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08/02/2013

A ficção que (não) discute a realidade

Tema recorrente na literatura de autores clássicos como Machado de Assis e Graciliano Ramos, o Brasil tem sido um assunto pouco privilegiado por escritores contemporâneos

Fabio Silvestre Cardoso

Ilustração: Rafael Campos Rocha
A recente onda de protestos que chacoalhou o país no mês de junho mostrou, entre outras coisas, que a discussão sobre o Brasil está na ordem do dia. Nesse sentido, não surpreende que jornais, revistas e até mesmo as editoras têm se movimentado com vistas a aplacar a necessidade dos leitores de compreender o que vem acontecendo. Na internet, para citar um dos muitos exemplos possíveis, para além da carência de representatividade política, muitos (re)clamam por novos formatos de narrativa e de literatura, que, de algum modo, alcancem o espírito do tempo presente. Até mesmo a Festa Literária de Paraty (FLIP), na edição de 2013, dobrou-se à agenda e promoveu algumas mesas de debate sobre o tema. Para alguns, o fato de a literatura em si ter sido escanteada para a discussão de um tópico relevante, porém demasiadamente politizado, pode demonstrar certo desvio temático da atração. Afinal, a literatura não necessariamente deve corresponder à cobertura a quente do noticiário. Todavia, é fundamental destacar que o debate sobre o país é parte integrante da trajetória literária brasileira, para além do que tem ocorrido nos últimos tempos.

Na avaliação de críticos e de escritores, é correto assinalar que determinadas obras não apenas enfrentam o Brasil como tema central, mas, essencialmente, antecipam algumas discussões importantes que vêm sido travadas ao longo da História do país. E se é verdade que esse tema está mais presente em uma discussão sociológica, também vale a pena destacar que é um assunto já bastante desenvolvido na literatura nacional. Para Luís Augusto Fischer, crítico literário e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRG), “num país do tamanho e da diversidade do nosso, é difícil conceber ‘o Brasil’ sem essa capacidade. O que mais ocorreu, ao longo do tempo, foi que intelectuais pensaram ‘o Brasil’ a partir de suas experiências pessoais; na medida em que viviam em centros grandes ou que se julgavam representativos, suas ideias podiam ser ou foram tomadas como abrangendo ‘o Brasil’”. Ao apresentar sua lista de obras clássicas sobre o tema, Fischer prefere destacar, assim, os textos de não- -ficção, exatamente para que não houvesse uma distorção do debate — embora faça a ressalva: “Não quer dizer que na ficção não possa haver pensamento sobre ‘o Brasil’, claro”.

Ilustração: Rafael Campos RochaDesse modo, se a lista de obras de Fischer se notabiliza pelos textos ensaísticos, como Os sertões, de Euclides da Cunha; Casa grande e senzala, de Gilberto Freyre; Os donos do poder, de Raymundo Faoro, entre outros do mesmo gênero. O crítico cita Machado de Assis no topo da lista, destacando, num primeiro momento os ensaios, mas não deixa de lado a ficção do autor de Dom casmurro. “O Machado ensaísta discute o Brasil de frente, em ensaios como ‘Instinto de Nacionalidade’, ou em ‘Nova geração’. De modo mais amplo, dá para dizer que no romance, e também no conto, Machado volta e meia toma uma dessas ideias, antes expressas já em ensaios de largo horizonte, como mote para um enredo. É o caso das Memórias póstumas de Brás Cubas e de Quincas Borba, ou de O alienista, por exemplo.”

Diferentemente de Fischer, Noemi Jaffe, escritora e doutora em literatura brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), prefere elaborar sua seleção excluindo os campos da filosofia, da história e da sociologia, concedendo exclusividade à literatura de ficção. A autora de Folha explica Macunaíma enumera, entre outros, Macunaíma, de Mário de Andrade, Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, Vidas secas, de Graciliano Ramos, entre outros. Para Jaffe, que também escreve crítica literária para o jornal Folha de S. Paulo, direta ou indiretamente, essas obras tematizam a nacionalidade. “Mesmo os mais antigos ainda se mantêm atuais e esse foi um dos critérios para minha escolha. Embora os problemas pareçam diferentes, ainda persistem.” Jaffe assinala, ainda, que essas narrativas problematizam a questão do Brasil a partir da fabulação, do uso da ironia, da apresentação das relações sociais, dos personagens problemáticos, representando ou parodiando a questão da identidade nacional.

