermelha que cinza, talvez seja uma ilusão exclusivamente minha.

Repito: eu ainda era muito idealista. Ainda enxergava o mundo artístico & literário como uma instância parcialmente livre das normas da revolução industrial capitalista. Editoras & livrarias não eram empresas jogando o jogo do mercado, eram lugares sagrados. (Doce ilusão.)

O lado bom de montar acampamento num grande centro urbano, se você é escritor, é poder encontrar cara a cara as aves de rara plumagem cujos livros você aprecia. É claro que não estou falando do circuíto mainstream. Confesso que acompanhava bem de perto a carreira de certos amores tupiniquins publicados pelas grandes editoras, mas eu me interessava mesmo era pela produção subterrânea. 

Não lembro quem eu conheci primeiro: Ademir Assunção, Claudio Daniel, Luiz Roberto Guedes ou Joca Reiners Terron. Mas lembro bem que certas afinidades poéticas & teóricas ficaram evidentes em pouco tempo. Joca estava inaugurando sua pequena editora subversiva, Ciência do Acidente, e em breve publicaria todos nós. Minha coletânea de minicontos nonsense, intitulada Treze, saiu por essa editora, em 1999.

Éramos heróis, bandidos?
Outra convergência importante em minha vida literária: o encontro com Marcelino Freire & Evandro Affonso Ferreira, num cruzamento qualquer do ano 2000. Os dois organizavam reuniões literárias no Fran’s Café da rua Fradique Coutinho, 1.139, e convidaram Marcelo Mirisola pra conversar com a galera. Eu não conhecia pessoalmente o Marcelo, mas conhecia seu livro de estreia, de contos, e escrevera o texto das orelhas de sua segunda coletânea, O herói devolvido.

Os encontros no Fran’s Café aproximaram um bom número de novos poetas & ficcionistas ávidos de atenção de escritores & críticos da Velha Guarda, por exemplo: Alcir Pécora, Fernando Paixão, Glauco Mattoso, João Adolfo Hansen, João Alexandre Barbosa, Márcia Denser…

Não sei exatamente em que momento surgiu a ideia de organizarmos um livro coletivo, pra demonstrar que existia sim uma ótima safra de novos talentos — a essa altura Ivana Arruda Leite, João Anzanello Carrascoza, Marçal Aquino e tantos outros já haviam passado pela rua Fradique Coutinho, 1.139 —, nem por que caberia a mim a organização dessa provocação. Mas lembro que Luiz Ruffato conversou com a editora da Boitempo Editorial, Ivana Jinkings, que imediatamente topou nos publicar.

Nas semanas seguintes, fiquei pensando em qual seria a melhor filosofia pra essa publicação. Uma simples coletânea de contos não surtiria um efeito duradouro. Precisava ser algo mais pretensioso.

Folheando um catálogo de artistas plásticos — antes de me casar com a literatura, eu havia noivado muito tempo com as artes plásticas —, lembrei que era bastante comum a crítica especializada classificar a arte contemporânea não apenas por escola, mas também por geração. Bingo. 

   Arquivo/Marcelino Freire
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O grupo de autores que deu origem à antologia Geração 90 — manuscritos de computador. Da esquerda para a direita: Nelson de Oliveira, Luiz Roberto Guedes, Marcelino Freire, Luiz Ruffato, Evandro Affonso Ferreira, Marçal Aquino e Marcelo Mirisola. 

Reconhecimento de padrões
Comecei a pesquisar nas livrarias, nas bibliotecas públicas & particulares, nos sebos e na web. Parti em busca de todos os ficcionistas brasileiros que estrearam nos anos 1990. Esse era o principal critério.

Escrevi cartas & e-mails. Recebi livros do país inteiro, porque eu não queria que a coletânea se restringisse ao Sul e ao Sudeste, onde está a maior concentração de escritores, editores & livreiros, o maior número de textos por metro quadrado. Era preciso revelar também ficcionistas das outras regiões.

Fui comprando, emprestando ou recebendo de presente os livros de Adriana Lisboa, Állex Leilla, Bernardo Carvalho, Carmen Moreno, Ferréz, Geraldo Lima, Heloísa Seixas, Juliano Garcia Pessanha, Leticia Wierzchowski, Michel Laub, Nuno Ramos, Patrícia Melo, Paulo Lins, Pólita Gonçalves, Ricardo Lísias, Sérgio Rodrigues, Tércia Montenegro, enfim, de praticamente toda a geração 90.

Obviamente, não daria pra acolher a geração 90 inteira — centenas de autores — num livro de menos de trezentas páginas. Então fiz zazen, consultei o I Ching, as cartas do Tarô, joguei as runas & selecionei 17 malucos, os meus contistas prediletos naquele momento: Altair Martins, Amilcar Bettega Barbosa, Cadão Volpato, Carlos Ribeiro, Cíntia Moscovich, Fernando Bonassi, João Anzanello Carrascoza, João Batista Melo, Jorge Pieiro, Luiz Ruffato, Marçal Aquino, Marcelino Freire, Marcelo Mirisola, Mauro Pinheiro, Pedro Salgueiro, Rubens Figueiredo & Sérgio Fantini.

