Reportagem

10/10/2019

Reportagem | William Burroughs

“A linguagem é um vírus”

Lançado há 60 anos, Almoço Nu, de William S. Burroughs, ganhou notoriedade por sua narrativa fragmentada e caótica — e continua mais atual do que nunca

Daniel Tozzi

William Seward Burroughs residia em um dos apartamentos do Hotel Muniria, na cidade de Tânger, Marrocos, em meados da década de 1950, quando redigiu boa parte dos escritos que iriam compor Almoço Nu (1959), sua mais aclamada obra. Após acidentalmente matar sua esposa, Joan Vollmer, com um tiro na cabeça, e se viciar em quase todas as drogas conhecidas pela humanidade até então, Burroughs perambulou por Estados Unidos e México e se refugiou no Norte da África em 1954. Lá, sua rotina era preenchida pelo uso inconsequente de opioides, aventuras homossexuais, incursões pela pintura surrealista e, claro, uma crescente produção de experimentalismo linguístico que rendia frutos sabe-se lá como — ou justamente — por conta de seu quase permanente estado de não consciência e chapação.

Concebido como caótico e não linear, Almoço Nu é um dos clássicos da geração beat e, ao lado de On the Road (1957), de Jack Kerouac, e Uivo (1956), de Allen Ginsberg, compõe a santíssima trindade do movimento literário que sacudiu a América nos anos 1950. Como não poderia deixar de ser, o livro de Burroughs alimenta a tese de que não há literatura experimental sem vida experimental. Exemplo bem acabado da mistura entre “vida e arte”, sua prosa é definida pelo jornalista, tradutor e escritor Rodrigo Garcia Lopes como “uma literatura de risco”.

Almoço Nu não tem um enredo, tradicionalmente falando, e está cheio de deslocamentos espaçotemporais. Burroughs vai costurando ou colando suas ‘rotinas’, na forma de cenas, esquetes delirantes, fragmentos de diários de viagem, orgias, guerra entre facções políticas, pastiches de história de detetive e ficção científica. O livro tem uma estrutura aberta e encoraja o leitor a lê-lo a partir de qualquer ponto”, complementa Lopes, que em 1992 concluiu mestrado na Universidade do Arizona com dissertação sobre a obra de Burroughs. 

      Divulgação
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William Burroughs construiu um universo ficcional tão caótico quanto sua própria vida. 

Labirintos narrativos à parte, o que se vê em Almoço Nu é a jornada do drogado William Lee (óbvio alter ego de Burroughs) por um ambiente decadente e corrupto em que passagens pelo universo da homossexualidade e o submundo do vício são escancaradas ao leitor de maneira crua e aterrorizante, sem muito apreço pela lógica. 

Para o também escritor e jornalista Claudio Willer, autor, entre outros, de Geração Beat (2009) e Os Rebeldes: Geração Beat e Anarquismo Místico (2014), ao se aventurar pelas páginas de Almoço Nu, o leitor não deve necessariamente se atentar para o estado delirante da vida do escritor. “A obra independe do autor. Impressiona e choca mesmo sem que se saiba quem foi Burroughs. Mas, ao mesmo tempo, por ser, em parte, uma estilização delirante do que ele viu e viveu em Tânger (embora tivesse começado a escrever os trechos antes de ir para lá), a informação biográfica adiciona conteúdo”, explica Willer, que enxerga a obra como marco da literatura mundial por consolidar o prestígio de narrativas não lineares, não realistas e transgressivas.

Recortes
O poeta franco-romeno Tristan Tzara, autor do icônico texto To Make a Dadaist Poem (Para Fazer um Poema Dadaísta), foi criador da técnica estilística fundamental para a concepção de Almoço Nu: o cut-up, ou “recorte”. O método nonsense de simplesmente juntar palavras ou trechos desconexos aleatoriamente foi apresentado a Burroughs pelo pintor inglês Brion Gysin, no Marrocos, e Almoço Nu fez do autor beat um dos principais expoentes da técnica. vem daí a explicação para o emaranhado de enredos e conteúdos escatológicos presentes no livro. 