Opinião semelhante é a do professor de literatura brasileira da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP),Triste fim de Policarpo Quaresma (“Figuração desencantada, ácida, a um só tempo satírica e lírica, do homem brasileiro que é despojado de suas ilusões”), Macunaíma (“a Semana de 22 chega a um fluxo primitivista e afirmativo de rara beleza”) e Memórias póstumas de Brás Cubas (“início da fase madura de Machado, que sintetizaria um modo — satírico e pseudoclassicizante — de retratar a elite brasileira”) também se apropriam dos temas nacionais. Além desses, Barros menciona Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, e a obra poética de João Cabral de Melo Neto, que, a partir da subjetividade e do regionalismo, alcançam a proposta inclusive de forjar uma espécie de crítica social sobre o país.

Para Pedro Marques, doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp e pesquisador de literatura brasileira, “toda obra que faz sentido a um brasileiro, isto é, que o emociona, que o faz pensar em sua cidadania, que o pressupõe parte de uma coletividade e de uma rede de referências, ainda que fragmentárias, desenha uma ideia de Brasil e de brasileiro”. Nesse sentido, Marques destaca outros livros que se enquadram nesse recorte, que, segundo ele, pertencem a três momentos que apresentaram programas literários específicos para uma figuração de nação e povo. Assim, de 1822 a 1870, definiu-se uma primeira imagem do país, interessada em se diferenciar da matriz portuguesa. Obras como Os Cantos, de Gonçalves Dias, e Iracema, de José de Alencar, ganham destaque. O segundo momento, de 1870 a 1920, determinados índices históricos, políticos e culturais se desenvolvem e se institucionalizam — em certa medida, permanecendo até hoje. Desse período, Marques cita Quincas Borba, de Machado de Assis, Poesias, de Olavo Bilac, Cidades mortas, de Monteiro Lobato, e Os sertões, de Euclides da Cunha. De 1920 em diante, o que se nota é a vontade de reafirmar tais emblemas, provocando uma tensão entre tendências ruptoras e continuístas, como se vê em livros como Grande sertão: veredas e O romance da pedra do reino, de Ariano Suassuna.

Pedro Marques atenta, ademais, para o fato de que a crítica sempre esteve acompanhando esse debate, desde o século XIX. Já André Luiz Barros comenta que essa discussão sobre a brasilidade rendeu livros centrais na academia e fora dela, numa trajetória que vai de Ferdinand Denis, em 1826, a Roberto Schwarz e Raymundo Faoro nas décadas de 1960-1970. De forma semelhante, Noemi Jaffe observa que os críticos no Brasil se mostram atentos a esse debate, acrescentando a essa lista os nomes como Antonio Candido, Antônio Lafetá, José Miguel Wisnik. Luís Augusto Fischer, por sua vez, avalia que esse diálogo está em baixa na contemporaneidade, salientando, inclusive, “que há mesmo uma certa força na direção de evitar essa dimensão, a nacional, que parece a muitos uma coisa caipira, ultrapassada pelo estágio da mundialização”.

A propósito disso, o professor André Luiz Barros concorda que essa discussão sobre a nacionalidade na literatura nos dias de hoje corre o risco de estar ultrapassada sobretudo se for comparada a outras épocas: “Nos estudos literários, a preocupação com o lugar específico da literatura levou, desde os anos 1960, a uma visão desta não apenas como ‘espelho’ das realidades de uma região ou de um país, daí até a crítica à ênfase, em voga desde o romantismo, nas literaturas nacionais, mas não passa mais pela cabeça dos autores contemporâneos”, analisa. Ainda de acordo com Barros, o Brasil parece estar em uma situação diferente e, com a globalização, a questão nacional se apresenta mais como diálogo entre as culturas, num contexto internacional menos hierarquizado no qual as culturas periféricas tanto são influenciadas como influenciam os centros de economia hegemônica, “até porque muitas vezes essas últimas são de sociedades menos movimentadas culturalmente”.

“Nos livros que tenho lido e que me recorde imediatamente,

a dimensão nacional é uma quase ausência.”

Luís Augusto Fischer, crítico literário.

