Especial Capa

02/01/2018

O imenso vácuo de uma tradição em progresso

Luís Augusto Fischer analisa o legado da “Geração 90” que, em seu entendimento, percorre o caminho aberto por escritores brasileiros do passado, mas que ainda não problematizou a corrupção que assola o país em tempos recentes


São 29 diferentes escritores incluídos nos dois volumes organizados por Nelson de Oliveira sob o rótulo “Geração 90”. Outros 23 escritores da mesma geração cronológica dominante nesses dois volumes foram lembrados na tabela final. Se acrescentarmos a esses os outros quatro escritores um pouco mais velhos (aos quais se poderia acrescentar um bom punhado de outros, como Edney Silvestre, nascido em 1950, e Elvira Vigna, nascida em 1947), alcançamos soma impressionante: mais de meia centena de autores brasileiros, quase todos em atividade regular desde os anos 90. Só em prosa ficcional.

Essa exuberância parece contrastar com a esqualidez de nosso mercado, ainda e sempre carente de leitores, por mais que tenhamos tido boas políticas de formação de leitores nos agora sorridentes anos FHC/Lula/Dilma. Não custa acrescentar que, sendo a maior parte desses nomes de romancistas, o fenômeno deveria ser mais e mais saudado e estudado tendo em vista não apenas a já mencionada hegemonia do conto na geração anterior (nos anos 1960 e 1970 se falava mesmo na morte do romance como uma iminência), mas igualmente o conjunto de exigências que a forma romance traz consigo.

Dizendo de modo mais direto: devemos trazer mais fortemente à consciência do debate literário (em sua desprestigiada face historiográfica, quando menos) a evidência de que o Brasil tem uma impressionante geração de romancistas, talvez análoga à dos anos entre 1930 e 1950. Gente que domou estruturas e linguagem que, aliadas e moduladas por uma interpretação complexa e profunda do mundo, atendeu as pré-condições para a existência desse gênero. Não dá pra saber ainda se os noventistas terão seus Jorge Amado, Erico Verissimo, Graciliano, Rachel de Queiroz ou Dyonelio Machado no sentido do impacto duradouro de seus textos na face da cultura de língua portuguesa no Brasil.  

(Mas também, consideremos, os de 30 tiveram a seu favor toda uma novidade — era a primeira grande geração a escrever moderno para entender criticamente o Brasil, por um lado, e por outro foi toda ela beneficiada por circular nas escolas, nos vestibulares, nas apostilas, nas universidades em seu auge, nos anos de 1960 em diante. Os noventistas encontraram o terreno da leitura escolar colonizado pelos de 30 — e isso não é bom ou mau, mas é uma verdade elementar que condiciona as coisas de modo bem diverso do que antes.)

Entre os atualmente maduros romancistas, já é possível apontar para carreiras consolidadas. Alguns itens foram vistos na primeira tabela, em termos de repercussão e reconhecimento. Não se poderá contar a história da literatura da virada do primeiro para o segundo milênio sem a presença de — aqui vai minha percepção, naturalmente sujeita às minhas evidentes limitações — Luiz Ruffato e Rubens Figueiredo, talvez Fernando Bonassi e Marçal Aquino. Estes conquistaram terreno para sua obra com força característica. Não casualmente, os quatro, alinhados com Paulo Lins e Lourenço Mutarelli, e talvez Marilene Felinto, inventaram maneiras de dar a ver solidamente os brasileiros de baixo, na sociedade contemporânea. (Desse grupo faz parte uma fatia importante da obra de outro escritor arrolado aqui, que porém se identifica mais com a geração seguinte, a que despontou nos anos 2000: Paulo Scott.)

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Para Luís Augusto Fischer, Luiz Ruffato e Amílcar Bettega, presentes na antologia Geração 90, e Milton Hatoum e Beatriz Bracher são algumas das “grandes vozes narrativas de nosso tempo”.

Serão os atuais, proporcionalmente, como os escritores realistas de 1930 a 1950, ou como os naturalistas do fim do outro século, Aluísio Azevedo à frente? Pode ser. Pensando nos pontos altos dessa linhagem, Rubens Figueiredo e Ruffato ainda não produziram um novo e nítido Vidas secas ou um Os ratos, mas a família deles é a do Graciliano e de Dyonelio.

