Especial Capa

01/04/2019

Romance | Dostoiévski

O Cândido publica o primeiro capítulo da nova tradução do clássico de Fiódor Dostoiévski, assinada por Rubens Figueiredo. O livro será lançado em abril pela editora Todavia


No início de julho, ao entardecer, sob um calor intenso, um jovem saiu do cubículo que sublocava na travessa S. e, lentamente, como se estivesse indeciso, seguiu pela rua na direção da ponte K.

Por sorte, escapou de encontrar sua senhoria na escada. Seu cubículo ficava logo abaixo do telhado de um prédio alto de cinco andares e mais parecia um armário do que um apartamento. A senhoria de quem ele alugava o cubículo, com direito a almoço e arrumadeira, morava um andar abaixo, num apartamento individual, e, toda vez que ele descia para a rua, não podia deixar de passar na frente da porta da cozinha da senhoria, quase sempre aberta para os degraus da escada. E, toda vez que passava ali, o jovem experimentava uma espécie de sensação mórbida e acovardada, que lhe dava vergonha e deixava seu rosto contraído. Ele estava atolado em dívidas com a senhoria e temia encontrá-la. 

Não que fosse tão covarde e intimidado: muito pelo contrário; porém já fazia algum tempo que andava num estado de tensão e irritabilidade semelhante à hipocondria. Mergulhava em si mesmo e se isolava de todos a tal ponto que temia encontrar qualquer pessoa, não só a senhoria. Vivia esmagado pela pobreza; mas ultimamente até a situação de penúria tinha deixado de ser um peso. Não cuidava mais das questões do dia a dia e não queria estudar. No fundo, não tinha medo de senhoria nenhuma, muito menos do que ela pudesse estar tramando contra ele. Mas parar na escada, escutar uma porção de absurdos sobre todas aquelas futilidades vergonhosas, com as quais ele nada tinha a ver, todas aquelas impertinências sobre pagamentos, ameaças, reclamações, e ainda ter, ele mesmo, de desconversar, se esquivar, se desculpar, mentir — não, isso não, era melhor esgueirar-se pela escada como um gato e escapulir sorrateiro, para que ninguém o visse.

No entanto, dessa vez, ao sair para a rua, até ele ficou espantado com seu medo de encontrar a credora.

“Estou querendo me meter numa história dessas e, ao mesmo tempo, tenho medo de bobagens assim!”, pensou, com um sorriso estranho. — “Hum… sim… tudo está ao alcance das mãos do homem, mas ele deixa tudo escapar debaixo de seu nariz, pura e simplesmente por covardia… isso já é um axioma… Curioso, o que é que as pessoas mais temem? Um novo passo, uma palavra nova e própria, é isso que elas temem acima de tudo… De resto, já estou tagarelando demais. É porque fico tagarelando que não faço nada. Aliás, pode ser também assim: é porque não faço nada que fico tagarelando. Foi no último mês que aprendi a tagarelar, deitado dias inteiros no meu canto, pensando… com a cabeça nas nuvens. E então, agora, eu estou andando para fazer o quê? Será que sou capaz disso? Será que isso é a sério? Não tem nada de sério. É uma fantasia que eu mesmo inventei; uma brincadeira! Sim, na certa não passa de uma brincadeira!”

Na rua, fazia um calor tremendo, além do clima abafado, da multidão e, por todo lado, havia a cal, a madeira, os tijolos, a poeira e aquele mau cheiro peculiar do verão, tão conhecido de todos os moradores de Petersburgo que não têm condições de alugar uma casa de veraneio — tudo isso junto, e tudo ao mesmo tempo, afetava de modo detestável os nervos do jovem, já tão abalados desde antes. O mau cheiro insuportável das tabernas, que naquela parte da cidade são especialmente numerosas, e os bêbados, que passavam toda hora, apesar de ser dia útil, rematavam o colorido triste e repulsivo do quadro. O sentimento da mais profunda repugnância faiscou por um instante nas feições finas do jovem. Aliás, ele era extraordinariamente bonito, com lindos olhos escuros, cabelo castanho-escuro, estatura acima da mediana, magro e esbelto. No entanto, logo caiu numa compenetração profunda, ou, melhor dizendo, numa espécie de alheamento, caminhava já sem perceber aquilo que o rodeava e chegava até a não ter vontade de perceber nada. Apenas de vez em quando murmurava alguma coisa para si, por força de seu costume de falar em monólogos, costume que agora, no íntimo, ele admitia existir. No mesmo instante, tomou consciência de que seus pensamentos às vezes se embaralhavam e de que ele estava muito fraco: fazia dois dias que não comia quase nada.