Desse modo, se nos clássicos da literatura brasileira essa discussão sobre o Brasil é quase parte integrante das obras,na contemporaneidade isso aparece de forma menos substanciosa, por assim dizer. Noemi Jaffe, por exemplo, afirma que vários autores brasileiros abordam problemas nacionais em suas obras, porém de maneira distinta, como se lê em Marçal Aquino, autor de O invasor, Marcelino Freire, que escreveu Contos negreiros, e Raimundo Carrero, autor do recente Tangolomango. Para André Luiz Barros, em autores como Ronaldo Correia de Britto e Ariano Suassuna esse debate sobre o Brasil está, sim, presente, porém ressalta que não existe essa busca do ser brasileiro pretensamente puro ou original — nesse sentido, argumenta o professor, essa busca já cumpriu seu papel, esgotando-se. De todo modo, André Luiz Barros destaca a produção de Alberto Mussa como o escritor brasileiro contemporâneo que melhor reflete em sua obra “o ser brasileiro”. Mussa é autor de Meu destino é ser onça, romance que recria ficcionalmente mitos de origens tupis, e Elegbara, reúne contos sobre os quilombolas.

Sem citar nomes, Pedro Marques afirma que, no momento, não existem jovens autores com um projeto com essa envergadura, e arrisca: “Talvez valesse perguntar qual o interesse de uma agenda como essa de hoje”. Luís Augusto Fischer, por sua vez, tampouco vê nos romances recentes preocupação com esse assunto. Ao reforçar que a obrigação de um romance é a de contar uma boa história ou ter um bom foco em um personagem, o crítico diz que, “nos livros que tenho lido e que me recorde imediatamente, a dimensão nacional é uma quase ausência. Quase ao acaso, os nomes que me vêm na cabeça (Paulo Scott, Julián Fuks, Tatiana Salem Levy, Vitor Ramil, Joca Reiners Terron, Daniel Galera, Cristovão Tezza) nada discutem sobre uma coisa tão ampla quanto a formação do Brasil”, comenta.

Em 2012, a edição brasileira da revista Granta dedicou número especial aos melhores jovens escritores brasileiros. Sobre aquela seleção, Luís Augusto Fischer escreveu um texto para o suplemento cultural Ilustríssima, da Folha de S.Paulo sublinhando um dado curioso: naquela seleção, “saíram de cena os personagens pobres e desajustados, assim como a prosa regionalista viciosa, e apareciam protagonistas sofisticados, com vivências pela Europa”. É possível destacar, ainda, dos textos que há um ano fizeram barulho por figurarem na Granta, o excerto de romance de J.P. Cuenca, Antes da queda, que, de certa maneira, apontava para as consequências da especulação internacional em torno do Brasil entre os anos de 2009 e 2014. Curiosamente, pouco ou nada se falou até aqui desse trecho, ainda que as expectativas sobre o país venham soçobrando nos últimos meses, como está sugerido na ficção de Cuenca.

“Parece-me que os escritores mais velhos mantêm o tema [Brasil e a sua formação] em seus radares.”

Pedro Marques, doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp.

Mais recentemente, o Comitê Organizador do Projeto “Brasil Convidado de Honra da Feira do Livro de Frankfurt 2013” divulgou a lista dos 70 nomes de escritores brasileiros que participarão da mais prestigiada feira de livros no mundo. De acordo com a curadoria que selecionou os escritores, “a escolha do Brasil como país homenageado permite não apenas apresentar um instantâneo de sua variedade literária, estética e ensaística, mas também reunir escritores que sintetizam suas transições culturais mais recentes”. Sobre isso, Pedro Marques observa que, entre os selecionados, “parece-me que os mais velhos mantêm o tema [Brasil e a sua formação] em seus radares”. De sua parte, Naomi Jaffe assinala que o que caracteriza os autores selecionados para a feira é exatamente sua diversidade temática e linguística. Enquanto Luís Augusto Fischer é mais enfático. “Tenho a impressão de que na lista tem gente muito boa, misturada com escritores que estão ali mais por ser do grupo, da patota, do que por méritos realmente provados.”

Muito antes de pertencer à ordem do dia, por esta ou aquela demanda popular, a discussão sobre o Brasil sempre esteve presente na literatura brasileira, seja nos textos de ficção, seja nos textos de não-ficção. E em meio a tantos livros e autores citados, uma certeza permanece, ecoando o já citado ensaio de Machado de Assis, “Instinto de nacionalidade”: “A literatura brasileira não tem sete de setembro; não se fará num dia, mas pausadamente, para sair mais duradoura; não será obra de uma geração nem duas: muitas trabalharão para ela até perfazê-la de todo”.

Ilustrações: Rafael Campos Rocha
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