Um Escritor na Biblioteca

11/10/2018

Paulo Henriques Britto

Após um período de seis anos, Paulo Henriques Britto volta a publicar um livro inédito de poemas. Nenhum mistério sucede o elogiado Formas do nada, de 2012. É uma ótima, para não dizer rara, oportunidade de ler nova produção do carioca, apontado por muitos como um dos principais poetas brasileiros contemporâneos. Isso porque em 35 anos de carreira, Britto publicou relativamente pouco: são nove livros de poesia e uma coletânea de contos

Da redação

    Fotos: Kraw Penas
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Pouco antes de lançar sua mais recente obra, o autor participou da edição de julho do projeto Um Escritor na Biblioteca. Entre outros assuntos, falou sobre seu processo de escrita e de que forma surgem seus poemas. “Muita coisa diferente me faz escrever. Às vezes é algo que estou lendo, um poema, ou mesmo uma coisa em prosa, uma palavra, uma frase que fica na minha cabeça. Isso é muito comum.”

A entrada de Paulo Henriques Britto na literatura se deve, em grande parte, a sua passagem pelos Estados Unidos, quando ainda era criança e morou com os pais na Califórnia durante dois anos. Voltaria a viver nos EUA quando, aos 20 anos, decidiu fazer faculdade de cinema — curso que acabou não concluindo. Essas experiências o ajudaram quando começou, de forma despretensiosa, a traduzir literatura de língua inglesa para o português. Foi o startpara uma carreira bem-sucedida como tradutor de autores como Anthony Burgess, Thomas Pynchon, Philip Roth e Charles Dickens.

O exercício da tradução, aliás, o ajuda ainda hoje no processo de escrita de sua própria obra. “Muitas das técnicas de ficção que tenho, aprendi traduzindo ficção. Não tenho a menor dúvida”, diz o escritor que queria ser ficcionista, mas acabou sendo poeta porque nunca achou que tivesse imaginação para escrever romances. No entanto, Britto prepara sua segunda coletânea de contos, chamada O castiçal florentino, que traz algumas histórias rascunhadas ainda no período californiano do autor.

Professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) em cursos de tradução, criação literária e literatura brasileira, Paulo Henriques Britto ainda falou sobre o impacto de ler autores como Kafka (“esse cara é definitivo”) e sua vontade de experimentar utilizando estilos poéticos consagrados (“gosto de perverter as formas”).

Indisciplinado
A minha formação de leitor foi uma coisa muito indisciplinada. Na minha casa — uma família da pequena burguesia carioca — tinham alguns livros, não muitos. Comecei a ler, e quando passei a me interessar muito, meus pais compravam tudo quanto era livro para mim. Mas, repito, era uma leitura completamente indisciplinada. No começo da minha vida, diria que a biblioteca não teve nenhum papel. Nós vivemos em um país que não é muito bem servido de bibliotecas, né? Para vocês terem uma ideia, eu trabalho na PUC do Rio de Janeiro, que é uma das grandes universidades privadas do Brasil. Lá há uma biblioteca, mas, de uns anos pra cá, estou pesquisando forma poética, trabalhando com versificação de inglês e português, e achei exatamente dois livros da minha área de interesse na biblioteca. Preciso comprar o livro. Às vezes. quando o livro está muito velho, escaneio e doo para a biblioteca e fico só com a imagem escaneada. Então, eu não tive essa vivência de biblioteca. Passei realmente a usar a biblioteca quando comecei estudar na PUC, trabalhar na PUC, mas era uma biblioteca não muito completa para o padrão universitário.

EUA
Com dez anos de idade fui para os Estados Unidos. Meu pai era militar, foi transferido e fiquei dois anos e meio lá. E criança aprende língua muito rápido. Em um ano eu já estava lendo em inglês, e tive uma grande sorte de ter uma professora que adorava poesia. Ela me botou para ler Shakespeare, Walt Whitman, Emily Dickinson. Foi quando realmente descobri poesia. 

