Artigo

12/06/2019

Um livro que ainda pergunta

A estreia oficial de Dalton Trevisan na literatura completa 60 anos em 2019. O escritor Luís Bueno comenta os contos de Novelas nada exemplares, livro que colocou o Vampiro de Curitiba entre os maiores autores de sua época


Os leitores dos grandes jornais do Rio de Janeiro já conheciam Dalton Trevisan em 1959. Em julho de 1955, a coluna “Escritores e livros” do Correio da Manhã já havia anunciado para aquele mesmo ano a publicação de Novelas nada exemplares. Em abril do ano seguinte, a própria editora José Olympio fazia sair no Diário de Notícias um grande anúncio do que lançaria em 1956 e, ao lado de vários títulos, como Grande sertão:- veredas, por exemplo, mais uma vez lá estava o livro de Dalton Trevisan.

Mas anúncios e notinhas chamam a atenção apenas de uns poucos detalhistas. O que de fato fez o nome do autor circular foi a publicação contínua de seus contos naquele que era um dos principais suplementos literários do período, o “Letras e Artes”, do mesmo Diário de Notícias. Num período de pouco mais de dois anos, seriam 16 os contos a sair ali, 11 dos quais comporiam aquela esperada “estreia”, a ponto de um crítico, Hildon Rocha, ao resenhar o livro, afirmar que alguns dos melhores contos que ele lera no jornal não estavam no volume.

A palavra “estreia” vai entre aspas porque, numa carreira literária cheia de peculiaridades como é a de Dalton Trevisan, cabe muito bem o livro de estreia ser pelo menos o terceiro que ele lançava — contando somente os livros e ignorando várias plaquetes. Os dois anteriores, Sonata ao luar (1945) e Sete anos de pastor (1948), jamais seriam republicados, permanecendo no número das obras de juventude devidamente renegadas pelo autor.

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Momento do conto
O momento era propício ao conto. Se nos anos 1930 o romance dominou o interesse tanto dos autores quanto do público, a ponto de serem raros os prosadores brasileiros do período a se dedicarem ao conto, a partir da década seguinte o gênero foi se encorpando e ganhando um desenho moderno no Brasil. É verdade que Marques Rebelo, considerado o grande contista moderno da década de 1930, havia trocado o conto pelo romance desde 1942, quando publicara o volume Stela me abriu a porta. Mais significativo do que essa defecção, no entanto, foi o surgimento de vários contistas de peso, como Lygia Fagundes Telles, com quatro coletâneas publicadas entre 1938 e 1958, Guimarães Rosa, com Sagarana, de 1945, Aníbal Machado, com Vila feliz, de 1946, Otto Lara Resende, com seu Boca do inferno, de 1957, e Clarice Lispector, cujo Laços de família sairia apenas em 1960, mas já vinha, como Dalton Trevisan, publicando contos na imprensa antes disso.

Também ganhavam espaço no mercado brasileiro as antologias de contos. Uma editora mais ou menos efêmera, Leitura, ainda em 1944 lançou dois alentados volumes, um dedicado aos russos (editado por Rubem Braga, Aníbal Machado e Graciliano Ramos) e outro aos ingleses (editado por Rubem Braga e Vinícius de Moraes). Na segunda metade dos anos 1950, foi a vez de a Civilização Brasileira lançar, a cargo de Paulo Rónai, uma antologia de contos húngaros, primeiro passo talvez para os vários volumes de Mar de histórias, que o crítico organizaria em seguida com Aurélio Buarque de Holanda. Em 1957 faria história a antologia Contos e novelas, organizada por Graciliano Ramos, em três volumes que traziam autores de todas as regiões do Brasil. No ano anterior ao lançamento de Novelas nada exemplares, e atestando o grau de reconhecimento que Dalton Trevisan já tinha, a editora Cultrix de São Paulo publicou Maravilhas do conto moderno brasileiro, que tinha entre seus editores o poeta José Paulo Paes e trazia um conto do autor de O vampiro de Curitiba.

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O escritor curitibano Dalton Trevisan no traço do artista Orlandeli.