Estava tão malvestido que qualquer outra pessoa, mesmo habituada a roupas ruins, se envergonharia de sair à rua, de dia, em tais andrajos. No entanto, aquele bairro era do tipo em que é difícil encontrar alguém de terno. A proximidade da praça Sennaia, a abundância de certos estabelecimentos afamados e a população formada sobretudo de artesãos e operários, que se comprimiam naquelas ruas e travessas centrais de Petersburgo, de vez em quando coloriam o panorama geral com tais personagens que seria até estranho alguém se admirar de encontrar ali uma pessoa fora do comum. Porém na alma do jovem já se havia acumulado um desprezo tão cruel que, apesar de toda sua delicadeza, às vezes muito juvenil, aquilo que lhe dava menos vergonha era andar na rua em andrajos. Ao encontrar certos conhecidos ou antigos camaradas que ele não gostava nem um pouco de ver, a história era outra… Porém, quando um bêbado, que naquele momento estava sendo levado pela rua numa carroça enorme, não se sabia por que nem para onde, puxada por um imenso cavalo de tração, gritou para ele de repente, ao passar: “Ei, você aí, seu chapeleiro alemão!” — e berrou com toda a força, apontando para ele com a mão erguida —, o jovem parou de repente e, num gesto convulsivo, agarrou o chapéu. Era um chapéu alto, redondo, da marca Zimmerman [1], mas já muito surrado, todo encardido, cheio de buracos e manchas, sem abas, com o canto mais nojento caído para o lado. Porém o que o dominou não foi a vergonha e sim outro sentimento, semelhante a um susto.

“Eu já sabia!”, murmurou, confuso. “Eu bem que tinha pensado! Isso é que é pior! Porque aí vem uma bobagem qualquer, a besteira mais tola, e pode estragar o plano todo! Sim, o chapéu chama muito a atenção… É ridículo e por isso chama a atenção… Meus andrajos precisam mesmo é de um boné, nem que seja velho e igual a uma panqueca, e não esta aberração. Ninguém pode andar com isto, veem logo a uma versta [2] de distância, vão lembrar… isso é o principal, depois vão lembrar e pronto, é uma prova. Aqui, é preciso ser o mais discreto possível… Os detalhes, os detalhes são o principal!… São detalhes assim que podem estragar tudo, e de uma vez por todas…”

Ele não tinha de andar muito; sabia até quantos passos eram, do portão da sua casa até lá: exatamente setecentos e trinta. Certa vez, ele contou, muito perdido em devaneios. Naquela ocasião, ele mesmo ainda não acreditava naqueles sonhos e apenas se irritava com sua audácia hedionda, mas sedutora. Agora, um mês depois, estava começando a encarar a questão de outro modo e, apesar de todos os monólogos exasperantes sobre sua própria impotência e hesitação, de alguma forma, e até a contragosto, ele se habituou a considerar o sonho “hediondo” como um empreendimento, embora ele mesmo ainda não acreditasse naquilo. Agora, ele estava indo fazer um ensaio de seu empreendimento e, a cada passo, sua inquietação aumentava, se tornava mais forte.

