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10/10/2019

Vestibular em tempos líquidos

Dos clássicos literários à música popular, as diferentes linguagens exigidas pelos concursos mostram como o conceito de literatura se expandiu ao longo dos anos


Murilo Basso

  Fotos: Reprodução
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Machado de Assis e Valesca Popozuda já foram leituras obrigatórias em vestibulares. 

De Machado de Assis a Mano Brown, de Gregório de Matos a Valesca Popozuda. Nos últimos anos, os vestibulares vêm exigindo dos candidatos a leitura de uma ampla gama de textos, incluindo até mesmo obras que não são literatura propriamente dita — como músicas e filmes. O resultado é uma seleção que pode parecer aleatória, mas, segundo os especialistas, é pensada para oferecer ao estudante uma experiência de aprendizagem mais completa.

Na região Sul, por exemplo, universidades priorizam cada vez mais a literatura regional — e isso inclui autores contemporâneos, fora do cânone literário brasileiro. A Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) selecionou neste ano O Conto da Mulher Brasileira (1978), de Edla van Steen, e Os Milagres do Cão Jerônimo (2013), de Péricles Prade. Na Universidade Estadual de Londrina (UEL), o premiado Cristovão Tezza aparece com O Filho Eterno (2007).

Os contemporâneos, locais ou não, também têm lugar no concurso da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS): Adélia Prado, Marcelo Rubens Paiva, Valter Hugo Mãe, Michel Laub e até o disco Elis & Tom (1974), de Elis Regina e Tom Jobim, figuram na lista de obras exigidas para o próximo vestibular.

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Mano Brown, dos Racionais MCs, é um dos letristas do álbum Sobrevivendo no Inferno.

Tendência
Na Fuvest (Fundação Universitária para o Vestibular), que realiza a prova da Universidade de São Paulo (USP), a novidade neste ano é o livro Mayombe (1979), do angolano Pepetela. O livro começou a ser escrito como um comunicado de guerra e foi desenvolvido até se tornar um retrato do cotidiano dos guerrilheiros do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) na guerra colonial contra as forças portuguesas.

“É um livro que foi feito sem projeto”, conta Pepetela. “Fizemos uma operação militar e eu era o responsável por mandar as informações, redigir o comunicado, e enviar depois para o nosso departamento de informação, que veiculava na rádio, no jornal.”

Em 2018, a Comissão Permanente para os Vestibulares da Unicamp (Comvest) incluiu o álbum Sobrevivendo no Inferno (1997), do grupo de rap Racionais MCs, na lista de leituras obrigatórias em literatura, na categoria Poesia. O objetivo, de acordo com os organizadores, era aproximar o estudante de uma expressão da realidade brasileira.

Entre as faixas de Sobrevivendo no Inferno estão “Diário de Um Detento” (que trata do massacre de presos no Carandiru, em 1992), “Tô Ouvindo Alguém me Chamar” (sobre um rapaz da favela no mundo do crime) e “Capítulo 4, Versículo 3” (uma denúncia contra o genocídio de jovens negros e pobres brasileiros).

Escolha nada aleatória
Essa diversidade de obras e estilos pode dar a impressão de que a escolha dos livros para o vestibular é aleatória, mas, na verdade, a seleção passa longe disso. Cada universidade ou fundação elabora sua lista conforme uma série de fatores, que incluem desde tendências na sociedade e na academia naquele ano até as áreas de estudo dos docentes da instituição. Em provas mais tradicionais, a lista pode seguir uma historiografia literária: os títulos são escolhidos de acordo com uma linha do tempo da literatura brasileira. Por outro lado, é esperado que obras modernas ou menos tradicionais estejam presentes em alguns vestibulares com tendências de vanguarda, como é o caso da Unicamp e da UFRGS.

A inclusão de livros mais atuais tem como objetivo aproximar os conteúdos da realidade dos estudantes: obras mais flexíveis para jovens que vivem uma realidade em mudança. “Como as pessoas que organizam vestibulares vão cobrar a leitura como era antes? E com toda a tecnologia disponível atualmente, como você conseguirá exigir que jovens e crianças leiam?”, questiona Robson Coelho Tinoco, professor do Departamento de Teoria Literária e Literatura da Universidade de Brasília (UnB).

“Pensando em um livro, para escrever um, do que você precisa? O que tem de considerar? Isso estava muito mais formatado, para o bem e para o mal. Hoje, já não há mais isso, em função da liberdade para tudo, a todo o momento. É tudo muito móvel”, explica.

