Um Escritor na Biblioteca

23/01/2020

Humberto Werneck

O cronista, biógrafo e colunista do Estadão Humberto Werneck foi o convidado do último encontro de 2019 do projeto Um Escritor na Biblioteca, realizado em novembro. Em conversa mediada pelo jornalista e tradutor Christian Schwartz, o escritor mineiro compartilhou histórias sobre alguns importantes nomes do universo literário brasileiro — entre eles Fernando Sabino, Otto Lara Resende e Clarice Lispector, responsável por lhe causar um “traumatismo ucraniano” durante uma entrevista que conduziu sem muito traquejo, no início de sua carreira como jornalista. 

Apesar de ter enveredado pelo caminho do factual por “acidente”, pois o que aprecia mesmo é o “território da subjetividade e da impessoalidade”, o autor da biografia O Santo Sujo — A Vida de Jayme Ovalle (2008) acabou achando seu espaço na crônica. Aficionado por esse gênero literário, Werneck já organizou várias coletâneas, como Bom Dia para Nascer (2011), que reúne as crônicas de Lara Resende publicadas na Folha de S.Paulo, e o terceiro volume da série Boa Companhia (2005), com textos de gente do calibre de Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Xico Sá, Rachel de Queiroz, entre outros. “O bom cronista me dá a sensação de estar sentado do meu lado me falando uma coisa”, diz.

     Fotos: Kraw Penas
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Encontro com Sabino
Comecei minha vida de leitor erraticamente. Meus pais providenciavam coleções, compravam Dostoiévski, Machado de Assis... Mas não havia uma orientação literária. Aos 12 anos, conheci um livro importante — O Encontro Marcado, de Fernando Sabino. Fernando, para mim, era o irmão do Gerson Sabino, técnico de basquete do meu pai no Minas Tênis Clube, vizinho nosso. E de repente aquele cara escrevia. “Sim, ele escreve”, me disse um colega no colégio. “E tem sacanagem no livro.” Dei um jeito de pegar emprestado e realmente tinha sacanagem. Voltei a essa obra várias vezes com outros intuitos, e ela sempre me deu alguma coisa. Uma delas foi a citação borbulhante de autores. Eu encontrava um nome, por exemplo, Miguel de Unamuno (filósofo espanhol), e lá ia eu correndo para a Biblioteca Pública e desandava a ler coisas.

Escritores acessíveis
Um dos primeiros autores que procurei foi um poeta chamado Abgar Renault, o primeiro escritor que vi em carne viva. Ele usava um chapéu, e eu achava que escritor era um pouco isso, até porque os livros no colégio eram antologias de gente muito velha. O que tinha de defunto... O cara mais jovem era o Mário de Andrade. E, aí, houve um fenômeno: em 1960, quando eu tinha 15 anos, o Rubem Braga e o Fernando Sabino criaram a Editora do Autor para se publicarem e publicarem os amigos. Você tinha O Cego de Ipanema, O Homem Nu, A Mulher do Vizinho, Ai de ti, Copacabana. Aquelas coisas chegavam na praça, os autores iam lá lançar livros, era um epifania. Além de escritores, eles eram acessíveis. Lembro do Sabino andando de mocassim sem meia, e isso em Belo Horizonte era pouco menos do que um pecado mortal. Eram pessoas com quem se podia conversar, trocar duas palavras, e professores de colégio começaram a dar esses livros como leitura para os alunos. Tinham essas coisas que estabeleciam uma relação na cabecinha da gente — que a literatura estava ligada com a vida. 

