Especial Capa

18/12/2019

Eu não sou apenas o que você pensa que eu sou

Em um cenário editorial que não reflete a diversidade da população, autores negros reivindicam espaço e rejeitam estereótipos


Em outubro, o grupo de humor Porta dos Fundos lançou uma sátira em que um jornalista negro entrevistava um escritor branco: “Hoje, a gente conversa com Heitor Peraza, escritor branco, porque aqui a gente faz questão de lembrar que existe, sim, uma literatura branca nesse país”, introduzia o entrevistador. “Normalmente, os brancos vão para o mercado financeiro, para o Congresso, fabricação de cerveja artesanal. E você, não, você foi para a literatura, que é muito difícil, muito inusitado para um jovem branco. Como é que foi essa coisa de migrar para a literatura?”, continuou. “Como é para você, um escritor branco, dentro dessa questão da branquitude?”
A tirada inverte papéis para questionar aspectos que extrapolam a literatura contemporânea: a começar pelo lugar que mulheres e homens negros podem ocupar e a relação entre a etnia e a biografia do autor com o conteúdo (e até a qualidade) de sua criação. Mas podemos ir além, trazendo inúmeras questões para a literatura, e que pautam esta matéria: a literatura brasileira é representativa da diversidade do nosso país? Até que ponto a cadeia editorial é marcada pelo racismo? Qual é o papel da escritora e do escritor negro? Onde entra o lugar de fala na criação de personagens negras e na análise de textos de autoria negra? Existe uma desconfiança em relação ao valor literário dessa produção? Existe, afinal, uma literatura negra ou afro-brasileira?
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O poeta mineiro Ricardo Aleixo, autor de Pesado Demais para a Ventania (2018)

“Arraia miúda” 

Se cerca de 56% da população brasileira é negra, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) referentes a 2018, o romance brasileiro publicado por grandes editoras está aquém da nossa diversidade. É essa a constatação da pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB) Regina Dalcastagnè, que liderou uma investigação por quase 700 romances, publicados pelas principais editoras do país. Segundo a amostra de 2004 a 2014, os negros são 7,9% das personagens — números que não evoluíram em relação ao período de 1965 a 1979 —, mas somente 5,8% dos protagonistas e 2,7% dos narradores; em 56,6% das obras, não há nenhuma personagem não-branca; e 93,9% dos autores e autoras são brancos. “A literatura brasileira reflete, nas suas ausências, talvez ainda mais do que naquilo que expressa, algumas das características centrais da sociedade brasileira”, resume Regina no artigo “A Cor de uma Ausência: Representações do Romance Brasileiro Contemporâneo”, referindo-se ao afastamento dos espaços de poder e de produção de discurso da população negra.
“O ideal seria que os autores conseguissem extrapolar [sua perspectiva social] e trouxessem para as suas narrativas uma quantidade diferente de personagens e grupos sociais, etc. Mas o que a pesquisa mostrou é que isso não acontece”, avalia Regina em entrevista por telefone, observando que, talvez, o mais interessante não esteja circulando pelas grandes editoras, livrarias e jornais. “A maioria dos autores de romances que publicam pelas grandes editoras acaba se concentrando em um universo que lhe é mais próximo.”
Nas leituras de formação e mesmo nas atuais, o poeta Ricardo Aleixo cansou de observar personagens negras retratadas como escravos, bandidos, prostitutas, caracteres exóticos. “Eles eram o que João Antônio chamava de ‘arraia miúda’. Não passava disso”, recorda, notando que mesmo que essa personagem tenha um nome, ela não terá direito a uma personalidade. “Ela é um tipo, quando não um estereótipo.” Hoje, Aleixo declara ter chegado a um ponto de saturação. “Muito da literatura brasileira que eu lia deixou de me interessar, porque eu já não conseguia fazer, sem esforço, o exercício de me ver ali.” Para o poeta, os autores brancos não têm “vontade nenhuma de sair do círculo de privilégios em que vivem”: “Quando se trata de personagem bandido, eles sabem muito bem criar uma personagem negra. Tem muito de má-fé, hipocrisia e racismo”.
Segundo o cientista social Mário Augusto Medeiros da Silva, cuja tese de doutorado deu origem ao livro A Descoberta do Insólito: Literatura Negra e Literatura Periférica no Brasil (1960-2000), Aleixo teve um encontro padrão com a nossa literatura: mulheres e homens negros foram, historicamente, mal retratados nas letras brasileiras. “No período escravista, com raríssimas exceções, o escravo era o produtor de uma série de travessuras, responsável pelos infortúnios do lugar onde estava, como se fosse responsável pela escravidão”, lembra, citando As Vítimas Algozes, de José de Alencar. “No período imperial, na maior parte do tempo, a personagem negra é mal estereotipada, com vícios morais, comportamentais, sem autonomia ou sentimentos. Machado de Assis, com sua ironia, e Lima Barreto, com sua crítica ácida, rompem isso.” Esse, contudo, é um problema que não se restringe à história da literatura. Antes, diz muito sobre o país em que vivemos, a maneira como a nossa história é contada e o futuro que oferecemos a jovens leitores. Ao invés de confirmar preconceitos raciais, a literatura pode subvertê-los. Ela é, ainda, uma importante forma de reconhecimento e afirmação da experiência de mulheres e homens negros na sociedade.

