Um Escritor na Biblioteca

08/01/2019

João Silvério Trevisan

Veterano da literatura brasileira, João Silvério Trevisan, aos 74 anos, continua produzindo como um estreante. Seu mais recente romance, Pai, pai — um acerto de contas familiar — terá duas outras partes, que já estão bem encaminhadas. Além da trilogia, Trevisan também tem outro romance pronto. E muitas e muitas pastas com roteiros de filmes, contos, ensaios e outros escritos. “Sou um coelho, do ponto de vista de produção literária”, diz o autor do romance Rei do cheiro, vencedor do prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) em 2009.

   Fotos: Kraw Penas
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Trevisan participou da edição de novembro de 2018 do projeto Um Escritor na Biblioteca e durante o encontro, conduzido pelo dramaturgo e músico Flávio Stein, fez uma retrospectiva de sua produção literária, comentando detalhes da feitura dos seus títulos mais emblemáticos, entre eles o monumental Ana em Veneza, produzido ao longo de quatro anos. “Escrevi o romance acuado por uma questão que sempre me atormentou muito: o que é o Brasil? O que é ser brasileiro?” 

Ativista dos Direitos Humanos, Trevisan fundou em 1978 o Somos, primeiro grupo de liberação homossexual do Brasil, e, ainda na década de 1970, foi um dos editores fundadores do mensário Lampião da Esquina, o primeiro jornal voltado para a comunidade homossexual brasileira. Viveu em Berkley, na Cidade do México e em Munique. 

Seu ensaio Devassos no paraíso é um marco no estudo da homoafetividade no Brasil, que dialoga com diversos campos de conhecimento e expressões de nossa cultura — o cinema, o teatro, a política, a história, a medicina, a psicologia, o direito, a literatura e as artes plásticas. “Estou comovido com a repercussão que o livro está tendo nas novas gerações”, diz o autor sobre a mais recente edição de Devassos, publicada em 2018. 

O prosador também comentou o trabalho em suas oficinas de criação literária, que desde 1987 ajudou a formar mais de uma geração de novos escritores. Sobre o momento político atual vivido pelo país, se diz perplexo, mas também revigorado pela força da criação. “Nós estamos aqui, prontos para o que der e vier, porque nós criamos. Tem gente que gosta de destruir. Mas nós vamos criar. Vão destruir? Nós vamos continuar criando.”

Da redação

Brasil
Sempre considerei esse país um enigma a ser decifrado. E estou cada vez mais convencido de que é impossível decifrar o Brasil. Então essa eleição que aconteceu este ano, para mim foi mais um capítulo no enigma brasileiro. Como é que nós chegamos a esse ponto? Minha perplexidade é um pouco a perplexidade do poeta espanhol Antonio Machado, que em um de seus versos mais conhecidos disse: “Caminante, no hay camino. Se hace camino al andar”. Esse é o Brasil. Um país sem projeto, porque o projeto dele é andar. Então acho que fico com a perplexidade do poeta. E é uma perplexidade muito imensa. Mas é criativa. Nós estamos aqui, prontos para o que der e vier, porque nós criamos. Tem gente que gosta de destruir. Mas nós vamos criar. Vão destruir? Mas nós vamos continuar criando. Essa é a ideia que está na última parte da nova edição de Devassos no paraíso: a resistência dos vaga-lumes. Com base num artigo de Pasolini e num livro do filósofo francês George Didi-Huberman, que menciona a necessidade da escuridão para que os vaga-lumes brilhem. Então eu terminei o livro dizendo o óbvio: quanto maior a escuridão, mais nós brilharemos. Preparem-se para o nosso brilho.

Raízes
Nasci numa cidadezinha chamada Ribeirão Bonito, não é Preto, é Bonito. Ribeirão Preto é uma cidade enorme, mais para o Norte, e a minha cidadezinha fica no centro do Estado, entre São Carlos e Araraquara. Tem 10 mil habitantes. Houve um período de migrantes nordestinos, por conta da cana, e ela tem uma coisa curiosa: no tempo em que eu morava lá, tinha uma livraria e hoje não tem mais. Estou tentando doar a minha biblioteca, que é uma senhora biblioteca, de 6 mil exemplares, para o município, mas está complicadíssimo.

