Entrevista

08/07/2019

Um Escritor na Biblioteca | Cíntia Moscovich

A escritora gaúcha Cíntia Moscovich cresceu cercada de clássicos da literatura mundial — de Dostoiévski a Flaubert, incluindo uma coleção completa de Machado de Assis. Essa fortuna literária se deu graças à obsessão do pai, que tinha ojeriza à ideia de os filhos precisarem se submeter a terceiros. “O grande medo dele era que alguém mandasse em nós, ou que alguém decidisse as coisas por nós”, diz a autora de Porto Alegre, que participou do terceiro encontro da temporada 2019 do projeto Um Escritor na Biblioteca, mediado pela jornalista e tradutora Mariana Sanchez
Graças a esse contato precoce com os cânones, Cíntia começou a versar muito cedo, antes dos dez anos de idade. A convivência com os poemas de nomes como Drummond e João Cabral a inspiravam, mas, na prática, ela não conseguia produzir algo sólido: “Era uma distância abissal que existia entre a coisa que eu queria expressar e a palavra que se concretizava”.

A reviravolta se deu aos 36 anos de idade, quando descobriu a Oficina de Criação Literária do professor e escritor Luiz Antonio de Assis Brasil, ofertada há mais de três décadas pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. As primeiras aulas já foram frutíferas para a autora que viria a escrever os contos de Arquitetura do Arco-Íris (2004), livro vencedor dos prêmios Jabuti e Portugal Telecom. “A oficina te ensina como fazer a coisa de uma maneira que ninguém note que aquilo levou tempo ou demandou trabalho. O negócio é parecer que seja fácil”, diz.

Quando a carreira já seguia bem, um diagnóstico de câncer a “tirou do jogo” por um tempo. Aconteceu no momento da produção dos contos de Essa Coisa Brilhante que É a Chuva (2012). “Nunca senti tanto medo na minha vida”, conta. O tratamento foi complicado e “permeado de cenas ridículas”, conta Cíntia, que atualmente trabalha em um livro “mais ridículo do que bem-humorado” sobre todo esse processo. Apesar de todo o perrengue, não desanimou: “Quero contar que a gente pode também se divertir e ajudar os outros”.

       Fotos: Kraw Penas
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Biblioteca familiar
Minha família veio da Bessarábia, fugida de perseguições religiosas. Chegaram aqui com uma mão na frente e outra atrás, aquela velha história que é muito comum, principalmente no Paraná, que é terra de imigração. Eles foram para as colônias no Rio Grande do Sul e ganharam um rolo de arame farpado e um saco de sementes. Quando finalmente chegaram em Porto Alegre, o pai se fez, mais ou menos, na vida. O grande medo dele era que alguém mandasse em nós, os filhos, ou que alguém decidisse as coisas por nós, ou tirasse de nós a nossa independência, nossa vontade. Ele tinha ojeriza disso. Hoje reconheço — depois de muitos anos de tratamento, terapia — que a coisa do pai era meio obsessiva, mas tudo bem, né? Também não vou julgar o meu pai. Mas ele queria isso, que a gente tivesse autonomia e se tivesse que, por ventura, fugir do Brasil, assim como os nossos bisavós tiveram que fugir, que a gente pudesse ir para qualquer lugar do mundo e começar nova vida, que tivesse esse estofo interno para recomeçar. Ele e a mãe combinaram assim: tudo que eles ganhassem — o pai era comerciante — era para ter uma biblioteca. E a mãe, desesperada. Ela conta que, quando eu tinha cinco meses, chegou um carregamento em casa. Ela abriu e, por acaso, era a coleção completa do Machado de Assis — presente para a Cintinha, a primogênita. Ela não viu utilidade nenhuma para a filhinha de cinco meses de idade, que precisava muito de fralda. Mas com cinco meses de idade eu era a feliz possuidora da coleção completa de Machado de Assis, que tenho até hoje. Dizem que foi um arranca-rabo bandido em casa. Não me lembro de nada, mas foi mais ou menos isso, essa era a relevância que o pai dava. Então cresci dentro de uma biblioteca, que era a biblioteca de casa. Para mim, era um ambiente muito familiar, um ambiente em que todo mundo lia. A gente era obrigado a ler, não tinha outra coisa para fazer, não tinha tanto apelo.