Volta
Quando voltei para o Brasil, dois anos e meio depois, comecei a descobrir poesia em língua portuguesa, que até então eu praticamente não conhecia. Nessa época descobri Fernando Pessoa, Manuel Bandeira, Drummond, etc. Então minha formação foi muito assim. Eu lia muito “Tesouros da Juventude”, uma coleção que todo mundo tinha em casa. Lembro quando fui ler os contos do Cortázar, na adolescência, fiquei pasmo. Era uma coleção muito engraçada porque os volumes traziam um pouco de tudo. Um volume tinha um com conto e depois tinha um texto sobre ciência, aí tinha um poema, quer dizer, era uma coisa totalmente despirocada. Minha leitura foi sempre muito assim, eu ia lendo o que dava na veneta. Só comecei a centrar mais na questão da poesia quando eu já tinha mais de 20 anos. Aí é que realmente comecei, porque até então o meu sonho era ser ficcionista. Foi aí que eu comecei a ler poesia mais a sério, estudar poesia. 

Primeiros autores
O quê mais li nessa época? Kafka, talvez, acho que é o escritor que mais li e reli. Machado de Assis também. Descobri Machado muito cedo. Fui um grande leitor de Cortázar. Aliás, sou até hoje. Na adolescência eu tinha uma turminha que lia, e só lia ficção, e eu era o único que gostava de poesia. A poesia não entrava na turma, a turma só lia ficção. E a gente tinha uns autores que eram, assim, “os nosso autores”. Um era o Campos de Carvalho, com o Púcaro búlgaro, que eu devo ter lido pra lá de 10 vezes. Sabia de cor trechos do livro. Outro era o [Witold] Gombrowicz, um autor polonês que viveu muitos anos na Argentina. E o Kafka, claro! Também li muito Clarice Lispector nessa época.. E comecei a ler poesia séria. Cabral li quando já tava com meus 20 anos e tive aquele impacto. O que me levou a achar que eu não tinha  a menor condição de escrever poesia. Cabral deu aquela paralisia. 

Início da escrita
Comecei escrevendo contos que acabaram virando poemas. No meu primeiro livro, tem um ou dois poemas que eram contos abortados. Uma hora, pensei: “Sabe de uma coisa? Vou escrever poesia mesmo”. Aí comecei a estudar poesia a sério, coisa que eu nunca tinha feito.

Retorno aos EUA
Dez anos depois, voltei para estudar cinema. Foi lá que comecei a traduzir. Queria mostrar para as pessoas, meus amigos de lá, poemas de língua portuguesa. Vertia para o inglês e vice-versa. Foi aí que comecei a fazer tradução. Tem uma frase, acho que é do Molière, que acho maravilhosa. Ele diz assim: “Escrever é como sexo. Você começa fazendo por amor, depois você faz para os amigos, depois você faz por dinheiro”. É uma grande frase. A tradução para mim foi assim. No começo, traduzi um poema porque gostava do texto. Depois, começava a mostrar para as pessoas e, no final, aquilo virou trabalho. Quando voltei ao Brasil — abandonei o curso de cinema no meio —, comecei a dar aula de inglês e, para incrementar a minha renda, fazer tradução. Aí que comecei a fazer tradução profissionalmente. Eu já tinha meus 22, 23 anos. 

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Prosa
Voltei da Califórnia com uns 40 contos, dos quais metade foi publicado em Paraísos artificiais e ainda tem uns dois texto que vou reaproveitar para o segundo livro, que estou retrabalhando freneticamente desde os anos 1970. Mas, enfim, eu nunca parei de escrever ficção. Mas o que mais produzi mesmo foi poesia

Imaginação
No tempo em que estive na Califórnia, fiz muitos contos. Aquelas coisas meio mal-acabadas e, de vez em quando, pego algo e desenvolvo. Porque não tenho nenhuma imaginação. Sou um horror. Para ficcionista, não tenho a menor imaginação. Tenho que aproveitar aquele surto e pegar algumas ideias. Mas tudo bem, Joyce também não tinha, nunca invetou uma história na vida. Tudo que ele pôs nos livros dele aconteceu em sua vida. Proust também. Proust não tinha imaginação, só descreveu aquelas festas chatíssimas em que ele foi, aquela gente horrível que ele conheceu e o livro é uma maravilha. Como é que pode? Como que o cara com tão pouca imaginação, com uma vida tão besta como a do Proust, escreve um livro tão bom? Esses caras é que me dão esperança. Imaginação quem tem é Balzac.