E pedi a todos que me enviassem ficções inéditas.

E mudei a categoria do livro, que deixou de ser uma prosaica “coletânea de contos” e passou a ser uma ambiciosa “antologia de autores”.

E preguei na quarta capa a frase explosiva, a armadilha para os incautos: “Os melhores contistas brasileiros surgidos no final do século XX.” 

Geometria não euclidiana
Funcionou. O circo pegou fogo. A antologia Geração 90: manuscritos de computador foi muito comentada, elogiada & vilipendiada. Tenho saudade dessa época. 

Não vou discorrer aqui sobre a recepção do livro, as resenhas favoráveis e as desfavoráveis, a rebordosa que essa iniciativa causou no círculo bastante restrito da literatura brasuca, afinal tudo isso está ao alcance de um clique, armazenado na web, basta jogar no Google e viajar no Túnel do Tempo.

Essa breve viagem ao passado recente, caríssimos leitores, revelará que em 2003 surgiu, também pela Boitempo, o segundo volume da antologia, intitulado Geração 90: os transgressores. Dos dois volumes, esse é o meu predileto. A proposta foi reunir a galera mais experimental, que curtia principalmente subverter a linguagem, fragmentar o discurso, tirar a plateia da cretina rotina, do costumeiro papai & mamãe.

Dezesseis contistas foram convocados: Ademir Assunção, Altair Martins, André Sant’Anna, Arnaldo Bloch, Claudio Galperin, Daniel Pellizzari, Edyr Augusto, Fausto Fawcett, Ivana Arruda Leite, Joca Reiners Terron, Jorge Pieiro, Luci Collin, Marcelino Freire, Marcelo Mirisola, Ronaldo Bressane & Simone Campos.

O saldo foi muitíssimo positivo. Uma década e meia depois, uns autores desapareceram do radar, outros continuam escrevendo & publicando. Isso não importa muito. Hoje eu sei que a vida literária é mais uma corrida de cavalos do que uma confraternização de aves raras. Mas minha intenção nunca foi antecipar os futuros campeões do turfe, ou da bolsa de valores. Foi retratar uma época.

Memória afetiva
Se agora o retrato está meio datado & desbotado, até isso é razão pra alegria. De lá pra cá, duas novas gerações surgiram. Primeiro a geração zero zero, dos autores que estrearam entre 2001 e 2010. E agora a geração 10, da moçada que está estreando neste período, entre 2011 e 2020.

A experiência mais que estimulante, proporcionada pelos volumes 1 e 2 da antologia da G90, me motivou a continuar atento ao cenário literário. Continuei colecionando livros, resenhas & entrevistas ao longo da primeira década do século XXI. A antologia seguinte, Geração zero zero: fricções em rede, foi lançada em 2011, pela editora Língua Geral, carioca.

Novamente na quarta capa a frase explosiva, a armadilha para os incautos: “Os melhores contistas brasileiros surgidos no início do século XXI.”

A celebração literária se repetiu. Muita energia, muita fricção. Repetiram-se as resenhas favoráveis e as desfavoráveis, a rebordosa foi ótima, agora também nas redes sociais.

Dessa vez pude contar com a participação generosa & potente de Ana Paula Maia, Andréa del Fuego, Carlos Henrique Schroeder, Carola Saavedra, Daniel Galera, Flávio Viegas Amoreira, João Filho, José Rezende Jr., Lima Trindade, Lourenço Mutarelli, Marcelo Benvenutti, Maria Alzira Brum Lemos, Marne Lúcio Guedes, Paulo Sandrini, Paulo Scott, Santiago Nazarian, Sidney Rocha, Tony Monti, Veronica Stigger, Walther Moreira Santos & Whisner Fraga.

(Parêntese importante: um dos bem-vindos efeitos colaterais dessa antologia foi a coletânea Geração subzero, organizada pelo escritor Felipe Pena, em 2012.)  

O que me motiva a seguir batendo o bumbo, a continuar organizando as antologias geracionais? A diversão, é claro. E talvez a necessidade íntima de negar esta sensação de “perpétuo agora”, criada & mantida há décadas pelo mercado.

No “perpétuo agora” o fluxo da História não é importante, tudo precisa parecer sempre atual & contemporâneo, assim fica mais fácil de vender. Eu prefiro enxergar a realidade literária como uma acomodação de épocas & gerações diferentes, cada qual com suas cicatrizes idiossincráticas, às vezes deliciosamente anacrônicas. 

Próxima parada: geração 10.


Nelson de Oliveira nasceu em Guaíra (SP) em 1966 e, desde 1985, vive em São Paulo (SP). Em 1989, após participar de uma oficina literária ministrada pelo escritor João Silvério Trevisan, foi selecionado para uma bolsa da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, com a qual escreve os contos de Fábulas. O livro recebeu o Prêmio Casa de las Américas e foi lançado em Cuba em 1995. Desde então, o escritor já publicou livros de contos, entre os quais Os saltitantes seres da Lua (1997), Naquela época tínhamos um gato (1998) e Algum lugar em parte alguma (2005), além dos romances Subsolo infinito (2000), A maldição do macho (2002), O oitavo dia da semana (2005), entre outros títulos.  
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