Em matéria de criatividade bem concebida e com marcados acertos na forma, eu apontaria outros dois grandes da geração, ambos fora dos volumes de Nelson de Oliveira: Bernardo Carvalho e Alberto Mussa. Acrescentaria um terceiro nome: Beatriz Bracher, que para expressar o ângulo feminino da experiência me parece insuperada, entre os mencionados. Neles temos força de outra ordem, mais intensa na criatividade estrutural (enredo, ângulo narrativo e personagens), que nos anteriores é menos notável do que a inventividade de linguagem (mas Ruffato mostrou maestria geral na série Inferno provisório).

Se entrarem na conta os mais velhos, mencionados após as tabelas, bem, aí será necessário incorporar a clara presença de Milton Hatoum entre as grandes vozes narrativas de nosso tempo, seguido por Tezza (e, para meu gosto, pela inventiva novela de Luiz Sérgio Metz, sua única narrativa longa, Assim na terra, de impressionante criatividade de linguagem, capaz de transformar a ampla tradição do romance fronteiriço e/ ou histórico sulino numa coisa quase irreconhecível, sendo porém sua culminância pesadelar). 

Entre parênteses, se for o caso de marcar livros que isoladamente marcam momentos altos dessa geração 90, ou marcar dicções de alta originalidade, mas ainda talvez à espera de uma realização indiscutivelmente superior, valeria marcar o caso de Amílcar Bettega, Marcelino Freire e Joca Reiners Terron, entre os incluídos nas antologias Geração 90, mais Fausto Fawcett e Vitor Ramil. O que já mostraram sugere tratar-se de obra potencialmente definitiva.

Hatoum tem o mérito, raríssimo em todo o conjunto de escritores aqui considerado, de levar em conta as classes superiores da sociedade brasileira, as elites, algumas delas, é claro. Este não é um valor pequeno, para o romance como forma: sua história mostra que nesse barro social encontramos grande material, talvez o principal material para organizar leituras de conjunto sobre a experiência de uma época, de um grupo. Tezza também terá algo a ver com isso, mas em sentido diverso, porque em sua obra, muito bem articulada em arquitetura e linguagem, nos grandes lineamentos de enredo assim como no varejo das cenas, vemos desfilar basicamente os dramas vivos das classes intelectualmente superiores no Brasil, estando ausentes as elites econômicas ou políticas.

Mas nenhum deles, me parece, até aqui empregou as virtudes da forma romanesca ou da linguagem conquistada por cada um para abordar o mundo da alta política, esse mesmo que nos atordoa na forma de golpe parlamentar-midiático, na forma de brutal supressão de direitos para os de baixo, na forma de incalculáveis montantes de corrupção institucional. Por quê?

Sei que nenhum deles têm qualquer obrigação de meter a mão nessa pocilga; mas me pergunto por que ninguém tentou, ninguém vem nos contar como funciona isso tudo. Entre os personagens que inventaram, não há um grande banqueiro ilustrado ou um doleiro idiota mas bem relacionado, um deputado de real poder ou mesmo um assessor canalha, um capitão de indústria moderna ou um engenheiro serviçal, um big boss da publicidade ou uma de suas vítimas na rotina de uma agência, um neocoronel de terras monocultoras irrigadas no antigo cerrado ou um agricultor arrancado da terra ancestral.

Por quê? Será que tal ausência se explica apenas porque os escritores, quase sem exceção, provêm agora das classes médias, não havendo casos mais nítidos de gente oriunda das grandes decadências que geraram os Erico, os Lins do Rego? Mas igual, Machado de Assis era um arrivista social, e soube como ninguém olhar para o andar de cima de modo a ver o que ali se fazia e vir cá nos contar. O velho Machado, acho eu, continua a nos espreitar, perguntando por que não seguimos este seu exemplo.


Luís Augusto Fischer é professor de literatura na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e autor de, entre outros livros, Machado e Borges — e outros ensaios sobre Machado de Assis e Literatura Brasileira — modos de usar (L&PM). Vive em Porto Alegre (RS).  
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