Clássicos à disposição
Era uma biblioteca bem variada, com muitos autores judeus — Babel, Cronin, Singer. O recém-falecido Jacob Guinsburg, da Editora Perspectiva, foi o primeiro a lançar autores judeus com boas traduções para o português. Nós tínhamos essa coleção enorme de autores judeus, e de russos também. Desde a mais tenra idade, tinha ao alcance das mãos Dostoiévski, Tolstói — e não era proibido. Me lembro que era proibido O Amante de Lady Chatterley, sabia que os livros que estavam lá em cima eu não deveria pegar, que eram os livros que o pai considerava mais picantes. Graham Greene estava lá em cima também. Minha memória está uma porcaria, mas também lembro o seguinte: o pai e a mãe saíam, e era só colocar uma cadeira para subir lá e pegar. E também era um interdito que era muito fácil de burlar, nada muito violento ou explícito. Era isso. Os autores canônicos sempre fizeram parte — de Flaubert a Dickens. Começamos a ler por eles.

Primeiros versos
Fiz a opção profissional por Jornalismo e a faculdade de Letras para poder ficar perto da palavra escrita, que, afinal, era a grande paixão. Sempre gostei muito e, de fato, a grande busca sempre foi pela expressão através da palavra escrita. Só que, assim, eu não conseguia me expressar. Tinha uma ideia, mas quando tentava colocar aquilo em prática não me agradava. Noventa e nove por cento das pessoas que querem escrever começam pela poesia, né? Isso foi na infância — 8, 9 anos. Aliás, não estava sozinha. Eu tinha amiguinhas que também queriam ser poetas. Era um negócio horroroso. Na minha biblioteca tinham bons poetas — Drummond, Bandeira, João Cabral. Era bacana, sabe? Eu lia aquele troço e ia escrever, só que na infância tu é muito imaturo, não tem experiência. Tu vai para a poesia, começa a rimar, descobre a rima e começa assim: “Oh, meu Brasil, que varonil!”, né? Em termos de rima, tu tem que fuzilar a pessoa que escreve isso, ou seja, eu queria me fuzilar. Daí tu te apaixona e começa a rimar coração com pão: “Ele é um pão, roubou meu coração”, alguma coisa assim. Não é que a rima esteja superada na poesia, mas eu não conseguia fazer — não conseguia aproximações ricas, não conseguia fazer nada muito frutífero. Era uma coisa realmente ruim. E eu tinha esse senso de que a coisa era paupérrima, muito ruim, e tinha um desgosto profundo por aquilo. Sabia o que queria dizer, tinha o sentimento da expressão e aquilo não se manifestava materialmente na minha escrita. Era uma distância abissal que existia entre a coisa que eu queria expressar e a palavra que se concretizava.

Na prosa
Aos 36 anos de idade, uma amiga minha, Iara, chegou em casa e disse: “Cíntia, olha aqui! Tem uma oficina de criação literária na PUC”. Eu digo: “Ah, oficina de criação literária. No que vai me ajudar nessa porcaria dessa poesia que eu faço?”. “É uma oficina que ensina a escrever prosa.” Aí eu fui, me interessei por aquilo e postulei, porque é muito concorrida a inscrição. Entrei na oficina do Luiz Antonio de Assis Brasil, que lançou agora o Escrever Ficção pela Companhia das Letras. É um livro obrigatório para todo mundo, mesmo para quem não quer escrever. Aquilo pode ser lido como um romance, como uma narrativa, é uma coisa deliciosa de ser lida. E já nas primeiras aulas do Assis, entendi que a essência da palavra pode ser a ação. Tu pode narrar alguma coisa, contar uma história e extrair significado da palavra com a ação. Tu pode embutir significado também contando uma história, principalmente contando uma história, porque a poesia é um tanto quanto estática, a poesia lírica, e na narrativa tu pode fazer milhões de coisas, muito mais realizáveis do que na poesia.