A exigência de títulos pouco tradicionais, fora do cânone da literatura, tem também um papel para a aprendizagem dos estudantes. Por um lado, estudar o presente ajuda a entender o passado: a literatura contemporânea é resultado de toda a trajetória que nos trouxe até aqui — o que pode ser um ponto de partida para compreender determinadas tradições.

Em contrapartida, o estudo de obras menos convencionais é um meio de estimular a sensibilidade dos estudantes de maneira nova, diferente daquele contato com os clássicos — o crítico Antonio Candido (1918-2017), aliás, foi um defensor do ensino da literatura como forma de organizar a mente e refinar a sensibilidade.

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Tom Jobim e Elis Regina lançaram o álbum Elis & Tom em 1974.

Passado sempre presente
Se os contemporâneos podem ser um caminho para conhecer o cânone literário, os clássicos são necessários para entender mais profundamente tudo que veio depois deles. Motivos não faltam para lê-los: críticos de diversos períodos dedicaram reflexões sobre o tema, incluindo Umberto Eco, Machado de Assis e Ítalo Calvino — que listou 14 motivos em seu Por Que Ler os Clássicos (1991).  

A ciência também aponta razões para ler os clássicos: um estudo da Universidade de Liverpool, no Reino Unido, sugere que ler autores canônicos, com linguagem mais complexa, provoca picos de atividade cerebral que se mantêm durante um tempo, potencializando a atenção do indivíduo. O estudo observou a atividade cerebral de 30 voluntários enquanto liam textos de escritores ingleses como Henry Vaughan, John Donne, Elizabeth Barrett Browning e Philip Larkin.

Já para estudantes em fase de aprendizagem, os clássicos da literatura são uma ferramenta poderosa para ampliar a linguagem, conhecer modos de vida de outras épocas, entender aspectos da cultura brasileira e compreender diferentes períodos históricos por meio de conflitos universais da experiência humana — conflito conjugal em Dom Casmurro (1899), independência feminina e expectativas sociais em Senhora (1875) e sexualidade e raça em Bom Crioulo (1895) são manifestações de aspectos da sociedade vigentes tanto no passado quanto no presente.

“É preciso visitar os livros, conhecer a linguagem desses autores e os temas que eles tratam. A compreensão contextualizada é vital para a significação da obra”, afirma Milena Ribeiro Martins, professora do Departamento de Literatura e Linguística da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

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Gregório de Matos (1636-1696) foi um expoente da poesia barroca no Brasil.

Espelho social
Os livros cobrados nos vestibulares podem seguir uma linha temporal de movimentos e estilos literários. O objetivo é que o estudante conheça um pouco sobre cada fase da literatura brasileira de maneira mais concreta, a partir dos próprios textos literários.

“Os movimentos literários são abstrações a partir de obras literárias e não fazem sentido sem essas obras”, diz Milena. “Os movimentos literários — seja barroco ou modernismo, um bem do passado ou um bem do presente — são uma tentativa dos críticos de buscar vínculos entre produções diferentes de uma mesma época. Eles só farão sentido se o estudante tiver lido essas obras”, explica.

Gregório de Matos tem cadeira praticamente cativa nos principais vestibulares: representante do estilo barroco, é considerado o primeiro dos grandes autores brasileiros. Além disso, as sátiras e profanidades do “Boca do Inferno” são um atrativo para os jovens que estão começando a ter contato com os clássicos e ainda têm de lidar com a obrigatoriedade da leitura.

Apesar de os vestibulares começarem com Gregório de Matos, a origem da literatura no Brasil é um ponto de debate. Há registros de literatura anterior a Matos, como as cartas do padre Antonio Vieira, mas o seu objetivo de servir a Portugal, escrito para portugueses, praticamente o exclui da categoria de literatura brasileira. Já o barroco é considerado uma expressão nacional de um movimento europeu: assim como Aleijadinho na escultura, Matos foi um artista brasileiro adotando o barroco europeu.

“Segundo a História, a literatura brasileira começa com a literatura portuguesa no Brasil, desde quando o Brasil ainda não era Brasil. Se estudamos desde a carta de Caminha, estudamos o primeiro documento que se produziu no nosso continente, mas ainda não éramos Brasil”, reflete Milena.

A expressão da cultura brasileira na literatura começou quase 200 anos depois, com José de Alencar. O romantismo também é um movimento com origem europeia, mas Alencar o ressignificou de forma genuinamente brasileira — que lhe rendeu o título de pai da nossa literatura.