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Regina Dalcastagnè é pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB)


Autoria negra

Se a representação plural não vem dos autores brancos publicando pelas grandes editoras, ela é transformada com a autoria negra, que assume a palavra, coloca-se como sujeito, protagonista e fala de sua perspectiva social, criando seus próprios enredos e fazendo história. “A questão é o que representa para escritores e escritoras negras terem essa profissão”, coloca Cristiane Sobral, leitora ávida desde criança, que tampouco se reconhecia nas obras que lia. “Queremos que nossas crianças também sonhem em ser escritoras.” Hoje autora de livros de contos, poemas e peças de teatro, pesquisadora há 19 anos de questões relacionadas à identidade negra e escrevendo seu primeiro romance, ela gostaria de ser uma representante para meninas como a que foi — no entanto, esbarra em dificuldades do mercado editorial. Pois, para Cristiane, se o cenário é de transformação, configura apenas uma rasura. “Estamos com muitos pares, mas quando a gente compara com o rol de escritores, sabemos que somos pequenas rasuras no cânone”, afirma a autora por telefone, dos EUA, onde fazia um tour por universidades falando sobre sua obra e suas experiências, concluindo que, sem estar nas livrarias e nas es - colas, não se chega ao grande público.
A falta de ambição e de investimento das grandes editoras em garimpar um cenário de diversidade e o racismo estrutural são alguns dos fatores apontados pelos entrevista - dos para justificar esse sombrio panorama. “Tirando Machado de Assis, Lima Barreto, Cruz e Sousa, Carolina Maria de Jesus, um salto enorme de quase 40 anos para Paulo Lins e Conceição Evaristo, que é um fenômeno mais recente ainda, são poucos os escritores [negros] que têm uma projeção no mercado editorial em nossa história literária”, lembra Silva. O “bloqueio” a essa diversidade passa por uma porção ainda mais ampla do O mercado, que inclui jornalistas, críticos, pesquisadores, livreiros, jurados de prêmios, etc.
Cristiane, que chegou a receber uma proposta de uma grande editora para publicar sobre “flores”, mas não sobre o “universo da mulher negra”, hoje está publicada pela Malê, editora dedicada à autoria negra, e que lhe propiciou maior acesso ao mercado. Esses são, basicamente, os objetivos da Malê — aumentar a visibilidade de escritoras e escritores negros contemporâneos, sobretudo brasileiros; ampliar o acesso às suas obras; e contribuir com a modificação das ideias preconcebidas sobre os indivíduos negros no Brasil. Desde 2015, quando foi fundada, no entanto, seu conceito antirracista nem sempre foi compreendido ou visto com bons olhos. “Há pessoas que afirmam não compreender a existência de uma editora que priorize a publicação de escritores negros, além de outras que nos atacam afirmando que somos racistas, o que é irônico, pois nos veem assim justamente por lutarmos contra os efeitos de exclusão que o racismo estrutural produz na nossa sociedade”, explica o editor Vagner Amaro, em entrevista por e-mail.
Amaro percebe um aumento do interesse do mercado pela literatura de autoria negra a partir de 2017. O ano marca a edição em que a Festa Literária de Paraty (Flip) bateu o recorde do número de convidados negros. “A presença de escritores / intelectuais negros nos espaços mais privilegiados de visibilidade modifica um imaginário social que tradicionalmente reduz todas as possibilidades de atuações dos in - divíduos negros aos postos que não são considerados como de uma atuação intelectual”, avalia o editor sobre a importância desse movimento. Os principais prêmios literários também têm celebrado a criação de autoria negra (Conceição Evaristo foi homenageada nesta edição do prêmio Jabu - ti, depois de ficar em terceiro lugar na categoria de Contos e Crônicas em 2015; Cidinha da Silva ficou em segundo lugar entre os Contos do Prêmio Literário Biblioteca Nacional 2019; no exterior, neste ano, outra Evaristo, a britânica Bernardine, foi a primeira mulher negra a vencer o Booker Prize), assim como os vestibulares têm incluído em suas listas de leituras obrigatórias obras como Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, de Carolina Maria de Jesus, contribuindo para a legitimidade de uma literatura e de autores e autoras que, não raro, ainda têm que defender seu valor.