Com abatimento no coração e um tremor nervoso, ele se aproximou do prédio imenso, que tinha uma parede voltada para um canal e a outra, para a rua ***iá [3]. O prédio era, todo ele, de apartamentos pequenos, habitado por toda sorte de profissionais — alfaiates, serralheiros, cozinheiros, diversos alemães, mocinhas que viviam por conta própria, pequenos funcionários etc. As pessoas entravam e saíam em disparada pelos dois portões e pelos dois pátios do prédio. Três ou quatro porteiros trabalhavam ali. O jovem ficou muito satisfeito de não encontrar nenhum deles e, discretamente, se esgueirou ligeiro do portão para a escada, à direita. Era uma escada escura e estreita, “de serviço”, mas ele já sabia disso tudo, havia estudado muito bem e todo aquele quadro lhe agradava; naquela escuridão, mesmo um olhar curioso não trazia riscos. “Se agora já estou com tanto medo, como seria, se acontecesse, de fato, de eu executar aquilo?…”, não pôde deixar de pensar, ao passar pelo quarto andar. Ali, seu caminho foi barrado por soldados reformados que trabalhavam como carregadores e estavam retirando os móveis de um apartamento. Ele já sabia que, naquele apartamento, morava um alemão casado, funcionário público: “Quer dizer que esse alemão agora está se mudando e quer dizer também que, no quarto andar, para quem sobe por esta escada, e neste patamar, durante algum tempo, o único apartamento ocupado vai ser o da velha. Isso é bom… por via das dúvidas…”, pensou de novo e tocou a campainha da velha. A campainha tilintou fraca, como se fosse feita de lata e não de cobre. Nos apartamentos pequenos de prédios como aquele, quase todas as campainhas são assim. Ele já havia esquecido como era o som da sineta e agora, de repente, aquele som peculiar pareceu trazer algo à sua memória e evocar com clareza… E dessa vez ele chegou a estremecer, os nervos já debilitados demais. Pouco depois, abriu-se uma frestinha minúscula na porta: a moradora espiou a visita pela fresta, com evidente desconfiança e, no escuro, só se viam seus olhinhos cintilantes. Contudo, ao ver muita gente no patamar da escada, ela tomou coragem e abriu a porta. O jovem atravessou o limiar para a antessala escura, separada por uma divisória, atrás da qual ficava a cozinha ínfima. A velha estava de pé na sua frente, em silêncio, e olhava para ele com ar interrogativo. Era uma velhinha minúscula, murcha, de uns sessenta anos, olhinhos afiados, ferinos, nariz pequeno e também afiado, e a cabeça descoberta. Os cabelos louros desbotados, um pouco grisalhos, estavam fartamente untados de óleo. O pescoço fino e comprido, semelhante a uma perna de galinha, estava envolto numa espécie de trapo aflanelado e, nos ombros, apesar do calor, trazia uma katsavieika [4] amarelada, de pelo. Toda hora, a velhinha tossia e gemia. Talvez o jovem tenha olhado para ela de um jeito diferente, porque, de súbito, nos olhos da velha, reluziu de novo a desconfiança anterior.

— Raskólnikov, estudante, estive aqui com a senhora faz um mês — murmurou o jovem depressa e fez uma pequena reverência, ao lembrar que era preciso ser mais amável.

— Eu me lembro, meu caro, e me lembro muito bem de que o senhor esteve aqui — falou a velhinha com clareza, ainda sem desviar do rosto dele os olhos interrogativos.

— Pois é, senhora… e de novo para o mesmo negócio… — prosseguiu Raskólnikov, ligeiramente confuso e admirado com a desconfiança da velha.

“Quem sabe, vai ver ela é sempre assim e eu não notei da outra vez”, pensou, com uma sensação desagradável.

A velha ficou calada, pareceu refletir, depois recuou para o lado, apontou para a porta do quarto e, deixando a visita passar na frente, falou:

— Entre, meu caro.

O quarto pequeno onde o jovem entrou, com papel de parede amarelo, gerânios e cortina de musselina nas janelas, estava claro, naquele momento, iluminado pelo sol poente. “E então, na hora, o sol também vai estar claro!…”, passou num lampejo pela cabeça de Raskólnikov, como que por acidente, e ele correu o olhar rápido por todo o quarto, para estudar e memorizar o ambiente, na medida do possível. Mas no quarto não havia nada de especial. A mobília, toda muito velha e de madeira amarela, consistia em um divã com um enorme encosto arqueado de madeira, uma mesa de formato oval na frente do divã, uma penteadeira com espelho encostada na parede entre as janelas, cadeiras junto às paredes e dois ou três retratos baratos, em molduras amarelas, que representavam senhoras alemãs com pássaros nas mãos — essa era toda a mobília. No canto, diante de uma pequena imagem religiosa, ardia uma lamparina votiva. Tudo era muito limpo: os móveis e o chão estavam polidos e lustrosos; tudo brilhava. “Trabalho de Lizavieta”, pensou o jovem. Em todo o quarto, era impossível encontrar a mais ínfima poeirinha.