Timidez
Minha mãe fez uma pequena biblioteca para mim. E comprava a prazo os livros que tinha na livraria da cidade. Então eu tinha uma pilhazinha de livros para ler durante as férias. Porque eu era muito tímido e tinha vergonha de me encontrar com as outras pessoas, porque eu estava no seminário e tinha medo de ser... enfim, de me chatearem, aborrecerem, eu sofria bullying de várias ordens por ser esse menino arredio. 

Ana em Veneza
Ana em Veneza foi uma grande empreitada na minha vida, que durou quatro anos. Recebi uma bolsa para um ano, e espichei para quatro. Escrevi o romance acuado por uma questão que sempre me atormentou muito: o que é o Brasil? O que é ser brasileiro? Lembro que quando o livro foi lançado na Alemanha, em 1998, estive lá e fiz uma turnê pelo país com minha tradutora. Dei uma entrevista ainda no Brasil para um canal de televisão, e quando cheguei na Alemanha, a editora tinha articulado para que essa entrevista fosse ao ar na TV de lá. Aí fizeram um cartaz de Ana em Veneza com a seguinte frase: “O brasileiro traz o exílio no coração”, que era tirada de um trecho da minha entrevista. E esse é o tema de Ana em Veneza

Exílio
Ana, que é negra, vai no século XIX, em 1858, para a Alemanha junto com uma menina chamada Júlia da Silva Bruhns Mann, de quem ela era a “mucama”, ou seja, escrava da Júlia. A mãe da Julia havia morrido e o pai, que era alemão, decidiu levar os filhos para serem alfabetizados na Alemanha. Ele tinha parentes lá, então se sentia mais seguro. Era um fazendeiro alemão na região de Paraty, onde a Júlia nasceu. Na minha ficção, Ana permanece 30 anos na Europa, trabalhando em circo. O que uma negra estaria fazendo lá, senão se apresentando como essa figura exótica que ela significava? Esse é o primeiro exílio, de alguém que saiu da África, foi para o Brasil, nunca se alfabetizou, falava um português muito ruim, foi para Europa e também nunca se alfabetizou em alemão. Falava alemão para se comunicar, mas não tinha articulação do ponto de vista da língua propriamente. Mas toda a questão da Ana, desse exílio, foi um grande desafio para mim: como é que eu iria construir um personagem de uma analfabeta que se tornou uma sábia? Como era essa sabedoria? E era uma sabedoria todinha resultante da vivência do exílio.

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Devassos no paraíso
Escrevi Devassos no paraíso para saber onde estava. Morei três anos fora, no período da ditadura, um ano e meio nos EUA, em Berkeley, na Califórnia, que era um caldeirão revolucionário contracultural no período. E trouxe como experiência de volta para o Brasil, de exilado, todo esse contato, que foi importantíssimo, com as coisas que estavam acontecendo no mundo naquele momento. E Berkeley era emblemática. Naquela época, por exemplo, já havia uma preocupação ambientalista muito grande lá. Uma grande consciência de luta antirracista, da luta feminista e da luta pelos direitos dos homossexuais. E quando cheguei ao Brasil, trazendo toda essa carga, que foi muito intensa e muito gratificante, desembarquei numa espécie de deserto. Foi aí que eu e meu namorado no período começamos a elaborar o grupo Somos, em 1978. E exatamente no mesmo período, fundamos o jornal O Lampião, do qual eu era um dos editores. Foi quando me ocorreu escrever Devassos no paraíso, graças à solicitação de uma editora inglesa, de Londres. 

Repercussão
Lancei a primeira edição em São Paulo e em Londres. Na época, o livro esgotou rapidamente a primeira tiragem. E a repercussão foi imediata. Lembro que o ator Paulo Villaça, já falecido, que fez o protagonista de O bandido da luz vermelha, me telefonou do Rio de Janeiro: “Trevisan, eu quero muitíssimo te agradecer, porque você me lembrou que eu sou veado e sou feliz.” Ele estava muito emocionado. Mas logo depois veio, como um tsunami, a AIDS, e o livro ficou em num limbo violento. Só consegui fazer uma terceira edição em 2000. Lembro que os editores davam os mais diversos pretextos para dizer que não podiam relançá-lo. Esse período de recusas foi um mergulho não só no limbo, mas também no purgatório, dando umas queimadas no inferno. Aí percebi um pouco melhor que o livro estava mexendo com as pessoas, e muito negativamente, inclusive. A única resenha que saiu do livro na época foi na Folha de S.Paulo. O crítico, um homossexual que eu conhecia, arrasou com o livro, dizendo que neste país não havia editores com coragem suficiente para mandar o escritor cortar trechos, que não eram necessários, de suas obras. A Universidade também não gostou do livro. Escrevi um livro anti-acadêmico, com todo o rigor de um livro da academia, porque a pesquisa é bruta. Mas aí veio esta quarta edição, que também penei muito para que saísse. E, digo isso com orgulho, estou comovido com a repercussão que o livro está tendo nas novas gerações. Jamais poderia imaginar. Eu tenho sido recebido com muito carinho, as pessoas estão completamente embasbacadas com o livro. Falei com o [ator] Guilherme Weber, pelo Facebook, e ele disse que estava “empolgadíssimo com a leitura” de Devassos. Tenho recebido esse retorno das pessoas o tempo todo.