“Os autores fundamentais da literatura nacional são aqueles que refletem sobre a essência do ser brasileiro. E esses não são os portugueses, que nos viam de uma maneira muito colonialista. Acredito que os escritores mais para o final do século XIX e início do século XX são aqueles que começam a investigar a identidade desse brasileiro e seus problemas. Sobretudo nomes como Lima Barreto, Euclides da Cunha, Machado de Assis, Monteiro Lobato, Mário de Andrade, Carolina Maria de Jesus, além escritores urbanos como Rubem Fonseca”, afirma Milena.

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Carolina Maria de Jesus, autora de Quarto de Despejo (1960), ganhou espaço nas universidades.

Barreiras
O repertório de obras indicadas nos concursos se moderniza, mas autores negros ainda são minoria mesmo naqueles que exigem literatura africana — a adoção dos Racionais no vestibular da Unicamp é significativa também neste sentido, mas não se trata do único caso. A Universidade de Passo Fundo (UPF) incluiu neste ano Poemas da Recordação e Outros Movimentos (2008), da escritora mineira Conceição Evaristo.

Na UFRGS, a lista deste ano conta com Úrsula (1859), de Maria Firmina dos Santos, afrobrasileira considerada a primeira mulher autora de um romance no Brasil. Entre os clássicos, Lima Barreto e Machado de Assis são nomes presentes nas listas de obras, apesar de ser pouco difundido ou até omitido que os dois são autores negros.

Na poesia, Cruz e Sousa aparece em vestibulares como um dos principais representantes do Simbolismo com seu Broquéis (1893). Mas, na lista de dez obras, o espaço da poesia é limitado e o autor catarinense nem sempre garante um lugar. 

Nos últimos anos, o livro Quarto de Despejo (1960), de Carolina Maria de Jesus, ganhou espaço nas universidades, graças ao aniversário de 100 anos da escritora, em 2014. O título teve uma trajetória controversa na academia: após o lançamento, em 1960, foi elogiado por Clarice Lispector, depois rejeitado pelos críticos que afirmavam que a obra escrita em forma de diário não era literatura, até ser reconhecido mais recentemente como uma expressão da realidade das favelas nos moldes da literatura modernista.

Já a adoção do álbum dos Racionais é mais uma inclusão da cultura de periferia na academia — “Como se fosse um troféu depois de vencer várias lutas”, afirmou Mano Brown. Para Eliane Dias, produtora do Racionais e esposa de Brown, “a periferia está invadindo a academia”.

Do cânone ao inusitado
As listas de leituras obrigatórias para vestibulares já incluíram obras inusitadas: discos, músicas, desenhos animados e filmes. Além dos já citados álbuns Sobrevivendo no Inferno e Elis & Tom, a faixa “Beijinho no Ombro”, da funkeira Valesca Popozuda, foi material indicado para a terceira fase da avaliação seriada da Universidade de Brasília em 2016. A UnB também já indicou o curta de animação O Homem (2012), de Steve Cutts — com quatro minutos de duração, o trabalho produzido em flash e after effects retrata a relação do homem com a natureza ao longo dos anos. 

Já a Universidade de Pernambuco (UPE) indicou para a segunda etapa do sistema seriado de avaliação o filme Meia Noite em Paris (2011), do diretor Woody Allen. A instituição tem uma tradição de indicar filmes nacionais, mas inovou com a recomendação de cultura pop.

A justificativa para essas flexibilizações está no próprio conceito de leitura, que não se limita a livros e sequer a textos escritos. A leitura implica processos de compreensão e pode ser aplicada a imagens, músicas e audiovisual, entre outras linguagens. Nesta perspectiva, cobrar músicas, filmes e curtas nos concursos nada mais é do que expandir a experiência de leitura para o estudante.

“O próprio conceito de literatura contemporânea é algo extremamente móvel e líquido”, diz Robson Tinoco, da UnB. Ele aponta que a flexibilidade do que é a literatura contemporânea está ligada ao conceito de sociedade líquida de Zygmunt Bauman: na sociedade atual, todos os tipos de relações sociais são móveis, sem a estrutura fixa que existia até o século passado. “Quando os vestibulares apontam para essa amplitude e abrangência, é uma marca, um reflexo do tempo em que vivemos”, completa.


MURILO BASSO é jornalista, com passagens pela Gazeta do Povo, Rolling Stone e Editora Abril.
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