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A escritora e pesquisadora da identidade negra Cristiane Sobral


“Inventado pelos brancos” 

“Se eu te pedir para fazer uma definição de Arnal - do Antunes? Você não falaria que ele é branco, falaria que  ele é poeta. Percebe a aberração que é isso?” Ricardo Aleixo é um dos escritores que recusam o termo “literatura negra”, que ganhou força a partir dos anos 1970, mas sempre foi posto em questão e disputou espaço com o conceito de literatura afro-brasileira. Há quem opte por um ou por outro, ou por nenhum, sejam pesquisadores, antologistas ou escritores, dependendo da posição teórica ou defesa de princípios. Mário Augusto Medeiros da Silva defende o termo, mas lembra que não existe uma literatura negra brasileira apenas pelo fato de que escritoras e escritores negros estão escrevendo: eles fazem literatura, afinal, desde o século XIX, a exemplo de Luís Gama e Maria Firmina dos Reis. “Essa ideia é uma história de um conjunto de escritores que passa a defender que existe um projeto estético e político que tem o nome de literatura negra brasileira.”
Se não há consenso em torno do termo, o que Aleixo recusa é o rótulo. “Moro na periferia de Belo Horizonte, desde os 9 anos, mas não sei se é possível dizer que eu faço poesia periférica”, compara. Para citar um exemplo oposto, Cuti, um dos fundadores dos Cadernos Negros, publicação que desde 1978 abre espaço para a literatura de autoria negra e a sua reflexão, assegura que não é um rótulo, em depoimento à revista Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, da UnB, em 2017: “É identidade”.
Teóricos colocam, de fato, a literatura de autoria negra como um instrumento de afirmação identitária. Mas até que ponto o texto de um autor negro traz ou deveria trazer as marcas de sua negritude e de engajamento? Autor de Marrom e Amarelo, enaltecido pelo crítico Sérgio Rodrigues como “(...) provavelmente a obra de ficção que, em toda a história, mais se aproxima de traduzir a complexidade do racismo brasileiro”, Paulo Scott considera-se, assim como seu novo protagonista, negro de pele clara. “No meu caso, o que posso dizer é que minha identidade negra sempre foi importante, mas não a ponto de determinar o que tenho ou não de escrever ou mesmo como escrever”, ele explica, por e-mail. A abordagem do racismo também é presente na poesia de Aleixo — assim como o legado da vertente construtiva. Pergunto se ele se sente pressionado a tematizar essa questão em particular. “[Sinto-me] pressionado pelo Brasil, pela violência do racismo institucional”, Aleixo responde.
Ao mesmo tempo em que essa produção é uma importante forma de luta antirrascista, que nos fornece argumentos, sentimentos e experiências para combater o racismo no cotidiano, como nos lembra Silva, ela não pode ser aprisionada nesses termos. “Quando um branco escreve sobre ele mesmo, é automático. Quando um japonês escreve sobre si mesmo e fala sobre a sua própria cultura, também. E não se fala que é engajado”, confronta Cristiane Sobral. “Para nós, falar sobre nossas experiências já depõe engajamento? Não entendo isso. Literatura negra é como toda literatura: produção de um universo de ficção.”