LGBT
A publicação de Devassos já faz parte da história da cultura LGBT a essas alturas. Na última parte do livro, que se chama “Resistência dos vaga-lumes”, faço alusão ao fato de que eu jamais encontrei a comunidade LGBT no Brasil com tamanho nível de consciência política. Nos meus artigos, tanto para a revista Sui Generis, quanto para a G Magazine, muito frequentemente fazia críticas severas a algumas situações da comunidade. Coisas muito negativas. Uma delas era o baixo nível político dos gays no Brasil. E quando eu falo de nível político, não me refiro à política partidária, mas sim ao nível político sobre os direitos dos gays e de como lutar por eles. Era uma comunidade completamente refratária e muito distante dessas coisas — e que ainda continuava, de certo modo, culturalmente, dentro do armário mesmo que frequentasse sauna, boate, clubes, etc.

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Pai, pai
Comecei a escrever esse romance no meio de uma depressão. Bem, eu sou um depressivo crônico e isso pelo menos já aprendi a aceitar nos meus anos de análise. Mas foi um livro muito difícil de montar. Fui bastante ajudado pelo meu editor, Marcelo Ferrone, da [editora] Alfaguara, que foi um grande parceiro. Não sabia exatamente o que eu estava fazendo, senão um balanço da minha vida, como um idoso pode fazer. Ou buscando alguma paz, ou num clima de balanço que já pressupõe essa paz. Que é uma coisa muito gratificante da velhice, você poder olhar seu limite que está logo ali, teu prazo de validade, você sabe que está bem mais próximo, e aí diz “Bom, o que tenho a perder, senão a minha verdade?” Então o que eu fiz foi, ao analisar a minha relação com meu pai, e como ele percorreu a minha vida, um stripteaseda minha alma. E acho que foi uma coisa muito impactante para mim. O mais curioso no livro, é exatamente isso, a partir dessa primeira frase: “Tudo que meu pai me deu foi um espermatozoide”, que é uma frase terrivelmente magoada e ressentida.

Perdão
No dia em que o livro foi para a gráfica, entrei em pânico. Pensei comigo: “Tô ferrado, qualquer pessoa que comprar o livro, vai saber uma boa parte do que está na alma de João Silvério Trevisan”. Mas logo depois o pânico passou porque era exatamente o que eu pretendia fazer. Era isso. Não teria conseguido escrever esse livro, se não tivesse me despido dessa maneira. Então foi um risco que corri, e que me permitiu chegar até o final desse processo e descobrir a questão mais importante do livro: o perdão. Aliás, não foi uma descoberta, foi a reiteração do perdão, pois o perdão não é uma decisão, são sucessivas reiterações que você vai fazendo. Você não perdoa assim: “A partir de amanhã eu perdoo aquele namorado que me abandonou, ou aquela pessoa que me fez uma desfeita”. Não tem isso de marcar a data em que você vai começar a perdoar. O perdão mexe com raízes espantosas, mexe com emoções e acaba sendo um longo processo. Tanto que, no livro, há vários momentos de perdão do meu pai. E nunca considerei que o perdão estava pronto. Nunca me apareceu pronto. Mas quando eu chego ao final e faço aquela invocação ao perdão, acho que é o único poema presente completo no livro, aquele momento condensa o ponto em que eu gostaria de ter chegado, e talvez eu tenha chegado, mas não tenho certeza. Descobri esse extraordinário universo do perdão. Porque nós somos obrigados, antes de mais nada, a perdoar a nós mesmos, quando a gente perdoa. Perdoar tudo aquilo que nos levou a provocar as coisas que depois nós vamos perdoar nos outros, mas que na verdade começam na gente. 