“É na casa de viúvas velhas e malvadas que a gente vê uma limpeza como esta”, prosseguiu Raskólnikov em pensamento e, com curiosidade, deu uma espiada na cortina estampada, na frente da porta para o segundo quarto minúsculo, onde ficava a cama da velha e uma cômoda e para onde, até então, ele não tinha olhado nem uma vez. O apartamento inteiro consistia naqueles dois quartos.

— O que deseja? — falou a velhinha, em tom severo, entrando no quarto, e, como da vez anterior, parou bem na frente dele, para fitá-lo nos olhos.

— Vim para penhorar, olhe, é isto aqui, senhora! — E tirou do bolso um relógio velho, chato, de prata. Na tampinha traseira, estava gravado um globo. A correntinha era de aço.

— Mas a primeira penhora venceu. Há três dias, completou um mês.

— Vou pagar à senhora os juros de mais um mês; tenha paciência.

— Meu caro, depende só da minha boa vontade que eu tenha paciência ou venda agora mesmo o bem do senhor.

— O relógio vai render bastante, Aliona Ivánovna?

— Mas você me traz essas ninharias, meu caro, isso não vale nada, olhe só. Na última vez, dei duas notas por um anelzinho, quando dá para eu comprar um novo no joalheiro por um rublo e meio.

— A senhora me dê quatro rublos, eu vou resgatar, é do meu pai. Eu logo vou receber um dinheiro. 

— Um rublo e meio, meu senhor, e os juros adiantados, o senhor decide.

— Um rublo e meio! — exclamou o jovem. 

— O senhor decide. — E a velha lhe devolveu o relógio. O jovem pegou-o e ficou tão irritado que quis sair de uma vez; mas logo mudou de ideia, ao lembrar que não tinha mais para onde ir e que estava ali por outro motivo.

— Me dá aí! — falou de modo bruto.

A velha meteu a mão no bolso para pegar as chaves e foi para o outro quarto, atrás da cortina. O jovem, sozinho no meio do quarto, ficou escutando com curiosidade, enquanto raciocinava. Pôde ouvir que ela estava abrindo a cômoda. “Deve ser a gaveta de cima”, raciocinou. “Quer dizer que leva as chaves no bolso direito… Todas num molho só, numa argola de aço… E uma das chaves é maior do que as outras, três vezes maior, com a ponta denteada, e claro que não é a chave da cômoda… Portanto, ainda tem um porta-joias, talvez um cofre… Veja só que curioso. Todos os cofres têm chaves assim… Mas, pensando bem, como tudo isso é desprezível…”

A velha voltou.

— Aqui está, meu caro: se são dez copeques ao mês por rublo, então para um rublo e meio, vou descontar quinze copeques do senhor, por um mês adiantado. E, pelos dois rublos de antes, vou descontar do senhor, por esse mesmo cálculo, mais vinte copeques adiantados. Ao todo, portanto, são trinta e cinco. Agora o senhor tem de receber ao todo, pelo relógio, um rublo e quinze copeques. Aqui está, tome.

— O quê? Agora é só um rublo e quinze copeques?

— É exatamente isso, meu senhor

O jovem não quis discutir e pegou o dinheiro. Olhou para a velha e não se apressou em sair, parecia querer dizer ou fazer mais alguma coisa, mas era como se não soubesse exatamente o quê…

— Talvez eu traga mais uma coisa daqui a alguns dias, Aliona Ivánovna… de prata… bonita… uma cigarreira… assim que eu receber de volta de um amigo… — Ficou embaraçado e calou-se.

— Na hora conversaremos, meu caro.

— Até logo… Mas a senhora está sempre sozinha em casa, a irmã não fica aqui? — perguntou do modo mais natural possível, ao sair para o vestíbulo.

— E o que o senhor quer com ela, meu caro?

— Nada de especial. Perguntei à toa. E a senhora então… Adeus, Aliona Ivánovna!