Ainda assim, pesquisadores e autores identificam uma tendência de se estigmatizar essa autoria e reduzir a obra a aspectos biográficos. Um exemplo é Carolina Maria de Jesus, que passou a publicar nos anos 1960 e foi rotulada como escritora negra e “favelada”, mas cuja obra vai muito além do relato da pobreza.Além disso, apesar do sucesso de público, a crítica cobrava de Carolina um “fazer literário”, explica a doutora em literatura comparada Maria Nazareth Soares Fonseca, autora do ensaio “Literatura Negra: Os Sentidos e as Ramificações” e das antologias Brasil Afro-brasileiro e Poéticas Afro-brasileiras. “Tem uma questão no Brasil de achar que literatura só é literatura quando usa determinados tipos de recursos consagrados como os de uma alta literatura”, explica. Também para Regina Dalcastgnè existe uma desconfiança em relação ao valor literário dessa produção. Considerá-la nichada, como se tivesse uma função social importante, mas não fosse necessariamente boa literatura. “É uma forma também de continuar colocando de escanteio.”
E quem tem direito de julgar ou mesmo criar esse universo de ficção? Em que medida um autor branco pode conceber uma personagem negra? Ou um crítico branco pode julgar uma obra feita sob uma perspectiva social que não é a dele? “Isso é um perigo para a literatura”, alerta Regina. “Se eu sou uma mulher branca de classe média, mãe de um filho, só posso falar desse universo? Não é assim que funciona a literatura. Ela é uma extensão dos espaços à nossa volta.” Experiências, explica ela, enriquecem o texto, mas não são tudo. “Sensibilidade, pesquisa, capacidade de ouvir o outro também permitem que os escritores produzam personagens interessantes e ricas.” Um autor branco se sentindo à vontade para fazer uma personagem negra em primeira pessoa, no entanto, é algo que lhe parece pouco provável no cenário atual. Nem é fácil receber uma resposta à pergunta: qual a última personagem negra criada por um autor branco mais bem escrita que você leu? Maria Nazareth, que vem estudando teóricos que abordam o conceito de lugar de fala, reforça a advertência para que não se crie, a partir da expressão, barreiras intransponíveis. “O conceito não pode ser considerado como excludente. Embora um crítico não tenha a experiência de ser negro, ele pode falar sobre essa experiência, pensar sobre isso. Quem está naquele lugar em que há a encenação desse tipo de questões tem um conhecimento muito maior do que quem não vive nesse espaço ou não tem em si as questões muito fortes produzidas pela cor da pele. Mas não acho que a fala, para ser valorosa, tem que ser produzida só num determinado local.”

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O autor gaúcho Paulo Scott, que acaba de lançar o romance Marrom e Amarelo


Yasmin Taketani é jornalista. Vive em Curitiba (PR).
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