Pai falso
O pai é totalmente decepcionante num momento ou outro da vida. Menos ou mais, ele vai ser decepcionante. Porque a ideia de pai, é uma ideia totalmente falsa. É de um super-homem. E foi a compreensão que eu tive do meu pai, do perdão. Nunca pensei no meu pai como um cara infeliz. Meu pai era um alcoólatra, porque ele era profundamente desesperado. Então eu não podia esperar desse homem, que ele fosse gigante, que ele fosse herói, perfeito. E essa busca de perfeição, não está fora de mim. Essa busca do herói, não está fora de mim. Você tem que criar um pai dentro de si, para que possa ser você mesmo. Não tem saída. Isso, em sentido lato, ou até estrito, é o amor ao pai. Mas foi graças a esse pai, que eu cheguei a esse amor. Só estou falando aqui e pelo Brasil afora por causa desse pai alcoólatra, que não me amou.

Demônios
Sempre, nos meus mais de 30 anos de coordenação de oficina literária, bati o pé afirmando que não existe literatura verdadeira sem que a gente mexa com nossos demônios. Você vai trabalhar uma literatura que seja tua, pessoal, e que vai mexer com a responsabilidade de estar interpretando o teu mundo e o mundo dos outros, então não tem escapatória. Você tem que mexer lá no seu caldeirão, aquele caos terrível, onde estão sombras pavorosas, que a gente não gosta de mostrar, mas é onde estão esses demônios que nos compõem. Pai, pai, por exemplo, é um livro de demônios que chegam à luz, de sombras que emergem para a luz. 

Oficinas
Acredito que as pessoas que comparecem a uma oficina literária, estão, antes de mais nada, em busca da sua expressão pessoal mais radical e mais profunda. Acho que vão ao lugar certo, mesmo que não se tornem escritores profissionais. Essas pessoas têm uma revelação sobre o que é a literatura, de tal modo que o mínimo que acontece é se tornarem excelentes leitores e leitoras, porque vão compreender um processo literário quando lerem um outro autor. E vão compreender a grandeza que está presente nessas outras obras que vão ler. Ou seja, elas vão ter uma comunicação já antecipada de um outro mundo, dentro do qual elas penetram, têm o privilégio de penetrar. 

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Leitor
Lembro que, em 1992, estava escrevendo Ana em Veneza e ganhei um computador 486 de presente. Era um pouquinho melhor do que uma máquina de escrever. Era uma máquina de escrever sofisticada, mas que me ajudou muito. Sem ela, não teria feito Ana em Veneza. A minha sensação foi muito gratificante. Eu me sentava às nove da manhã, era tudo muito cronometrado, e recomeçava a escrita do romance. Continuava com uma grande capacidade expressiva. E foi aí que me dei conta e falei “caramba, quanta coisa aprendi com as oficinas, estou muito mais à vontade aqui mergulhado nesse caldeirão literário”. Então acho que sobra para todo mundo na literatura, sobra para quem faz e certamente para quem lê. 

Próximos livros
Tenho um romance pronto já há quase três anos. Não sei se o publico no próximo ano, ou se antes sairá a segunda parte da trilogia do Pai, pai. A segunda parte já está quase toda completa. E aí depois tem uma terceira parte que é um pouco mais complicada. Na verdade, Pai, pai entrou na frente e atropelou os dois livros. 

Projetos
Um dos grandes problemas da minha casa é a quantidade de pastas com projetos futuros. Outro dia me pediram os resumos dos meus roteiros. Eu tinha, mais ou menos prontos, 12 projetos, 12 roteiros de filmes. Isso sem falar das pastas e pastas com projetos de romances. De contos nem se fala. Sou um coelho, do ponto de vista de produção literária. Mas uma vida só vai ser muito pequena para isso. Mas tudo bem, já está de bom tamanho. Espero que ainda dê tempo de algumas outras coisinhas, mas estou satisfeito. É indescritível a sensação de deixar uma obra porque essa é a parte mais agradável, de fato, da escritura literária. E, quando você chega ao final da sua obra, e você considera que ela está pronta, tem a sensação de que é o criador com “c” maiúsculo. Você tirou do nada. É uma coisa deslumbrante. É a sensação de ter jogado uma garrafinha no mar e alguém ter a encontrado. 
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