Imaginação 2
Não tenho imaginação para bolar um romance. É difícil. Veja um cara como o [Thomas] Pynchon, que faz um romance com 700 personagens, 45 enredos, subenredos. Balzac é extraordinário. Como é que o cara manipula tantas histórias? Eu tenho muita inveja desses caras que têm essa imaginação prodigiosa de bolar personagem. Henry James, um dos ficcionistas que gosto, é extraordinário. Tive o imenso prazer de traduzir o conto “A outra volta do parafuso”. É um conto de terror dos mais barras-pesadas que eu já li. Terrível, o conto. Ele conta em cartas que ficava horrorizado. Diz que de noite ficava com medo, não tinha coragem de sair do quarto. Ficava tão horrorizado com o conto dele. Genial, né? Como o cara entra na coisa. Como ele consegue acreditar naquilo? É fantástico. Isso é muito bacana.

Estreia
Fazia poemas e mostrava para alguns amigos que não gostavam de poesia. Eles sempre me pediam prosa. Mas acabavam lendo meus poemas também. “Quando eu fizer 30 anos, publico. Não quero publicar antes porque senão vou me arrepender depois”, eu dizia a eles. Igual o Mário de Andrade, que publicou aquele livro horroroso quando era garoto, Há uma gota de sangue em cada poema. Depois classificou como “obra imatura” para não renegar totalmente. O Ferreira Gullar também escondeu o primeiro livro dele, só saiu na Nova Aguilar quando ele fez as obras reunidas. Não quero fazer vexame, não. Vou publicar quando eu estiver um pouco mais maduro. Aí, quando fiz 30 anos, começaram a me cobrar: “Pô, você não ia publicar quando fizesse 30 anos?” Eu já estava com 31, 32 anos quando finalmente saiu o livro. Tinha prometido a mim mesmo e a todo mundo que eu ia lançar, e lancei. Mandei fazer dois mil exemplares de Liturgia da matéria. Foi um encalhe maravilhoso.

Não vendeu
Um dia estou em casa, toca a campainha, abro a porta e tem um cara com um balaio enorme na cabeça. Eu disse: “Não, obrigado, não quero comprar nada não”. Ele disse: “Não, não. Eu tô entregando isso aqui”. Era toda a edição completa do meu livro, pois a Civilização Brasileira faliu. Aceitou meu livro e faliu. Depois foi comprada pela Difel. Eu era solteiro — morava num apartamento grande, tinha espaço — e enchi os armários com aqueles livros. Quando casei e fui morar num apartamento pequeno, com duas crianças, não teve jeito: joguei fora caixas e caixas daquela primeira edição. Guardei uns 20 exemplares, só para mostrar às pessoas. Mas a edição era muito feia, era horrível na verdade. 

Menos produção
O que eu produzo, mais ou menos regularmente, cada vez menos, é poesia. Ficção é essa coisa que fico 20, 30 anos trabalhando para sair algo. É uma coisa esporádica. Agora, poesia eu tento regularmente me obrigar a escrever. É uma disciplina que tento me impor. Eu tinha uns cadernos em que escrevia. Pegava uns rascunhos e retrabalhava, até que descobri que não estava mais lendo a minha letra. A minha letra nunca foi boa. Sempre fui um péssimo aluno de caligrafia. E recentemente dois cheques meus foram devolvidos na mesma semana, porque o banco não reconheceu minha assinatura. Tá grave o negócio. Eu dou aula com PowerPoint e só escrevo agora rascunhos, tudo direto no meu laptop. Abandonei aqueles cadernos, que eu não estava conseguindo ler, e estou meio que começando de novo. Estou tentando fazer uma produção mais ou menos regular e depois vou retrabalhando aquilo. Mas cada vez mais, estou produzindo menos.   

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Start
Muita coisa diferente me faz escrever. Às vezes é algo que estou lendo, um poema, ou mesmo uma coisa em prosa, uma palavra, uma frase que fica na minha cabeça. Isso é muito comum. Às vezes é só um ritmo, uma sequência rítmica, uma sucessão de sílabas, um texto que estou traduzindo, quando estou enfronhado no texto. Muito raramente é uma ideia abstrata. É raro partir de uma ideia. Mas sim partir de uma coisa concreta, de uma coisa que alguém disse, às vezes uma frase que escutei. O ponto de partida normal de um poema é isso, um outro texto.

Produção lenta
Para mim a produção tem que ser lenta. Traduzi Byron, um poeta que gostei muito de traduzir. Byron morreu com 36 anos e a obra completa dele é um calhamaço enorme, tudo rigidamente metrificado e rimado. Como é que o cara produzia aquilo? Não sei. Cada livro meu tá saindo mais fino que o anterior. Esse próximo agora vai ser uma enrolação. Vai ter menos de cem páginas. Haja página em branco para encher linguiça. Cada vez eu produzo menos. Mas é uma coisa da pessoa. Tem um poeta atual que eu gosto muito, acho muito bom, um dos melhores do Brasil, lá de Juiz de Fora, chamado Edmílson de Almeida Pereira, e a produção dele é extraordinária. O homem publica dois livros por ano, mantendo um nível de qualidade muito alto. Eu não sei como que ele consegue fazer isso. Morro de inveja.