Um conto maravilhoso
Na faculdade é que vim a conhecer pessoas do meio — gente do teatro, cinema, conheci o Sérgio Sant’Anna, que era meu vizinho, Francisco Rezek. E elas te apresentavam coisas, te levavam para outros meios. Havia em Belo Horizonte um concurso de contos da prefeitura, resolvi entrar. Escrevi um conto que achava o máximo. E como faltavam três dias para encerrar as inscrições, mandei um outro junto. Ganhei primeiro e segundo lugar. O tal texto maravilhoso, que agora tenho horror só de lembrar, tirou segundo. Me lembro que eu achava que a literatura era feita com palavras bonitas, e usei uma expressão que me persegue até hoje — era um sol que batia num teto e “esplendia em iridescências feéricas”. Bem mais tarde, conheci umas pessoas na faculdade e falaram: “Ah, você é o cara da iridescência feérica!”. E fiquei sendo.

Jayme Ovalle
Quando comecei a frequentar a Biblioteca, uma das coisas que procurei, inutilmente, foi Jayme Ovalle. Eu tinha lido um livro chamado Duas Faces, de dois então jovens autores, Silviano Santiago e Ivan Ângelo. Ângelo foi para mim, e segue sendo até hoje, uma estrela. Eu o lia na imprensa de Belo Horizonte, e quando saiu esse livro tinha um conto cuja epígrafe dizia assim: “O suicídio é um ato de publicidade. A publicidade do desespero — Jayme Ovalle”. Gosto muito de frases. Mas não existia Jayme Ovalle, não tinha em lugar nenhum. Você olhava nas enciclopédias, zero. Já era um aviso para mim de que ele era um cara na beirada, um solzinho lá adiante, cuja luz vinha iluminar aqui. Mas o sol mesmo você não achava. Aí, caí numa enorme mitologia que existia em torno dele. Falavam que o Jayme Ovalle era um cara que não publicou, mas deixou uns baús cheios de poemas. E fui acreditando nas histórias. Bem mais adiante, ainda com pouquíssima informação, ganhei uma bolsa da Fundação Vitae para fazer uma biografia. Em seguida, descobri que não tinha baú nenhum. Não tinha uma mísera mochila, nada, zero. 

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Artista sem obra
Quando fui aos Estados Unidos falar com a mulher do Jayme Ovalle, que era uma escritora americana, ela deu uma gargalhada quando perguntei o que ele lia — jornal e a Bíblia, só isso. Lia a Bíblia, aliás, comentando. Deus falava um negócio e ele anotava: “Isso aqui é bom, hein?!”, em uma relação muito pessoal com Deus. Quando brigava com Deus — e acontecia —, virava o crucifixo ao contrário na parede. Mas a viúva dele me mostrou uns bilhetinhos, galanteios, que ele tinha mandado pra ela com uma letra crispada, parecia um eletrocardiograma. Era uma letra de alguém que não escrevia. Ele era um grande artista, não tenho dúvida, um cara entupido de arte. Mas não tinha os meios para botar isso para fora.

Pássaro Bobo
Jayme Ovalle viveu oito anos fora do Brasil. A vida dele é completamente peculiar. O pai era um chileno que foi fazer dinheiro na Amazônia e perdeu tudo no jogo. Uma das irmãs, Leolina, se casou com o filho do Marechal Hermes da Fonseca, que era Presidente da República, então a família toda desceu de Belém e foi para o Rio morar no palácio. E ele acabou conseguindo, por via familiar, um empregaço. Foi funcionário da alfândega, dos mais altos, e nisso conseguiu sair do Brasil. Passou quatro anos em Londres, mais tarde outros quatro em Nova York. E lá, sempre se ligava a mulheres com variados interesses — um deles, no caso das gringas, era que elas captassem o que ele tinha para dizer, que era difícil para ele até em português. Em Londres, uma dessas namoradas, a tal da Guinguinha, conseguiu passar para o inglês o poema “Foolish Bird” — “Pássaro Bobo”. Com a segunda mulher foi mais sério. No final da vida, ele falou: “Vou te dar esse livro para você fazer ele para mim, mas você vai esperar que eu morra. Porque se você começar a fazer comigo em vida, vou morrer”. E ela de fato esperou ele morrer, e fez um livro que se chama Brazil Genesis. Ela fala: “Esse é um livro que Jayme Ovalle poderia ter escrito, se ele pudesse escrever”. Então era uma coisa muito dramática, e para mim isso passou a ser a coisa interessante da biografia: como um artista sem obra pode influenciar tantos outros? Estou falando de Vinícius, Sabino, Drummond, Dante Milano. Se sou Carlos Drummond de Andrade, é fatal que eu vá influenciar um monte de pessoas. Mas um cara sem obra, como é? Ele era um cara que, quando abria a boca, você não sabia se ele conseguiria terminar a frase, ele não tinha uma capacidade de encadear muito, não. A obra-prima dele é uma música chamada “Azulão”. Essa música é tipo “Parabéns pra Você”. Sabe aquela coisa que você acha que ninguém compôs, que existe desde sempre? Essa “Azulão” são 16 compassos, é uma miniatura, você nunca ouve aquilo cantado de uma vez de tão miudinho.