Oficinas literárias
Não é que a oficina literária ensine a escrever, mas ela te dá instrumentos para que tu possa desenvolver alguma coisa que já tem em ti. Tu tem que ter o pendor, a vocação. Tu tem que ter a queda para aquilo. Se tu não tem a queda — a vocação, o pendor —, fica um tanto quanto difícil. Fazendo um tour pelo Paraná profundo, eu e a Adriana Lunardi, que também foi aluna do Assis Brasil, a gente encontrou uma moça que queria ser escritora e que, no entanto, não gostava de ler. Essa moça jamais se tornaria escritora, porque ela não tinha a vocação, o pendor — o nome que a gente queira dar. Tem que ter uma predisposição que te encaminhe para esse tipo de coisa, mas a oficina pode, mediante a aproximação de pessoas que têm esse mesmo encantamento, essa mesma atração, te dar instrumentos para que tu desenvolva alguma coisa que queira desenvolver, ou que tenha prazer em desenvolver, porque tem que ter uma paciência infinita para poder se desenvolver na escrita. É um método de tentativa e erro — tem que fazer, reler, gostar ou não gostar, refazer. É infinito. É um palimpsesto infinito, então tem que ter uma parte tua que não é só prazer, vai ter que ter uma parte também de muito trabalho, e isso está embutido nessa parte que a gente chama de vocação ou sei lá o nome que podemos dar. A oficina vai te dar alguma parte de instrumento, de vivência, de artesanato literário. E, principalmente, a oficina te ensina como fazer a coisa de uma maneira que ninguém note que aquilo levou tempo ou demandou trabalho. O negócio é parecer que seja fácil. De uma bailarina tu quer graça e leveza, não te importa o trabalho que ela levou arrebentando os artelhos, né? De um escritor você quer a mesma coisa. A oficina pode ajudar neste sentido: como te arrebentar na intimidade e te mostrar leve em público.

Sofisticação
Duas iguais [2004] conta a história de amor homossexual entre duas meninas, numa escola judaica — para aumentar o interdito. Uma delas não é judia. Não que tivesse grande importância, mas era mais divertido assim. Não vou contar toda a história também, mas, enfim, uma delas vai estudar fora, na França, daí acontece uma coisa e ela tem que voltar para o Brasil. A outra que está aqui se casa. Quando escrevi esse livro, que começou como uma narrativa breve, eu ainda não tinha noções sobre o conto tal como ele é tecnicamente conhecido hoje. Era uma narrativa linear — não tinha subtexto, não tinha nenhum enredo subjacente. Era um troço linear, sem nenhuma camada. Depois, sofisticando a escrita, tu vai entendendo que pode colocar outras coisas embaixo e isso faz parte da sofisticação. Tu vai colocando coisas ali e vai as chamando através de pequenas pistas enxertadas no texto. Me lembro de ter mostrado para o Assis Brasil, que leu e disse: “Olha, é boa a narrativa. Só que isso daí não é um conto”. Aí, eu: “Pô, tu gostou desse troço, mas não é um conto por quê?”. Era uma coisa muito boa, mas que não era um conto. Sabe aquela solidão da ignorância que tu fica ali?

Conto moderno
O autor iniciante que compreende o que é o conto moderno — essa tensão que existe entre história oculta e cifrada, essa sofisticação, jogo de ocultos — consegue dominar qualquer outro gênero. O fundamental num conto é esse equilíbrio entre o contar e o não contar; se não tiver um jogo de ocultos, não é um bom conto. Dito de outra maneira, se o conto for óbvio, ralou-se. É uma coisa absolutamente sedutora, um jogo muito lindo de ser ensinado e de ser entendido. Me tornei contista por absoluto fascínio por esse jogo de ocultos, e, depois que tu entende isso, escrever romance é uma barbada. Desculpe, que horror dizer isso. É que a gente escreve conto, assim, numa tensão, e o romance é “ah, lembrei de tal coisa”, aí tu escreve numa cadernetinha do lado, sabe? Já o conto é urgente, é o agora.

Neurose do contista
O Sergio Faraco é um contista maravilhoso, exemplo clássico de como tu não pode dissociar a neurose do contista. Ele é absolutamente neurótico com detalhes, e se tu pega qualquer conto do Faraco tu vê que ele usa a teoria da unidade — tudo que está no conto é necessário para que ele se concretize, e ele tem a ideia de balanço e sistema. Se ele coloca uma tomada de três pinos na abertura do conto, até o final aquela tomada de três pinos vai ser usada, vai ter função ela ter três pinos, ela estar naquele lugar naquela hora e vai parecer super mega natural ela ter três pinos e estar ali naquela hora. No romance não é tão necessário, até pode esquecer que ela tenha três pinos. Qualquer coisa do Faraco que tu pegue, tu vai ver que é sistêmica, tem uma unidade incrível, bem balanceada — é uma pintura, tem um efeito pictórico imenso, de balanço, de equilíbrio.