“Os capítulos ficavam espalhados caoticamente pelo chão e móveis do quarto de hotel de Burroughs”, detalha Garcia Lopes, que no início dos anos 1990 entrevistou o autor norte-americano em sua casa, na cidade de Lawrence, no Kansas. “Você perde o fio da meada em meio aos enredos que ele relata. Parece levar o leitor a um lugar e, de repente, é outro. Burroughs tem uma linguagem mais direta. Não é um autor de estilo, como, por exemplo, Kerouac — a meu ver um virtuose”, explica Willer sobre a difícil narrativa presente em Almoço Nu

Em um dado momento da trama, Burroughs escreve: “O viciado é imune ao tédio. Ele pode olhar para o próprio sapato durante horas, ou simplesmente ficar na cama. Não necessita de nenhuma descarga sexual, nem de contatos sociais, nem de trabalho, nem de diversão, nem de exercício… nada além de morfina”. Para Leandro de Souza Reis, autor da dissertação Controle: O Corpo Que Não Aguenta Mais em Almoço Nu, que escreveu em 2018 para concluir mestrado em Letras pela Universidade Federal de Viçosa, o uso desenfreado de drogas e a dominação sobre o corpo presentes no livro são uma denúncia à sociedade de consumo, aos mecanismos de controle e ao discurso normatizador, bastante em voga no período de lançamento da obra — o auge do American way of life e da caça aos subversivos da cultura ocidental.

Segundo o pesquisador, entre todas as formas que a questão do controle aparece no livro (religião, mídia, medicina, governos, burocracia), a principal metáfora apresentada por Burroughs é a Junk— termo usado para se referir aos derivados do ópio, sobretudo heroína e morfina. “A Junk é o produto ideal da sociedade de controle porque não é um mecanismo externo, não vigia o indivíduo a partir de uma torre. É um mecanismo que atua de dentro do corpo do usuário, por isso ininterrupto e inescapável. O controle não é um meio, mas um fim, e seu objetivo é aprofundar seus dispositivos para assegurar uma dominação contínua.” Em sintonia com o pensamento de Reis, Garcia Lopes afirma que “em Burroughs, o conceito de adição extrapola o vício em drogas e abarca a lógica aristotélica, a política, a religião, o poder, o sexo e a família”.

Neste contexto, ainda somos apresentados a outro conceito crucial para a narrativa do livro: a Interzona, local escolhido por Burroughs para desfilar todas as insanidades presentes em Almoço Nu. Definido por Claudio Willer como “o lugar em que as leis que regem o cotidiano normal estão suspensas”, a Interzona surge, primeiro, como metáfora para o fato de Burroughs viver em Tânger no momento de escrita do livro. A cidade marroquina, até 1956, era um Zona Internacional administrada por oito países europeus — logo, sem um código de leis próprios — ou, como explica Leandro Reis, “uma zona cinzenta e obscura onde conceitos de legalidade e moralidade estariam relativizados”. 

Inspirado pela leitura de O Céu que nos Protege (1949), do norte-americano Paul Bowles, que viveu em Tânger, Burroughs se mudou para o Marrocos e lá criou seu “espaço mental ficcional”, como define Garcia Lopes. Some a isso o uso contumaz de derivados do ópio e os experimentos com cut-up, e a Interzona de Burroughs torna-se o palco para “uma espécie de teatro do absurdo onde a dominação se aprofunda e a autonomia se esvazia”, explica Leandro Reis. 

     Acervo Pessoal/Rodrigo Garcia Lopes
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William Burroughs e Rodrigo Garcia Lopes, que visitou o autor norteamericano no início dos anos 1990. 

Gay?
Mesmo tendo sido casado com uma mulher, Burroughs era homossexual. Sua própria mudança para o Marrocos é explicada por Garcia Lopes pelo fato de lá haver um custo de vida menor e “acesso facilitado às drogas e garotos”. No entanto, diferentemente de seu comparsa beat, Allen Ginsberg, Burroughs dificilmente se posicionava a respeito da causa gay. Em Almoço Nu há um sem-número de passagens que narram relações sexuais entre dois homens, ainda que essa temática outsider e contra os padrões vigentes da masculinidade não seja o principal propósito do livro. Na visão de Leandro Reis, a obra de Burroughs que, de fato, nunca foi classificada como “literatura gay” ou “queer”, privilegia, mesmo em relações homossexuais, aspectos do universo heteronormativo, como a violência.