Causos #01
Jayme Ovalle morreu com 61 anos, mas era um velho vocacional. Acho que ele nasceu velho — usava monóculo quando ninguém mais usava. O Fernando Sabino conta que, nos anos 1940, eles conviveram em Nova York e estavam um dia no Central Park, tinha um laguinho, umas focas, e o Jayme Ovalle ficou deslumbrado. Aí, chegou uma conhecida, deu um tapa nas costas dele, o monóculo voou, caiu no lago, e ele nem se voltou. Enfiou a mão no bolso e tirou um outro, aquela lente toda cheia de impressão digital, tudo engordurado.

Causos #02
Ele trabalhava numa daquelas torres do Rockefeller Center e um dia ligou para o Fernando Sabino: “Eu tô no céu, eu tô no céu” — estava com as janelas abertas e uma nuvem entrou. Ele era um cara que soltava pepitas de ouro verbais, fruto de uma mistureba espiritual e intelectual, que juntava uma religião muito própria com visões. Ovalle certamente se perdeu por falta de alguém que “catasse” aquelas joias.

Causos #03
Um dia passou Manuel Bandeira num café e o Ovalle tava ali elucubrando uma teoria de divisão dos seres humanos em cinco categorias. Uma categoria, por exemplo, era o Exército do Pará — esses homenzinhos que descem impetuosos para vencer na capital do país, que era o Rio de Janeiro. Tinham os “Dantas”, os “Mozartlescos”, os “Onésimos” e os “Kernianos”. Bandeira ficou encantado com aquilo e fez uma crônica, que se chama “A Nova Gnomonia”, e isso, que era uma brincadeira, virou modismo para muitos escritores. O Antonio Candido uma vez me contou que passava madrugadas bebendo uísque com Sérgio Buarque de Holanda, conversando. Gente, Antonio Candido e Sérgio Buarque de Holanda a discutir se fulano de tal era “Onésimo” ou “Kerniano”. Isso foi longe, teve vários desdobramentos. Na minha biografia sobre Ovalle [O Santo Sujo], tem um capítulo em que tentei reunir tudo o que foi feito a respeito. E houve alguém que criou uma teoria suplementar, como se fosse uma PEC, registrando também os casos em que há um trânsito de uma categoria para outra. Eu, por exemplo, sou “Kerniano”, mas tenho meus momentos “Mozarlescos” de chorar no cinema. 