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Elogio à memória
O livro Por Que Sou Gorda, Mamãe? [2006] é uma ode à memória. Para mim, pessoalmente, é um grande elogio à memória e à memória do meu povo. A psicanálise se baseia nisso, em quanto a invenção substitui o que te falta de memória. O nosso dever é não esquecer. A história do livro é divertida, e a gente não faz nada mais no mundo a não ser se divertir, porque todo o resto é uma porcaria, né? É legal a gente se divertir. E escrever, para mim, é me divertir mesmo quando não estou me divertindo. O Modesto Carone, da Unicamp, traduziu toda a obra do Kafka diretamente do alemão, pela primeira vez no Brasil, e um dos livros é Carta ao Pai, que vem a ser um troço monumental. É a maior missiva já escrita por um filho a um pai, um acerto de contas. Então resolvi escrever uma missiva de uma filha para uma mãe. Comecei a escrever e só tinha reclamação, era eu reclamando da minha mãe.

Não tinha ficção nenhuma, era um troço horroroso, um tal de pontapé e cotovelada, horrível. Aí eu dei para o Assis ler e ele disse: “Bá, tchê! Mas isso aqui não está bom. Tu abre esse troço e só tem esse chororô aí de tu falando da tua mãe. Isso aqui parece tu contando dos teus problemas com a tua mãe para mim, não parece literatura. O que o pobre do leitor tem a ver com os teus problemas com a tua mãe? Está horrível. Faz o seguinte, tem uma parte que está bem engraçada, que fala de gordura. Por que tu não usa isso aí da gordura? Até aqui os grandes dramas existenciais são as dores de amor, a humilhação, a pobreza. Por que que tu não fala da humilhação, da dor que é ser gordo nesse mundo de magros? Da dor de não caber numa roupa, do problema que é amarrar um sapato, suar em bicas para provar uma roupa num provador de magro. Fala disso, fala dessa dor, porque ninguém fala. E faz uma coisa: tira esse negócio de Carta à Mãe que vai ser um horror, tu vai ficar a vida inteira com o Kafka te puxando os pés enquanto dorme. Faz assim, chama esse livro de Por Que Sou Gorda, Mamãe?”. Eu disse: “Mas tu tá ficando maluco! Isso é nome de livro de autoajuda”. “Por que tu não vai fazer isso? Tu pode vender alta literatura como se fosse autoajuda e ganhar dinheiro uma vez na vida.” Quando fui negar, ele continuou: “Não me responde, não me diz que não. Vai para o teu jardim e fica quieta, não conta para ninguém. Vai refletir”.

Autoajuda
Nessa altura do campeonato, a Claudinha Tajes, que é também autora, e muito engraçada, tinha escrito um livro chamado A Vida Sexual da Mulher Feia. Ela tinha ido parar na prateleira de autoajuda e me contou. Cheguei em casa e liguei para a Claudinha: “O que tu acha de eu escrever um livro chamado Por Que Sou Gorda, Mamãe?”. E ela: “Ai, guria, que coisa boa! Vamos parar as duas na prateleira de autoajuda, vamos?” “Vamos!”. Aí comecei a escrever o livro. Só que, assim, continuava sendo a minha mãe. Era um negócio diabólico, porque todos os dias, às 8 horas da noite, ligo para saber como ela está. Eu saía da sessão de escrita e ligava para a mãe, e continuava a sessão de escrita brigando com ela. Aí digo “não, não dá”. Lembrei de um amigo nosso, o psiquiatra Abrão Slavutzky. Se vou para um médico que é cristão, levo um tempão explicando. Se vou para um médico judeu, está resolvido — corto um atalho de seis meses de tratamento, o médico judeu já sabe da mãe judia, não precisa ficar explicando. Levantei o telefone: “Abrãozinho, estou com um problema com o livro e com a mãe. E não tenho dinheiro”. Diz ele: “Bom, te faço metade da sessão, pode ser?”. “Pode, tá bem”. Foi tranquilo, em um mês estava resolvido. Deixava minha mãe no consultório dele, ia para casa e escrevia. Levei dois anos para terminar.

Tradição Gaúcha
Uma das possibilidades para a existência dessa tradição de escritores do Rio Grande do Sul é a proximidade com os países do Rio da Prata — a Argentina e o Uruguai, lugares com forte tradição cultural. Isso pode influenciar. Tem um gaiato que diz: “Isso é o clima frio”. Não sei, mas certamente se deve à atuação da oficina de criação literária. Temos várias iniciativas ligadas ao livro e à literatura. O Assis Brasil está há 34 anos, de maneira ininterrupta, ministrando oficina e incentivando jovens autores, incentivando a literatura. Temos uma tradição de boas editoras — a Editora Globo nasceu no Rio Grande do Sul. E nós temos também a Feira do Livro de Porto Alegre, a mais longeva, com 65 edições. Ainda é uma terra que valoriza o livro e a leitura. Acho que é por causa disso, mas a gente tem alertado que a coisa está se esculhambando demais. Não tem nenhuma política pública, e em termos de leitura a coisa está muito esculhambada.