“De toda forma, se você observar a representação do corpo homossexual e sua relação com o mundo que o cerca, há sim uma reflexão importante a respeito da repressão sexual. Burroughs se apropria dos estereótipos da masculinidade e da internalização dessa repressão e questiona a concepção negativa da homossexualidade como um desvio. Isso é feito por meio da sátira, da escatologia e do grotesco, servindo-se das mesmas naturalizações e caricaturas que sustentam a cultura patriarcal e suas representações. Almoço Nu é o retrato da repressão da sexualidade dos corpos vigente na época de formação da geração beat”, conclui Reis, citando uma passagem do livro em que há um “teste de masculinidade” após um médico diagnosticar o “desvio sexual” de seu paciente.

Um vírus censurado
Assim que publicado, Almoço Nu foi parar nos tribunais por conta de seu conteúdo barra pesada (até 1966, por exemplo, a obra estava banida dos Estados Unidos por obscenidade). Graças a uma decisão do Supremo Tribunal de Massachussets, o livro foi liberado e, por tabela, praticamente acabou com a censura a obras literárias nos Estados Unidos — se Almoço Nu era permitido, não havia mais o que censurar. 

Burroughs viveu no Marrocos até a década de 1960 e, após Almoço Nu, seguiu realizando experimentos com cut-up, o que lhe rendeu a produção de uma trilogia exclusivamente calcada na técnica dadaísta: The Soft Machine (1961), The Ticket that Exploded (1962) e Nova Express (1964). 

Nascido em 1914 e proveniente de uma abastada família que frequentava os círculos da alta sociedade de St. Louis, Burroughs chegou a se formar em Artes na prestigiada Universidade de Harvard antes de se enveredar pela rota da transgressão e seu caminho cruzar com os dos demais beatniks na década de 1940. No entanto, foi só depois do acidente com sua esposa, em 1951, que Burroughs passou a sentir uma necessidade quase vital de escrever, conforme relata Barry Miles na biografia que assinou sobre o autor: Call Me Burroughs: A Life (2014). 

Seis décadas após o lançamento de Almoço Nu (Naked Lunch, no original) — que, reza a lenda, chamaria-se Naked Lust (Luxúria Nua), até Jack Kerouac ler erroneamente o título no manuscrito original e Burroughs aprovar a nova nomenclatura —, o escritor se tornou uma referência para “boa parte dos autores de distopia e ficção científica do pós-Segunda Guerra Mundial”, destaca Leandro Reis citando, em especial, o gênero cyberpunk. Já para Garcia Lopes, entre os nomes que beberam na fonte de Burroughs estão autores como William Gibson, J. G. Ballard e Thomas Pynchon e, para além da literatura, ícones do mundo pop como Patti Smith, David Bowie, Roger Waters e Lou Reed. 

Autor da célebre pensata de que “a linguagem é um vírus”, Burroughs morreu com 83 anos, em 1997. Para Rodrigo Garcia Lopes, sua obra se mantém fundamental para compreendermos o presente. “Nunca a frase ‘a linguagem é um vírus’ significou tanto para a humanidade como hoje, em tempos de redes sociais, manipulação de informações, hackers, fake news, cyber-vigilância, recrudescimento do autoritarismo e pós-verdades. O embaralhamento entre fato e ficção e a descrição do ser humano como fadado ao vírus do controle seguem fazendo o enredo de Almoço Nu atual”, reflete Lopes, que em sua obra Vozes e Visões (1997) repercute o panorama da cultura norte-americana a partir de entrevistas com artistas plásticos e escritores, dentre eles diversos beatniks

Claudio Willer vai na mesma linha e credita a atualidade de Burroughs ao desordenado clima político e social que vivemos. “Toda obra literária importante se projeta na realidade e mostra algo. Almoço Nu sugere uma realidade assustadora e que guarda relação com o que acontece: esses estranhos dirigentes, os extremistas inflamados e com gangues de seguidores — tudo isso tem clima de narrativa de Burroughs”, teoriza Willer.


DANIEL TOZZI é jornalista. Já colaborou com o Jornal Comunicação, da Universidade Federal do Paraná, e o site Escotilha. Vive em Curitiba (PR). 
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