Impacto
O contexto favorável explica por que Novelas nada exemplares ganhou rápida visibilidade, é claro, mas não o impacto que o livro causou na crítica. E a crítica conhecia Dalton Trevisan desde muitos anos antes dos leitores de jornal por seu papel de editor de Joaquim, a lendária re - vista que foi capaz de atingir leitores e atrair colaboradores de todo o país a partir de Curitiba. Temístocles Linhares, crítico paranaense àquela altura já bem conhecido nacionalmente, que também participara da empreitada da Joaquim, temeu que esse impacto fosse negativo e tratou de se adiantar. Publicou em setembro de 1958, cinco meses portanto antes do lançamento de Novelas nada exemplares, um artigo em que antecipava uma reação moralista ao livro, prevendo que “os farejadores de escândalos não se farão de rogados assim e serão os primeiros, disso eu tenho quase a certeza, a tachar muitos de seus episódios e cenas de escatológicos, de indecentes”.

Embora a preocupação não fosse injustificada, e esse tipo de leitura até hoje se faça, o que mais impactou a crítica foi a exploração que o contista fazia de enredos banais, incompletos ou entrecortados ou, como definiu de maneira curiosa o mesmo Hildon Rocha já mencionado, sua dedicação a “contos sem história” que era potencializada exatamente “por seu talento de contador de histórias”. E explica: “O sr. Dalton Trevisan, sem contar propriamente um caso, [...] consegue realizar em cada conto sem história uma história”. 

O que a crítica percebeu logo é que Novelas nada exemplares radicalizava de forma ainda não vista entre nós um procedimento de exploração de uma situação, de uma contradição, de uma ambiguidade, ou seja, de elementos que não se desenham bem pelo enredo do conto clássico do século XIX, que tinha em Maupassant (entre nós Machado) seu modelo.

Um parêntese presente
Vamos fazer um parêntese aqui para dizer que o leitor de hoje encontra-se em posição privilegiada para ver na prática a construção dessa concepção de conto. Essa terceira-obra-de- -estreia é também o documento de um autor em formação, resultado de um processo. Há três contos no livro que haviam sido publicados pelo menos uma década antes na revista Joaquim: “Ponto de crochê”, “Boa noite, senhor” (“O bem amado” na primeira versão) e “No beco” (“Sete anos de pastor”). Vejamos rapidamente o último. O título é clara referência a um episódio bíblico que Camões explorou em um de seus mais célebres sonetos, que trata do amor de Jacó por Raquel, a “serrana bela” e das duas vezes sete anos que aceitou esperar e servir ao pai da moça para casar-se com ela: “Mais servira, se não fora/ Para tão longo amor tão curta a vida!” — conclui o poeta.

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A revista Maravilhas do conto moderno, editada pelo poeta José Paulo Paes, que trazia uma história de Dalton Trevisan.

A versão do número 11 da revista é muito mais longa do que aquela que os leitores têm em mãos nas edições recentes de Novelas nada exemplares. Nela há um enredo claro movimentado por um narrador em primeira pessoa que se coloca na pele de um Jacó que se apaixona por uma Raquel e a convence a ir para a cama com ele. Depois, evidentemente, ele a abandona, mas o lirismo de sua voz, concretizado numa série de longos parênteses emocionados ao longo da narrativa, se mantém no desfecho: “Aqui estou sob o poste, aqui ficarei por sete anos”. Enfim, uma história de sedução contada por um cara-de-pau construída com uma ironia, a bem dizer, fácil.

Na versão final, o lirismo, como o enredo claro, se desfaz. Não há mais paralelo com a Bíblia ou com Camões, e o leitor precisa de esforço para acompanhar mais que as investidas de João sobre Joana (não é mais Raquel, é claro), que constituem apenas a abertura do conto. Tudo a partir dali é apenas sugerido. Joana deixa de ser a simples vítima de um sedutor. Ela tem um passado e o rapaz não sabe bem o que tem e o que não tem. O que era resolução na versão inicial, na final é indefinição e inquietação.

Um ataque de peso
Unanimidade, em todo caso, não houve no lançamento do livro. Um dos mais prestigiosos críticos do momento, Otto Maria Carpeaux, que aliás havia colaborado com Joaquim, escreveu um artigo demolidor sobre o livro. O título já era de arrasar: “Pretensão sem surpresa”. Começava afirmando que a “matéria do Sr. Dalton Trevisan é a vida de gente primitiva: crianças, adolescentes, pequenos empregados, prostitutas, criminosos, idiotas, loucos” para dizer que a “vida de gente primitiva costuma ser trivial. Por isso, o termo define perfeitamente as trinta histórias do volume”.

E a questão do provincianismo vem em seguida: “Sente-se na leitura das Novelas nada exemplares que não foram escritas em Paris nem em Madri nem em Roma. A nausée do autor curitibano não é produzida pela vida sans phrase, mas apenas pela estreiteza da vida provinciana, que lhe parece maldição apocalíptica”.