Forma fixa
Tinha muita dificuldade em escrever verso livre. No meu primeiro livro tem verso livre porque eu não sabia o que estava fazendo. Depois que comecei a entender como era a poesia, vi que verso livre, se você bobear, fica um negócio frouxo, não leva a nada. Versos livres do Pessoa e do Manuel Bandeira são de uma qualidade aterradora. Eu ficava meio intimidado. Resolvi aprender a dominar as formas e comecei a descobrir que o bom é você pegar uma forma fixa — ou inventar uma forma fixa, ou então pegar uma forma clássica, como um soneto — e pervertê-la um pouquinho. A graça é essa. Pego uma forma tradicional e tento fazer uma coisa um pouco diferente. Isso passou a ser meu projeto formal. E isso me ajuda a fechar o poema, a chegar ao final. Quando tomo uma decisão formal — “vai ser assim, a rima tem que ser essa” — consigo fechar. Senão fica uma coisa frouxa.

Séries
As séries de poemas se explicam porque não sei botar títulos. Sou muito ruim em dar título. Então quando encontro uma temática comum, ou que trabalha com uma forma comum, faço o grupo, aí o título já está dado.

Geração Paisandu
Esse poema é autobiográfico, fiz pensando na adolescência. Paissandu era um cinema do Rio de Janeiro, o cinema dedica a arte da cidade. Tinha uma sessão à meia-noite de sábado que era de grandes pré-estreias. E acontecia o seguinte: quando um filme tinha conteúdo político, ou sexual, sabíamos que ele não ia entrar em cartaz, ficar na programação, porque a censura iria proibi-lo. Iria ser só aquela noite de pré-estreia. Então as filas se arrastavam por quarteirões. Eu chegava às dez horas, às vezes, para pegar lugar na fila. Na estreia do Azyllo muito louco [de Nelson Pereira dos Santos], acho que fiquei mais de duas horas na fila porque as pessoas diziam que o filme iria ser proibido. Então “Geração Paissandu” era a turma de cinéfilos que frequentava esse cinema, que agora vai virar uma igreja evangélica ou uma academia de ginástica.

Poemas em inglês
Quando você aprende uma língua estrangeira, descobre que não é exatamente a mesma pessoa nas duas línguas. Como aprendi inglês muito cedo, tinha 10 anos mais ou menos, virou uma coisa que não chega a ser uma segunda língua nativa, mas também não é apenas uma língua estrangeira. Quando vou para lá, posso trocar uma chave na cabeça e pensar na outra língua. É uma coisa muito esquisita. Cada vez mais difícil, porque agora eu falo muito pouco. Quando era mais jovem, era muito fácil trocar a chave. No meu primeiro livro, Liturgia da matéria, tem muitos poemas que eu só escrevi em inglês porque em português, sei lá, me sentia desprotegido. Em inglês eu me sentia mais distanciado. É uma coisa engraçada. O ponto de partida do poema é uma coisa do inglês, é um ritmo do inglês, um poeta que eu estou traduzindo ou lendo. E aí acaba que o poema sai em inglês. Às vezes eu traduzo para o português, ou vice-versa. E tento fazer uma tradução, tradução mesmo. Tento não refazer o poema, mas fazer o mesmo poema em outra língua. É um exercício que gosto muito.

Música
Logo quando fui morar na Califórnia, queria mostrar para as pessoas o que estava acontecendo no Brasil, onde a grande novidade era a Tropicália. Então traduzia para o inglês letras do Caetano. Uma das minhas primeiras experiências de tradutor foi assim. Agora, algumas letras de canção funcionam como poema, outras não. Alguns poemas funcionam como letra, outros não. O tipo de trabalho com a palavra que você tem que ter pra ser cancionista é muito parecido, evidentemente, com o tipo de trabalho necessário para ser poeta. Tem uma proximidade muito grande, mas uma canção não é exatamente a mesma coisa que um poema.