“Meu Deus! Como tudo isso é repugnante! E será possível, será que eu… não, é um absurdo, é um disparate!”, acrescentou, resoluto. “Será possível que um horror como esse tenha mesmo entrado na minha cabeça? Mas de quanta sujeira meu coração é capaz! Acima de tudo: é sujo, infame, nojento, nojento!… E eu, por um mês inteiro…”

Mas não conseguiu expressar sua comoção nem por palavras nem por gritos. Um sentimento de repulsa infinita, que tinha começado a oprimir e atormentar seu coração desde a hora em que saíra para ir à casa da velha, agora alcançou tal proporção e se tornou tão vivo que ele não sabia onde se esconder da própria angústia. Andava pela calçada como um bêbado, sem notar as pessoas que passavam, esbarrava nelas, e só voltou a si na rua seguinte. Olhou em volta e notou que estava diante de uma taberna, na qual se entrava descendo uma escada para um porão. Naquele instante, dois bêbados saíram pela porta, escorando-se um no outro e se xingando, e subiram para a rua. Sem pensar muito, Raskólnikov desceu logo pela escada. Até então, nunca tinha entrado numa taberna, mas agora sua cabeça rodava e, além disso, uma sede abrasadora o afligia. Queria beber cerveja gelada, ainda mais porque atribuía sua fraqueza repentina ao fato de estar com fome. Sentou-se num canto escuro e sujo, diante de uma mesinha pegajosa, pediu cerveja e bebeu o primeiro copo com sofreguidão. Na mesma hora, tudo ficou mais leve e seus pensamentos ganharam clareza. “Tudo isso é absurdo”, disse ele, esperançoso, “e também não aconteceu nada para ficar tão perturbado assim! Foi só um distúrbio físico! Um copo de cerveja, um pedacinho de torrada e pronto, num instante a razão se fortalece, o pensamento clareia, as intenções ficam firmes! Ora, como tudo isso é irrelevante!…” Mas, apesar desse rompante de desprezo, ele já parecia até alegre, como se de repente tivesse se libertado de um fardo terrível, e dirigiu um olhar amistoso às pessoas na taberna. Entretanto, foi então que veio o vago pressentimento de que toda aquela receptividade para o que havia de melhor também fazia parte da doença.

Na taberna, àquela altura, sobrara pouca gente. Além dos dois bêbados que tinham aparecido na escada, um bando inteiro saiu de uma vez só, logo atrás deles, umas cinco pessoas, com uma jovem e um acordeão. Depois disso, o lugar ficou tranquilo e espaçoso. Restaram: um homem bêbado, mas não muito, sentado diante de uma cerveja, com ar de pequeno-burguês [5]; seu companheiro gordo, imenso, de barba grisalha e de sibirka [6], muito embriagado, que cochilava num banco e, de vez em quando, de repente, como se estivesse semiacordado, começava a estalar os dedos, abria muito os braços e, sem levantar do banco, dava uns pulinhos só com a parte superior do corpo e aí cantarolava baixinho alguma besteira qualquer, se esforçando para lembrar versos do tipo:

O ano inteiro fiz carinho na esposa 
O ano inteiro fiz cari-inho na espo-osa…
Ou, de repente, acordava:
Andei pela rua Podiátcheskaia 
E encontrei a minha antiga…

Mas ninguém compartilhava sua felicidade; seu companheiro silencioso olhava para ele e para toda aquela animação até com hostilidade e desconfiança. Também estava ali outro homem, de aspecto semelhante a um funcionário aposentado. Ele se mantinha à parte, sentado diante de sua tigelinha, de vez em quando bebericava e olhava ao redor. Também parecia tomado por uma espécie de comoção. 

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1. Famoso fabricante de chapéus em São Petersburgo. Dostoiévski usava chapéus dessa marca.
2. Ou seja, 266 metros.
3. Segundo os editores das obras reunidas, a localização corresponde ao cruzamento do canal Griboiédov com a avenida Rímski-Kórsakov.
4. Jaqueta curta feminina tradicional. 
5. Em russo, meschanin: no Império Russo, até 1917, membro de uma categoria social constituída por lei e formada por pequenos proprietários e artesãos das cidades.
6. Cafetã curto, com cintura. Seu nome provém da palavra “Sibéria”.


FIÓDOR DOSTOIÉVSKI nasceu em Moscou, na Rússia, em 1821. Após a morte da mãe e o assassinato do pai, Dostoiévski abandona a carreira militar e se decide pela escrita. Sua estreia acontece em 1846, com o romance Gente pobre. Devido ao seu envolvimento com círculos revolucionários, em 1949 é preso e condenado à morte — sentença que acaba substituída por quatro anos de trabalhos forçados e prestação de serviço, por tempo indeterminado, como soldado na Sibéria. Após o cárcere, inaugura a chamada “fase madura” de sua literatura ao publicar clássicos como Crime e castigo (1866), Os demônios (1872) e Os irmãos Karamázov (1880).
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