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Antologias femininas
Acho que uma vez foram necessárias. Não dou certeza de nada, mas talvez não sejam mais. Tenho um pouco de medo de levantar alguma bandeira, sempre tive, mas a coisa começa a ficar muito pulverizada — é escrita feminina, negra, gay, trans. Isso pulveriza de uma tal maneira que tu não tem mais unidade de nada, então tenho muito receio com essas coisas que são muito fragmentadas, sabe? Queria que todo mundo se reunisse em torno da literatura, mas talvez seja necessário, sim, a gente lutar.

Câncer
Eu estava escrevendo o livro Essa Coisa Brilhante que É a Chuva e me veio esse diagnóstico de fumante. Sempre escrevi fumando e sabia que uma hora ia ter o diagnóstico. Sempre soube. Meu pai morreu com 56 anos de câncer e a família era judia, hipocondríaca. Apareceu uma bola no meu pescoço, um sintoma externo, metástase de um câncer de amídala. Eu tinha ganhado uma bolsa de criação literária da Petrobras. Estava com um terço do livro pronto e tive que parar. É assim: quando tu tem câncer, tu só tem câncer, né? Só te trata, não faz mais nada, full time. Não peguei o câncer exatamente no início, mas foi a tempo de reverter. Foi uma cirurgia muito grande, porque tive que tirar a amídala e fazer um esvaziamento, tirar toda a cadeia de nódulos, seccionar músculo, nervo. E, depois, quimioterapia e radioterapia. É um tratamento longo, que te deixa meio abobada. Tu fica tão incrédula, na verdade, que acaba sem reação. Tu entrega o teu corpo para a medicina. E é sobre isso que estou escrevendo agora. Ali pelo ano passado peguei o jeito de escrever essa história.

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Livro a caminho
A cena inicial é essa do consultório — uma moça que chega lá, apavorada com isso. É porque o meu tratamento foi todo ele permeado de cenas ridículas, não teve um troço tão ridículo quanto o meu tratamento contra o câncer. Sou muito boa samaritana, ajudei várias pessoas e teve muita trapalhada no meio. Quero contar que a gente pode também se divertir e ajudar os outros. Não é tão bem-humorado, é mais ridículo do que bem-humorado, como é a vida na verdade, né? Vai demorar um ano, um ano e meio mais ou menos para escrever, porque estou muito lenta. Estou revisando porque está com problema; estava com problema de linguagem, agora tem problema com a personagem. A personagem tem que querer alguma coisa, né? Ela está muito senhora de si e muito parecida comigo. Não sou eu.

Interesse pela leitura
Estamos disputando com meios que exercem um forte apelo, então não sei o que a gente poderia fazer para despertar o interesse pela leitura. A gente tem que ser sincero: o que a leitura pode proporcionar para um adulto? Pode proporcionar o que nenhum outro meio ou veículo pode, que é fazer com que tu, ser humano, consiga formar uma ideia abstrata. Televisão, internet, tudo te dá coisa pronta. A leitura faz com que tu forme uma ideia abstrata. Através das palavras que tu lê, tu forma a ideia do personagem, da ação, ideia do cenário. É uma coisa para a qual tu tem que convocar toda a tua experiência anterior, ou para a qual tu tem que formar uma experiência de leitura, e para a qual tu tem que obrigatoriamente te enriquecer. Nada te enriquece mais e nada convoca mais a tua riqueza interior do que a leitura, então tu tem que convencer o leitor de que aquilo vai o tornar internamente rico. Mas como é que tu vai convencer o cara, né? Não sei como é que a gente faz isso. Chego ao ponto de fazer assim: “Pelo amor de Deus, lê! Porque é bom pra ti, tu vai ser uma pessoa melhor, tu até pode ganhar mais dinheiro”. É mentira, mas usar a chantagem emocional é uma boa tática. Vocês entendem que isso é muito difícil, com toda a disputa, com toda a facilidade que os outros meios proporcionam? É difícil pedir para um adulto que largue tudo e vá enfrentar uma dificuldade maior, que é a leitura, para a qual ele tem que convocar todos os sentidos e experiências dele.
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