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Novos contos
Tudo foi muito trabalhado. Anos de trabalho. Há dois contos antigões lá da Califórnia. Um outro que eu fiquei uns 10 anos trabalhando, seguramente. Comecei nos anos 1990 e consegui fechar não muito tempo atrás. Um outro foi um sonho que eu tive. Um sonho meio estapafúrdio. Agora, como eu só escrevo no laptop, deixo sempre ele na mesa de cabeceira. Acordei com esse sonho na cabeça, anotei rapidinho umas coisas e já deu para ser um conto novo. O livro é pequeno, vai ter uns sete contos. Dos quais uns cinco são realmente novos.

Romance
O penúltimo conto de Paraísos artificiais, chamado “O primo”, que é o segundo mais longo, ia ser um romance. Comecei a escrever em inglês quando estava na Califórnia, porque fui para lá com plano de ficar. Iria ser o primeiro capítulo de um romance em inglês. Bem, aí desisti de ficar na Califórnia e voltei para o Brasil. Resolvi traduzir aquilo e continuar o romance. Só que não saía do segundo capítulo. Emperrava. Depois de uns dois ou três anos de gaveta, eu disse: “Chega. Não vai ser um segundo capítulo, vai ser um conto”. Resolvi bolar um fecho e foi assim.

Aprender a escrever
Muitas das técnicas de ficção que tenho, aprendi traduzindo ficção. Não tenho a menor dúvida. Dos contos mais novos que escrevi, claramente tem isso. Na graduação da PUC tem um programa de criação literária e um programa de tradução. Estou nos dois. Oriento muitos dos meus alunos que são de criação literária a fazerem o curso de tradução. Digo: “Olha, vale a pena”. Quando a gente vê que o aluno quer escrever ficção e está muito verde, eu digo: “Faz o curso de tradução”. O professor sou até eu mesmo. Faz comigo que eu vou trabalhar muito com técnica de diálogo, essas coisas. A gente desmonta o conto, sempre um conto. Passamos o semestre inteiro traduzindo um conto só, de umas 20 páginas. Esmiuçando ele, vírgula por vírgula. E, para mim, a melhor maneira de se aprender a escrever é traduzir.

Influências
O que me inibiu a começar escrever foram alguns poetas. Cabral, em particular. Não, Kafka também foi terrível. Teve um conto do Kafka que eu li e evito reler até hoje, “Investigações de um cão”. Li esse conto e fiquei arrasado. “Não tem o menor sentido eu querer ser escritor depois desse cara. Não tem o menor sentido. Esse cara é definitivo. Por que eu vou tentar escrever alguma coisa depois disso? É bom demais.” Outro foi o Cabral, quando eu li “Uma faca só lâmina”. Foi um trauma para mim. “Porra, por que eu vou escrever poesia? Não tem o menor sentido.” Mas isso foi no final da adolescência, quando eu tinha 20 e poucos anos, quando lia um cara bom demais e achava que não tinha o menor sentido eu querer escrever. Me dava esse trauma. Depois passou.

Viana
Eu e o [escritor] Antônio Carlos Viana tínhamos um bom diálogo. A gente trocava contos, mandava coisas um para o outro. Eu opinava, ele opinava. Eu fiz aquela seleção do primeiro livro dele que saiu pela Companhia das Letras [O meio do mundo e outros contos]. Ele tinha vários livrinhos publicados em uma editora totalmente clandestina, que não divulgava nada. Quando entrou para a Companhia das Letras, disse: “Vou fazer só uma seleção dos meus primeiros livros”. Eu fiz essa seleção. Hoje em dia se fala curador, né? Tudo é curador. Fui o curador daquele livro. Claro que ele também interveio: “Não, esse aqui não. Aquele sim”. Mas, basicamente, fiz as escolhas, porque eu acompanhava o trabalho dele desde o começo. Ele foi meu professor no colegial. Eu tinha uns 18 anos quando o conheci e ele tinha 20 e poucos anos. A gente estava no Rio de Janeiro. Ele arrumou esse trabalho como professor de escola particular e a gente ficou amigo. Nunca mais perdemos o contato. E aí tudo o que eu escrevia mostrava para ele, e vice-versa. Ele escrevia e mostrava para mim. Ficamos esses anos todos trocando. Foi muito legal.  