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Encanto pela crônica
Sempre fui encantado pela crônica, desde sempre. E sempre me chateou um pouco esse certo desprezo da academia em relação a esse gênero. Acho uma bobagem ficar brigando com isso. O Antonio Candido tem “A Vida ao Rés do Chão”, que já diz tudo, porque o rés do chão é o lugar por onde você entra. Muita gente entra no gosto pela literatura pela porta generosa da crônica. Ela tem uma coisa toda pessoal, tem uma pegada, um descompromisso, um jeito de conversa. A boa crônica brasileira vai por aí. E para o desgosto de inimigos da crônica, você vê muito romance laboriosamente escrito durante anos e anos que desaparece. Aí, você pega uma crônica de Rubem Braga, “Viúva na Praia”, que é uma coisa que foi escrita — como se diz no vocabulário das redações — “com bafo na nuca”, ou seja, na pressão do deadline, e o cara fez, ainda assim, um palmo de prosa que você lê hoje e não tem uma ruga, não envelheceu, continua falando para o leitor muito mais do que uma obra feita com uma pretensão maior.

O bom cronista
Leio e tiro proveito de bons colunistas. Mas aquilo para mim é o seguinte: o cara está ali em cima de um caixotinho, falando uma coisa e eu estou aprendendo. O cronista, ao contrário, é um cara que está no mesmo rés do chão. Ele está no meio-fio. Você tem uma sensação de que aquilo que está lendo está sendo feito sob o seu olhar, como se fosse uma coisa para você. Observe como as pessoas falam “Ah, o meu cronista”. Elas sentem como um patrimônio não só intelectual, mas sentimental também. O bom cronista me dá a sensação de estar sentado do meu lado me falando uma coisa. E essa coisa, às vezes, quando você acaba de ler, encantado, você vai contar para alguém e não consegue. Porque aquilo tem que ser contado daquela exata maneira, com todas aquelas palavras. Ou seja, ao contrário do que acontece na coluna utilitária do jornal, que tem na palavra o meio de dizer algo, ali é o fim em si. E quando a palavra é tão ou mais importante do que a coisa que está sendo dita, nós estamos diante de uma coisa chamada arte.  

Otto
Otto Lara Resende foi um grande farol na minha vida. Tive o privilégio enorme de que esses caras tenham dado uma colher para quem era jovem — como eu — na época. Tenho um monte de cartas dele. Às vezes ele lia uma matéria minha e fazia uns comentários, e a partir dos comentários ele dava uma divagada e ia longíssimo, era um grande conversador. Foi pedido ao Otto que lesse os originais do meu livro Desatino da Rapaziada, para ele fazer um prefácio. Tenho na minha casa um desses prints, anotado página por página — uma aula de bem escrever. As correções que ele fazia, os pitacos que ele dava e também umas deliradas. Ele saía por uma tangente e quando eu olhava ele estava longe, contando uma outra história. Ele era um cara muito rápido no raciocínio, tinha uma graça enorme e era maldoso. Eu lembro que uma vez, conversando, ele jogava umas farpas no Fernando Sabino. Eu falava: “Pô, mas o Fernando publicou o primeiro conto com 12 anos, precoce...”. “É, Fernando era precoce mesmo. E continua.” O Otto tinha essa coisa. Uma vez ele fez um comentário sangrento a respeito do Nascimento Brito, que era o dono do Jornal do Brasil. Eles brigavam, se amavam e se odiavam ao mesmo tempo. E teve um momento em que o Nascimento teve um derrame, e derramado ficou — com um lado meio paralisado. O Otto falou: “Agora a gente sabe que ele tem um lado bom”.

Sujeito solar
A crônica do Otto é diferente da crônica da maioria. Ela é muito impregnada de jornalismo, mas tem um jeito não-jornalístico de abordar as coisas. Ele tinha esse negócio na Folha, que eu não consigo nem imaginar o que seria, que é a crônica diária. Você tinha aquela página dois — de uma gravidade enorme, engravatada. E, de repente, naquele espacinho lá de baixo, entra o Otto Lara Resende. E aquilo era como se fosse um baixo de porta através do qual entrava uma luz fortíssima. O Otto foi a maior sensação da imprensa brasileira naquele tempo. Na conversa era uma coisa inigualável, era um sujeito solar, brilhante. E a ficção do Otto, que é preciosa, é uma coisa soturna, sombria, cheia de teia de aranha, de rato, um mundo tenebroso. Tem aquele livro dele, Boca do Inferno, sobre a infância vista não como uma fase idílica, mas a criança já com toda maldade nela.