Trivialidade
O que parece ter escapado a Carpeaux, assim como a muita gente que, diferentemente dele, aprecia os contos de Dalton Trevisan, é que identificar a “matéria” de um escritor não é empreender leitura propriamente crítica. É inegável que os tipos humanos apequenados, presas de desejos inexplicáveis ou de condições de vida paupérrimas (e não apenas materialmente) estão no centro de toda a obra do escritor. A questão é: o que elas estão fazendo lá?

Vejamos o caso do conto que abre as Novelas nada exemplares, “Pedrinho”. Carpeaux assim descreve sua trivialidade: “Exemplo: um menino adoece; os pais ficam desesperados; o menino morre; e é só. É o enredo de ‘Pedrinho’, que abre o volume. O acontecimento é triste, mas não é trágico, não é dramático, não surpreende, não é novela. Diriam que é uma trivialidade? Não seria censura, seria definição”.

É difícil discordar do crítico, o enredo é esse mesmo, e explora a trivialidade de toda e qualquer morte — haverá algo mais trivial do que a indesejada das gentes? A questão é o que fica de fora. O enredo não é tudo. É preciso prestar atenção no que levou o menino a morrer. Ele tem uma dor. Os pais, por falta de recurso ou de cuidado — isso o conto não esclarece jamais — não tomam nenhuma providência. “Vai passar”. Mas não passa. Então levam o menino à farmácia, e o diagnóstico é taxativo: não é nada, só uma gripe, basta um xarope que passa. Mas não passa, e Pedrinho morre.

É preciso atentar também para o que aquela morte acarreta. A mãe entra em desespero, e o pai a censura: “Não chore, mulher. Sou o pai, não estou chorando”. Prático, o homem toma providências e compra um par de tênis, que o menino tanto queria, para prepará-lo para o enterro. E o conto se encerra assim: “Enfiou no pé frio o sapato branco de tênis. Ao pentear-lhe o loiro cabelo, a cabeça ainda em fogo. Encolheu-se no canto, acendeu um cigarro. Caiu-lhe o cigarro da boca e partiu-se o coração em sete pedaços”. 

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Edições da revista Joaquim, editada por Dalton Trevisan no final dos anos 1940, uma década antes de sua estreia oficial em livro como contista.

Perguntas
O não-dito e o não-chorado estão no centro do conto. É a consciência da perda do filho que finalmente golpeia o pai. Mas não é só isso. É a consciência difusa de que a morte poderia ter sido evitada. É a inutilidade do tênis, que vai para a cova sem que o menino sequer o tenha visto. É a inutilidade da própria vida, coisa besta. Nesse instante, o pai não é nem pobre, nem provinciano, nem pai: é uma pessoa perdida em meio a tantas relações.

Não há grandeza nisso. Não há grandeza na pequenez. Mas em que mesmo há grandeza?

O tempo todo essa pergunta pega o leitor dessas Novelas nada exemplares: mas em que mesmo há grandeza? Alguns preferem tampar os ouvidos. Afinal, não compomos a gente primitiva, compomos outro grupo melhor, o daqueles que leem literatura. Não compomos o grupo dos provincianos, vivendo ou não na província.

E essa é outra pergunta que o livro nos faz: onde não é a província? Em que lugar estamos acima dos nossos desejos? Em que parte nossos desejos são mais nobres que os desejos do moço que vive de pensão em pensão, da mocinha que queima o pai morto que a estuprava, do velho que mata a mulher e nem pode se consolar com a ideia de que fora ao menos justo, do casal que se esfrega à noite pelas ruas escondendo-se sob árvores, do homem que passa a vida toda atormentando mulher e filhas e termina morto por elas?

A mesquinharia, a maldade de que ninguém tira proveito, o assassinato banal, o interesse extremo por coisas de pequeno valor, o estupro, a exploração, o desejo sexual inconfessável, o incesto, a vingança miúda, a dor enorme sofrida e infligida por coisas ínfimas, a desilusão, o suicídio. O egoísmo mais enraizado. Os pobrezinhos escondidos no canto escuro da província é que padecem desses flagelos?

As perguntas são a força da trivialidade deste livro sexagenário.


LUÍS BUENO é professor de Literatura Brasileira na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e autor de Uma história do romance de 30 (2006). Também organizou os livros Capas de Santa Rosa e O tempo visto daqui: 85 cronistas paranaenses. Em 2018 publicou seu primeiro romance, Paradeiro.
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