Vozes femininas
Acho maluca essa ideia que só homem pode traduzir homem, só mulher pode traduzir mulher, só negro pode traduzir negro, só negro pode interpretar. Acho que não tem nada a ver. Acho isso uma bobagem. Qualquer ser humano pode entrar na cabeça de qualquer ser humano. Isso aí não tem nada a ver. Mulheres criam grandes personagens masculinos. Vá ler George Eliot, que é uma romancista mulher. Não tem nada a ver. Essa coisa de — como é que é a expressãozinha? Tem uma expressãozinha cretina que está se usando agora — “lugar de fala”. Isso aí é uma bobagem. Isso daí não tem nada a ver. Eu estou no século XVIII, sabe? Não me acostumei com o século XX. Sou um iluminista do século XVIII. Não me acostumei com esses papos do século XX. Acho que um ser humano é um ser humano. Aliás, um escritor como o Kafka pode até se tornar um animal, né? Ele tem um conto maravilhoso, “A construção” ou “A toca”, dependendo da tradução. Que maravilha. Ele entra na cabeça de um animal que vive numa toca e tem um problema gravíssimo. É outro conto do Kafka que me paralisou durante um tempo. Ele, quanto mais saídas faz para a toca, mais fácil é ele escapulir se alguém pegar ele lá dentro. Mas, por outro lado, quanto mais buracos ele abre, mais fácil é alguém achar a toca dele. Então ele ora abre o buraco, ora tapa o buraco. É um dilema humano, mas que ele consegue colocar num animal. Você pode se colocar na pele de um animal, de qualquer pessoa, de uma criança. Uns anos atrás, li uma coisa que nunca esqueci. Foi publicado anonimamente um romance, em primeira pessoa, nos Estados Unidos, sobre experiências de adolescentes. E foi muito elogiado: “Pô, que maravilha, você vê que esse cara deve ser muito próximo da adolescência”. Descobriram quem era o autor. O cara tinha 80 anos. Ele fez um romance na voz de um adolescente e todo mundo achou que era uma escritor bem jovem — que só uma pessoa muito jovem, recém-saída da juventude, tivesse tido aquela experiência e era capaz de fazer aquilo. O cara tinha mais de 80 anos.

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Emily Dickson
Uma professora que tive nos Estados Unidos me apresentou a literatura da Emily Dickinson e foi numa paixão, uma paixão complicada porque eu tinha muita dificuldade de traduzir seus textos. Ela é uma das poetas mais difíceis de traduzir que conheço. Estou trabalhando com Emily Dickinson, seguramente, há uns 30 anos ou mais. Consegui aprontar uns sete poemas dela. Só. E sempre acho que estou perdendo alguma coisa.

As formas
Gosto de perverter as formas. Pegar um soneto e fazer um soneto torto. Ou fazer uma série de sonetos narrativos. Cada vez mais estou gostando de trabalhar com rimas incompletas, rimas que não são perfeitas, tropeadas. Vou fazer todos os versos certos e um verso completamente errado. E é isso, gosto de fazer as coisas um pouco diferentes. Fazer um soneto muito bem feitinho, bem convencional, todo mundo já fez. O negócio é fazer alguma coisa um pouco diferente. Agora, você fica pensando, os grandes sonetos, como eles foram subversivos. Os sonetos de Shakespeare. O Shakespeare escreve uma série de cento e tantos sonetos, aquilo é o que há de canônico. Mas, se você for parar para pensar, aquilo é muito subversivo. Como no inglês os particípios não tem gênero, tá o poeta louvando a beleza de uma pessoa e você só descobre que é um homem quando já está no soneto número 15. Você acha que é uma mulher. Ele tem pegadinhas assim o tempo todo. 

Pynchon
Eu sabia que o Pynchon existia, mas nunca tinha lido nada dele. Aí a Companhia das Letras disse: “Olha, tem um livro aqui, que precisa ser traduzido, a gente estava esperando por você”. O livro era o Arco-íris da gravidade. Aí mandaram e eu comecei a ler e fiquei horrorizado. Eu disse: “Esse troço é muito difícil, um livro dificílimo”. Li umas dez, vinte páginas e escrevi para Companhia dizendo que não tinha condição de traduzir, porque era muito difícil. A Companhia das Letras fez um golpe terrível: “Não, mas é que eles já ofereceram para todos os editores, todos os tradutores da casa, e ninguém topou. A gente tem um contrato para editar todos os livros dele, entende?” O cara me botou numa situação difícil. Então topei. Comecei a fazer aquele calhamaço achando que ia ficar uma coisa horrorosa, que era muito difícil. Na página 50 eu estava a ponto de desistir. Mas aí fui indo, fui indo, fui indo. Na página 200 — o livro tem umas 700 páginas — eu já estava empolgadíssimo.  
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