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“Despiorar”
O Otto era um obcecado com a coisa da linguagem. Tem gente que acha que “escreveu, está escrito”. Já eu acho isso algo um pouco escatológico, até — você fez e tá feito. Tiro o chapéu para artistas que ficam retocando uma coisa. Eu falei: “O que você está mexendo nesse romance maravilhoso?”. “Eu tô ‘despiorando’.” E peguei para mim esse verbo, “despiorar”. Ele morreu em dezembro de 1992. Em maio me mandou o último livro dele, que foi organizado aqui, por um grande amigo, Dalton Trevisan, O Elo Partido. Recebo lá esse livro, recém-saído da máquina, estou folheando — e tinha um entrelinhamento muito mesquinho, aquela coisa apertadinha — e quando olhei tinha umas garatujas entre duas linhas. O livro mal saiu da máquina e o Otto estava ali, “despiorando”. 

Vertigem de sobreloja
Nas minhas crônicas não me sinto um personagem, mas falo, às vezes, de experiências. Até dos desastres — e sou um grande colecionador de desastres pessoais. Eu trabalhava com o Murilo Rubião no Suplemento Literário de Minas Gerais, e ele falou: “Olha, está em Belo Horizonte a Clarice Lispector, então vá lá, manda um beijo meu e pede colaboração para o Suplemento”. Clarice era uma grande escritora e eu a lia, e lerei sempre. Mas eu era também um escritor, então estava eu e Clarice ali, pertencendo à mesma coisa. Tentei criar uma expressão para isso, “vertigem de sobreloja”. Você, quando chega nas culminâncias do Edifício Itália, em São Paulo, ou no Empire State Building, subiu tanto que tem direito à vertigem de altura. E tem gente que mal chegou na sobreloja, subiu aquele lancezinho de escada só, e já está gastando por conta. Eu chamo isso de vertigem de sobreloja. Pois bem, cheguei para entrevistá-la e falei “Oh, Clarice”. “Oh, Clarice!”, olha só. Ela virou, aquela mulher belíssima, mas irascível, parecia um cacto, e tinha uma voz rascante que não sei reproduzir. “Olha, Murilo Rubião te mandou um beijo.” “Ah, eu gosto muito de Murrilo.” “Pois é, e a gente gostaria que você — eu ainda tava no você — colaborasse no Suplemento.” “Vocês pagam? Eu estou muito pobrrre.” Aí, caí em mim. Porque a gente pagava, sim. O Murilo achava que era um ponto de honra. E a gente pagava — não lembro que moeda era aquela — dez dinheiros. Eu ganhava 400 dinheiros, e ia pagar para a Clarice Lispector um quadragésimo do que eu ganhava? Meu Deus! Falei: “A senhora — aí já passei para senhora — poderia nos conceder uma entrevista?”. Concordou.

Traumatismo ucraniano
Eu nunca tinha feito uma entrevista, ou tinha feito uma, na improvisação total. E não conhecia uma coisa chamada edição, que é o que dá sentido ao material. Eu achava — para você ver como a gente pode ser idiota — que a entrevista que lia no jornal tinha transcorrido na vida real exatamente daquele jeito. Aí fui me preparar, li correndo um camarada que falava de A Paixão Segundo G.H. e dizia: “Isso não é um romance”. Primeira pergunta para Clarice Lispector: “A Paixão Segundo G.H., não sendo um romance...” “Como não é um romance?”, e surtou para cima de mim. Alguém teve a maldade de fazer uma foto deste momento, que está na internet, inclusive. A Clarice está olhando para mim com uma cara de nojo, como ela não olhava nem para aquela barata do romance. E eu estou assim, em posição fetal, querendo voltar para o útero da minha mãe e nunca mais sair. Fiquei arrasado, nem sei como consegui tocar a entrevista. E no final, eu tinha levado meu exemplar de A Maçã no Escuro, peguei o livro. “Será que a senhora pode me dar um autógrafo?” “Mas eu não tenho caneta.” Meti a mão no bolso e, de maneira automática, tirei uma canetinha que tinha comprado num quiosque qualquer, uma caneta esferográfica vagabunda. Mas tinha um detalhe: a tinta era lilás. Eu achava aquilo o máximo, toda vez que eu ia escrever alguma coisa eu pegava aquela caneta, como se estivesse guardando para escrever a minha grande obra. Ou minhas últimas palavras. E pá, entreguei a minha caneta para Clarice, ela faz a dedicatória com a letra meio assim, e no final me devolveu o livro, pegou a caneta e falou: “Posso ficar prrra mim?”. Aqui tem um salto no tempo. Em 2004, quando o Chico Buarque fez 60 anos — ela era apaixonada pelo Chico —, fez-se uma exposição no Sesc Pinheiros e fizeram um catálogo enorme. E eu estou lá folheando o catálogo, de repente dou de cara com a reprodução de um bilhete datilografado da Clarice para o Chico. Aliás, não era Chico Buarque, era Chik Buark, com “k”, assinado com a tinta lilás... Contei essa história longa numa crônica e escrevi: “Essa tinta é a minha chance de entrar na literatura brasileira”, e dei o nome de “Meu Traumatismo Ucraniano” — a nacionalidade dela.

Jornalista acidental
Antes de ser um jornalista apaixonado, sou um jornalista acidental. Meu negócio era fazer ficção. Eu fiz um livro chamado Primeiro Movimento, mas, quando saiu da minha mão, desabei. Pensei: “Não sou Tolstói” — e retirei o livro da gráfica. Me demiti da literatura, fui ser jornalista. E fiquei com uma certa amargura daquilo. Quando fiz 60 anos, que é uma coisa que não recomendo a ninguém, resolvi publicar o livro. Eram 11 contos, joguei dois fora — os tais lá do concurso — e fiz uma nota explicando, contando essa história, dizendo que faltou publicar. A literatura não perdeu nada, mas eu perdi. Porque você tem que completar o gesto. Isso é uma coisa que conto porque, para quem está começando na literatura, é importante. O francês tem o verbo délivrer — fazer uma entrega. Então acho que eu precisava “delivrar”, botar o livro para fora, livrar- -me do livro. Senão o livro te persegue. Precisei fazer todo esse percurso, reagi instintivamente ao medo dos poderes da criação artística. Se é para valer, se você está inteiro na experiência de escrever, coisas suas que você não sabe sairão. Fernando Sabino dizia: “O escritor de ficção escreve não porque ele sabe, ele escreve para ficar sabendo”. E, na releitura dos meus contos, levei verdadeiros tapas na cara. Tinha personagens que eram eu, e ninguém jamais me tratou de maneira mais cruel do que eu me tratava ali naqueles contos. Confusamente, senti que tinha na criação literária uma coisa diferente de você fazer um negócio, vender, fazer sucesso… Você escreve para você, no fundo. Senão não vale a pena escrever, tem que ser uma experiência radical. Fui jornalista, mas sempre com uma preocupação com o texto, com a qualidade, funcionalidade — o que, aliás, me levou a fazer esse repertório de lugares comuns. E percebi que comecei a soltar uma discreta franga literária na produção jornalística. O jornalismo é muito bom para quem escreve, mas só até certo ponto. De repente você olha para o conto que está fazendo, e ele é um conto meio “materioso”. No caso da crônica, por exemplo, é o oposto do jornalismo. Porque o jornalismo tem que ser objetivo e impessoal, a crônica não. A crônica é o território da subjetividade e da impessoalidade.
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